Segredos Submersos

20 Constrangimento nosso de cada dia


Notas iniciais
YO, I'M BACK. Foi mal. Eu meio que abandonei a história, eu sei. Eu larguei essa história feito lixo por quase dois anos, eu sei. E também sei que, a essa altura, quase todos os meus leitores mudaram e o meu público definitivamente não é mais o mesmo para o qual eu escrevia quando comecei a postar essa história. Mas é que eu realmente estava muito para baixo em relação a essa fic. A falta de encorajamento e minha longa ausência desse site contribuíram bastante para minha crise na escrita; eu quase cheguei a deletá-la mas achei melhor que não, porque no fundo, no fundo, essa fic ainda é meu xodó. Mas aparentemente ganhei mais leitores, então yay! Espero que vocês não tenham me abandonado, ainda (se vocês tiverem, não os culpo, honestamente) Capítulo dedicado à Hermione Salvatore Malfoy, por todo o encorajamento. Capítulo um pouquinho mais parado do que os anteriores, mas que constrói um pouco um ~certo~ relacionamento da fic... hm.

Às vezes, durante os seis anos anteriores que passei em Hogwarts, eu me perguntava se era realmente possível que algum dia eu, Harry e Ron tivéssemos paz. Pensávamos que quando Harry derrotasse Voldemort conseguiríamos alcançá-la.

Enquanto nós três observávamos as ruínas do carro alugado (que nem podia ser mais chamado de carro, considerando o quão estragado ele estava agora devido ao ataque de Fúrias que sofremos), percebemos como estávamos errados.

– Bom – disse Thalia, tentando de alguma forma animar um pouco o ambiente. – Pelo menos as Fúrias foram embora.

– Por enquanto – disse Annabeth.

– Annabeth, por favor – pediu a primeira. – Não estrague meu positivismo.

A loira murmurou um “desculpe”. O cenário em que estávamos era, no mínimo, caótico. Qualquer pessoa que passasse por ali com certeza ficaria espantado ao ver sete adolescentes parados feito idiotas na frente de um carro destruído no acostamento com espadas e lanças e outros objetos mortais em punho, no meio da noite.

– Seja o quão positiva quiser, Thalia – disse Nico, guardando sua espada negra. – Mas agora que não temos mais carro e estamos largados no meio de uma estrada, como chegaremos até Filadélfia? No estado em que estamos, não há muita coisa para nós sermos positivos agora.

– E o que a gente vai fazer com esse negócio em primeiro lugar? – perguntou Harry, apontando para o carro, antes que Thalia tivesse tempo de iniciar algum tipo de discussão com Nico.

Todos nós parecemos suspirar de frustração ao mesmo tempo.

– Sei lá... não podemos simplesmente deixar esse troço largado aí, podemos? – perguntou Ron.

– Poder deixar o carro aqui, até que podemos – respondi. – Mas depois de um tempo a empresa de aluguel dos automóveis vai começar a nos procurar, certo? E quando eles encontrarem e não nos acharem para pagarmos o prejuízo, nós podemos até nos tornar uma espécie de procurados ou algo do tipo.

– Mas os trouxas podem encontrar o carro e possivelmente assumir que foi um acidente dos graves – disse Harry.

– É, mas que diferença faz? – falei, começando a ficar um pouco irritada. – Se disserem que foi um acidente e nós não formos encontrados, vão assumir que estamos mortos ou desaparecidos ou algo do tipo, o que vai levar as pessoas a começarem a nos procurar. Se ficarmos aqui vamos ter que pagar pelo prejuízo de qualquer jeito.

Suspiramos juntos outra vez. Felizmente, passados mais uns dez minutos de discussão e brainstorming acerca do que deveríamos fazer com o veículo, uma caminhonete parou ao nosso lado e perguntou se precisávamos de ajuda. O motorista era um senhor de idade de rosto bondoso, e, aparentemente, ao ver dele parecíamos ser jovens incrivelmente desafortunados que sofreram um acidente e precisavam de assistência. Claro que a princípio desconfiamos (não confie de primeira em estranhos que param no meio da noite para falar com você!), mas realmente deveríamos passar a impressão de precisar de ajuda.

Dissemos a ele que havíamos de fato sofrido um acidente (o que de certa forma era verdade) enquanto nos encaminhávamos para a Filadélfia, que o carro era alugado e não sabíamos o que fazer já que não tínhamos dinheiro o suficiente para o conserto, além de estarmos longe de qualquer cidadezinha próxima. Por sorte o senhor pareceu se simpatizar conosco, por isso nos ofereceu uma carona ao hotel mais próximo e ligou para um guincho, dizendo que não precisávamos nos preocupar e que tudo estaria sobre controle.

