Segredos Submersos

36 Reencontros e probabilidades


Notas iniciais
Não tem muita ação, mas tá. É um daqueles capítulos guia para informações que podem se tornar importantes. Por mais que eu não tenha tornado explícito, eu dividi essa fic em quatro fases diferentes - e estamos quase no fim da terceira fase! :o Significa que daqui a pouco entraremos na reta final... (Mudando de assunto: acho muito legal a quantidade de leitores que tenho e que são marcados no contador, tenho uma média de 30-50 por capítulo, mas ainda assim recebo apenas um review por capítulo? Poxa, né gente...)

– Ok – disse Percy, como se recapitulasse a história inteira, enquanto nós andávamos sem rumo pela região próxima a da livraria. – Então Morfeu está ao lado de Pallas. Saquei, ótimo. E o que podemos fazer em relação a isso?

– Nada – respondi, dando de ombros. Percy franziu o cenho, em um silencioso “o quê?”. – Não há nada a fazer, oras! Não acho que daria certo se nós saíssemos em busca de Morfeu, ele provavelmente nos mataria e nos levaria como prêmios a Pallas.

– Duvido muito – dessa vez foi a minha chance de franzir o cenho. – Pallas provavelmente seria aquele que gostaria de nos matar com as próprias mãos. Morfeu só levaria a gente até a morte.

Revirei os olhos enquanto Percy soltou um riso um tanto sarcástico. “Grande diferença”, acabei por murmurar.

– E é por isso mesmo que não há nada a fazer – falei. – Qual seria a razão, em primeiro lugar? Só estávamos procurando os deuses porque com eles haveria uma chance de dialogar... duvido muito que conseguiríamos tal coisa com Morfeu. Olhe o que ele já está fazendo a gente passar! Brincando conosco como se fôssemos bonecos, controlando-nos a cada instante. É óbvio que isso é uma provocação, como se ele dissesse “olhe como tenho poder, olhe como eu poderia matar vocês a qualquer instante”.

– Mas ainda assim ele não vai nos matar.

– É essa a forma de zombação dele. Reparou como, a cada vez que acordamos, estamos em um local diferente? Ele deve estar nos levando cada vez mais perto de Pallas.

– Como uma armadilha? – apenas assenti. Os olhos de Percy, até então estreitos e levemente céticos, começaram a se arregalar gradativamente, ao passo que ele percebia meu ponto de vista. – É, realmente! Uma armadilha indireta, sem que a gente note. Hermione, então nós precisamos encontrar o resto do grupo. E rápido.

– Eu sei – respondi, começando a ficar exasperada. – Mas eles podem estar em qualquer lugar de Baltimore, Percy, e essa cidade é imensa. Qualquer coisa pode acontecer, ou com nós, ou com eles. Sei que você marcou com Thalia de se encontrar no Aquário, mas honestamente, qual você acha que é a probabilidade de conseguirmos nos encontrar lá no mesmo instante? Supondo que eles não estejam desacordados agora, prestes a despertar em um local completamente diferente.

Percy e eu nos entreolhamos e suspiramos, em um segundo de silêncio. Ele olhou ao redor, procurando pelo algo que tentávamos encontrar mas nem ao menos sabíamos o que era.

Apontou para uma banca de revistas na esquina da rua em que estávamos.

– Devíamos comprar algum mapa dessa cidade, não acha? – perguntou. Dei de ombros. – Pelo menos para escolhermos um lugar qualquer para ir.

Fomos até a banca e compramos uma lista telefônica, que aparentemente vinha com um mapa da cidade de brinde. Meus olhos passaram rapidamente pelas manchetes dos jornais que estavam à venda: Terremotos e desespero na América do Sul e Ásia. Desviei o olhar, sentindo-me nauseada. Os desastres aumentavam pela ausência de Poseidon, já fazia uns oito dias desde que havíamos saído do Acampamento Meio-Sangue e nada havia sido feito.

E isso ainda era só o começo, o lado chato de minha mente teve de adicionar. Mesmo que conseguíssemos escapar do ciclo vicioso de controle o qual estávamos submetidos por Morfeu e de alguma forma conseguíssemos voltar ao caminho inicial da missão – encontrar os deuses para então convencê-los a tirar Poseidon do exílio –, ainda restava Pallas e seus titãs querendo dominar o mundo.

Não quis nem pensar em tudo que ainda estava traçado pela frente. Abri a lista telefônica e passei a percorrer os olhos pelas letras minúsculas das páginas, de modo a desviar os pensamentos inoportunos em minha cabeça.

