Segredos Submersos

19 George estava errado / Quase viramos panqueca


Notas iniciais
Posso ser péssima com cenas de ação, mas esse capítulo foi mais divertido de escrever. (Espero que vocês gostem de Beatles)

Foi basicamente aí que as coisas passaram a dar errado.

Outra vez.

Acho que eu devia calar a boca quando tivesse a impressão que as coisas finalmente dariam certo. A verdade é que elas não dariam.

Com o plano feito e um destino traçado (Filadélfia, Pensilvânia – sabíamos que havíamos de chegar lá, mas não tínhamos ideia do que fazer quando chegássemos), rapidamente encontramos um lugar com um carro decente para alugar. O atendente franziu o cenho ao ver sete adolescentes afobados querendo um carro, mas logo depois nos atendeu normalmente. Talvez a princípio tenha se perguntado onde estariam nossos pais ou se éramos delinquentes prestes a sequestrar todas as pessoas que estavam lá.

De qualquer modo, conseguimos o carro, de forma que após uns quarenta e cinco minutos já estávamos colocando o pé na estrada. Percy ia dirigindo, Annabeth ia no banco de carona e eu, Harry, Ron, Thalia e Nico nos espremíamos no banco traseiro.

– A viagem vai levar umas seis, sete horas – disse Percy, olhando-nos pelo espelho retrovisor. – Vocês não vão ficar muito desconfortáveis aí atrás?

– Provavelmente sim – eu disse, espremida entre Thalia e uma das portas. – Mas acho que a gente consegue.

– Podemos fazer uma parada no meio da viagem e fazer uma troca dos lugares – disse Annabeth. – O que acham?

Nós cinco murmuramos apenas um “pode ser”.

A viagem, a princípio, correu normalmente. Mesmo espremidos, pudemos nos divertir bastante e falar sobre coisas que não fossem apenas sobre o que deveríamos fazer para salvar o mundo. Por alguns instantes, pelo menos, fomos capazes de tirar todo aquele peso das costas.

Os semideuses contaram as histórias do Acampamento, tudo que lhes aconteceu nos anos anteriores; enquanto isso, eu, Harry e Ron contamos o que nos aconteceu nos anos anteriores. Eles provavelmente sabiam de algumas coisas devido à pequena estadia em Hogwarts, mas ainda assim pareciam curiosos. Era até divertido saber que, enquanto nós três sofríamos com nossas aventuras por todo esse tempo, eles estavam em um outro lado, também sofrendo com as suas próprias. Eles sabiam como era passar por tantas situações entre a vida e a morte, e isso me reconfortava. Acho que talvez os quatro sentissem a mesma coisa.

Depois de contarmos como a Batalha de Hogwarts correra por nossos olhos (e pensar que isso acontecera apenas há alguns meses...), ficamos em silêncio por alguns momentos. Não havia mais nenhum carro na estrada e já estava começando a escurecer; o céu já adquirira um belo tom de azul escuro. Abri a janela até o fim e apoiei minha cabeça no espaço onde há pouco estava o vidro, deixando que o forte zumbido do vento penetrasse em meus ouvidos e agitasse meus cabelos.

Aquilo era relaxante, e fazia tempo que eu não sentia algo assim.

Ouvi a voz de Annabeth comentar alguma coisa, por isso voltei a por minha cabeça para dentro do carro e fechar a janela.

– O que foi, Annabeth? – perguntei, ainda sentindo meu rosto gelado e com os ouvidos ainda zumbindo.

– É só que eu acabei de ver uma placa de uma dessas lanchonetes de estrada – respondeu ela. – Fica a menos de dez quilômetros daqui. Poderíamos parar lá para comer alguma coisa e depois trocarmos de lugar.

Senti meu estômago roncar e um bocejo cobriu qualquer coisa que eu fosse falar. Poderia ser ainda quase oito horas da noite, mas meu corpo nunca ficara assim tão cansado. Havia sido apenas hoje de manhã que saímos do Acampamento Meio-Sangue. E chegaríamos em Filadélfia apenas lá pelas onze, se tudo ocorresse como o planejado.

(E claro que, se tratando de nós, nada ocorreria como o planejado.)

Concordamos, e após uns quinze minutos já estávamos saindo do carro e nos dirigindo à lanchonete com os letreiros iluminados por uma luz neon rosa-choque. Já havia anoitecido.

Sentamos em uma das mesas próximas às janelas, o que nos permitia uma boa visão do estacionamento; caso algo acontecesse (o que nenhum de nós duvidava que poderia acontecer), conseguiríamos ver. Pedi à garçonete apenas um hambúrguer pequeno e uma lata de Coca-Cola.

– Ei – Nico chamou a atenção, assim que comíamos, apontando para a televisão acima do balcão. Era um programa de noticiário, no qual o âncora começava uma nova reportagem. O volume estava baixo demais para entendermos o que ele falava, mas a manchete disposta logo abaixo era clara: Terremoto assola cidade japonesa. – Parece que as coisas estão piorando.

