Segredos da Casinha
8 Capítulo 8 - Williams - Futuro e Contradição
Notas iniciais
Se acostumar outra vez com a rotina escolar não foi difícil já que Dirfino passou as férias de verão acordando praticamente no mesmo horário todos os dias por conta do trabalho, e conseguir juntar algum dinheiro, mesmo que pouco, também não foi nada mal. Mas a sensação constante de esgotamento que o acompanhava nos últimos tempos não valia a pena, então ele decidiu que, embora fosse bem fácil arrumar empregos em lojas no fim do ano, usaria a semana de Ação de Graças apenas para descansar.
Entretanto, havia um problema.
— Mad, precisamos conversar. — Disse Dirfino assim que o bonde se acomodou ao redor da mesa de sempre no refeitório.
— Uuuuuuuuuuuu. — Os outros cinco murmuraram em uníssono.
— O que foi? — Maddison questionou, séria.
— O que a gente vai fazer daqui a duas semanas quando começar o recesso de Ação de Graças? Durante o verão foi fácil, seus pais estavam na rotina normal e seu irmão passou a maior parte do tempo na casa dos amigos, mas agora vai estar todo mundo em casa. — Respondeu com ar preocupado.
— O que acha de ficar na minha casa? — Connor ofereceu, sorrindo de canto. — Meus pais vão viajar até a Califórnia pra visitar a minha irmã em Stanford. Acho que eles ficariam mais tranquilos se um amigo ficasse comigo.
— Ué. Porque você não vai? — Dirfino franziu o cenho.
— Ah. É que, tipo assim... Eu amo a Evelyn e sinto falta dela. Mas só quando estamos longe. Quando passamos mais de uma hora juntos, eu acabo sentindo vontade de tacar a cabeça dela na parede e gritar “cala a boca, Lyn!”. Sempre o mesmo papo: “blablabla devia jogar futebol no colégio blablabla basquete dá bolsa pra faculdade blablabla skate não é esporte blablabla blablabla”. É um saco. — Murmurou enquanto tirava seu lanche de um saco de papel. — Amém por existir Skype. É mais saudável pros irmãos Williams. Mas e aí? Topa me fazer companhia?
— Claro. Vai ser legal. — Respondeu sorrindo.
— Não esqueçam de pensar em uma boa desculpa caso os pais do Connor queiram saber o porquê do Dirfino não passar Ação de Graças em família. — Sugeriu Adele, sendo cautelosa como sempre.
— Eu sou brasileiro, minha família não tem costume de comemorar esse feriado. Como vou estar fazendo nada, não vai ser nenhum sacrifício passar uns dias com meu amigo. — Disse de um jeito bem convincente.
— Perfeito. — Ela concluiu.
Como esse assunto resolvido, o bonde pode voltar a ser o maior centro de palhaçadas, conversas banais, risadas e um pouco de pagação de mico daquele refeitório.
(...)
No último dia antes do recesso, Maddison seguiu a rotina normal de se arrumar e ir para a casinha encontrar Dirfino para irem juntos ao colégio, encontrando-o checando como estava seu cabelo pelo reflexo escuro na televisão desligada.
— Sabe... Vai ser meio estranho não te ter por aqui esses dias. — Murmurou cruzando os braços e se recostando no batente da porta. — Já me acostumei com a sua presença.
— Também vou sentir falta de você. — O brasileiro respondeu com um sorriso. — E do seu cafuné. Por falar nisso, vai sentir mais falta de mim ou do meu cabelo?
— Garoto, essa não é uma pergunta justa. — Replicou rindo. — Você tá mesmo a fim de ir pro colégio hoje? O pessoal vai tá eufórico pro recesso, nem que os professores tentem vão conseguir passar uma aula relevante.
— Não vamos arrumar problema?
— Não. E qualquer coisa é só falar com o Connor.
Ele pensou por um instante, então disse. — Ok. Eu topo.
— Legal! — A americana exclamou batendo as mãos antes de tirar a mochila das costas para pegar o pote envolvido em papel alumínio onde estava o café da manhã de Dirfino. — Pega. Eu vou só trocar de roupa e preparar um café na cafeteira já que não vamos passar pra comprar. Você quer que eu traga uma caneca pra você?
— Aceito. — Murmurou sorrindo.
— Ok. Já volto.
