Segredos Submersos

16 O início de novos desastres


Notas iniciais
EU NÃO MORRI, POR MAIS INCRÍVEL QUE PAREÇA. Minhas sinceras desculpas pela demora, mesmo :( Por isso, fiquem com um capítulo um pouquinho mais longo.

– Isso é mau – comentou Nico, engolindo em seco.

– Ah, não me diga – respondeu Thalia, sarcástica, mas ainda assim parecendo extremamente séria. Tornou seu olhar para Quíron, que estava coçando a barba com um ar de preocupação. – Quíron, o que você acha?

– Isso é definitivamente ruim – disse o centauro. – É melhor que vocês saiam para a missão o mais rápido possível, o que seria amanhã logo de manhã. Não temos muito tempo, e não podemos ficar nos atrasando. Vocês terão que arranjar um método de convencer aos Deuses a trazer Poseidon de volta.

– Calma aí – interrompeu Ron, surpreso. – Com a palavra “vocês”, você se refere a... nós?

– Sim, obviamente – quem respondeu foi Annabeth. – A profecia refere-se claramente a nós. Serão sete pessoas: Hermione, Percy, Thalia, Nico, você, Harry e eu, mas isso apenas se vocês me quiserem dentro da missão.

– Claro que queremos você dentro da missão! – exclamou Nico. Annabeth sorriu, parecendo agradecê-lo com os olhos.

– Ok, então já temos as sete pessoas – disse Percy. – A profecia diz que “nas mãos do tridente dois mundos terão de se atar”... esse tridente por acaso seria eu ou Hermione?

– Talvez – disse Annabeth. – Não sei se estou certa, mas provavelmente o tridente seria Hermione, considerando a parte dos “dois mundos”, que podem ser talvez o mundo olimpiano e o bruxo.

Suspirei ao ouvir as palavras de Annabeth, esfregando minha mão em meu rosto. Ótimo, pensei com sarcasmo. Isso melhora em muito as coisas.

– Sinto muito, Hermione, mesmo – Annabeth voltou a dizer, me encarando. Dei apenas um tapa no ar, querendo expressar indiferença. Mesmo assim, ela não tirou o olhar de mim por mais alguns instantes. Parecia até mesmo saber que por mais que por fora eu tentasse parecer confiante, por dentro havia a insegurança roendo meu estômago por completo.

– Não vale muito a pena ficar se lamentando por coisas que já aconteceram e que não há mais volta – falei, e minha voz pareceu soar mais aguda do que deveria. Annabeth assentiu levemente, desviando os olhos em direção ao chão. Engoli em seco, sem saber mais o que fazer. Graças aos céus Ron logo se pronunciou, permitindo que eu pudesse ficar quieta por alguns instantes:

– Eu só tenho uma dúvida – disse. – Sobre a profecia. A questão da morte de duas pessoas do grupo.

Todos pareceram prender a respiração por um segundo. Quíron crispou os lábios. Parecia preocupado e principalmente, por trás de suas feições gentis, cansado.

– As profecias feitas pelo Oráculo geralmente não têm nada de específico – disse ele. – E essa aqui parece ser ainda mais vaga do que as outras. A questão é que então é basicamente impossível ter uma ideia do que poderá acontecer, nem mesmo as ideias mais remotas.

– Ou seja – minha voz saiu embargada –, não tem como saber quem e quando tal pessoa irá morrer. Temos apenas de esperar pra ver.

Meu olhar passou de Quíron para Annabeth, logo depois voltando novamente a ele. Ambos apenas concordaram com a cabeça no exato instante que meus olhos deslocaram-se de um para o outro, confirmando todas minhas palavras.

Meu estômago pareceu revirar em horror. Meu olhar devia estar desesperado, ao julgar o modo em que tanto Quíron quanto Annabeth me encararam, parecendo preocupados.

– Eu sei que isso não é nada legal, Hermione – disse a filha de Atena, e seus olhos claros que apenas nesse pouco tempo em que havia passado em sua presença consegui julgar como calculistas e inteligentes, pareciam transbordar uma certa tristeza. – Mas não vale a pena ficar tentando desesperadamente resolver as profecias antes que elas aconteçam... é isso que geralmente leva missões a fracassarem.

