Segredos Submersos

17 Beijos na tempestade


Notas iniciais
Espero que gostem.

Isso era definitivamente ruim.

Por mais que estivesse sentindo-me fraca e acabada, tentei me levantar. A chuva parecia ficar pior e mais pesada a cada minuto que se passava, borrando todo o cenário a minha frente.

O grupo de dementadores continuava avançando em nossa direção. Atacavam continuamente qualquer pessoa que estivesse em seu caminho, fazendo-as caírem delirantes e enlouquecidas no chão, e sugando todos os sentimentos bons que existiam dentro de suas almas.

Praticamente arrastando-me pelo asfalto, tentei alcançar meu grupo que estava um pouco mais a frente, até que um vulto parou em minha frente e pegou minha mão, ajudando-me a levantar.

– Hermione, o que está acontecendo? – reconheci a voz de Nico ao meu lado. – Quer dizer, além do fato da tempestade estar ainda pior e de termos acabado de sofrer um acidente de ônibus.

– Consegue vê-los? – perguntei, quase gritando, enquanto Nico me ajudava a andar. Minha perna doía. – Os dementadores?

– Dementa... o quê!? Seja o que seja, não, não consigo vê-los. Mas acho que os sinto... o clima parece ter esfriado demais, mesmo com toda essa chuva. Sem mencionar essa sensação estranha... solidão, como se a felicidade estivesse se vaporizando.

Era incrível como Nico parecia estranhamente calmo, mesmo dentro de todo esse caos. Gostaria às vezes de ser como ele, em momentos como esse quando a situação era desesperadora demais para conseguir produzir um pensamento coerente.

– Sim, exatamente! São criaturas que se alimentam por meio dos pensamentos bons das pessoas, eles gostam de sugar qualquer sentimento bom em seu corpo até o momento em que você fique com a alma completamente vazia – gritei, tentando fazer com que meu tom de voz fosse mais alto que as rajadas de vento que assoviavam por meus ouvidos.

Segurei o filho de Hades pelos ombros para poder encará-lo diretamente nos olhos. Minhas próximas palavras saíram como uma cachoeira de minha boca; não podia demorar muito apenas para deixar Nico a par de tudo o que estava acontecendo enquanto os dementadores persistiam a atacar os trouxas.

– Escute, Nico – exclamei. – Ninguém aqui além de eu, Harry e Ron consegue ver os dementadores, o que torna as coisas bem piores já que eles conseguem ser muito perigosos e o único método de afastá-los é com magia. Portanto, apenas tente ajudar os mortais feridos para que eles possam ir a um lugar mais seguro e prepare-se porque provavelmente as coisas irão piorar. Só... chame Ron e Harry para me ajudar!

Nico não disse mais nada, muito menos parou para contemplar o que seriam essas “coisas que iriam piorar”; apenas assentiu e saiu correndo em direção do resto do grupo que agora pareciam ajudar a tirar uma garota das ferrugens do ônibus. A tempestade piorava a cada instante.

Meio minuto depois Harry e Ron apareceram ao meu lado, ambos encharcados e tentando (não que tenha dado muito certo) manter a compostura.

– O lado bom é que os trouxas estão mais desesperados é pelo acidente do que pelos dementadores – comentou Harry, gritando também, já brandindo sua varinha. – No meio de toda essa confusão e da chuva, a maioria das pessoas nem deve ter percebido que o clima esfriou por causa deles.

– Exceto aqueles que chegaram a ser atacados por esses dementadores – completou Ron.

– Obviamente – falei. – Tudo bem que Quíron disse para usarmos mágica o mínimo possível e apenas em situações extremas. E por mais que eu não queira usá-la agora, todos nós podemos admitir que essa aqui é uma situação extrema, não?

Os garotos apenas engoliram em seco e assentiram em resposta.

Não ficamos mais conversando sobre o que seria melhor a fazer; tateei por minha varinha em meu bolso para logo correr o mais rápido possível (pelo menos o mais rápido que minha perna machucada aguentaria) em direção aos dementadores.