Sozinho outra vez na casinha, Dirfino também trocou de roupa e sentou no sofá-cama para começar a comer enquanto esperava Maddison retornar, o que não demorou muito.
— Sabe o que eu descobri procurando essa camisa? — Ela já entrou falando, mas não deu tempo para resposta. — Duas coisas; a primeira é que preciso urgentemente arrumar meu guarda-roupa. — Continuou, entregando ao brasileiro uma das canecas que trazia para levar a mão, agora livre, ao bolso da calça de moletom para tirar um objeto de lá. — A segunda é: ainda tenho essa ampulhetinha de trinta segundos. Podemos usar ela pra fazer alguma brincadeira.
Dirfino solveu um gole generoso de café e, só então, sugeriu. — Que tal “uma palavra, uma música”?
— Adorei. — Mad sorriu e sentou-se ao lado dele no sofá-cama. — Quem chegar a vinte pontos primeiro ganha.
— Combinado.
Dirfino perdeu a primeira vez e pediu revanche, depois outra e mais outra vez, por fim enterrando as mãos no cabelo, frustrado.
— Não é justo. Você passa todas as noites tocando e cantando no bar ou ensaiando aqui.
— É, mas você me assiste sempre. — Replicou Maddison em tom de diversão. — Ou pelo menos sempre que pode.
Suspirando, Dirfino revirou os olhos e sorriu. — Xeque Mate.
Maddison também sorriu.
Por algum tempo, talvez tempo demais ou menos tempo do que parecia, eles apenas se olharam nos olhos com aqueles sorrisinhos de canto.
— Então... — Mad quebrou o silêncio quando começou a senti-lo pesar de um jeito bem estranho. — Acabei de perceber que você sempre me ouve cantar e eu nunca te ouvi. O máximo foi uma melodia de violão no dia em que nós “nos conhecemos”. Porque não canta pra mim?
— Eu não sei... — O brasileiro respondeu, corando de leve. — Você canta tão bem que dá até vergonha cantar na sua frente.
— Ah, por favooor. Eu quero ouvir. — Insistiu, levantando-se para pegar o violão. — Eu até te deixo tocar.
— Tá falando sério?! — Exclamou arregalando os olhos.
Maddison hesitou por um instante, mas logo sorriu e afirmou com a cabeça. — Só... Seja delicado com ele, ok? Esse violão é o meu bebê.
— Certo. — Sorriu lisonjeado enquanto pegava o instrumento e o acomodava em seu corpo. — O que quer que eu cante?
— Yeeeeey! — Mad comemorou batendo palmas e voltou a sentar. — Eu não sei. Algo em português seria interessante.
Dirfino não precisou realmente pensar em uma música, olhar alguns segundos para o lindo rosto de Maddison com os cantos da boca levemente erguidos e um brilho de expectativa nos olhos foi o bastante para que a melodia fluísse de seu coração para as pontas dos dedos; e em alguns segundos sua voz se juntou a ela.
“Estanho seria se eu não me apaixonasse por você. O sal viria doce para os novos lábios. Colombo procurou as Índias, mas a Terra avisto em você (...)”
Após o fim da música, Maddison e Dirfino permaneceram encarando-se olhos nos olhos, quase magneticamente
— Eu quero contar. — A americana sussurrou, sem ter certeza se falava mais para si ou para ele.
— Contar o que? — Não que o brasileiro não tivesse um palpite.
— Quem é ela.
— Sou todo ouvidos.
— Eu sempre gostei de escrever rimas, poemas... — Maddison começou a contar, levantando-se e indo até um dos armários da casinha. — Quando eu tinha uns... Onze, talvez doze anos, comecei a entender que a música era uma carreira que eu gostaria de seguir. Não como aqueles sonhos megalomaníacos sobre riqueza e glamour. Eu queria conseguir viver da música, nem que fosse tocando pra trinta/cinquenta pessoas e ganhando uma mixaria.
— Você já canta pra muito mais gente do que isso. — Disse Dirfino sorrindo. — O nosso maior movimento é sempre sua culpa. Você é super talentosa e tem potencial pra ir bem mais longe com a sua voz.
— Isso é por causa d’ela. — Mad respondeu, voltando para perto e, sem encará-lo, estendeu um caderno para ele.