– Ah... entendo – murmurei, assentindo e não conseguindo desviar o olhar de meus pés. Minha voz já parecia ser algo inexistente. Pigarreei, ainda sem conseguir olhar para ninguém e tentando juntar o mínimo das forças para conseguir pronunciar algo sem soar uma covarde (o que, obviamente, não deu certo): – Eu... é... desculpe.

E isso foi a única coisa que consegui dizer, antes de abrir passagem por entre o grupo e sair correndo, sozinha, em direção ao chalé.

Muito bem, Hermione. Como você é corajosa, a ponto de abandoná-los para isolar-se no seu canto e lamentar por sua vida feito uma bebê.

Meu lado otimista não conseguiu nem ao menos juntar um pensamento bom para revidar.

E pensar que algum dia eu já fora posta na Grifinória.

Assim que cheguei no chalé, sentei na beirada da cama e imediatamente enterrei o rosto nas mãos, apoiando os braços em meus próprios joelhos e grunhindo de frustração.

Tinha vontade de berrar e espernear, mas não os fiz. Tinha vontade de desabar no choro, mas também não o fiz. Por mais que eu sentisse meus olhos começarem a arder e lacrimejar, meu corpo parecia ter algum mecanismo idiota que me impossibilitava de derrubar essas lágrimas, o que me frustrava ainda mais.

Suspirei profundamente e tirei minhas mãos do rosto. Meu olhar ainda se projetava para o chão, não tendo um foco específico. Minha vida agora parecia muito pior do que qualquer um dos anos em que vivi em Hogwarts. Era tão bizarro que tudo isso estivesse acontecendo. Parecia ter passado séculos desde a última vez em que havia deitado em minha cama lá no dormitório das garotas da Grifinória, mas na realidade isto havia acontecido ainda ontem à noite.

Céus. Será que eu nunca teria uma vida que fosse ao menos próxima do normal?

Ah, é. Que pergunta idiota.

Alguns minutos mais tarde, pude ouvir o barulho de passos vindos lá de fora em direção ao chalé. Conforme a pessoa parecia se aproximar o ruído aumentava, até o momento em que Percy apareceu em meu campo de visão, parado junto a porta. Ele ofegava um pouco e as maçãs de seu rosto estavam levemente coradas, como se tivesse corrido.

– Hermione...

– Sim? – tentei ao máximo não soar como se estivesse próxima a chorar e entrar em desespero. Deveria manter a calma e mostrar-me forte; não gostaria de ver todo o resto do grupo ter a impressão de eu ser uma pessoa imatura e fraca, principalmente Percy. Pelo que Annabeth me contara sobre suas antigas aventuras ao me apresentar o Acampamento, ele era (e ainda devia ser) tão corajoso quanto Harry. Não queria mostrar sinais de fraqueza, portanto.

– Você está bem?

– Por que eu não estaria?

Ele encolheu os ombros, ao passo que entrava no chalé e sentava ao meu lado na cama.

– Talvez pelo jeito em que você saiu da Casa Grande...

– Ah sim... isso – foi o que minha voz conseguiu pronunciar, baixinho. Olhei para meus pés. Meus sapatos estavam horrivelmente sujos. Senti uma das mãos de Percy afagar meus ombros, o que provocou um estranho arrepio em minha coluna. — Eu... hã... olhe, Percy, eu sinto muito. Não queria ter saído de modo tão brusco e parecer tão... infantil.

Percy deixou um pequeno riso escapar de seus lábios.

– Não precisa se desculpar, e de modo algum você está sendo infantil. Sabemos bem como essas profecias são complicadas e como todo esse negócio de tentar salvar o mundo é difícil.

– Eu sei, eu sei... – falei, já cansada de que eles sempre repetissem isso. – Vocês podem repetir essa mesma coisa o quanto quiserem, mas a questão é que apenas as suas palavras não irão me fazer sentir menos culpada. É inevitável.

Ele pareceu ficar um tanto desconcertado com minhas palavras e me arrependi imediatamente de ter dito tal coisa. Todo o grupo estava apenas tentando me ajudar, afinal, e a cada minuto que passava eu parecia agir de modo cada vez mais infantil do que antes.

– Tudo bem – disse Percy. – Entendo. Quer que façamos o quê, então? Que te deixemos sozinha, para pensar um pouco?

– Não! – minha voz saiu mais alta e urgente do que deveria, quando Percy já estava se levantando e prestes a sair. Ele parou, talvez surpreso por eu ter respondido de modo tão brusco. Tentei controlar meu próprio tom. – Você não precisa sair...

