Segredos da Casinha

4 Capítulo 4 - Operação Pai e Filho


Notas iniciais
Olá leitores... Como estão hoje, seus bisbórrias? Vamos comemorar porque consegui escapar da maldição do capítulo 3 e consegui trazer o 4. Uhuuuuuuuuuuuu. Espero que curtam o capítulo novo. Enfim, boa leitura...

A terça-feira começou como o esperado: somente Andrew não bebeu o bastante para ainda conseguir ir para o colégio. O restante do grupo, de ressaca, resolveu não ir para a aula e matar o tempo na casa na árvore de Maddison, que havia se tornado ponto de encontro por ser mais maneira que o quarto de qualquer um deles.

Dirfino estava conversando e interagindo, porém ainda aparentava certo desconforto em aceitar qualquer comida ou bebida que lhe oferecessem e até mesmo o controle do Xbox. Talvez fosse a culpa por ter invadido antes, quem sabe a sensação de estar incomodando ou de não pertencer ao círculo de amizade já pré-estabelecido.

Maddison tentava fingir que não percebia e continuar tratando-o com naturalidade. Ela sentia que podia confiar naquele garoto, então se esforçava para que ele se sentisse bem ali. E o grupo procurava fazer o mesmo em consideração a ela.

— Nada como tirar um dia de folga do colégio. — Disse Connor, deitando no sofá-cama com os braços atrás da cabeça.

— Eu bem que gostaria de voltar pra escola. — Dirfino replicou com um suspiro triste. — Ainda mais agora que tenho cheiro de gente de novo.

— E porque não volta? — Perguntou Luke, sorrindo sugestivo ao completar sua linha de pensamento. — Você seria uma visão boa pra se ter por lá.

— Uuuuuuu. — Adele provocou com um olhar malicioso.

— Obrigado, Luke. — Respondeu Dirfino agradecendo mentalmente os segundos que a garota lhe deu para processar o elogio e conseguir fingir não ter ficado sem graça. — Bem que eu queria que fosse fácil assim, mas faz quase dois meses que estou faltando. Então meio que não tem por que voltar, já reprovei.

— Não se as faltas forem justificadas. — Connor sorriu voltando a se sentar e olhando-o de cima a baixo. — Você tá bem magro, poderia fácil ter estado doente há pouco tempo. E, por acaso, eu sou um ótimo falsificador de atestados médicos. Nunca fui pego até hoje.

— Seria ótimo conseguir terminar os estudos. — Considerou analisando a ideia. — Só que, eu acho que depois de um afastamento tão longo do colégio, o diretor vai querer falar com meu pai ao invés de só aceitar o atestado.

— Ah, mas não seja por isso. — Morgana entrou na conversa, esfregando as mãos uma na outra como se tivesse algo em mente. — Sou mestre na antiga arte do preparo de poções do envelhecimento. Ou como os trouxas costumam chamar, maquiagem realista de velhinho. Você pode interpretar o pai dele, Connor. É o mais alto e eu posso te deixar com os traços parecidos com os dele.

— Opa. Eu topo! — Exclamou Connor empolgado. — Isso vai ser bem divertido.

— Gente, eu nem sei como agradecer o que vocês estão fazendo por mim. — Dirfino murmurou com um sorriso sincero e emocionado.

— Não agradeça ainda. Sabe-se lá se plano mirabolante vai dar certo. — Cogitou Adele com seu típico senso de raciocínio lógico.

— Lá vem. — Disse Luke revirando os olhos. — Para de ser pessimista, mulher. Deixa as miga brincar de missão impossível em paz.

— Tá bom. Só tava levantando as possibilidades ruins pra ninguém se frustrar caso dê errado. — Replicou erguendo as mãos em rendição. — Mas vamos ter fé, né?

— Se vamos mesmo fazer isso, tem que ser muito bem planejado. — Disse Maddison, ficando em pé de frente para todos, tomando o controle da missão. — Pensar em que doença poderia derrubá-lo por dois meses sem causar sequelas mais graves, um roteiro pro Connor não se enrolar na hora e parecer suspeito. E outra coisa super importante: você ainda tem os seus materiais escolares? Ficar doente e perder todos os cadernos ao mesmo tempo é bem, bem improvável de acontecer.