— Cry Baby. — Recitou as palavras escritas em diversas formas e tamanhos na capa bem conservada, porém evidentemente velha.
— Eu sempre fui muito tímida e sabia que ia ter que lutar contra isso se quisesse seguir o que meu coração queria. — A americana dizia baixo, com os olhos fixos no chão. — Foi quando a Cry Baby nasceu. Ela vem contar a história dela através das minhas músicas. Sempre que canto em público, mesmo os covers, não sou eu, é ela. É mais fácil lidar com a plateia fingindo que sou parte dela e estou sentada ouvindo a voz de outra garota. A voz estranhamente parecida com a minha de outra garota.
— Uau. — Sussurrou, começando a folhear o caderno.
— Eu sei, isso é estranho. Por isso não falo sobre o assunto.
— Você falou como se gostássemos de você por ser normal. — O brasileiro comentou rindo. — O melhor do nosso grupo é sentir que não precisamos ser normais. Continuamos sendo amados por quem devemos ser amados quando somos nós mesmos.
— Isso foi lindo. — Assegurou com um sorriso gentil. — De verdade, mas... Eu preferia que você não comentasse com ninguém. Ela ainda é algo muito meu.
— Não se preocupe, eu não vou. — Dirfino ergueu o olhar e sorriu de volta, em seguida pigarreou e ergueu o caderno. — Isso uh... É meio forte. Pelo menos algumas são. No que você uh... Se inspirou pra escrever?
— Coisas que eu vi, ouvi ou passei. Com um pouco de exagero e licença poética pra dar mais impacto. Mas nem pergunte. Você nunca vai saber o que é o que.
— Uau que garota misteriosa. — Respondeu fazendo-a rir. — Toca uma música sua pra mim? Eu te escuto cantar quase todo dia e nunca ouvi algo seu.
— O que? Agora? — Maddison arregalou os olhos. — Eu não sei...
— Não é você, é a Cry Baby. — Dirfino piscou e ofereceu o violão que ainda descansava em seu colo. — Por favor. Se quiser eu até canto uma das minhas depois.
— Você também compõe? — Indagou surpresa.
— Quando algo me inspira. — Respondeu, tímido. — Mas e então? Temos um trato?
Depois de ponderar alguns segundos, Mad sentou no sofá-cama e pegou o violão. — Só porque to curiosa pra ouvir uma sua. Qual eu toco?
Dirfino fechou o caderno e abriu em uma página aleatória. — Essa.
Maddison olhou para o papel e posicionou os dedos sobre as cordas.
“Think I just remembered something. I think I left the faucet running. Now my words are filling up the tub. Darling you're just soaking in it. (…)”
Ao fim do último verso, Mad sorriu envergonhada e disse. — Com os efeitos sonoros isso vai ficar melhor.
— Melhor? — Dirfino riu. — Então a única coisa que tenho a dizer, Senhorita Maddison Mitchell, é: ainda bem que somos amigos de escola e posso te ver cantar pessoalmente antes que você seja uma estrela internacional e o preço dos ingressos pros seus shows em estádios gigantescos e lotados esteja fora do meu orçamento.
— Ah, para. Isso nunca vai rolar, não fica me iludindo. — Respondeu rindo também. — Agora cumpra sua parte no acordo.
Dirfino pegou o violão e encarou as cordas por algum tempo. Escrever aquela música sobre Maddison havia sido um erro e cantá-la para ela seria mais errado ainda. Todavia, tocar qualquer outra coisa também não parecia certo.
Por fim, decidiu que seria mais autêntico cantar sobre algo que estava sentindo mesmo sendo por alguém que não deveria.
“O seu nome é minha palavra preferida
Seus olhos são a cor mais bonita
Seu cabelo de duas cores é tão lindo
Seu toque é o mais bem-vindo
Você me roubou de mim
De um jeito que nem sei explicar
Quando eu e você estamos juntos
Tudo no mundo parece se encaixar
Seu cheiro é o melhor de todos
Seu sorriso é o mais precioso
Seu rosto é o que há de mais perfeito
Seu amor é o que mais desejo
Sua felicidade é a causa da minha
Você é meu pensamento a maior parte do dia
Antes eu não tinha certeza se o amor existia
Agora você é a minha prova viva”
A música ainda tinha alguns versos, mas a intensidade do olhar entre ele e Maddison fez com que a voz de Dirfino travasse na garganta. Não que a americana entendesse ao menos uma palavra, porém o sentimento era bem nítido.
