Segredos de Ouro
1 Sangue de Ouro
Notas iniciais

Salem/ Estados Unidos (Massachusetts)/ Cemitério Abandonado
Nos confins do portão do cemitério, continha muita névoa. Havia uma árvore, e nela tinha um panda de pelúcia com uma placa pendurada em seu pescoço dizendo “não alimente o urso”, o urso se encontrava destruído, como se tivesse sido massacrado. Como se estivesse possuído.
Mais a fundo, um túmulo se encontrava escavado e entreaberto, com apenas ossos dentro. Manchas de sangue marcavam o osso como se ele estivesse sido perfurado por uma faca. O cemitério fazia silêncio, a não ser por uma voz que ecoava no fundo dele, como uma criança brincando de boneca.
“Eu vou conseguir, eu vou me casar. Eu vou ser feliz, para sempre sim.” A frase era dita como um cantarolado por um vulto branco que assumia as rédeas do cemitério.
Seattle/ Avenue Inn Bed and Breakfast
Tereza Harris andava pelas calçadas da avenida observando uma conta de telefone que teria de pagar. Pelo menos estava abaixando, pensou ela.
Um carro preto, que possuía um insulfilm negro ébano para ao lado de Tereza, que se assusta e vira rapidamente para o veículo. As janelas do carro se abrem, e um rosto masculino misterioso surge.
– Onde você pensa que vai, Tereza? (Misterioso)
Tereza, ao olhar para o homem, entra em pânico e olha para os dois lados.
– O que você está fazendo aqui? Pensei que já tivéssemos resolvido tudo... (Tereza)
– Pensou errado Tereza, porque eu ainda não terminei com você... (Misterioso)
Tereza continua aflita.
– Do que você está falando, posso saber? (Tereza)
– Adivinha? Eu soube que você está prestes a contar o seu segredo para a Lindsay... — o homem aumenta o tom de sua voz — Tereza, você não pode. Esse segredo não envolve só você, é uma coisa minha também. (Misterioso)
Tereza se afasta do carro.
– Desculpe, mas eu tenho que ir para casa, a minha filha deve estar me esperando e eu não sou obrigada a dialogar com você neste tom de voz... (Tereza)
O homem misterioso a interrompe.
– Cala essa boca e entra nesse carro agora, antes que o pior aconteça! (Misterioso)
Tereza fica apreensiva e entra no carro pelo lado do passageiro. Ela se senta no banco, e fecha a porta do carro. Os vidros cheios de insulfilm se fecham e o carro parte em grande velocidade.
– Por favor, tenta entender, a Lindsay está quase descobrindo tudo, a situação estourou... Eu achava que ela podia saber a verdade. (Tereza)
– Que achado? Você não tem que achar coisa nenhuma, está pensando o que? Só porque está usando esse terninho ordinário de fundo de loja de balcão acha que pode intervir nesse segredo? (Misterioso)
Tereza suspira.
– Ah, por favor, tudo tem limites... (Tereza)
O homem misterioso vira o rosto para ela e aumenta mais ainda o tom de voz.
– Exatamente – grita ele – Tudo tem limites, está pensando que não precisa mais de mim? Mesmo que não precisasse Tereza, a revelação desse segredo pode colocar tudo a perder! (Misterioso)
Tereza franze o cenho.
– Mas o que eu te devo? Todos esses anos eu tenho te pago tudo certinho, te dado todas as informações corretas. Ela precisa saber. (Tereza)
– Eu não aceito você dizendo nada para ela, você me deve o mínimo de respeito e lealdade – grita ele – (Misterioso)
– Se eu soubesse que o preço da sua artimanha teria sido isso; eu não sou obrigada a viver compactuada com uma mentira perversa, que tira da Lindsay o direito de saber a verdade sobre as suas próprias origens e história. (Tereza)
O homem misterioso para o carro no meio da avenida.
– Acontece que você concordou – ele aponta o dedo em Tereza – você não ousa meter a pata nesta história. (Misterioso)
– Eu não vou mais guardar este segredo que me atormenta por décadas, minha filha vai ficar sabendo toda a verdade, você gostando ou não. (Tereza)
O homem misterioso tira os cintos de segurança de Tereza, que se assusta e fica apreensiva.
