Segredos e Mentiras
24 Encontro Marcado
Notas iniciais
Eu fiquei esperando Jéssica poder me atender por alguns minutos, sua secretária digitava algo a todo favor e eu pensei que deveria comprar um computador já que não tinha prática e não tinha um. O pensamento de estudar me fazia feliz, nada comprado a Yale e tudo que papai e eu sonhamos, mas eu poderia voltar um pouco e me ver fazendo algo que a Isabella realmente amava e queria. A porta abriu e um menino que não deveria ter nem seus quinze anos saiu, suas roupas demonstravam que não era rico e claramente passava por uma fase ruim.
— Não quero mais saber de você metido em confusões Tyler!
Jéssica disse com sua voz firme.
— Sim senhorita. – ele disse de cabeça baixa e indo até a porta de saída.
Ela olhou para mim e sorriu.
— Vem Bella.
Eu segurei minha bolsa com mais força do que gostaria e entrei sentando na cadeira que eu tanto conhecia. Jéssica sentou na minha frente, a pilha de pastas e arquivos que amontoavam a sala davam a impressão que ela nunca se acharia, mas ela já tinha a minha pasta na sua frente quando dei por mim.
— Como você está? – ela perguntou já folheando a pasta e pegando a caneta azul.
— Bem.
— Trabalhando? – ela estava com a cabeça baixa preenchendo os formulários de visita.
— Não oficialmente.
Ela assentiu sem me olhar.
— Continua no mesmo endereço?
— Não.
— Se mudou? – ela parou de escrever e me olhou.
— Ângela está grávida, não tinha mais como dividirmos o apartamento.
— Oh sim, ela me disse que eles estavam desconfiados disso na sua última visita. Que bom que isso se confirmou. Ela está bem de saúde?
— A gravidez é de risco, mas ela está bem.
— Mande os parabéns a ela, essa semana é seu aniversário não?
Assenti. Jéssica voltou a escrever conforme ia dando meu endereço, descrevendo meu apartamento, minha rotina e tudo que ela perguntava. No final, como eu esperava, ela fechou a pasta e me olhou.
— Agora que acabamos com a formalidade me diga a verdade.
Há muitos meses atrás eu cogitei mentir para Jéssica, mas eu não queria que ela se aprofundasse em sua pesquisa e acabasse se decepcionando. Ela foi uma pessoa que me ajudou muito nos primeiros meses depois que tudo terminou, a mim e a Ângela, não era justo deixar ela no escuro.
— Estou trabalhando para Edward Cullen. Diretamente para ele como sua cozinheira e arrumadeira pessoal.
— Deus amado... com o nome falso?
— Sim...
— A empresa dele é uma das mais importantes do país Isabella! Como está conseguindo esconder isso da sua segurança?
— Eu não fui contratada de forma tradicional, a assessora dele nem me queria... me achava nova demais, mas eles estavam sem ninguém e eu acho que ela não achava que eu iria durar.
Jéssica ficou me olhando agora recostada na cadeira ainda surpresa.
— E você cozinha para ele?
— Sim.
Ela sorriu largamente.
— O programa de aperfeiçoamento profissional funciona!
Ela disse feliz. Só eu e Ângela sabíamos como ela investia nesse projeto e como ele mudou minha vida.
— Isso é maravilhoso de certa forma. E você está conseguindo dormir?
— Sim... estamos melhor nesse aspecto.
— Tem ido ao médico verificar sua saúde?
Essa era uma preocupação grande de Jéssica. Eu tive uma pneumonia ano passado que quase me matou já que eu estava abaixo do peso e claramente depressiva.
— Na última avaliação eu fui bem, mas preciso começar a ver os exames novamente.
— Preciso que me traga os exames e tome cuidado para fazer com seu nome verdadeiro, não posso anexar no processo nada com seu nome falso e até onde eu sei, Isabella Swan não existe Bella e se um dia nós fomos pegas nisso não poderei te ajudar.
— Eu sei disso...
— Por enquanto é só, pode enviar os exames por email. Não precisa vir aqui novamente, eu ligo para marcar uma visita ao seu novo apartamento.
— Isso é necessário? – perguntei surpresa.
— Protocolos...
Então nos despedimos.
— Até mais tarde senhorita Dwyer.