Meus primeiros alvos foram três dos menores, enquanto Harry e Ron avançavam para os outros. Estes três estavam debruçados sobre um pequeno vulto deitado no chão, cujo corpo se contorcia. Ao me aproximar, perceberam minha presença e tornaram suas cabeças cobertas pelos capuzes em minha direção.

De algum modo o ar ficou mais pesado, parecia estar mais difícil de respirar; a chuva engrossava e me encharcava até os ossos e o vento ficou mais frio. A sensação de fraqueza nos joelhos aumentou, tentei me concentrar em uma boa lembrança.

Centenas de imagens de memórias passadas atravessaram por minha mente, especialmente as dos bons momentos. Escolhi especialmente a lembrança de alguns meses atrás, quando havíamos acabado de derrotar Voldemort e os Comensais na Batalha de Hogwarts.

– Expecto Patronum!

Aquele familiar feixe de luz prateada saiu de minha varinha e imediatamente repeliu meus alvos. De qualquer modo, a pessoa que fora atacada por eles ainda permanecia no chão, deitada. Corri em sua direção, e meu peito pareceu receber uma pontada aguda ao ver quem era a vítima.

Era aquela menininha, que junto da avó estava sentada ao lado de mim no ônibus.

Seu corpo pequeno jazia no asfalto. Sua pele estava absurdamente pálida; seus lábios secos, arroxeados e inchados. Suas longas madeixas escuras e agora encharcadas pela chuva criavam um contraste assustador com sua palidez doentia, dando-lhe um aspecto fantasmagórico. Estava viva, ainda assim. Os olhos escuros se direcionavam a mim, piscando uma vez ou outra, por mais que seu olhar estivesse vago e não parecesse de certo modo estar me encarando; era como se estivesse observando algo invisível por trás de meu ser.

Nunca pensei que algum dia chegaria a ver uma vítima do beijo.

Peguei-a e a abracei fortemente, apertando seu corpo contra o meu. Ela não retribuiu o gesto. Claramente ela sabia que alguém a abraçava, mas não devia sentir absolutamente nada por dentro. Nenhuma emoção, nenhum sentimento.

Por meio de toda a tempestade, o clima pareceu esfriar de novo. Dois outros dementadores vinham por trás de mim. Pude ver, ao fundo, Harry e Ron lutando contra uma outra legião dessas criaturas, aparentemente em grande vantagem. Apertei mais o corpo da garota contra o meu, como numa tentativa de protegê-la.

– Expecto Patronum!

Os dois foram imediatamente derrotados. A tempestade começou a diminuir, e cinco minutos depois o que caía do céu era apenas uma leve mas contínua chuva. Olhei ao redor, não havia mais qualquer rastro dos dementadores. Apesar de ainda estar nublado, o céu agora voltava a clarear e o acidente com o caminhão não parecia estar assim tão caótico. Não como antes, pelo menos.

Permaneci no mesmo lugar, ajoelhada no asfalto, com o corpo frio desprovido de alma da garotinha ainda em meus braços. Ela piscava debilmente e sua respiração estava fraca. Não havia sinal algum de onde sua avó poderia estar.

– Hermione – senti uma mão tocar meu ombro, e ao desviar o olhar da criança deparei-me com Ron. Harry vinha logo atrás; trazendo Percy, Nico, Thalia e Annabeth. Seus olhos rapidamente dirigiram-se à garota em meus braços.

– Dementador... beijo... – foram as únicas palavras que conseguiram sair de minha boca. Os olhos de Ron arregalaram-se e sua boca abriu e fechou por umas três vezes, como se quisesse dizer algo mas as palavras estivessem presas.

– Você... – falou finalmente, gaguejando e tropeçando nas frases. – Hermione... você... sabe que não há nada que possamos fazer por essa garota, certo?

Eu apenas assenti, encarando o chão molhado. Não conseguia mais olhar para a menina, era quase como se eu sentisse dor se fizesse aquilo. Por maiores os perigos que eu já havia passado por minha vida inteira, todos os meus problemas pareciam fúteis se comparados ao dessa garotinha, tão jovem e já destinada a vagar sem rumo pelo mundo até o momento em que finalmente pereceria, sem nem perceber o que estaria acontecendo ao seu redor. Teria sido até melhor se os dementadores a tivessem matado; pelo menos aliviaria seu sofrimento.

