Segredos Submersos

37 A Morte e suas terras: parte I


Notas iniciais
Um pouquinho menor. Resolvi dividir em duas partes, ou ia ficar muito extenso. Nesta primeira parte as coisas podem não estar tããão emocionantes, mas na próxima... ai ai ai. E eu estive fazendo umas contas e percebi que eu tenho que terminar essa fic antes que as aulas do ano que vem comecem (porque lá eu estarei no terceirão, e estudar e vestibular obviamente se tornarão prioridade e eu nunca terminarei essa fic se for para eu postá-la ano que vem...), e como ainda Hermione tem de enfrentar muita merda, vou tentar postar um capítulo por semana (mesmo com a pouquíssima quantidade de reviews recentes, hmpf).

– Então quer dizer que Morfeu conseguiu tirar Hipnos do nosso caminho e nós não vamos conseguir encontrá-lo para nos ajudar – disse Thalia, recapitulando tudo que eu acabara de explicar a ela e Ron, assim que havíamos encontrado-os.

– Provavelmente – disse Percy, sentado ao meu lado na mesa da praça de alimentação. – Não temos certeza; quer dizer, a mulher da loja não especificou qualquer razão para Hipnos não estar lá. Mas não pode ser coincidência, de qualquer forma... Hipnos ter saído por um “problema da família” justamente quando seu filho louco está nos controlando a ir em direção a um titã ainda mais louco que quer nos matar, e exatamente quando precisamos dele.

– Nos resta Tânatos, então? – perguntou Thalia. Assenti. – E como vamos achá-lo? Supondo que Morfeu não tenha feito ele se ausentar de alguma forma, claro.

Dei de ombros e nada falei. Eu não tinha a mínima ideia. Lancei um olhar a Annabeth, levantando as sobrancelhas, silenciosamente implorando-lhe para que soubesse uma forma de encontrá-lo.

E, pelos deuses, ela sabia.

– Bem – ela retirou um pequeno livro do bolso do casaco e abriu-o em cima da mesa. Eu e todo o grupo nos aproximamos para olhá-lo melhor. Era uma lista com diversos nomes de deuses e endereços escritos ao lado. Parecia a lista telefônica que eu a Percy havíamos comprado ao sairmos da livraria, só que manuscrita em uma caligrafia extremamente cuidadosa –, a coisa boa é que recebemos uma pequena ajuda em relação a isso.

Franzi o cenho e o restante de meus amigos se entreolharam. Annabeth continuou:

– Eu achei isso aqui quando acordei no banco de um parque, pouco tempo antes de dormir outra vez e acordar com você, Harry – ela brevemente tornou o olhar a ele. – E do meu lado, no banco, estava esse livro aqui. Intacto e perfeitamente posicionado, como se fosse exatamente para mim. Abri e acabei por encontrar uma das maiores maravilhas que um semideus poderia querer, uma lista com todos os endereços que quase todos os deuses e outras divindades podem ser encontrados aqui nos Estados Unidos.

Peguei o livrinho nas mãos, ainda sem falar nada. Observei lentamente os nomes das divindades na lista e os endereços de seus respectivos negócios. Estavam até dispostos em ordem alfabética. Folheei-o até a letra H; o endereço de Hipnos era de fato a loja de colchões que eu e Percy havíamos ido.

– Eu sei o que vocês vão dizer – falou Annabeth, ao ver que ninguém se pronunciara. – Que talvez tenha sido Morfeu que tenha deixado isso para montar uma armadilha. Mas eu acho que não... não conheço Morfeu antes de tudo, mas vocês não acham que seria uma armadilha tosca demais? Morfeu é inteligente demais para nos subestimar desse jeito.

Não pude evitar em concordar.

– E vocês também não estavam lá comigo quando eu encontrei o livro – continuou ela. Parecia frustrada; abriu e fechou a boca umas três vezes, incapaz de processar os pensamentos com a fala. Seus olhos cinzentos pareciam brilhantes. – Havia uma... coisa diferente lá. Não física, mas... no ar. E diferente de qualquer uma das sensações que Morfeu nos fazia sentir. Era uma coisa boa. Familiar e... aconchegante. Vocês podem achar que é loucura, mas eu tenho a impressão muito forte que foi Atena quem deixou isso para mim.

Houve um pouco mais de silêncio. Não fui capaz de me conter, ao ver a expressão – que mesclava uma certa incredulidade consigo mesma, confusão e gratificação (talvez ela se sentisse feliz pensando que a mãe ainda assistia-a em uma jornada tão cansativa quanto a que estávamos) – no rosto de Annabeth:

– Eu acredito em você.

Segurei sua mão. O rosto da filha de Atena esboçou um pequeno sorriso.

Nico tirou o livro de minhas mãos e passou a folheá-lo. Vi que suas mãos pararam em uma das páginas que correspondia à letra T. Ele mostrou a página para nós.

– Devemos procurar Tânatos agora ou quando?

– Sério mesmo que Tânatos é dono de uma funerária? – Ron pareceu roubar as palavras do grupo inteiro. Ele olhou para Nico, como se procurasse por uma explicação e como se este a soubesse pelo simples fato da morte e coisas parecidas serem parte de seu parentesco.

Nico simplesmente ergueu as mãos ao lado do corpo, em um silencioso gesto de “e eu ia saber?”

– Mas faz sentido – disse ele depois de um tempo. – Os deuses geralmente buscam ofícios entre os mortais que ainda sejam ligados, e Tânatos é a personificação da morte.

– Não faria mais sentido, sei lá, se Tânatos fosse um serial killer ou algo parecido? Ele não é o ceifador, no fim das contas?