Senti meu rosto esquentar por algum motivo, ao mesmo tempo em que Percy voltava a se sentar na cama, assentindo.

– Ok – disse ele. – Eu fico se você quiser. É só que nós não devemos demorar muito aqui... o resto do grupo ficou preocupado com você e provavelmente querem que voltemos logo, ainda mais que devemos sair aqui do Acampamento logo pela manhã para realizarmos a missão.

– Amanhã de manhã? Já? – Por mais que Quíron já tivesse dito que sairíamos nesse período de tempo, só agora a ficha parecia ter caído em minha cabeça.

– Sim, as missões aqui sempre são rápidas. Geralmente não demoram mais de uma semana por serem coisas sempre muito urgentes.

Concordei com a cabeça e engoli a bile que subia por minha garganta. Acredito que meu rosto devia estar expressando o mais puro horror, pelo modo em que Percy olhou para mim, para logo depois aproximar-se com um suspiro e puxar-me em um abraço tímido mas apertado.

Ok. Isso era meio estranho. Mesmo assim, aos poucos meu corpo relaxou e me permitiu a enlaçar meus braços ao redor de seus ombros.

– Não se preocupe, Hermione – murmurou em meu pescoço, fazendo os pelos de minha nuca eriçarem. – Vai dar tudo certo.

– Eu só espero.

No outro dia, o céu amanheceu nublado. Parecia que até o clima sabia que estaríamos prestes a entrar em perigo.

Isso honestamente não melhorava em nada as coisas.

Logo cedo eu já estava sentada em uma das mesas do pavilhão de refeições. Meus dedos tamborilavam na madeira, criando um ruído incrivelmente irritante e impossível de parar. Minhas pernas pareciam geleia por baixo da mesa e meus olhos apenas encaravam a tigela cheia de cereal – trazida diretamente a mim pelas meninas filhas de Deméter (ajudaria a me acalmar, disseram elas) – intocada em minha frente. Eu não conseguia nem pegar direito a colher, de tanto que minhas mãos tremiam. O leite já devia até ter amolecido os grãos.

– Hermione, pare com isso – disse Harry, sentado a minha frente, dando uma leve pisada em meu pé com o objetivo de parar a tremedeira em minhas pernas.

Respirei fundo, endireitando excessivamente minhas costas afim de deixá-las eretas enquanto minhas feições provavelmente adquiriam uma expressão grotesca de nervosismo.

– Desculpe – sussurrei ao voltar a expirar. – Acho que estou um pouco nervosa.

Harry arqueou uma sobrancelha, sarcástico. Dei-lhe um olhar de repreensão, fazendo-o voltar os olhos novamente a seu café da manhã, e tornei a observar o resto do salão de modo ansioso – mas desta vez, tentando fazer com que minhas pernas não tremessem tanto.

Era só uma questão de tempo até que saíssemos do Acampamento para começarmos a missão. Deveríamos apenas terminar de tomar o café da manhã, arrumar nossas coisas e já iniciaríamos nossa viagem.

Levou em média meia hora até que eu resolvesse parar de tremer tanto as mãos e as pernas – para a alegria de Harry – e finalmente comesse o cereal em minha frente. Nesse meio tempo, Ron, Thalia, Annabeth, Percy e Nico apareceram em nossa mesa, todos já prontos.

– Já estão prontos? – perguntou Annabeth, assim que eu e Harry terminamos de comer. Assenti com uma careta; meu estômago se revirou por um segundo. – Tudo bem, então. Vamos!

Levantamos e fomos em silêncio até a Casa Grande, onde Quíron e possivelmente Rachel estariam. O clima estava pesado no ar, e nenhum de nós abriu a boca nesse espaço de tempo. Apenas sentíamos os olhares dos outros campistas grudados em nossas costas conforme passávamos.

Assim que chegamos lá, Quíron sorriu levemente ao nos receber. Por mais que se esforçasse a sorrir, seus olhos continuavam a mostrar sinais de cansaço. Não deveria ser fácil viver por toda uma história e treinar tantos heróis ao longo dos séculos, apenas para ver muitos deles entrarem e caírem em batalha, como um ciclo sem fim. Por um momento todo esse meu nervosismo pela missão pareceu se dissipar.

– Olhem – começou ele, já sendo direto. – A profecia feita por Rachel ainda é algo muito vago, como já lhes disse. Por isso, é necessário que vocês tomem cuidado redobrado durante a missão, já que é provável que vocês sejam pegos de surpresa muito mais facilmente do que se tivéssemos uma profecia melhor detalhada.