– Olha, eu não sei o que está acontecendo – disse Thalia ao se aproximar. – Mas... já ajudamos alguns dos feridos a chamarem ambulâncias. Se realmente não há nada que possamos fazer para ajudar essa criança, é até melhor a deixarmos aqui. Os médicos pelo menos tentarão ajudar e talvez até inventem uma desculpa de doença que possa fazer sentido aos mortais.

Concordei com a cabeça novamente, sem falar nada. Harry adiantou-se e pegou a menina de meus braços, possivelmente para levá-la junto aos outros machucados que estavam a espera de socorro. Annabeth estendeu as mãos e me ajudou a levantar.

– Tudo bem – ela disse. – Os nossos problemas aqui já acabaram e já estamos quase chegando. É melhor continuarmos a ir em frente antes que... mais problemas possam acontecer.

Annabeth não citou quais seriam esses problemas, mas seu olhar apreensivo denunciava o que estava implícito: monstros, criaturas, ou qualquer outra coisa que pudesse continuar a nos atrasar. Ainda mais que eu, Harry e Ron tivéssemos acabado de usar em excesso a magia, o que provavelmente iria trazer alguns monstros para cá caso ficássemos perdendo tempo. Olhei em meu relógio; já haviam se passado duas horas, por mais que parecesse ter sido muito menos.

Fomos todos em direção ao que restava do ônibus, pegamos nossos pertences no meio de toda a sujeira e continuamos o nosso caminho rumo ao Olimpo. Desta vez, a pé e evitando ao máximo o uso de feitiços.

Já estávamos na Quinta Avenida. Um pouco mais à frente, era possível ver a entrada do Empire State.

A caminhada havia sido produtiva. Devíamos ter gasto no máximo uma hora, o que fazia agora ser três da tarde. O plano era tentar ser o mais rápido possível para falar com os Deuses e depois iríamos fazer um lanche em algum lugar qualquer para discutirmos o que iríamos fazer posteriormente, já que todos nós tínhamos quase certeza que os olimpianos não aceitariam de primeira e provavelmente teríamos que fazer algo a mais para completar a missão.

Harry, Ron e eu havíamos dado um breve sumário ao grupo sobre o que havia acontecido no acidente com o ônibus; explicamos sobre o que eram os dementadores, o que eles faziam e o que haviam causado àquela garota.

– A única coisa que nós ainda não entendemos – falei –, é como que eles podem ter aparecido assim, do nada, agora. Pensávamos que com a queda de Voldemort – graças aos céus que pelo menos, em sua curta estadia em Hogwarts, eles haviam aprendido um pouco sobre o que acontecera nos últimos anos. Menos Annabeth, claro, mas ela também parecia ter estudado sobre os bruxos no Acampamento –, o número de dementadores tinha diminuído...

– O que realmente aconteceu – completou Ron.

– ... Ainda mais que Azkaban agora mudou o sistema de segurança e eles estejam tentando diminuir o número de dementadores o máximo possível.

Nenhum deles se manifestou. Estavam nos escutando, mas limitaram-se apenas a assentir com os cenhos franzidos. Voltei a tomar a palavra:

– Cheguei a pensar que talvez eles estejam voltando devido a tudo o que está acontecendo... quer dizer, por mais que o mundo bruxo e olimpiano sejam aparentemente distintos, antigamente haviam laços entre eles, certo? – E foram esses laços que levaram à posterior guerra entre ambas e que formou o acordo que diz não ser mais permitido qualquer relação entre esses dois mundos, pensei. – E após passarem tanto tempo isolados um do outro, agora estão voltando a se colidir com o exílio de Poseidon. Talvez... talvez seja por isso que tanto criaturas bruxas (como os dementadores) quanto criaturas gregas estejam voltando.