– Acho que a natureza está começando a perceber a ausência de Poseidon – disse Thalia.

– Mas o Japão não tem terremotos quase todo dia? Em baixa escala, pelo menos? – perguntou Harry.

– Em baixa escala – concordou Thalia, depois pediu à garçonete para que aumentasse o volume, passando a ouvir o que o âncora dizia.

– Bem... 7.5 na escala Richter não é o que chamaríamos exatamente de baixa escala – Harry voltou a dizer baixinho, provavelmente arrancando as palavras da boca de Thalia.

– Acho que é melhor irmos – comentou Ron, mesmo que seu x-búrguer gigantesco ainda estivesse pela metade.

– Boa ideia – disse Harry.

Assim que saímos da lanchonete, rapidamente entramos no carro e prosseguimos com a viagem. Thalia passou a dirigir e Ron foi posto no banco de carona. Eu, Harry e Nico continuávamos espremidos. A única diferença era que ao invés de estar quase prensada entre a porta e Thalia, eu agora estava quase prensada entre a porta e Percy.

Ron estava com o corpo inclinado para a frente, mudando as estações de rádio conforme Thalia pedia. Para ela, nenhuma música aparentava prestar, e a cada vez que as músicas mudavam ela parecia ficar ainda mais frustrada, com as mãos apertando o volante com cada vez mais força e bufadas saindo pela boca. Ron, por outro lado, parecia se divertir. Nunca teve de apertar tantos botões em uma máquina trouxa de uma vez só com tanta frequência, e aquilo parecia animá-lo.

– Deixa aí! – Thalia exclamou de repente, assim que Ron mudou de estação pela centésima vez. Reconheci o início da música como “Here Comes the Sun”, dos Beatles. – Finalmente algo que preste! – Ela aparentava estar prestes a dar aleluia.

Percy riu baixinho ao meu lado.

– O que foi? – perguntei no mesmo tom, já que Thalia começara a cantarolar.

– Nada. É só que... é engraçado quando a Thalia se entusiasma. Tome cuidado para não levar choques ou nada parecido.

Sorri.

– Vou tentar.

– A propósito, hm, você sabia qu... – a voz de Percy foi interrompida pelo barulho de algo atingindo a parte traseira do carro. Um barulho alto.

– O que foi isso? – exclamou Ron. Thalia pisou no freio. Todos olhamos para o vidro de trás, assustados. A única coisa que quebrava o silêncio era a música.

Little darling, it’s been a long, cold, lonely winter...

Não foi preciso ninguém responder. Assim que Thalia voltou a acelerar o carro, a cabeça de uma criatura horrível apareceu por trás da janela, dando-nos um susto e fazendo Thalia pisar novamente no freio, dessa vez com mais força. A inércia nos jogou para a frente, fazendo meu tórax ser comprimido pelo cinto de segurança.

Little darling, it feels like years since it’s been here...

Doeu.

Here comes the sun...

– O que essa Fúria de merda está fazendo aqui? – Nico esbravejou.

Outras duas apareceram ao lado da primeira.

– Correção: três Fúrias de merda – murmurou Harry.

Here comes the sun...

Outras duas apareceram.

– Ou mais...

And I say “It’s all right”

Foi aí que uma delas espatifou o vidro da janela, fazendo os cacos voarem em nossa direção. Desafivelamos os cintos e empunhamos nossas armas, enquanto Thalia deslizava o carro para o acostamento.

As três primeiras Fúrias se jogaram para cima de nós, tentando entrar ao mesmo tempo pelo espaço onde há pouco havia a janela. Ainda com as armas em punho, recuamos o máximo que pudemos (o que não era muita coisa, considerando que havia o banco de carona atrás de mim me bloqueando). Elas guinchavam e deixavam à mostra dentes horríveis.

Little darling, the smiles returning to the faces...

Percy avançou para a do centro e cravou sua espada em seu pescoço. Ela instantaneamente se tornou pó, o que pareceu deixar as outras Fúrias ainda mais... furiosas.

As Fúrias restantes logo perderam o interesse em tentar invadir o carro pela janela traseira, batendo suas asas e voando para cima. Como ainda estávamos dentro do carro, não conseguimos vê-las.

– Elas foram embora? – sussurrei.

Little darling, it seems like years since it’s been here...

BAM! Um estrondo vindo acima de nós sacudiu o veículo. Olhei para cima. O teto do carro afundara.

Ninguém precisou me responder.

BAM! O ponto afundado desceu ainda mais. Não conseguia mais ver as Fúrias, mas era óbvio que elas haviam escalado o carro e agora tentavam nos esmagar.

Here comes the sun...

BAM!

Here comes the sun...

– Vamos ficar parados aqui ouvindo Beatles até morrermos ou vamos fazer algo que preste logo? – murmurou Annabeth.

And I say “It’s all right”

BAM! Dessa vez, o som do teto sendo esmagado por uma horda de Fúrias foi acompanhado de um outro – e não era George Harrison cantando sobre o sol. Era o vidro da janela da frente sendo quebrado.

Estávamos cercados.