Havia magnetismo no ar que os atraía um para o outro, aos poucos eles se aproximavam sem nem ao menos perceber. Porém, o toque de mensagem do celular de Mad os tirou do transe antes que chegassem perto o bastante.
— É o Connor. — Disse ela, tentando não demonstrar o quanto estava constrangida e falhando miseravelmente. — Eu nem notei que já tava chegando a hora do almoço. Melhor eu fazer um sanduíche antes que minha glicose fique baixa. Quer um? Eu vou fazer pra você. Deixa eu aproveitar e levar essas canecas daqui. Responde o Connor por mim? Valeu.
Maddison saiu da casinha a passos apressados, quase correndo até chegar à cozinha, onde se apoiou com ambas as mãos na pia.
A respiração acelerada, os olhos fechados com força e uma vontade absurda de gritar.
— Ele é gay. — Sussurrou para si mesma. — Ele é gay, ele é gay. Para de ser idiota e se apaixonar errado, Mad. — Ela ergueu a cabeça e encarou seu reflexo no vidro meio empoeirado da janela, de onde também podia ver a casinha desfocada ao fundo. — Porque faz isso consigo mesma, garotinha estúpida? Essa ilusão não vai dar em nada.
Enquanto isso, Dirfino estava com as mãos enterradas no cabelo, tentando conter sua enorme frustração.
— “Você sabia que isso ia acontecer e mesmo assim foi em frente. É um otário mesmo.” — Murmurou em sua língua natal, deixando que uma risada irônica escapasse. — “Agora ela já sabe e as coisas vão ficar estranhas entre vocês dois. Parabéns, Danilo. Conseguiu estragar uma amizade linda que estivemos construindo com tanto cuidado. Burro! Burro! Burro!”
Depois de alguns minutos sem se mexer, Dirfino finalmente respirou fundo, se recompôs e pegou o celular para ver a mensagem de Connor.
“Cadê vcs? Achei q meu filho ia direto da escola pra casa cmg. É pra gnt se encontrar em algum lugar e eu esqueci?” – Lia-se.
“Oi, papai. Sou eu. Pode ir direto eu te encontro lá. Dps eu explico.” – Respondeu e jogou o celular para o lado, sem condições de manter uma conversa.
Quando Maddison voltou para casinha, o ambiente ficou instantaneamente mais denso, o ar parecia pesar e o tempo ficou estranho, um mísero segundo parecia demorar horas inteiras para passar. Tanto ela quanto Dirfino tentavam agir de maneira normal, mas era difícil quando mal conseguiam se olhar e toques tornaram-se impensáveis.
Por mais arrastada que aquela tarde tenha sido, graças aos céus finalmente passou e, depois de uma despedida esquisita e nada calorosa, o brasileiro pode sair dali com sua mochila nas costas para passar uma semana longe sem saber como as coisas ficariam quando voltasse.
Ao chegar à casa dos Williams, esforçou-se para sorrir e ser simpático mesmo que seu interior estivesse todo bagunçado. Por sorte, conseguiu ser convincente.
O Senhor e a Senhora Williams, que insistiam em ser chamados de Henry e Victoria, logo terminaram de botar as malas no carro e voltaram para dentro a fim de se despedir dos garotos.
— Obrigada por fazer companhia ao Connor, Danilo. — Disse Victoria com um sorriso jovial. — Sua família não vai mesmo se chatear?
— Eu venho do Brasil, não temos o costume de comemorar Ação de Graças. — Dirfino respondeu. — O Connor que tá me salvando do tédio que seria essa semana na minha casa.
— Sendo assim, fique à vontade e divirtam-se vocês dois. — Concluiu.
— Mas lembrem-se das regras. — Henry completou em tom sério, porém com os cantos dos lábios levemente erguidos. — Mantenham as louças limpas e joguem os restos de comida fora pra evitar formigas e outros bichos. Podem fazer festa até virar a casa do avesso, mas nada de polícia e tudo tem que estar no lugar até a gente voltar.
— Podexar, pai. — Connor piscou e riu. — Amo vocês. Digam pra Lyn que eu mandei um abraço.
