Segredos da Casinha
3 Capítulo 3 - Meu Bonde é o Poder
Notas iniciais

Dirfino sentou no chão e ficou observando Maddison escolher o jogo entre seus muitos.
— Porque tá no chão, cara? — A garota perguntou após se sentar no grande sofá com o controle do videogame já em mãos. — Não se acanha só porque eu estou aqui, tá? Tem espaço o bastante pra nós dois.
— Ah, é que tipo... Eu to usando essa bermuda já faz uns três dias, vai sujar as tuas almofadas. — Murmurou envergonhado.
— Como se você não... Pera. — Maddison arregalou os olhos e se levantou tão rápido que o movimento seria perdido por um expectador que piscasse naquele exato momento. — Não vai me dizer que você dorme pelado no meu sofá?
— Não! Não, não. — Dirfino riu de nervoso. — Eu durmo no chão tanto pra não sujar quanto pra não bagunçar e parecer que alguém entrou aqui. Pode ficar tranquila.
— Ah tá. — Suspirou voltando a se acomodar no estofado. — Então fica de boa e senta aí. Uma hora vou ter que tirar essas capas de almofada pra lavar mesmo. A gente aproveita e bota as roupas que tu tem pra bater na máquina também. O que tu tem exatamente?
— Bem... — Ele se sentou devagar, ainda acanhado, e respondeu. — Cinco camisetas, um casaco de moletom, duas bermudas, uma calça, um all star, algumas cuecas e uma toalha. Sorte que ainda não estamos no inverno.
— Tem um jeans, tênis e tá com documentos. — Listou com uma expressão pensativa. — Acho que posso te conseguir um emprego de balconista ou garçom num bar onde que toco todas as terças, quintas e sábados. Depois que você conseguir ser contratado, vão te dar duas camisas de uniforme, então tu só precisa ir bem vestido uma vez, que é pra fazer a entrevista e tals. Alguma camisa que tu tem ainda tá em um estado bom?
— Mais ou menos. Assim, tão na medida do possível. — Murmurou se levantando para pegar a mochila que sempre deixava perto da porta para poder sair rápido se precisasse. — Eu vou te mostrar e tu me diz se tá o bastante.
Maddison analisou as quatro camisetas e torceu a boca. — Essa aqui até que não tá tão ruim, mas... Sei lá, acho melhor a gente te colocar outra roupa. E também temos que dar um jeito no seu cabelo, na cara e todo o resto. Sem ofensa.
— Tranquilo. Eu sei que to esquisito, mas né? Ainda to bem considerando que sou um sem teto há mais de um mês. — Disse Dirfino rindo. — Se fizer isso por mim, prometo que te pago antes de fazer qualquer coisa. Depois vejo se consigo juntar o dinheiro pra ir pro Brasil. O Ezevel pode estar magoado comigo, mas não vai deixar de me ajudar. Pelo menos espero que não vá, né?
— Pelo que entendi, você deve um pedido de desculpas pra ele, mas é assunto um de família e eu não vou me meter. — Constatou devolvendo as roupas do garoto e voltando a se focar em seu videogame. — Então enfim... Ezevel, Dirfino. Os pais de vocês são bem criativos com nomes, hein?
— Na verdade, o nome dele mesmo é Eduardo. — Revelou guardando tudo de volta na mochila. — E o meu é Danilo, prazer.
— Esses jovens de hoje em dia tem cada apelido estanho. — Maddison riu de um jeito que Dirfino achou muito fofo. — Tá a fim de jogar enquanto a gente conversa mais? Porque eu ainda tenho muitas perguntas.
— Aceito.
Depois disso o dia seguiu tranquilo. Maddison gostava de saber das coisas nos mínimos detalhes, tanto que se algum dia aquele diálogo fosse transcrito, poderia servir como biografia não autorizada de Dirfino. Na hora do almoço, quando a garota também trouxe comida para seu “inquilino”, ele tentou não fazer parecer que fazia um pouco mais de quarenta e oito horas que não comia nada porque Maddison estava longe de ter obrigação de ajudá-lo, porém ela logo percebeu que Dirfino estava faminto e apenas não queria incomodar, então disse que queria mais, mas não gostava de comer sozinha e questionou se ele se importaria em acompanhá-la. A tática deu certo e tudo continuou bem até o horário em que a dona da casinha deveria estar voltando da escola.