– Alguma sugestão de lugar para que possamos começar a procurar? – perguntou Percy. Meu olhar permanecia nas págunas amareladas, mas pude perceber suas feições adquirindo um certo tom de indignação. – Você não vai ler tudo, não é?

Olhei para ele, um tanto repreensiva e impaciente.

– Percy, o que há mais para fazer?

– Hermione, isso vai levar um século!

Suspirei e voltei a me pronunciar:

– Talvez haja algo aqui. Eu estava pensando, Percy... Morfeu nos deixou muitas pistas para chegarmos até a livraria e para descobrirmos sua identidade. A música do Metallica, a caixa de areia e a flor, o quadro, os bilhetes, o livro e os gibis, sem mencionar os próprios sonhos que ele nos controlava a ter. E se essas pistas, sei lá, não mostrarem apenas quem ele é, mas também outras coisas a que tenhamos que procurar?

– Tipo?

– É isso que eu gostaria de saber, e é por isso que temos que pensar nas pistas. Quais delas podem conter informações a mais, algo além da presença de Morfeu? Enter Sandman, a caixa de areia e a papoula provavelmente se referem apenas a ele. Os bilhetes simplesmente foram guias para nós, sem uma mensagem específica...

– E o que pode ter a mais em Fahrenheit 451 e a HQ Sandman? – questionou Percy. Não pude deixar de perceber que ele soava um tanto desesperançoso. – Hermione, estamos falando de um livro completo e uma série de HQ’s com uma porrada de volumes.

– A HQ pode simplesmente também ser em relação a Morfeu apenas, não sei! E quanto ao livro... eu já li, e existe de fato nele um personagem chamado Granger. Talvez seja provocação?

– Talvez – disse ele – não tem como saber.

– O quadro, então! Hipnos e Tânatos, de John William Waterhouse. Poderíamos procurar um deles.

Percy nada respondeu. Sentamos no meio-fio de uma rua pouco movimentada, voltando minha atenção novamente à lista. Meus olhos se arregalaram com um nome escrito. A princípio não consegui ler – nessas palavras em específico, senti que minha dislexia (já um tanto dormente, considerando que pelos meus primeiros dezoito anos de vida tive de me adaptar à leitura) pareceu piorar. Franzi o cenho e estreitei os olhos, ao passo que as letras pareciam começar a se deslocar, formando novas e completamente legíveis palavras.

Fitei a página, abismada. Passei o livro para Percy e apontei o telefone e o endereço escritos ali.

– Percy, eu sei que você estava brincando quando disse que Hipnos poderia ter uma loja de colchões, mas agora eu realmente acho que você estava certo.

– Acha que conseguiremos encontrar Hipnos aqui? – perguntou Percy.

– Quase certeza – disse eu.

Estávamos de pé no meio de uma imensa loja de colchões. Havia camas dipostas para tudo quanto era lado; de colchões nus e simples às camas king size arrumadas para mostruário, com almofadas e cobertas fofas. O simples ato de olhar para uma dessas camas já me dava sono e lembrava o meu corpo o quão cansado ele estava.

Percy sentava-se nos colchões e balançava-se de cima para baixo, testando as molas.

– E o que faremos se encontrarmos ele?

– O que faremos quando encontrarmos ele – corrigi, cruzando os braços em cima do peito. Percy lançou um olhar de “você entendeu”.

– O que a gente vai falar para ele, quero dizer – disse. – Nós nem sabemos direito o que queremos.

– Seremos diretos – respondi. – Hipnos é pai de Morfeu, deve saber alguma coisa. Só queremos saber o que Morfeu quer conosco, e se há alguma possibilidade de encontrarmos nossos amigos outra vez.

Uma atendente da loja veio em nossa direção e perguntou se precisávamos de ajuda.

– Poderíamos falar com o dono, por favor?

A moça pareceu um tanto confusa, mas sorriu aquele sorriso de atendente que só faz tal coisa para não ter o salário descontado.

– Poderia saber o motivo? – perguntou ela. Crispei os lábios, momentaneamente sem saber o que dizer.

– Nós temos uma reclamação, sabe como é – disse Percy. A mulher assentiu. – Ficaríamos felizes se você pudesse chamar o dono, ou o gerente, ou seja quem for que administra esse local.

– Entendo – disse ela. – Esse estabelecimento é gerenciado pelo próprio dono da companhia, mas infelizmente ele se encontra ausente.

Eu e Percy nos entreolhamos. Algo estava errado.

– Poderíamos saber por quê? – perguntei.