– Posso ajudar com os custos do carro alugado – disse ele durante a carona. Eu, Percy e Nico nos espremíamos ao lado dele, enquanto os outros estavam na traseira da caminhonete. Começamos a protestar, dizendo que não era preciso, mas ele nos cortou. – Sou dono de uma fazenda aqui aos arredores, não preciso me preocupar muito com isso.

Implicitamente, ele disse: sou rico e não preciso me preocupar com dinheiro, portanto posso fazer isso por vocês.

– Acredito que vocês também não precisem me pagar depois. – concluiu o homem.

Implicitamente, ele adicionou: sou mesmo podre de rico, e aí?

– É muita bondade sua, senhor – eu disse. – Obrigada.

Ele sorriu.

Chegamos a um hotel na beira da estrada lá por nove horas da noite, onde o senhor parou a caminhonete e nos deixou.

– Obrigado por toda a ajuda, senhor. De verdade. – disse Percy. O homem sorriu e acenou para a gente.

– Não há de quê – ele respondeu. – Mas daqui para frente tomem mais cuidado! Não se sabe o que mais pode acontecer nessas estradas hoje em dia, não é?

Rimos nervosamente enquanto ele ia embora. Pois é, depois de uma horda de Fúrias nos atacar no meio da estrada, realmente não dava mais para saber.

Fizemos check-in rapidamente e fomos para os dois quartos um ao lado do outro que arranjamos. O plano era apenas passar a noite naquele lugar, de manhã tomaríamos café e já partiríamos. Não dava para ficarmos enrolando, atrasaríamos demais a missão se continuássemos com tantos desastres indo atrás de nós.

Sempre fui o tipo de pessoa que adorava dormir, quando não estava estudando ou lendo alguma coisa. Porém, nessa noite o sono parecia ser a última coisa a querer vir. Após remexer-me por um longo tempo na cama, sem sucesso (e com Annabeth reclamando para eu parar quieta por um instante, já que dividíamos uma cama de casal – Percy e Harry dormiam em colchões separados no chão, enquanto Thalia, Nico e Ron ocupavam o quarto ao lado), levantei-me e fui à pequena sacada que o quarto possuía, que dava para a parte de trás do hotel.

Fechei a porta de vidro atrás de mim, ao sentir a brisa calma da madrugada bater em meu rosto, e sentei-me em uma cadeira que tinha na sacada. Por estarmos longe de uma cidade grande, o céu escuro estava fortemente iluminado por centenas de estrelas e pela lua crescente.

Eu gostava de observar as estrelas. Elas sempre me deram a impressão de infinito, e ao observá-las sentia-me incrivelmente pequena e insignificante. Tal pensamento em muitas vezes me reconfortava, em especial em momentos de dificuldade. Lembro-me de sempre me pegar olhando para elas nas noites do ano anterior quando eu, Harry e Ron estávamos foragidos buscando as Horcruxes. Perto da vastidão do universo, todos os problemas pareciam se esvair, pelo menos por um instante. Quando Ron nos deixara durante nossa busca para derrotar Voldemort – não gostava nem um pouco de lembrar de tais dias e como eu conseguira sobreviver com todas minhas esperanças sendo devoradas por aquele medalhão maldito –, eu costumava olhar para a noite e achar tudo muito injusto. Se eu era tão pequena comparada às estrelas, por que ainda tinha de carregar fardos tão grandes em minha vida?

E então, quando tomava consciência de mim mesma e conseguia afastar os pensamentos guardados no medalhão de Slytherin, eu respirava aquele ar gelado da madrugada e por um instante me sentia feliz. Era estranho, sentir a realização de sua própria insignificância bater em sua cabeça de modo tão súbito. Sim, meus problemas ainda eram grandes, mas também minúsculos. Não importava o que eu fizesse ou quantas pessoas soubessem de meus feitos; o número de pessoas que nem têm ou teriam ideia de sua existência ainda era e será muito maior. Parecia assustador e fascinante, ao mesmo tempo, que haverá um dia em que serei totalmente esquecida e minha pessoa não passará de um nome qualquer.

Respirei fundo. Não pensava em tal tipo de coisa há muito.

– Sem sono? – uma voz atrás de mim despertou-me de minha linha de raciocínio. Virei-me e deparei com Percy.

– Acho que sim – murmurei, enquanto ele fechava a porta da estreita sacada e sentava-se na cadeira ao meu lado. Por um instante, reparei em como seus olhos claros pareciam refletir a luz alva da noite. – Você também?

Ele apenas assentiu.

– Às vezes – comentei, e por alguma razão parecia que meus batimentos cardíacos haviam acelerado – gosto de tomar um pouco de ar à noite. Sei lá. Parece ser um ar diferente, que me acalma mais.

– Organiza melhor os pensamentos – completou Percy, assentindo novamente com a cabeça. Um silêncio instalou-se entre nós dois rapidamente. Tive uma breve impressão de que o olhar dele buscava me evitar em certos momentos.