— Tenho. — Respondeu Dirfino. — Eu sabia que não ia precisar dos cadernos porque ia dar a festa do Jason e não teria tempo de fazer os deveres de casa, então deixei tudo no meu armário pra não fazer peso desnecessário na mochila.

— Que bom, já começamos bem. — Maddison sorriu.

O restante daquele dia foi dedicado à elaboração e estudo do plano até que chegasse a hora do grupo ir embora, já que os anfitriões precisavam se arrumar para trabalhar.

O Crow Claw Bar ficava perto o bastante dali para que pudessem ir caminhando até lá. E foi o que fizeram, andaram lado a lado sob a linda luz alaranjada e crepuscular que dominava o céu da cidade. Isso deu a eles uma oportunidade de ficarem um pouco sozinhos sem o peso de todas as novidades do dia anterior.

Dirfino não se sentia tão confiante na presença daquela garota, mas queria de verdade se aproximar, então engoliu sua timidez a seco e sorriu para ela, puxando assunto. — Legal você ser cantora. Nunca ia imaginar com o seu jeitinho na escola.

— Eu trabalho em um bar, então tecnicamente sou cantora e psicóloga. — Respondeu rindo. — E se prepare, porque logo que seu primeiro cliente pedir a segunda cerveja, você vai ser um também.

— Estou preparando meu emocional e meu psicológico pra isso desde que fui procurar o emprego. — Declarou com uma risada.

— Pra falar a verdade, por enquanto eu sou só a psicóloga. A cantora de verdade é ela. — As palavras escaparam da boca de Maddison fora de seu controle, simplesmente saíram antes que tivesse tempo de refreá-las, como bolhas de sabão.

— Ela? Ela quem? — Dirfino questionou com o cenho franzido.

— É complicado... — Sussurrou, pigarreando logo em seguida e sorrindo para tentar disfarçar sua pequena falha. — Talvez um dia eu te explique. Mas... E quanto a você? Eu nem imaginava que soubesse tocar violão. Pra ser sincera, nunca pensei algo mais profundo do que “o nerd esquisito que sempre levanta a mão na aula de literatura”.

— Notei isso quando descobri que você nem sabia que eu era seu vizinho. É uma pena que a gente tenha se aproximado em uma situação tão errada. — Murmurou lamentando por dentro o fato de já conseguir enxergar o letreiro do Crow Claw Bar, o que indicava que aquela conversa estava prestes a acabar. — Sorte que agora vou ter bastante tempo pra te mostrar que sou um cara legal. Vai valer a pena me conhecer melhor.

— To ansiosa pra descobrir. — Replicou aumentando o sorriso.

Um silêncio confortável se instalou entre eles nos últimos metros até o bar.

Como ainda era terça-feira, a noite de trabalho de Dirfino estava sendo bem tranquila, então quando Mad terminou de organizar o palco e toda a fiação dos microfones e instrumentos estava ok, pode se dar ao luxo de dar um pouco de sua atenção a ela enquanto secava com um pano uma porção de copos recém-lavados.

— Boa noite, pessoal. Meu nome é Maddison Mitchell e eu espero que aproveitem a noite e curtam a música. — Começou tímida, fechando os olhos e respirando fundo ao mesmo tempo em que posicionava os dedos nas cordas do violão elétrico, porém, assim que separou as pálpebras outra vez, parecia que alguém um tanto quanto... Diferente estava ali.

Assim que os primeiros acordes soaram, percebia-se com clareza que se tratava de The One That Got Away. A batida bonita, tranquila e envolvente fez Dirfino sorrir, porém quando a voz de Maddison se juntou a melodia, o sorriso deu lugar a um queixo caído e um olhar vidrado. Aquilo não era apenas lindo, era a mais pura essência do lindo. No minuto seguinte, Dirfino já tinha certeza que poderia passar o resto da vida ouvindo-a cantar.

(...)

— Você só não tá tão cansado porque hoje ainda é quarta-feira. — Maddison respondeu com um sorriso o comentário de Dirfino enquanto caminhavam para o colégio. — Quero ver o zumbi que você vai ficar na primeira segunda-feira. Sorte que eu só canto, o movimento do fim de semana é intenso pra caramba lá. Deus me livre ser garçonete ou balconista. Né galera?

— Para de mexer na porra da gravata, Connor! — Dizia Morgana mais concentrada em manter seu amigo no personagem. — Tá ótimo assim, fica quieto.