Eu olhei para trás surpresa por ela me chamar assim. Meu coração acelerado por ouvir meu verdadeiro sobrenome, lembranças minhas na escola, minhas escrevendo meu nome em fichas e diários. Lembranças minha sendo chamada várias e várias vezes por esse sobrenome.
— Até mais Jéssica.
Enquanto eu voltava para casa eu só pensava em chegar e tomar um banho, me livrar de toda sujeira que eu achava que tinha em meu corpo. Era uma sujeira psicológica, eu sabia, mas eu precisava disso para conseguir olhar para Edward e ir para seu apartamento mais tarde.
Até quando dura um segredo? Por quanto tempo eu poderia ainda esconder ou até mesmo viver com ele? Eu tinha me aberto com Edward mais do que com qualquer outra pessoa, mas eu não sabia se um dia estaria pronta para realmente contar toda a verdade sem que tudo que tínhamos deslizasse para um fim. Eu não queria um fim. E sentei chorando ainda enrolada na toalha tendo a certeza que tudo o que eu vivia estava com o tempo contado. O tempo de Edward saber a verdade e entender que eu não poderia fazer mais bem a ele do que uma bomba atômica.
Troquei de roupa com um certo desânimo e pensando em como iria esconder isso de Edward, pensei em ligar e cancelar. Olhei o relógio pensando que talvez já fosse tarde, alguém bateu na porta e levantei automaticamente. Eu precisava dele para conseguir enfrentar essa noite.
— Boa noite. – Jéssica estava na porta. A presença dela não poderia ser mais inadequada e meu coração acelerou pensando em Edward vendo ela no meu apartamento. – É de mal gosto não deixar as pessoas entrarem Bella.
— O que...
— Eu vim fazer a visita. – ela estava determinada, com uma postura profissional e ao mesmo tempo determinada.
— Você disse que ia ligar.
— Eu não sou obrigada a ligar e você sabe disso.
Respirei fundo deixando ela entrar, não teria como evitar isso. Só pedia a Deus que isso fosse rápido. Ela estava com minha pasta nas mãos, eu podia ver meu nome ali em letras grandes.
— O apartamento é menor do que o de Ângela. – ela abriu a pasta e pegou a folha de registro. – Vive com alguém?
— Não.
— Tem pesadelos? Se sente sozinha? Consegue se alimentar adequadamente?
— Tenho pesadelos, não me sinto sozinha e como regularmente.
Ela entrou na área da cozinha sorrindo.
— Isso sempre foi a melhor parte, é usual me oferecerem café. Pode me servir um por favor?
— Jéssica... eu...
— Café Bella.
E enquanto eu fazia café eu sabia que ela estava entrando no quarto, verificando gavetas e percorrendo tudo atrás de algo que ela nunca acharia. Revirei meus olhos quando terminei de servir o café na xícara e ela estava sentada no sofá anotando mais algumas coisas.
— O apartamento é limpo e arejado, o sistema de aquecimento funciona perfeitamente. – ela pegou a xícara da minha mão tomando o café – Você nunca me decepciona. — Roupas novas e limpas, arrumadas adequadamente, produtos de higiene e café excelente.
Eu torcia as mãos nervosa vendo ela tomar seu café, fazer anotações e a hora de Edward chegar se aproximando. Jéssica estava somente cumprindo seu dever, mas ela não sabia de Edward e nem das coisas que estavam acontecendo na minha vida. Eu também não tinha como explicar a presença de Jéssica na minha casa e nem estava com nervos para isso, eu queria contar a verdade para Edward e não ter que dizer mais mentiras.
E como se nada hoje conspirasse a meu favor, a porta anunciou a chegada de Edward.
— Esperando alguém? – Jéssica perguntou parando suas anotações. Meu rosto obviamente ficou mais branco e Jéssica levantou – É alguma ameaça ou algo ruim? Posso ajudar você sabe. – a porta soou novamente e ela foi abrir com seu instinto protetor. – Se for ele temos que chamar a polícia Bella.
Oh droga! Ela estava pensando em Jacob e eu queria gritar para ela não abrir a porta. Mas Jéssica era determinada e obstinada demais, ela abriu a porta esperando ver Jacob e encontrou Edward sorridente e com um buquê nas mãos. Eu olhei a reação dos dois não sabendo como dirigir a situação.