– Já que é esse o caso, eu vou ser obrigado a acabar com a sua vida – ele grita – eu vou acabar com a sua raça Tereza, está me ouvindo? (Misterioso)
Ela começa a gritar dentro do carro, porém em um impulso, no meio da avenida movimentada, ele abre a porta do carro e joga Tereza no meio da rua que é atropelada por um carro em alta velocidade. O homem misterioso fecha a porta do carro que jogou Tereza para fora e segue seu caminho com a maior velocidade possível, deixando Tereza morrer aos poucos.
∫∫∫
Seattle/ Hospital Harborview Medical Center/ Corredor.
No elevador, Lindsay pega seu Iphone seis e liga a câmera frontal, arrumando os últimos detalhes de seu visual. Ela era uma garota de cabelos cor mel, pele branca como mármore e olhos castanhos. Ao seu lado, se encontrava Jamie, seu melhor amigo para todas as horas. Lindsay já havia perdido seu pai, quando ela era uma bebê, ele foi declarado morto, porém seu corpo nunca foi encontrado. Não posso perder minha mãe também, pensa ela.
Ao abrir a porta do elevador, Lindsay e Jamie entram no corredor e vão em direção a uma enfermeira, que aguardava em sua espera.
– E aí? Como é que ela está? Onde ela está? (Lindsay)
A enfermeira era Agatha Maria, ela era prima de Lindsay e sobrinha de Tereza.
– Eu não sei como ela está prima, os paramédicos não me falaram ainda... (Agatha Maria)
Lindsay concorda com a cabeça e engole seco.
– Sim, mas o que aconteceu afinal? (Lindsay)
Agatha suspira.
– Aconteceu prima, que a sua mãe foi vítima de algo cruel... Ela estava em um carro preto e jogaram ela para fora do mesmo. Ela foi atropelada. (Agatha Maria)
Uma lágrima sai dos olhos de Lindsay.
– E ela se machucou muito? (Lindsay)
Neste momento, uma recepcionista se aproxima das duas e de Jamie.
– A senhorita que é filha de Tereza Harris? (Caroline)
Lindsay afirma com a cabeça.
– O doutor está te esperando para dar noticias no fim do corredor de emergências. (Caroline)
Caroline abre um sorriso e se afasta das duas. Agatha leva a prima para onde o médico a esperava. Jamie fica com Agatha no corredor. Lindsay entra no quarto de sua mãe, que se encontrava deitada no leito. O médico a cumprimenta. Lindsay se aproxima da mãe, que se encontrava de olhos fechados. Lindsay começa a chorar.
– Eu sou a filha dela – Lindsay funga – eu queria que o senhor pudesse me dizer qual é o quadro dela. Não me esconde nada, por favor. (Lindsay)
O médico estava frio e sério.
– Bom, o impacto que a sua mãe sofreu foi muito forte, ela teve várias costelas fraturadas e houve uma ruptura do baço. Infelizmente, ela pode não chegar a sobreviver, houve a perda de muito sangue e ela pegou muitas infecções. (Médico)
Lindsay desaba e começa a chorar mais ainda. Sabendo o destino dela e da sua mãe.
– Nós iremos fazer o possível. (Médico)
Lindsay concorda com a cabeça.
– Obrigada – ela se vira para a mãe – pode nos deixar a sós um pouco? (Lindsay)
– Claro – o médico abre um sorriso e sai –
Tereza, consciente, vira o rosto para a filha e abre os olhos.
– Filha? (Tereza)
Lindsay responde de imediato.
– Oi, mãe. Eu estou aqui, ta? (Lindsay)
Tereza se esforça
– Eu preciso que você me ouça... (Tereza)
Lindsay nega com a cabeça.
– Não mãe, você vai descansar e ficar quieta, tudo bem? (Lindsay)
∫∫∫
Jamie anda alguns metros do corredor e encontra uma cadeira, ele se senta. Agatha faz o mesmo e se senta ao seu lado.
– Que cara é essa? Está tudo bem? (Agatha Maria)
Jamie afirma com a cabeça.