Deixe de ser idiota, a voz irritante em minha cabeça disse. Senti como se meu estômago quisesse afundar e um desconforto cada vez maior junto do silêncio se apoderava de mim. Odiava quando meu corpo reagia assim, sem razão alguma.

Talvez haja uma razão... a voz disse novamente. Cale a boca, cale a boca, pensei. Pare com isso. Minha consciência pareceu dar uma risada debochada. Pigarreei, tentando expulsar esses pensamentos e esperando que Percy não notasse o quão idiota eu deveria estar parecendo agora. Ele não pareceu perceber.

– Então – falei, cortando o silêncio. – O que você queria falar comigo­, lá no carro? ­– Percy franziu as sobrancelhas, finalmente olhando para mim. – Logo antes das Fúrias nos atacarem, quero dizer. A gente estava no carro e parecia que você queria dizer algo para mim, um pouco depois da Thalia começar a cantar Here Comes the Sun. – Soltei uma risada baixa.

– Ah – disse ele. – Aquilo. Não... não era nada, na verdade. Nada de importante... – Senti-me um pouco idiota de ter perguntado isso. – Não acho que você se interessaria, pra ser sincero.

Levantei as sobrancelhas, quase como em desafio. Percy percebeu meu olhar e sorriu.

– Ok – ele voltou a dizer. – Eu só ia perguntar se você sabia que os Beatles eram semideuses.

– Sério? – perguntei, agora incrédula. Ele riu.

– E mais um monte de gente famosa.

– Não acredito.

– Pois deveria.

– Dê outro exemplo.

– Marilyn Monroe. – Cerrei os olhos, negando com a cabeça, mas ao mesmo tempo rindo junto dele. – George Washington. John F. Kennedy. Todos os Kennedy, na realidade. Albert Einstein!

– Daqui a pouco você vai estar dizendo que a maldição dos Kennedy foi fruto de Hades ou algo do gênero – falei. Percy, porém, concordou seriamente. – Ah, me poupe!

Exclamei com falsa indignação, e nós dois já estávamos rindo. Desde nossa saída do Acampamento para realizarmos a missão eu não havia rido desse jeito. Era um sentimento bom. Suspirei, ainda o observando. Ele me encarou, ainda sorrindo. Seu olhar parecia agora estar diferente.

– O que foi? – questionei.

– Nada – respondeu, balançando a cabeça. – É só que... não sei. Já mencionei como te acho esperta? – Senti meu rosto esquentar. – Você é tão esperta quanto a Annabeth, mas sei lá... ainda é de um jeito diferente do dela.

– Diferente como? – minha voz saiu incrivelmente baixa.

– É... é difícil explicar. Eu... eu gosto de você, Hermione. – Meus olhos se arregalaram involuntariamente e parecia que todo o sangue de meu corpo subiu às minhas bochechas. Os olhos claros de Percy também se arregalaram após uns instantes, desviando-se do meu olhar e ele pareceu ficar encabulado, como se percebesse que havia dito merda.

Momento mais constrangedor, impossível.

– Quer dizer – disse ele rapidamente, como se tentasse corrigir algo e gaguejando de leve. – Claro que eu também gosto de Annabeth! É... é...

Balancei a cabeça em afirmação, talvez rápido até demais.

– Claro! Claro que sim – falei, odiando o quão aguda e alta minha voz saíra. – Claro que sim... obviamente. Também... também gosto muito de você, Percy. Você e de Annabeth. Thalia e Nico também.

Pigarreei e levantei-me de súbito da cadeira, sem saber o que fazer com as mãos.

– Afinal... – voltei a me pronunciar. – Somos meio-irmãos, não? É claro que... vou gostar de você.

Engoli o bolo que subia por minha garganta. Por alguma razão desconhecida, odiei os momentos que se seguiram após esse diálogo e o modo como ele assentiu e me encarou.

– Sim, sim – disse Percy. Ele pareceu hesitar por um momento, os olhos claros não se encontrando com os meus. – Meio-irmãos.

– Eu... acho melhor voltar a dormir – comentei, meu estômago afundando novamente. Pare com isso, pare com isso, falei para o meu próprio interior. – Não... não vou querer ficar muito cansada amanhã, já que estamos no meio de uma missão.

Não parei para observar como Percy reagiu. Apenas entrei novamente no quarto – o ar desse ambiente era tão mais abafado e sufocante do que o lá de fora – e voltei à cama, pedindo aos Deuses para que no outro dia não me lembrasse do que acabara de ocorrer.

Notas finais
Awkward... Elogios, críticas construtivas e comentários em geral são muito bem vindos. Vou tentar postar o próximo capítulo nas próximas semanas.