Segredos Submersos
46 De volta a Manhattan
Notas iniciais
A audiência havia terminado e quase todos os membros do júri haviam saído do Tribunal.
Marie, Dupin, Mildred e Montag também haviam saído – como réus inocentados, alguns dos guardas os soltaram e levaram-nos possivelmente ao Átrio, a saída do Ministério.
Ver todas aquelas arquibancadas vazias agora trazia-me uma sensação de alívio. Uma preocupação a menos, pensei.
Kingsley Shacklebolt ainda estava em seu digno local de Ministro da Magia, organizando alguns papéis que foram utilizados na sessão. Percy e Nico continuavam sentados em suas respectivas posições nas arquibancadas, olhando ao redor como se não soubessem exatamente o que fazer. Eu permanecia de pé próxima ao centro do Tribunal.
– Kingsley? – minha voz saiu rouca após ter servido como testemunha naquela sessão. – Obrigada. De verdade.
O Ministro da Magia levantou o olhar para mim e eu não pude dizer se seu olhar retribuía meu agradecimento ou expressava preocupação. Talvez os dois. Após alguns momentos de silêncio, ele simplesmente disse:
– São seus amigos? – e apontou com a cabeça Percy e Nico. Assenti. – Eles são híbridos como você, por acaso?
– Não, senhor. Eles são... apenas semideuses.
– Entendo – balançou a cabeça e pareceu pensativo. – Eu até a repreenderia por ter deixado dois trouxas entrarem no Ministério da Magia, mas honestamente, com tudo que está se passando eu tenho até de agradecê-la, senhorita Granger. O que você fez agora há pouco pode ser o primeiro passo para uma digna reconciliação entre os bruxos e semideuses.
– É o que eu espero, senhor. Há uma batalha emergindo agora em Nova York. Pallas finalmente decidiu nos atacar e tenho certeza que perderemos se não tivermos ajuda dos bruxos. Nossos reforços até agora são poucos...
– Entendo, Hermione. Farei de tudo para mandar um esquadrão de aurores para lá, o mais rápido possível. Posso convocar a Ordem da Fênix e até a antiga Armada de Dumbledore, se precisar.
– Obrigada, Kingsley. Sério, eu não sei o que fazer além de agradecê-lo.
Kingsley Shacklebolt pareceu sorrir e deu uma leve palmada em meus ombros.
– Você sabe que nós nos preocupamos muito com você, Hermione. Depois de tudo o que você fez pelos próprios bruxos... bem, é o óbvio. E agora que aparentemente uma das maiores heroínas do mundo bruxo é a tal filha de Poseidon, temos de oferecer um pouco de suporte, não é?
Não pude evitar soltar uma risada fraca.
– É... acho que sim.
– A questão principal não vai ser os bruxos ajudarem os olimpianos, porém – disse Kingsley – e sim se os deuses vão aceitar a nossa ajuda em primeiro lugar.
– Eles têm de aceitar. Por mais que Zeus seja o cara mais mesquinho dentre todos os universos, na situação de colapso em que estamos, negar qualquer tipo de ajuda seria a coisa mais ridícula da história.
Fiz um breve sinal para que Percy e Nico pudessem descer. Eles se entreolharam e levantaram dos assentos.
– Ajudaremos vocês e em troca, talvez depois da batalha, tentaremos selar um novo acordo com Zeus. Tudo bem assim para você, Hermione? – disse Kingsley e eu concordei com a cabeça. Ele olhou rapidamente para Percy e Nico, que desciam, e voltou o olhar a mim. – Não pude deixar de reparar que está com outras companhias. Como estão Harry e Ron?
A pergunta me pareceu como um soco e não tardou para minha garganta se fechar. Kingsley percebeu isso.
– Eles... – comecei e não me senti capaz de encarar o Ministro nos olhos – ajudaram o máximo que podiam e fizeram tudo por mim, por mais que a princípio nem fizessem parte da história, Kingsley. – Minha vista ficou turva e pisquei com força, não deixando que as lágrimas que se formavam caíssem. – Eles... eles estão agora presos no Mundo Inferior, não mortos, mas ainda assim tendo de vagar por lá. Kingsley, por favor. Quando você recrutar seus aurores para nos ajudar, se algum deles por alguma razão duvidar de todo esse conflito, por favor fale para eles a situação em que Harry Potter e Ron Weasley estão. Eu não sei se ainda posso salvá-los, mas por favor não deixe que eles tenham ido até lá em vão. Entende o que eu digo?
Senti a mão de Percy afagar a minha e Nico posicionar a dele em meu ombro. O olhar de Kingsley Shacklebolt, sempre tão mais bondoso que Cornélio Fudge ou Rufus Scrimgeour, parecia variar entre entendimento e pena.
– Perfeitamente, Hermione.
Havíamos alertado a Kingsley que deveríamos voltar para Nova York o mais rapidamente possível, mas que talvez aparatar não seria a mais válida das hipóteses devido a todo o rastro mágico em que estávamos deixando para trás.