– Está tudo bem sim Agatha... Na verdade, mais ou menos. (Jamie)
– O que houve? (Agatha Maria)
– Nada – Agatha o pressiona – tudo bem, na verdade tem algo sim... É que eu acho Agatha, que seila, acho que tudo isso não tem nada haver com esse acidente que a Tereza sofreu, o que está pegando é outra coisa... É a Lindsay (Jamie)
– Como assim? (Agatha Maria)
Jamie franze o cenho
– Eu não sei, às vezes eu me pergunto se a gente não está convivendo demais... (Jamie)
Agatha fica sem entender.
– Mas isso não é bom? (Agatha Maria)
– É bom. Claro que é bom, mas será que é assim que as coisas funcionam? Nós somos amigos à vinte anos e sempre fomos inseparáveis, eu sempre tive uma conexão com a Lindsay que eu nunca tive com ninguém, como se todas as dores dela fossem algo que me presenciassem até o fim. (Jamie)
Agatha suspira entendendo-o.
– É. Eu não sei se as coisas são assim, nunca tive uma amizade que me acompanha desde a maternidade. (Agatha Maria)
Jamie continua a fitando.
– Porém acho que entre vocês opera algo muito além da amizade. Estou errada? (Agatha Maria)
Jamie não responde.
– Jamie, ela é a sua amiga, vocês são como irmãos inseparáveis. (Agatha Maria)
– Eu sei que ela é minha amiga Agatha, mas isso não me impede de eu pensar nela o tempo inteiro... De eu acha que ela é a pessoa mais incrível que eu já conheci na vida e que se ela não fosse minha amiga, ela poderia muito bem ser a minha namorada, entende? (Jamie)
Agatha afirma com a cabeça.
– Eu sei o que você está passando, mas eu não acho certo isso – ela coloca suas mãos em seus ombros – A Lindsay está de namorico com um garoto, se você realmente gosta dela, a deixa ser feliz com esse cara e segue o seu rumo... (Agatha Maria)
Um médico se aproxima de Agatha, que se vira para ele.
– Sim? (Agatha)
– Você poderia voltar para a enfermaria? Estão precisando de você... (Médico)
Agatha afirma com a cabeça e o médico de afasta.
– Eu tenho que ir... Mas pensa bem Jamie. (Agatha)
Agatha abre um sorriso e Jamie retribui. Agatha se levanta da cadeira e segue para a enfermaria, deixando o garoto completamente sozinho no corredor.
∫∫∫
Lindsay encarava a mãe, que estava quase batendo as botas.
– Se eu não conseguir sobreviver minha filha... (Tereza)
Lindsay nega com a cabeça.
– Não fala isso mãe. Você vai ficar boa, eu sei disso – Lindsay abre um sorriso falso – (Lindsay)
Gaguejando, Tereza continua:
– Eu não posso ir para o inferno sem antes confessar algo... (Tereza)
Lindsay a encara assustada.
– Anos atrás, eu cometi um erro... (Tereza)
Lindsay interrompe.
– Não mãe – a garota suspira – pelo amor de deus, por que você está falando disso agora? (Lindsay)
Tereza continua, sem ligar para a filha.
– Eu compactuei com uma história horrível, mas foi para te proteger minha filha... (Tereza)
Lindsay fica imóvel e sem reação.
– Eu precisava te salvar, eu não tinha condições de te criar e... (Tereza)
Lindsay a interrompe novamente.
– Por que você está falando disso agora, mãe? Pelo amor de deus. (Lindsay)
– Deus me livre de ir embora carregando este segredo. (Tereza)
Lindsay continua sem reação.
– Perdoa pelo que eu vou te dizer minha filha, eu te amo muito, porém, o seu pai, ele... (Tereza)
Ao dizer estas palavras, ela fecha os olhos e fica em silêncio.
Lindsay se desespera.
– Mãe, não, me diz... O que aconteceu? O que tem o meu pai? (Lindsay)
Tereza não responde e continua imóvel. Lindsay aperta o botão de emergência que continha no quarto rapidamente e vai olhar para o aparelho cardíaco que prontificava em sua mãe. Porém tudo que ela via era o aparelho com uma linha sem vitalidade. Ela havia entendido. Sua mãe havia morrido. E carregado este segredo cruel com ela.
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