Assentimos todos, esperando que Quíron continuasse a nos dar maiores detalhes sobre o que poderíamos fazer para sucedermos na jornada. Ele não continuou.

– Ok... – disse Ron. – É só isso que você tem a nos dizer?

– Ah sim, lembrem-se de aparatarem e usarem mágica o mínimo possível. É preferível que vocês as usem apenas em situações de extrema urgência.

– Por quê? – perguntou Harry.

– Porque esse simples ato seria quase como um chamado de banquete para os monstros, considerando o fato de Hermione ter tanto sangue bruxo quanto olimpiano, o que a tornaria o prato principal por ser fonte de tanto poder. – Cocei a nuca, desconfortada, e olhei para a pequena faca de bronze celestial em minhas mãos que Annabeth me dera hoje cedo, antes do café da manhã. Harry recebera uma espécie de lança e Ron uma espada. Ambos apertavam os cabos de seus objetos com força, cerrando os punhos. Era óbvio que tal notícia os deixara contrariados. Mesmo assim, concordaram com as instruções de Quíron, bem como eu. – É só isso. A única coisa a mais que posso lhes dizer é... bem, boa sorte. Estaremos esperando por vocês aqui.

Murmuramos um “ok” e assim, sem ter muitas esperanças e convicções, subimos o morro do pinheiro de Thalia e embarcamos em nossa mais nova tentativa de salvar o mundo.

Havíamos já passado pelo pinheiro e descíamos a colina, quando olhei para trás em direção ao Acampamento. Ainda era possível vê-lo, mas de maneira borrada e confusa. Por mais que algumas partes estivessem visíveis, parecia que algo em minha cabeça as forçavam a parecer distantes e inalcançáveis. A Névoa era, de fato, bem poderosa.

– Temos algum plano, então? – Thalia quebrou o silêncio momentâneo. – Annabeth?

Esta última suspirou.

– Eu esperava que nós conseguíssemos aparatar até Manhattan, pelo menos – disse. – Mas agora que Harry, Ron e Hermione não devem usar a magia de modo tão imprudente, é melhor que peguemos algum ônibus até chegarmos lá. E quando isso acontecer, vamos diretamente até o Olimpo tentar pelo menos falar com os deuses.

Todos nós nos entreolhamos, não tendo muita certeza se seria ou não uma boa ideia.

– É a coisa mais prudente a se fazer – continuou Annabeth, ao ver nossos olhares não muito esperançosos. – Ou vocês tem alguma outra ideia? Sabem que não podemos ficar nos complicando tanto.

Entreolhamos-nos novamente.

– Acho que você tem razão – falei, não muito animada. – E essa é a mínima de nossas preocupações por enquanto, temos apenas de garantir que chegaremos lá de alguma forma.

– E nós vamos – disse Thalia em forma de encorajamento. Apenas fiz que “sim” com a cabeça, dando-lhe um leve sorriso. A líder das Caçadoras de Ártemis retribuiu o gesto e deu uma palmada em minhas costas.

Continuamos todos a andar, agora não tão tensos igual a antes e discutindo possíveis estratégias para caso acontecesse um imprevisto – o que provavelmente iria acontecer mais para frente. Chegamos a uma estrada, que tinha um pequeno e mal cuidado ponto de ônibus em sua beirada. Ficamos ali até que chegasse nosso ônibus desejado.

Ainda não eram nem onze horas da manhã, mas as nuvens estavam tão escuras e carregadas que já aparentavam ser seis da tarde. Um clarão de raio pareceu cortar o céu, seguido por um trovão.

– O clima parece piorar a cada instante – disse Nico, ao mesmo tempo que lentas e grossas gotas de chuva começavam a manchar o asfalto. – A situação entre os deuses não deve estar nada boa.

– E é por isso que não podemos ficar enrolando – falou Annabeth, franzindo o cenho ao observar a tempestade prestes a cair.

Quase segundos depois de fazer tal observação, o ônibus que esperávamos chegou e parou em frente ao ponto. Embarcamos, e ao entrar pude ver como o ônibus estava cheio. Praticamente todos os assentos estavam ocupados, com exceção de alguns aqui e ali, o que nos forçou a sentarmos todos separados.