— Me espera trocar de roupa e vamos sair, tá? — Pediu Maddison levantando do sofá e se espreguiçando.
— Sair? Pra onde vamos? — Perguntou Dirfino com o cenho franzido.
— Pra casa de uma amiga minha. Vou chamar o meu bonde, a gente vai te deixar mais apresentável e depois nós vamos até o bar ver se realmente te contratam. — Respondeu já se encaminhando para a porta. — Mas é quase certo, o dono de lá me adora.
Danilo arregalou os olhos e correu, ficando na frente dela. — Não, não! Você não pode contar pra ninguém sobre mim. Se outra pessoa souber, corre o risco de alguém contar pra um adulto e acabarem me mandando pra uma assistente social e eu posso acabar num lar adotivo. Tem gente boa que faz isso por bem, mas a maioria dos casos é gente que só quer os cheques do governo. Posso ir pra uma casa procurar carinho e receber ódio e violência.
— Dirfino, calma. — Disse ela olhando-o nos olhos e fazendo carinhos leves nos braços dele. — Eu confio neles. Mesmo que achem que deveriam contar pra algum responsável, não vão fazer se eu pedir. Eu to te dando um voto de confiança te deixando ficar aqui, então confia em mim sobre isso também.
O garoto suspirou, ainda sentindo certa preocupação, todavia se afastou para o lado, liberando a passagem.
Maddison saiu da casinha e tirou o celular do bolso, mandando uma mensagem coletiva para seus amigos. “Reunião de emergência na casa da Adele. Explico tudo lá.”.
oOo
Por sua amiga não ter ido para a aula e depois convocado uma reunião de emergência sem dizer mais nada, todos do grupo estavam super apreensivos enquanto a esperavam. Adele roía as unhas, Andrew andava de um lado para o outro, Connor esfregava as mãos sem parar e Luke batia o pé repetidamente contra o chão. A única que conseguia passar uma falsa imagem de calma era Morgana.
— Ah, já chegou todo mundo, que bom. — Disse Maddison assim que passou pela porta. — Porque ainda estão de uniforme?
— Viemos direto. Tu sumiu o dia todo, ficamos preocupados. — Replicou Andrew, por fim parando de andar para sentar ao lado de Morgana.
— Imagino pelo tanto de chamada perdida no meu celular o tamanho da preocupação. — Respondeu com um sorriso irônico.
— Reformulando: ficamos preocupados quando você convocou essa reunião depois de sumir o dia todo. — Declarou Connor rindo. — Enfim, quem é o garoto?
Danilo, um pouco tímido, saiu detrás de Maddison, fazendo todos ali notar sua presença. — Eu sou o Dirfino. Tudo bom, amigos?
— O cara que fugiu pra ser ator de pornô gay? — Luke se pronunciou pela primeira vez na conversa, com um sorriso empolgado demais. — Tá fazendo quem? Um hippie dos anos 70? Seja o que for, você entra mesmo no personagem, hein? Adorei!
— Para com isso, Luke. Todo mundo sabia que essa história era só um boato. — Disse Maddison cínica, indo se sentar também, para poder explicar toda a história. — O que aconteceu mesmo foi que...
Após ouvir o relato com atenção, Morgana fez sua melhor expressão pensativa e disse. — Hm. Então você adotou um mendigo?
— Ele não é um mendigo. — Ela respondeu revirando os olhos.
— Bom, tecnicamente, eu sou mendigo. — Disse Dirfino com as bochechas coradas.
— Shiiiu. Fica quietinho, fica. — Maddison mandou, em seguida voltando a atenção para os amigos. — Então, vocês vão me ajudar ou não?
— Não sei não, Mad. Claro que a gente gostaria de ajudar, mas será que é seguro nós confiarmos em um garoto que nem conhecemos direito? — Ponderou Adele. — Sem querer te ofender, Dirfino.
— Tem problema não. — Sussurrou ainda mais constrangido.