— Ela vai te mandar ir pro inferno por não vir com a gente, mas vamos dar o seu recado sim. — Murmurou Victoria em tom de diversão.
Depois de um longo abraço em seu filho, o senhor e a senhora Williams foram embora.
Connor se virou para Dirfino e disse. — Que tal pedir uma pizza?
— Topo. — Respondeu sorrindo. — Porque seus pais vão de carro? Indo e voltando são uns quatro dias de estrada. Não seria mais prático ir de avião?
— Você definitivamente não conhece meus pais. — O americano riu. — Sabe como eles se conheceram? Minha mãe acabou com meu pai em uma corrida de Kart quando eles estavam na faculdade. Depois disso foram uns três meses de revanches, dois de encontros e isso resultou na Evelyn e mais vinte anos de um casamento cheio de amor, competitividade e muitas piadas sarcásticas. Enfim... Eles se adoram e adoram dirigir. É sério.
— Resumida a história dos seus pais ainda é dez vezes mais empolgante que a dos meus.
— E como foi?
— Sério, papai, não é uma história interessante.
(...)
Dirfino era, com certeza, o mais observador do bonde. Por isso, antes do recesso, ficara com a impressão de que Connor estava estranho. E depois de passar algum tempo na companhia dele sem outras cinco pessoas para dividir sua atenção, essa simples desconfiança ia se tornando cada vez mais sólida.
Na metade da semana de férias, durante o jantar, Dirfino finalmente criou coragem para dizer algo.
— Hey, uh... Tem, sei lá, algum assunto sobre o qual você queria conversar? — Seu tom demonstrava que era mais uma insinuação do que uma pergunta.
— Como assim? Por quê? — Connor replicou com um sorriso forçado, porém logo em seguida suspirou derrotado pelo olhar que lhe atravessava. — Ok. Não que eu queira falar sobre isso, mas... Sim, tem uma coisa.
— Bom, talvez você deva. — Dirfino sorriu, encorajando-o. — Se isso, seja lá o que for, tá te afetando, acho que seria melhor por pra fora. E não precisa se preocupar, o que disser aqui, fica aqui. Eu prometo.
— Ah, cara. — Outro suspiro escapou de sua boca. — O último ano começou. A vida de verdade vai começar logo e eu não to pronto pra ser adulto. Vou acabar sendo a decepção dessa família, mais do que já sou. Todo mundo conhece o sobrenome Williams por Henry, o cirurgião, ou Victoria, uma das advogadas com menores índices de derrota do estado. A Lyn tá estudando em Stanford como meu pai e eu sou o Williams que não jogou pela escola e não tem ofertas de bolsa ou grandes planos pro futuro. Sabe o que eu queria mesmo ser? A porra de um mecânico. Ou instrutor de academia.
— Pensei que odiava esportes.
— Os que envolvem bolas, redes ou tacos. Mas eu adoro musculação, aeróbico, crossfit. Nada que me daria uma bolsa ou me tornaria um orgulho pra comunidade. Só me deixa gostoso mesmo. — Connor riu, mas ainda não era um sorriso cem por cento sincero.
— Ah, qual é? Essa é a sua motivação? Ser um sobrenome famoso? — Dirfino sorriu de volta. — Sabe o que deveria de verdade ser a sua motivação? Fazer o que você ama. Ter alunos que te adoram porque você sente prazer no que faz e transmite a sua alegria pra eles. Ou saber que quando você chegar em casa todo suado e sujo de graxa depois de passar o dia enfurnado em uma oficina, sua esposa não vai se importar em te abraçar porque você a ama e a trata como uma rainha mesmo tendo um salário de plebeu. E, cara, eu vi o jeito seus pais te olham. Eles te amam e sentem orgulho de você, sendo atleta ou não. Ficar cheio caraminholas na cabeça por causa disso é bobagem.
— Valeu. Eu precisava mesmo ouvir isso.
— De nada, papai. Agora pode contar a outra coisa porque eu sei que não é só isso.
— Cara, como eu te odeio. — Connor revirou os olhos. — Que dom maldito você tem de ler as pessoas.
O brasileiro riu e disse. — Por mais que eu goste de me gabar por ser o cara observador, dessa vez não é mérito meu. Você é sempre tão alegre e pra cima que dá pra notar fácil quando tu não tá bem, papai.