Sun, sun, sun, here it comes...

Foi aí que entramos em ação.

Ao mesmo tempo que as Fúrias atacaram de vez – duas pela janela traseira, duas pela da frente; enquanto uma continuava a esmagar o teto –, resolvemos revidar. Por mais que eu não fosse muito experiente para atacar criaturas apenas empunhando uma faca de bronze celestial, eu ainda conseguia me defender o suficiente para não ser gravemente ferida ou morta.

Harry e Ron ainda pareciam um pouco confusos sobre como deveriam usar suas respectivas lança e espada, mas também conseguiam se virar de modo decente.

Sun, sun, sun, here it comes...

Thalia pegou uma de suas flechas elétricas e, com seu arco, lançou-a contra uma das Fúrias, que se tornou pó. O teto do carro abaixava cada vez mais, e mesmo que estivéssemos em vantagem faltava pouco para que virássemos panquecas. Já tínhamos de permanecer abaixados se quiséssemos não bater a cabeça.

Sun, sun, sun, here it comes...

Ron praticamente se deitou de barriga para cima no banco da frente, chutando o teto, como se estivesse em uma luta contra a Fúria que estava tentando nos esmagar. Talvez tenha sido algum tipo de sinal, já que logo Percy e Nico enfincaram suas espadas nos lugares mais propensos a nos espremer até a morte.

Não sei como alguém consegue abrir um buraco (mesmo que pequeno) no teto de um carro só com espadas, mas foi o que Percy e Nico fizeram. Talvez algum deles tenha acabado enfincando a espada no pé da Fúria, porque ouvimos uma espécie de guincho vindo lá de cima, e, de repente, um silêncio abrupto.

Sun, sun, sun, here it comes...

Eu não estava mais prestando atenção ao que ocorria nas laterais do carro; o silêncio repentino lá de cima foi tentador demais para mim. E uma dica: em uma luta, nunca pare de prestar atenção ao oponente.

– Hermione, cuidado! – ouvi a voz de Harry exclamar, e só pude ver ao lado de minha janela uma outra Fúria prestes a me matar. Tudo aconteceu muito rápido, e só pude fechar os olhos com força por alguns segundos (uma coisa bem idiota a se fazer, eu sei) antes que Harry se jogasse sobre mim e metesse sua lança no corpo asqueroso daquela criatura, mandando-a de volta para o Tártaro.

– Obrigada – minha voz saiu estrangulada e meus batimentos cardíacos estavam acelerados.

Não tive muito tempo para pensar no que acabara de acontecer, já que a Fúria lá em cima voltara a tentar nos esmagar, dessa vez com mais força do que nunca.

– Saiam do carro! – Annabeth gritou o que deveríamos ter feito há muito. O primeiro pensamento que me veio à mente foi: “por que só pensamos nisso agora?”, mas logo depois ele se dissipou. Não havia muito tempo para pensar quando estávamos prestes a morrer, afinal.

Sun, sun, sun, here it comes...

Assim que a Fúria percebeu que saímos do carro e que não adiantaria mais tentar nos transformar em panqueca, ela abriu as asas e avançou para cima de nós, guinchando.

Desta vez não foi muito difícil: Thalia apenas pegou outra de suas flechas elétricas e lançou contra aquela coisa. Ela virou pó logo em seguida.

– É – murmurou Thalia, guardando o arco. – Parece que agora acabou.

Ficamos em silêncio, apenas nos entreolhando. Era um cenário absolutamente normal. Sete adolescentes um pouco machucados ao lado de um carro completamente destruído e amassado, largados no acostamento de uma estrada no meio da noite. Claro. Isso acontecia todo dia.

– Coitado daquele revendedor do aluguel de carros – disse Nico. – Falta muito para chegarmos em Filadélfia?

Annabeth assentiu.

– Só fizemos a metade da viagem.

– Deveríamos procurar um hotel para passar essa noite – sugeri. – Não tem como seguirmos viagem com o carro nesse estado.

– Pois é – disse a filha de Atena. – Mas vamos ter que ir andando.

Houve um suspiro coletivo, seguido por um dar de ombros. Não havia o que fazer para discordar.

Fomos ao carro e pegamos nossos pertences que ainda estavam no porta-malas. Antes de prosseguirmos nosso caminho a pé, fui até o banco do motorista para ver se não havia algo mais que pudéssemos esquecer. O som ainda estava ligado, e “Here Comes the Sun” estava em suas últimas frases. Era estranho pensar que essa luta durara menos de cinco minutos; parecia ter sido horas.

Here comes the sun

It’s all right

It’s all right

Após passar os primeiros onze anos de minha vida cercada de música britânica trouxa, nunca pensei que algum dia eu discordaria de um Beatle.

– Não, George Harrison – falei comigo mesma – Não está nada certo.

Notas finais
É, eu estava ouvindo a música quando tive a ideia do capítulo. Muito bobinho? Tava achando que precisava meter uma coisa light no meio de uma luta para dar uma equilibrada, mas ok. Espero que tenham gostado!