– Nós funcionários não temos muito acesso em relação a esse tipo de informação, senhorita, desculpe-me. Mas parece ser um problema pessoal e familiar. Ainda assim, vocês podem se dirigir à central de atendimento.

Olhei para Percy e novamente ele retribuiu o olhar. Problema de família; tive a impulsiva vontade de perguntar se seria algum problema com filho que poderia ser considerado um louco perseguidor de jovens semideuses, mas obviamente não o fiz.

Apenas assentimos e agradecemos a mulher, voltando a se afastar.

– Ok – comentei – isso é um problema. Hipnos não está aqui por “problema de família”. Tenho certeza que deve ser relacionado a Morfeu ou algo do tipo, considerando que o mundo olimpiano inteiro está começando a se desestabilizar. Agora eu admito, Percy: não sei mais o que fazer.

Percy olhou para seu relógio de pulso.

– Já são uma e meia da tarde – disse ele. Levantei as sobrancelhas. Era difícil acreditar que ainda fora hoje que havíamos saído da casa de repouso, ou que todo esse lapso de tempo entre cada momento de sono controlado por Morfeu ocorreu apenas nesse período da manhã. Ou que meu aniversário fora no dia anterior e que os beijos de Percy também. Meu rosto esquentou ao pensar nisso novamente e ele franziu as sobrancelhas, não me entendendo. – Devíamos comer alguma coisa.

Concordei com um gesto de cabeça, ainda pensando na noite anterior e não conseguindo encontrar meu olhar com o dele.

Estávamos prestes a sair da loja de colchões quando encontramos Annabeth, Nico e Harry.

Ao finalmente nos encontrarmos, nós cinco momentaneamente paramos, estáticos, um em frente ao outro. Dentre toda Baltimore, qual era a probabilidade daquilo acontecer? Não podia ser coincidência, estava similar demais a quando encontrei Percy na livraria.

– Graças aos deuses! – exclamou Annabeth, correndo para abraçar a mim e Percy. Nico e Harry fizeram a mesma coisa. Uma sensação de alívio, misturada à descrença, apoderou meu corpo.

Os três explicaram o que aconteceu com cada um, desde que Morfeu nos separou pela primeira vez com os primeiros sonhos. Houve encontros, desencontros e reencontros no meio do caminho, todos permeados por pequenas pistas que apontavam a locais específicos ou referências a sonhos e areia, ou pela presença de um homem em específico sempre por perto – ora negro e careca, ora de cabelos castanhos e olhos azuis.

– Com toda essa insistência que as pistas diziam à areia, sono, papoulas e coisas do tipo, naturalmente uma hora ou outra acabaríamos por descobrir que se trata de Morfeu – completou Annabeth, ao finalizar sua história.

Saímos então da loja e fomos à praça de alimentação de um shopping próximo. Peguei um sanduíche natural com suco, mas a preocupação borbulhava meu estômago em demasiado, de modo que eu quase não conseguia comer.

– Tudo bem, Hermione? – perguntou Harry. Fiz que não com a cabeça; ele, Nico, Percy e Annabeth olharam-me com atenção. – Qual é o problema?

– Eu não sei, Harry, este é o problema – ele apenas levantou as sobrancelhas, fitando-me daquele jeito típico e levemente cético. – O jeito que nós estamos nos reencontrando, dessa forma totalmente acidental. Antes de ter encontrado Percy na livraria, eu estava pensando que seria quase impossível reencontrá-los, ou que pelo menos levaria muito tempo. Vocês sabem muito bem que Morfeu é capaz de dificultar as coisas. Então por que, agora que já há um intervalo de tempo maior desde a última vez que ele me fez acordar em um local aleatório, esses nossos reencontros parecem estar sendo tão... fáceis?

– Você tem razão – murmurou Nico. – Olhe o tamanho dessa cidade, olhe a quantidade de lugares diferentes que Morfeu poderia nos fazer acordar e nos separar.

– Talvez ele queira nos juntar – falei. – Não me surpreenderia se Ron e Thalia aparecessem do nada, agora.

Dez minutos depois, no máximo, ouvi uma voz familiar e masculina exclamar, ao longe:

– Por Merlin! Thalia, eles estão aqui!

Outra voz familiar, desta vez feminina, respondeu:

– O quê!? Como assim?

Passos frenéticos entre toda a movimentação de trouxas na praça de alimentação. Menos de meio minuto depois, um ruivo britânico e uma punk americana estavam a nossa frente. Olhei para Annabeth e suspirei. Era óbvio que eu estava feliz e aliviada pelo grupo inteiro agora estar junto novamente, mas não pude impedir aquela úlcera de preocupação de queimar meu interior.