Segredos e Mentiras
7 Decepções
Notas iniciais
— Por que você chega tão cedo?
Me assustei com a voz de Edward e virei ainda ajeitando meu avental.
— Desculpa se te assustei.
Ele parecia realmente envergonhado agora.
— É meu horário. – apontei para o horário situado no mural de informações acima da bancada e ele deveria ter notado aquilo pela primeira vez porque foi até ele curioso, tinha recomendações de vários tipos com a letra de Alice e outros digitados como se fossem memorandos. Olhei para a porta pensando que tinha que limpar as salas ainda, mas ele deveria estar com fome. Os alimentos que gostava acabaram e Alice tinha estragado minha lista.
— Você chega mais cedo e sai mais tarde, seu salário é compatível com isso?
— Estou satisfeita com ele. – disse na defensiva e ele percebeu. Parou de olhar o quadro e me encarou.
— Não perguntei isso e não quero mesmo deixar você desconfortável, mas fiquei preocupado.
— É meu maior salário até então. – falei sendo sincera. Ele sorriu e voltou olhando o quadro. – Posso servir alguma coisa?
— Não, vamos no mercado. – ele ainda estava olhando o quadro e congelei.
— Como?
— Vamos no mercado. Você disse que Alice de alguma forma não seguiu suas instruções e imagino que devem estar faltando coisas que você necessita.
— Posso fazer uma lista. – disse querendo me livrar daquela situação. A ideia de nós dois andando pelo mercado com um carrinho sendo empurrado por algum dos dois causava algo em mim. Um misto de euforia e medo. O medo que eu conhecia tão bem, mas ele estava mais para medo do desconhecido do que medo de pavor. Não era pavor. Eu conhecia o pavor. Conhecia o desespero e ele não tinha nada haver com esse medo.
— Pedi para Bill preparar o carro e já avisei um ótimo mercado que estamos indo.
— Vão nos ver... – falei desesperada.
— Não mesmo, preparei tudo para que fosse discreto. Não se preocupe. – ele me olhou intensamente – Nunca a deixaria desconfortável de qualquer forma e nunca a faria estar em uma situação que não fosse a melhor.
O seu olhar era intenso de tantas formas e eu me vi querendo mais. Péssima ideia querer mais, mas eu estava gostando. Como quem não come chocolate há muito tempo e então prova apenas uma colher pequena. Essa preocupação e cuidado estavam ali me tentando a aceitar um convite banal de mercado e não pude pensar que isso era errado. Não Edward, mas eu. Eu não deveria sentir nada mais que o buraco e vazio que estava acostumada.
— Vamos então. – disse rapidamente pensando que nós éramos patrão e empregada. Apenas isso. Nada mais que isso.
Ele sorriu e então fomos até a porta.
— Não quer trocar de roupa? Eu espero.
— Tudo bem...
Não querendo atrasar ele fui até o pequeno espaço que tinha para mudar de roupa e guardar minhas coisas. Soltei meus cabelos depois que troquei de roupa e me vi querendo estar mais bonita. Empurrei esses pensamentos para outro lugar ajeitando o vestido simples que vim. Edward estava olhando o telefone encostado na bancada e eu não pude achar essa versão relaxada linda.
— Vamos.
Ele não disfarçou a surpresa. Seus olhos percorreram todo meu corpo.
— Seus cabelos estão... eles são...
— Faz parte das instruções deixa-los presos em um coque ou rabo de cavalo baixo.
— Eles são grandes... – ele sorriu.
— Não corto há um ano.
Falei orgulhosa, lembranças do meu cabelo sendo cortado me deixaram quase em pânico. Eu sonhava com cabelos caindo mesmo depois de algum tempo.
— Vamos então.
Ele esperou eu ir na frente e pegamos o elevador privativo, Bill estava com a porta do carro aberta quando a porta do elevador abriu. Edward estava relaxado e tinha expressões calmas.
— Bom dia senhorita Swan.
— Bom dia Bill.
Edward me deixou entrar e depois falou algo com Bill que eu não consegui ouvir porque já estava sentada no carro. O carro exalava poder e conforto, mas Edward não pareceu perceber nada disso quando sentou ao meu lado. Alice se soubesse disso ficaria furiosa, Deus eu ai ser demitida.