— Foi mal, foi mal. — Murmurou tentando resistir ao impulso de levar as mãos outra vez ao que, para ele, era uma coleira para humanos. — É que é muito estranho ficar usando esse bagulho. Acho que quando eu for adulto vou fazer questão de arrumar um emprego em que eu possa trampar de camiseta e jeans.

— Não precisa ficar adulto pra isso. — Brincou Dirfino com uma leve risada.

— Ou, parou as gracinhas, pessoal. Estamos muito perto na escola, então todo mundo fazendo carão, tá bom? — Disse Adele, olhando ao redor e vendo vários colegiais sonolentos, alguns segurando copos de café, assim como eles. — E, pelo amor de Beyoncé nas alturas, não vai deixar ninguém te ver trocando o traje de papai, Connor.

— “Pelo amor de Beyoncé” — Repetiu Luke, ignorando a “ordem” e abrindo um sorriso radiante. — É tão gostoso ver a boa influência que to exercendo na sua vida, meu docinho.

— Ai, cala a boca, viado. — Replicou revirando os olhos e segurando o riso.

O grupo começou a se dispersar para evitar suspeitas, apenas Connor e Danilo ficaram juntos. Não demorou mais que alguns minutos para estarem atravessando os grandes portões do colégio, onde puderam ouvir burburinhos começarem imediatamente.

“Que esse garoto tá fazendo aqui? Achei que ele tava em um daqueles acampamentos bizarros de igreja que tentam fazer cura gay.” “Esse não é o ator pornô que fugiu de casa?” “Esse cara não tinha ido morar com um velho ricaço da outra cidade?”

Dirfino não sabia se ficava mais impressionado com a criatividade daquelas pessoas ou mais vermelho de vergonha por todos os boatos irem de mal a pior. O caminho para a diretoria nunca pareceu tão longo, porém finalmente chegaram.

Àquela hora da manhã ainda não havia muito que fazer ali, então o diretor os recebeu quase de imediato.

— Bom dia. — O homem de cabelos meio grisalhos cumprimentou com um sorrisinho simpático assim que “pai e filho” se acomodaram nas duas cadeiras de frente para sua mesa. — Em que posso ajudá-los, senhores?

— Bom dia, Diretor Collins. — Disse Connor estendendo a mão para um aperto firme. — Vim aqui pra ver o que pode ser feito a respeito das faltas do meu filho. Ele esteve bastante doente nos últimos dois meses. Tanto que vir conversar com a gestão do colégio para justificar ausências nem ao menos passou pela nossa cabeça durante o tratamento. Gastamos o nosso tempo só torcendo pra tudo acabar bem.

— Claro, eu entendo. O garoto até aparenta ainda estar um pouco abatido. — Sidney Collins respondeu em um tom compreensivo. — Trouxeram todos os documentos necessários para que possamos anular as faltas?

— Sim. — Connor puxou alguns papeis do bolso do paletó com a expressão mais calma existente no planeta Terra enquanto Dirfino tentava não parecer estar prestes a enfartar. — Aqui estão, Diretor.

— Hm. Uhum. Uhum... — Murmurava enquanto analisava uma a uma as falsificações muito bem feitas até que por fim esticou a mão até o porta-canetas de sua mesa para pegar uma e assinar as folhas. — Prontinho. Agora você só precisa levar isso para os seus professores assinarem também, Senhor Danilo. Mas isso é só o começo. O atestado isenta as faltas, porém as notas não são alteradas, então o senhor vai ter muitos trabalhos de recuperação pra fazer.

— Sim, senhor. Pode deixar. — Respondeu Dirfino com um enorme sorriso de alívio. — Já podemos ir?

— Podem. — Liberou-os, voltando a sorrir simpático e levantando-se para apertar suas mãos. — Tenham um ótimo dia.

— Valeu aí, mano. Pra tu também. — Disse Connor, por um instante esquecendo que, no momento, aquele linguajar não era adequado para “a sua idade”.

Assim que os garotos deixaram a sala, a secretária do diretor (cuja mesa ficava ali mesmo a apenas um metro de distância) comentou. — Nossa. Mas como o jeito de falar desse senhor é esquisito. Não acha, Diretor Collins?

— É só uma crise de meia idade. — Respondeu Sidney com um sorriso complacente. — Eu entendo. Lembra que eu tive uma uns cinco anos atrás?

— Lembro com clareza. — Replicou ela, fazendo uma careta.