— Porcaria de sorriso solto. — Brincou em tom de lamento. — Eu admito que tem mais uma coisa, mas esse assunto eu realmente não acho que é uma boa ideia falar sobre.
— Primeiro: você pode conversar comigo sobre qualquer coisa. E segundo... — Dirfino desviou o olhar por um instante antes de concluir. — Eu meio que tenho uma ideia do que pode ser, mas não vou falar porque se eu estiver errado, o clima vai ficar estranho.
— Essa sua ideia começa com a letra A? — Connor questionou, sentindo um calor subir por seu pescoço junto com a vermelhidão que se espalhou por seu rosto e orelhas, mesmo não sendo tão evidente em pele negra.
— Eu sabia! — O brasileiro exclamou deixando a animação transbordar em sua voz. — Você tá gostando da Adele, né? Me conta tudo!
— Não tem muito o que contar. — O americano fixou o olhar em seu prato, até então esquecido, e começou a cutucar a comida com o garfo. — Quando você falou aquele lance dos copos, eu fiquei me sentindo mo mal porque ela é uma das minhas melhores amigas há anos e aí chega um forasteiro, na época você era um forasteiro ainda, e mostra que eu não a conhecia direito. Foi um tapa na minha cara. Então eu comecei a prestar mais atenção nela e percebi tudo que ela tem de incrível. A Adele não faz piadas com tanta frequência quanto o resto do bonde, mas ela faz umas muito pontuais e é super engraçada. A gente é inteligente agora por causa dela que nos ensina sem nem a gente perceber. O jeito que ela ri e como ela enrola a ponta de uma mecha de cabelo nos dedos quando tá concentrada é desgraçadamente fofo. E, óbvio, ela é a pessoa mais sensata que eu conheço. E muito mais. Quando eu percebi já tava louco pela Adele.
— Bah! Que massa. — Dirfino sorriu largo. — Quando vai chamar ela pra sair?
— Que?! Tá louco? — Connor arregalou os olhos. — Isso nunca vai rolar. Ouviu o que eu acabei de dizer? Adele é linda, inteligente e, acima de tudo, sensata. Por que diabos ela ia querer sair com um mal elemento como eu? Qual é? O meu apelido ofensivo, porém carinhoso no nosso grupo antes de ser “papai” era “falsificador”. O máximo que vou fazer é estragar a amizade e deixar tudo esquisito.
— Primeiro que é um fato científico mais que comprovado que os opostos se atraem. — Respondeu no mesmo tom animado de antes. — Até como amigos vocês dois já se completam. Você impede que a Adele tenha uma vidinha parada e tediosa de CDF comum e ela te impede de... Sei lá... Acabar sendo preso, por exemplo.
— Eu não seria preso! — Exclamou indignado.
— “Falsificador”, Connor. “Falsificador”.
— Ok. Eu entendo seu ponto.
— Obrigado. E segundo que a amizade não vai estragar, tá bom? Se você disser o que sente e não for mesmo pra rolar alguma coisa, vocês vão aprender a lidar com isso juntos, como os melhores amigos que são. Se ficar guardando isso no peito, deixando a dúvida do que poderia ser ficar te corroendo por dentro, você só vai começar a evitar tocá-la, ficar paranoico com medo de falar alguma besteira que te entregue e aos poucos se distanciar dela sem perceber até que reste apenas dois estranhos dessa amizade linda.
— Credo. Nem fala uma coisa dessas.
— Ok, então vou falar da outra possibilidade. — Dirfino voltou a sorrir. — Você pode chamá-la pra sair, ela aceita mesmo meio nervosa com a situação nova. Vocês saem, se divertem e no final ela sente um rubor se espalhar pelo rosto quando você segura a mão dela, então os olhares se encontram, os rostos começam a se aproximar devagar...
— Você acha mesmo que tem chances disso acontecer? — Connor abriu um sorriso bobo involuntário.
— Acho, cara. — Encorajou-o com a voz firme. — Deixa de ser covarde e não destrói o meu ship, Connor.
— Vou tentar. Depois dessa semana. Porque chamar alguém pra um encontro em plena Ação de Graças é meio esquisito.
— Tá, mas não vai amarelar. Vai ser lindo ver vocês dois andando de mãos dadas pelos corredores do colégio. — Dirfino continuava incentivando-o sem nem notar a ironia da situação.
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