— Eu..boa noite...
Jéssica foi de Edward para mim em segundos.
— Não me diga que você fez isso Isabella. – ela falou firme.
— Jéssica... – Edward entrou e fechou a porta, mesmo sem entender a situação ele se manteve calado.
— Ele é seu chefe e Deus amado dono da empresa mais importante do país. Do país Isabella.
— Eu não tenho como explicar isso! – falei desesperada – Eu evitei Jéssica! Mas não tem como, eu gosto dele! É péssimo estar sozinha, é péssimo estar vazia! Vazia Jéssica é assim que me sinto! E estar com ele não é isso... é ao contrário disso.
As lágrimas caiam e eu enxugava enquanto via Edward colocar as flores em cima da mesa e ir até mim rapidamente. Ele passou por Jéssica sem dar uma segunda olhava nela.
— Eu não imagino o que é isso Bella, mas eu não posso aprovar algo assim.
Ela falou indo até sua pasta no sofá e recolhendo suas coisas.
— Prazer senhor Cullen, sou Jéssica. Uma amiga de Bella.
Ela se apresentou com um tom mais pesado, ela mais do ninguém sabia o desastre que aquilo poderia se tornar.
— Não posso dizer que é um prazer senhorita já que claramente a sua visita está deixando Bella transtornada.
Jéssica olhou ele me abraçando e passando as mãos no meu cabelo. Ela nos observou por alguns segundos.
— Não me entenda mal, eu conheço essa menina há seis anos. Eu mais do ninguém torço para a felicidade dela, que ela saia de limbo de dor que ela se encontra. O senhor é uma pessoa pública e você não tem ideia do que isso pode se transformar caso o relacionamento de vocês venha a público.
— Cuido disso com muito rigor senhorita. – ele falou com aquele tom que ele usava para repreender Alice. – Minha vida pessoal é resguardada e eu não aprovo minha imagem sendo transmitida como se fosse um espetáculo de circo. Sou um empresário e não uma estrela de cinema, Isabella não é qualquer uma e eu nunca colocaria ela em uma situação tão desagradável como a que está sugerindo. Seja por mim ou por ela. E quero deixar algo claro desde já. – ele me afastou chegando mais perto dela. – Nosso relacionamento não é da conta de mais ninguém além das pessoas com quem desejamos partilhar, se um dia isso vier a público meus advogados já sabem o que fazer. Quando eu me comprometi com ela, eu me comprometi com sua integridade e não vou expor ela a esses abutres que a senhora está falando.
Jéssica olhou dele para mim como se falasse silenciosamente: ele não sabe de nada. Então ela pegou sua bolsa e colocou na pasta dela os papéis me entregando o termo de visita que eu deveria ter em mãos sempre que solicitado.
— Não é por ela que tenho medo senhor Cullen, e sim pelo senhor.
Ela saiu nos deixando com aquele clima pesado que a verdade pode deixar às vezes.
— Você já fez uma pequena mala? Vamos passar a semana no meu apartamento....
— Edward...
— Isabella nós vamos chegar lá. Nós vamos chegar no ponto crucial, mas não hoje. Não com toda essa tensão. Não com tudo que ela disse e jogou em nós. Você está por um fio e eu não quero vê-la quebrar dessa forma. Quando tudo for esclarecido, nós lidaremos com a verdade e com as consequências dela, mas não hoje.
Eu fui até ele abraçando ele e querendo que ele nunca me deixasse. Edward não se preocupou com a mala ou algo assim, ele me pegou em seus braços e me tirou de casa. Pediu para seu motorista fechar minha casa e fomos para seu apartamento comigo em seu colo.
Mesmo sobre protestos meus, ele me deu um banho na banheira cheia de sais perfumados, lavou meu cabelo e me deixou chorar tudo que eu estava apenas suportando. Ele não fez perguntas ou exigiu nada. O silêncio entre nós não era ruim, era o silêncio da paz, aquele que a gente precisa para se recompor.
Depois de me enxugar inteira, ele pegou um secador e rapidamente fez todo o trabalho em meus cabelos. Eu coloquei uma blusa dele e deitei em sua cama, não conseguia dizer nada. Não conseguia pensar em nada.
— Estou aqui Bells...- ele sussurrou e adormeci em seus braços.
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