No corredor ao lado de fora, Connor e Danilo haviam se afastado cerca de três metros, então o “filho” se sentiu seguro para dar um tapa na nuca de seu “pai”.

— Ai. Que foi isso? — Questionou esfregando com uma mão a parte atingida.

— “Valeu aí, mano”? Que pai fala assim, vacilão? — Disse indignado.

— Ah, qual é? Eu fui um ator foda lá dentro. — Se defendeu rindo. — O Collins já tava no papo, aposto que nem notou essa frase aí.

— Tomara. Agora licença que eu tenho que procurar um batalhão de professores pra recuperar o tempo perdido. — Dirfino disse em tom de resmungo, suspirando em seguida. — E é melhor tu ir se trocar. Daqui a pouco o sinal do primeiro tempo vai soar. Não deixa te verem.

— Aff, eu já sei. — Connor revirou os olhos. — Repetiram isso umas duzentas vezes já.

Então os dois garotos seguiram para direções opostas.

oOo

Dirfino não pode propriamente assistir uma aula a manhã inteira por estar correndo atrás de professores de um lado para o outro do colégio e discutindo trabalhos extras, porém o esforço valeu a pena por conseguir se resolver com todos antes do almoço e, assim sendo, não precisaria se preocupar com isso durante as aulas da tarde.

Assim que o sinal do intervalo soou, os corredores encheram de estudantes seguindo para o refeitório. E mais uma vez, a mesa do grupo mais misturado do colégio (uma perfeita CDF toda certinha, um rapaz caladão e bastante protetor, um garoto com porte físico e beleza para ser popular, mas não gostava de esportes, um gay bem espalhafatoso e afeminado, uma cantora adolescente de bar e uma lésbica gótica “suave”) ganhava uma nova aquisição (o nerd que adorava literatura).

— Estudar durante o dia, trabalhar durante a noite e acrescentando uma montanha de deveres de casa pra conseguir recuperar as notas. — Comentou Dirfino depois de se acomodar entre Andrew e Luke. — É, acho que isso é um adeus as minhas horas de sono. Mas tudo bem. Dormir é mesmo superestimado.

— Como alguém que fez parte de clubes acadêmicos demais durante todo o primeiro ano, só tenho um conselho pra te dar, amigo. — Respondeu Adele com um sorriso de canto. — Cuidado porque energético e café são caminhos sem volta.

— Minha santa Beyonce nas alturas! — Exclamou Luke arregalando os olhos. — Adele Marie Fontaine acabou de fazer uma piada, meus queridos! Dirfino, por tornar esse grandioso milagre possível, eu oficialmente te proíbo de sair desse grupo.

— Fala sério, Luke! Você falando assim, eu fico parecendo um monstro que nunca ri. — Replicou ela, revirando os olhos. — Eu sei que sou um pouco mais séria, mas sou legal também. Todo mundo sabe que a chata mesmo é a Morgana.

— Ei! — Morgana repreendeu, porém com um tom divertido, jogando um pedaço do pão de seu sanduiche em Adele. — Me respeita, sua CDF. Meu humor é baseado em sarcasmo. As pessoas adoram sarcasmo.

Dirfino riu, porém apenas por alguns segundos antes de perceber que os burburinhos com os quais o haviam recebido àquela manhã ainda continuavam se fazendo presentes pelas mesas ao redor. — Vocês tem certeza que me querem mesmo como membro permanente do grupo? Sentar com o ator pornô do colégio não vai... Sei lá. Queimar o filme de vocês?

— Ah, meu doce. Não mais do que a gente já queima sozinho com nossas pagações de mico de rotina. — Respondeu Luke sorrindo. — Pode ficar relaxado. Uma semana nesse grupo maravilhoso é como uma vacina vitalícia contra vergonha alheia do tanto que a gente passa.

— Então achei o lugar certo pra me encaixar. — Murmurou alegre, esquecendo-se por completo das fofocas em volta.

Notas finais
Acho que ngm deve ter reconhecido a referência disfarçada no nome do bar... Por falar no bar, o cover da Mad de TOTGA tem mesmo no youtube, quem nunca viu dá uma conferida lá: https://www.youtube.com/watch?v=Nzxm9NNvIj0 Até mais, galeres... xoxo Longos dias e belas noites e até mais. Atenciosamente, Leonardo A. Guedes.