— Alice não vai gostar disso. – falei nervosa e só depois vendo como fui imprudente. O carro se movimentou com Bill no banco do motorista e um motorista dirigindo com habilidade.
— Por que ela não gostaria? – ele deu os ombros como se aquilo não fosse importante ou da conta dela. Ele não conhecia mesmo Alice. – Eu acho que ela deveria se preocupar mesmo com os remédios que tem tomado. Acredita que teve uma recaída porque não queria seguir todo o tratamento? Ela disse que demoraria muito para voltar a trabalhar. – suas últimas palavras saíram com uma raiva contida – Ela consegue ser tão absurda como competente.
— Você já foi visitar ela? – cruzei as mãos em meu colo temendo pela primeira vez o que elas poderiam fazer.
— Fui um dia depois que saí da empresa, mas ela não recebe visitas. Alice é absurda demais com sua aparência também.
Eu achei tão tolo aquilo.
— Minha mãe chega essa semana para passar uns dias. – ele disse animado. – A convidarei para um chá.
— Oh...
— Na empresa. – ele disse e eu arregalei mais os olhos. – Vamos comprar então tudo que precisa, se faltar algo mande uma lista para Bill. Ele já tem instruções de ir pessoalmente fazer suas compras daqui por diante.
— Isso não é necessário. – abaixei a cabeça sentindo meu rosto corar.
— Não mesmo, mas eu quero.
O carro parou e Edward saiu, ele mesmo estendeu a mão para me ajudar e me vi em um estacionamento subterrâneo. Não tinha nenhum carro, uma fila de carrinhos estava no fundo perto de uma rampa que imaginei que dava para o mercado.
— Nos esperem. – Edward disse e Bill apenas assentiu dentro do carro. Edward pegou um carrinho e fomos subindo em silêncio para o andar pela rampa. Eu gostava de fazer compras, me lembrava quando papai e eu íamos de carro para Port Angels fazer compras grandes e eu sorria animada sabendo que ele faria todas as minhas vontades além de comprar o essencial.
— Nunca estive em um mercado tão grande... – falei assim que vi o mercado. Limpo, iluminado e arrumado. Olhei para as portas vendo que ele não estava aberto.
— É o maior mercado da região. Os produtos chegam de madrugada, direto de fornecedores exclusivos, os clientes tem opções orgânicas, internacionais e uma área separada para quem tem alergias como lactose e outras desse tipo. Tem um serviço exclusivo de consultoria de vinhos e reservas de vinhos mais raros.
— Como sabe tanto do mercado? – perguntei enquanto ele me guiava para os corredores.
— Porque sou um dos donos.
Ele disse isso como quem não quer dizer nada.
— Simples assim?
— Simples assim. – falou sorrindo. – Por onde começamos? Pelas carnes?
— Não, gelados vem por último e não vamos comprar tantos assim, eu gosto de alimentos frescos e cogelados eles perdem esse frescor. Vamos começar por legumes e verduras frescos.
Por duas horas Edward me ouviu sobre alimentos, como prepara-los e manter o sabor deles da melhor forma possível, valorizando seus sabores e combinando ingredientes e temperos. Ele não pareceu entediado quando demorei na sessão de temperos, não reclamou quando escolhi carnes ou falou nada quando tomei da sua mão um biscoito salgado. Eu mesma fazia pães e biscoitos, eram mais saudáveis e sem conservantes.
— Você deveria ter estudado nutrição. – ele disse enquanto íamos em direção a rampa com o carro já cheio.
— Era meu sonho...
O carro parou junto com Edward e me vi olhando para trás para vê-lo.
— Você queria fazer nutrição.
Ele disse como se ficasse feliz com aquela informação.
— Sim.
— Por que não fez?
— Acho que não era para ser... – não queria continuar a conversa. Isso nos levarias as mentiras – Já passou Edward e eu não penso mais nisso.
Eu queria que ele acreditasse em mim, queria que aquilo bastasse para ele porque a conversa de faculdade nos levaria a por que eu não frequentei Yale quando esta me aceitou com louvor. E não consegui esconder a pontada de tristeza que se apossou de mim, eu me virei indo na frente de Edward desconsiderando qualquer protocolo de educação.
Yale ainda era a ferida aberta, junto com meu pai e sua decepção.
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