Nico não respondeu, limitando-se a dar de ombros e voltando o olhar ao pequeno prédio a sua frente. Todos nós conseguíamos perfeitamente olhar a placa na porta de vidro que dizia “volto logo”. As luzes, porém, estavam apagadas e a construção inteira passava a impressão de que seu responsável não voltaria assim tão logo, pelo menos não o logo que eu esperava.

– Isso vai fazer alguma diferença? – perguntei e não esperei resposta. – Não vai, então não importa. A única coisa que está sendo importante aqui é o fato desse lugar estar fechado.

– E o que fazemos agora? – perguntou Harry. Seu olhar sugeria ir embora.

– Qualquer coisa menos ir embora – respondi. Harry respirou fundo e pendeu a cabeça para trás. – Tânatos é provavelmente nossa única esperança de saber que diabos Morfeu quer conosco. Precisamos encontrá-lo.

– Podemos esperar um pouco – disse Nico. Mas não muito, estava implícito em sua voz. – A morte nunca pode ficar ausente por muito tempo, não é? Talvez ele tenha ido almoçar.

Não pude deixar de evitar que um arrepio percorresse minhas costas e arrepiasse os pelos de minha nuca com o que Nico acabara de dizer. Por uma fração de segundo, uma memória do Acampamento, junto a um dos sonhos que Morfeu me forçara a ter – Rachel Elizabeth Dare sentada comigo à mesa na praia, seus olhos lampejando aquele brilho verde profetizante – passou por minha mente; a voz de Rachel alterada pelo Oráculo impregnou minha consciência.

Pela morte, dois irão partir

Para a fúria dos Deuses poderem impedir

– Hermione – a voz de Percy puxou-me novamente à realidade. Pisquei com força, atordoada. Seus olhos claros fitavam-me com certa preocupação, bem como meus outros amigos. – Você está bem?

Concordei com a cabeça, engolindo o bolo que subira à minha garganta.

– Estou – consegui responder. – Só um pouco assustada.

Esperamos por uns quinze minutos, parados na frente da construção, esperando por Tânatos.

Durante esse período, não pude deixar de estranhar a situação. Não sabia como acabaria vendo as coisas pelo ponto de vista do próprio Tânatos, por exemplo – se ele chegasse a tempo de encontrar sete adolescentes sentados no meio-fio em frente a sua funerária.

(O que não aconteceu)

Seria no mínimo esquisito.

– Ele não vai chegar – disse Thalia, impaciente. – Estamos parecendo um bando de idiotas. Não podemos tentar entrar para descobrir alguma coisa, se ele é a única esperança que temos?

Levantamos do chão. Thalia não deixava de ter razão. Percy se adiantou e girou a maçaneta da porta de vidro, sem sucesso.

– Trancada – disse. Lançou um olhar de expectativa para mim, Harry e Ron. – Vocês não poderiam?

– Não seria muito arriscado? – perguntou Harry. – Já estamos na fossa porque a personificação dos sonhos quer nos matar, ou nos sequestrar para nos levar a um titã que definitivamente vai nos matar. Não seria muito útil ter uma horda extra de monstros mitológicos também querendo nos matar pelo simples fato de termos dito um Alohomora.

– Você até estaria certo, Harry – falei –, mas não reparou que já faz algum tempo desde que os monstros nos atacaram pela última vez por termos usado magia? Desde que saímos da casa de repouso, para ser específica.

(Para mim, na verdade havia sido desde que William Wilson me sequestrara – de acordo com o que eu soubera, o rastro de magia presente havia fortemente atraído monstros para o grupo, enquanto eu estava em cativeiro por Pallas –, mas resolvi não entrar no assunto)

– Desde que Morfeu está nos controlando, não aconteceu mais isso, mesmo que usássemos nossas varinhas – continuei. – Eu tive de lutar com algumas Fúrias, mas não era por causa da magia que elas haviam vindo atrás de mim...

Não precisei nem terminar o relato, Ron já se adiantara e tirara a varinha do bolso.

– Alohomora! – com um estalo, a porta se destrancou.

Entreolhamos-nos e entramos.

O ambiente estava escurecido e causou-me arrepios assim que coloquei os pés dentro do estabelecimento. O chão era de um branco polido e as paredes eram nuas, trazendo a impressão de vazio e de frio. O teto baixo aparentava querer se fechar sobre mim. A sala em que estávamos era grande e no balcão de recepção à nossa frente não havia qualquer pessoa. Annabeth foi para atrás dele; revirou alguns papéis na mesa e começou a abrir gavetas.

– Será que há alguma coisa por aqui? – questionou.

Ninguém respondeu. Permaneci olhando o ambiente ao redor. Havia uma fila de caixões dispostos de pé em duas das paredes. Peguei a mim mesma pensando em quais seriam as duas pessoas de meu grupo que em pouco tempo estariam em caixões como esses

(pare de pensar nisso)

e comecei a andar em sua direção. Eram caixões bonitos, de madeira bem polida e a maioria possuía bom estofamento. Não pude deixar de erguer a mão para tocá-lo. Era macio e esse único toque fez-me lembrar de todos os mortos que eu já vira

(desde Cedrico a Dumbledore e Fred e Lupin e Tonks e Colin Creevey e tantos outros e Annabel Lee sendo consumida pelas chamas nas escadas)

e a lembrança foi tão grande e pareceu-me tanto como um soco na cara que minha mente demorou para perceber o alarme que havia começado a disparar na funerária, como um berro estridente e incessante contra intrusos, contra nós.

Por mais chocantes e vívidas as memórias tenham sido, minha mente já voltara à realidade – que estávamos ferrados e possivelmente encurralados dentro do território da própria Morte – quando os demônios negros, alados e de dentes rangentes resolveram aparecer.