– Mas por enquanto os bruxos por si mesmos ainda não sabem do que está acontecendo por aqui – disse Nico de repente. – Nem mesmo os próprios semideuses sabem direito, felizmente o assunto ainda não parece ter se espalhado com muita força fora do Olimpo.

– Como sabe disso? – perguntei.

– Acho que eu sentiria caso todos soubessem que há uma bruxa filha de Poseidon andando por aí – Nico deu de ombros e meus lábios involuntariamente crisparam-se ao ouvi-lo referir a mim daquele modo. Soava estranho. – Quer dizer, devido a toda essa rivalidade ainda presente, creio que o número de conflitos e mortes aumentariam, e muito.

Já passávamos pela entrada do edifício. Ninguém se atreveu a dizer mais nada, mas sabíamos que tudo o que Nico dizia era algo temporário. Os bruxos – e também grande maioria das pessoas relacionadas aos olimpianos – não sabiam sobre o que estava acontecendo, ainda. Era só uma questão de tempo para que a história se espalhasse e tudo se tornar um caos.

– Seiscentésimo andar – murmurou Percy ao porteiro, assim que chegamos na recepção.

– Não há um seiscentésimo andar, garoto.

Ouvi Thalia bufar próxima de mim. Olhei para ela, com as sobrancelhas levantadas e reprimindo um sorrisinho que escapava de meus lábios. “Regras de segurança, blá blá blá” disse baixinho em meu ouvido, revirando os olhos.

– Ah, por favor – disse Percy, impaciente. – Você sabe muito bem que há sim esse andar, e aqui somos um grupo de sete semideuses – Harry e Ron se entreolharam ao se verem incluídos no grupo – precisando tratar de um assunto muito importante com os Deuses.

– Tudo bem – o porteiro suspirou. – Podem pegar o elevador e subir. Só não fiquem desapontados quando lá em cima não encontrarem o que precisam.

Franzimos todos o cenho, porém não nos importamos muito. Fomos até o elevador e Annabeth apertou vários dos botões, até que a porta finalmente se fechou e agora nos encaminhávamos diretamente ao Monte Olimpo.

Apenas alguns minutos depois, a porta do elevador tornou-se a abrir. O lugar era estonteante. Tanto eu quanto Harry e Ron ficamos impressionados, mesmo que eu já tivesse passado por ali em meu sonho. Não permanecemos apenas apreciando o que tinha ao nosso redor, ao contrário, tivemos de apressar o passo para acompanhar o resto do grupo, que agora já estavam mais à frente.

Chegamos finalmente ao lugar que permanecia mais ao fundo. Era um salão gigante, com toda sua construção ornada como na Antiguidade grega e com vários tronos enormes posicionados em um semicírculo. Era exatamente como eu havia sonhado.

Exceto que havia uma única diferença: o salão estava vazio. Nenhum trono estava ocupado, nenhum deus gigante estava ali. Como iríamos convencê-los a tirar Poseidon do exílio se não havia ninguém para fazê-lo?

– Acho que o porteiro estava certo – comentou Harry.

– Você acha? – disse Percy, até sarcástico, mas logo depois pareceu ver algo a mais e aquietou-se. Foi andando em direção a um dos cantos do salão, junto de Nico, onde agora era perceptível ver uma pequena fogueira acesa.

Resolvemos segui-los, e ao nos aproximarmos percebi que havia uma garota ajoelhada por trás do fogareiro, como se quisesse se aquecer com as chamas. Seus cabelos eram castanhos, seus olhos eram de um belo mas ao mesmo tempo assustador tom de vermelho e não aparentava ter mais de dez anos. Percy e Nico lhe fizeram uma breve reverência, então achamos melhor fazê-la também.

– Lady Héstia – voltou a dizer Percy.

– Percy Jackson, Nico di Angelo – respondeu. Ela estalou os dedos e uma grande cesta de piquenique apareceu ao seu lado. – Que bom que vieram aqui. Sentem-se todos, devem estar com fome.


Notas finais
Capítulo um pouco mais curto, mas pelo menos eu não demorei tanto assim dessa vez... espero a partir de agora manter um ritmo de postagem mais controlado como esse. :)