— Gente, qual é? Quanto tempo a gente estuda com esse cara e nunca ouvimos falar de coisa ruim em que ele tenha se metido? — Maddison defendeu. — Além do mais, se ele tem acesso a minha casinha desde que sumiu, tem mais de um mês que ele tem oportunidades de me roubar e nunca fez. E olha que ele até precisava de grana. É só um garoto sozinho no mundo que precisa de ajuda.
Morgana observou Dirfino por um minuto, analisando se poderia ou não confiar nele. — Eu topo ajudar, Mad. Pode deixar que eu cuido do cabelo. É bom o nosso novo mendiguinho de estimação já ficar sabendo que eu sei muito bem como manusear uma tesoura. Assim se tiver a intenção de fazer alguma merda, já esquece logo.
— Acho que não tem problema eu emprestar uma roupa pra ele. — Connor seguiu a onda da amiga. — Emprestar, viu?
— Tá bom, eu ajudo também. — Disse Adele. — Mas se alguma coisa der errado, eu to lavando minhas mãos desde já.
Depois que a mais sensata do grupo concordou, todos acabaram cedendo também.
— Beleza! — Exclamou Maddison com um sorriso. — Como você se ofereceu, Connor, vamos eu, você e a Adele pra sua casa pra escolher uma roupa pra ele fazer a entrevista de emprego. Morgana vai cortar a juba, Andrew e Luke ficam pra garantir que ela vai estar segura mesmo. Confio em você, Dirfino. Isso é só precaução.
— Eu sei. — O garoto sorriu, a tranquilizando.
— Toma um banhinho, tá? — Pediu Adele, imaginando-o sentado em qualquer um dos estofados da casa. — Bem longo. Pode usar shampoo, condicionador. Tem barbeador novo no armário do banheiro, se quiser.
— Pode deixar. — Respondeu tentando não parecer eufórico com a simples ideia de um banho decente, porém falhando miseravelmente.
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Demorou cerca de quarenta minutos até que Adele e Maddison entrassem em consenso sobre qual roupa deveriam levar, trinta e cinco a mais do que Connor aguentou participar da discussão, então voltaram para a casa de Adele em passos apressados.
— Finalmente as madames chegaram. — Disse Morgana com sua típica impaciência levantando-se do sofá assim que os três atravessaram a porta. — Me dá aqui essa sacola, deixa que eu levo pra ele.
Andrew e Luke riram enquanto seus amigos faziam cara de assustados. Pouco depois, Morgana surgiu de novo na sala. Dirfino vinha bem atrás, distraído arrumando o blazer preto por cima da camisa cinza que cobria a barra da calça também preta.
Adele quase babou na própria blusa olhando para o garoto, em seguida sussurrou no ouvido de Maddison. — Miga. Quando esse boy magia conseguir um celular, pelo amor de Deus, me passa o número.
— Esqueceu porque ele foi expulso de casa, sua doidinha? — Ela respondeu também cochichando. — O Luke tem mais chance do que você.
— Ai, mas sonhar não custa nada. — Disse voltando a admirar o quão diferente Dirfino estava com aparência de quem acabara de tomar banho, um corte decente no cabelo, a barba feita e uma roupa que o fazia parecer bem menos magro e desnutrido do que de fato estava, e era uma ótima visão para se ter.
— Para de encarar. Daqui a pouco vai ter que comprar sabão em pó anti-baba pra lavar essa blusa. — Murmurou rindo embora concordasse com sua amiga naquele momento. — E aí, galera? Vocês vão com a gente pro bar ou...
— Ir pra escola de ressaca em plena terça-feira? Adoooooro. — Entoou Luke quase cantando. — Se não for pra ser hardcore eu nem levanto da cama.
— Uhuuuu. — Concordaram Andrew, Connor e Morgana.
— Eu só vou porque não quero ficar sozinha. — Adele manteve a pose de certinha do grupo, embora estivesse mesmo com vontade de ir.
Como Maddison disse antes, o senhorzinho dono do bar a adorava, então foi muito fácil convencê-lo a empregar Danilo. Depois disso todo o grupo comemorou com alguns (na verdade, vários) drinks.
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