Acomodei-me ao lado de uma garotinha acompanhada de uma senhora, que devia ser sua avó. Olhei involuntariamente para trás, em direção a pessoa de meu grupo que estava mais próxima de mim. Era Percy, que se sentava na terceira fileira para trás. Ao encontrar meus olhos, assentiu de leve e crispou os lábios. Era como se dissesse “não se preocupe”, ou pelo menos era o que eu queria acreditar que fosse.

Voltei a sentar-me corretamente e apoiei meu rosto contra a janela fria do ônibus. A chuva que agora já se tornara uma pesada tempestade batia contra o vidro com força. O ruído das gotas era tão alto que parecia que o mundo estava prestes a cair; o cenário visto por fora da janela era borrado e pouco nítido. Tirando as péssimas condições climáticas, os primeiros quinze minutos da viagem passou tranquilamente e sem qualquer problemas.

A coisa só ficou feia quando estávamos prestes a chegar em nosso destino.

Lembro de ainda estar sentada, observando pelo canto do olho a menininha ao meu lado brincar com uma boneca e chamando constantemente a atenção da avó para coisas que ao nosso olhar podem ser irrelevantes, mas que para uma criança eram grandes surpresas e fontes de intermináveis perguntas a respeito. Ela era uma graça, não devia ter mais do que sete anos. E foi com ela puxando a blusa da avó para apontar algo aparentemente curioso que comecei a notar o primeiro problema: a luz do ônibus começara a tremeluzir e fraquejar.

Menos de dois minutos depois, a lâmpada cedeu e a luz se apagou, deixando a todos no escuro. Murmúrios começaram a brotar entre os passageiros, sobre o que poderia estar causando isso. Mas de alguma maneira isso não realmente me importava... o que era mais estranho para mim era o fato de a simples falha da luz ter feito a temperatura cair tanto (o que é algo que em circunstâncias normais não faz nenhum sentido). O ambiente de repente ficara extremamente gelado, podia-se ver tanto o vapor saindo de minha própria boca quanto o ar condensando-se nos vidros. O ônibus parou de andar.

Olhei para os lados e encontrei ambos os olhares de Harry e Ron em direção a mim. Eles provavelmente pensavam a mesma coisa do que eu, estavam com a mesma impressão do que poderia estar ocorrendo; mas ao julgar seus cenhos e sobrancelhas franzidas, também achavam aquilo estranho e familiar demais para estar acontecendo... o frio, a sensação de impotência e solidão, como se nunca mais pudéssemos ser felizes novamente...

Não seria possível. Seria?

Os murmúrios aumentavam, as pessoas agora comentavam umas as outras sobre como estavam agora com uma sensação esquisita e inexplicável em seus peitos. Por mais que houvessem o barulho dos comentários dos passageiros e das gotas de chuva batendo no chão, toda aquela situação ainda parecia silenciosa demais para mim.

Mas em uma fração de segundo, esse “silêncio” foi cortado. Justamente pela buzina do caminhão que estaria prestes a colidir conosco, aproveitando também para lançar o ônibus em que estávamos para fora da estrada e fazê-lo tombar em direção ao chão.

E isso tudo ocorreu em questão de minutos. Quando me dei conta do que estava acontecendo, mais da metade dos passageiros jaziam inconscientes no chão agora salpicado de sangue, chuva e cacos de vidro. Tentei levantar, mas algo — um dos bancos do ônibus — parecia prender minha perna. A chuva continuava pesada e me encharcava completamente, grudando meu cabelo no corte de meu rosto causado por um dos pedaços da janela.

Consegui libertar-me e sair do ônibus tombado, mas foi só aí que percebi o quanto a situação estava caótica. O desespero tomava conta de tudo, alguns dos passageiros que conseguiram sair sem se ferir berravam e choravam. Outros – que graças aos céus incluíam todo meu grupo – tentavam ajudar a tirar os que estavam presos.

Fui correndo até eles, mas antes que pudesse fazer qualquer coisa meus joelhos amoleceram. A sensação de fraqueza se apoderava cada vez mais de mim, junto com o sentimento de todas as coisas boas parecerem estar sendo sugadas da face da Terra. Muitos dos mortais ali pareceram enfraquecer de repente e cair no chão, todos desmaiando.

E isso não era para menos.

Ao tornar a olhar para trás, a única coisa que pude ver por entre todo o cenário borrado pela tempestade era a legião de dementadores que agora avançavam para nós.