Ele rapidamente nos indicou seu escritório, para que fôssemos por Pó de Flu até a lareira da embaixada norte-americana dos bruxos. Kingsley mandou a eles uma breve mensagem pela lareira explicando-lhes a situação, o que era algo bom pois assim já ganhávamos um maior apoio das autoridades bruxas. E talvez o caos seja adiantado por mais algum tempo, a voz em minha cabeça disse. Mandei-a calar a boca.
Assim, em poucos minutos eu, Percy Jackson e Nico di Angelo – em companhia dos híbridos, Auguste Dupin, Marie Roget, Mildred e Guy Montag – havíamos chegado em Manhattan.
Saímos da construção e fomos correndo até o centro da cidade, onde o caos já havia sido instaurado.
Por mais que não pudéssemos ter passado mais do que algumas horas fora do Acampamento Meio-Sangue, a batalha já havia se movimentado de lá até a última rua que delimitava a entrada do Monte Olimpo – localizado no 600º andar do Empire State Building.
Pallas obviamente estaria avançando em direção do Olimpo para tomar o trono de Zeus, aproveitando o fato dos deuses estarem ausentes. Perguntei-me como o salão dos deuses estaria nesse exato momento; solitário e vazio, possivelmente apenas com a pequena figura de Lady Héstia por trás de uma fogueira acesa aos pés dos gigantescos tronos.
Pallas e seu exército – que parecia agora muito maior do que apenas as cinquenta pessoas que haviam invadido o Acampamento Meio-Sangue, além da serpente de três cabeças denominada Farosutil – avançavam cada vez mais e o que restava aos semideuses era apenas ficar em retaguarda e atrasá-los.
Entramos no meio de toda a confusão, não mais longe de um quilômetro do Empire State.
No meio de tudo aquilo, porém, não pude deixar de reparar nas diversas pessoas tombadas no chão, inconscientes. Não apenas nas calçadas, mas em todos os locais possíveis – dentro dos carros, dentro das construções, no meio das ruas, todos pareciam haver simplesmente... desmaiado. Como se houvessem caído no sono no mesmo instante. Se não houvesse uma batalha acontecendo nas ruas, a cidade estaria imersa em completo silêncio.
– O que é isso que está acontecendo? – perguntou a pequena Mildred, apontando para uma senhora deitada na calçada. Não pude deixar de reparar que as feições da senhora estavam estranhamente pacíficas.
– Morfeu, provavelmente – disse Percy, pouco antes de entrarmos de fato no meio das lutas. – Já fez isso antes, pôs a cidade inteira para dormir para que os mortais acabassem não se metendo no meio de tudo isso. Não duvidaria se fizesse outra vez.
– Parece que é a sua única tática – disse Nico, com um certo humor em sua voz.
– Certo – disse o menino, Montag, mudando de assunto – e temos algum plano para quando entrarmos no meio de toda essa confusão?
Paramos e nos entreolhamos. Olhei para Marie Roget, que apenas deu de ombros.
– Vai depender do que estiver acontecendo de fato – falei. – Talvez Annabeth esteja no front da batalha, ou mais escondida sendo a cabeça do exército do Acampamento. Muito provavelmente pode estar com Quíron, então vou procurá-los. Só... não sejam mortos!
Acabamos por nos separar assim que atingimos o ápice da batalha. Percy e Nico foram imediatamente atrás daqueles que estavam no front para comandar os ataques; Mildred e Montag vieram comigo atrás de Annabeth para planejarmos tudo e Marie e Dupin voltaram a se infiltrar no exército de Pallas, provavelmente para apunhalar seus “colegas”.
Alguns filhos de Apolo nos apontaram o local onde Annabeth e Quíron estavam. Era o lobby de um hotel em uma das ruas que cruzavam com a Quinta Avenida. Não muito chique e modesto o suficiente para passar despercebido.
O mínimo de luzes estava ligado e havia lá o mínimo de pessoas também. Annabeth e Quíron estavam atrás do balcão de recepção; haviam empurrado para o lado algumas das recepcionistas inconscientes. Annabeth folheava sua pequena agenda – a que Atena dera a ela após um sonho, que mostrava todos os endereços em que as divindades poderiam ser encontradas nos Estados Unidos – e Quíron prestava atenção a um apetrecho que um filho de Hefesto parecia ter construído.
– Hermione! – exclamou Annabeth assim que me aproximei do balcão da recepção. Levantou-se da cadeira e abraçou-me rapidamente. Reparei que um de seus braços estava enfaixado e em seu rosto havia alguns curativos. Ela percebeu meu olhar que passou por suas bandagens.
– Ah, não é nada – disse –, mas os outros acharam melhor que eu ficasse aqui cuidando da parte “administrativa” das coisas. Thalia havia me dito que você tinha de resolver alguns assuntos e levou Percy e Nico consigo. Está tudo bem?
Permiti-me a sorrir, e pela primeira vez, esse sorriso não me soou tão forçado.
– Annabeth, você não tem ideia – falei e o alívio que transbordou por minha voz foi o suficiente para chamar sua atenção. – Acabamos de voltar da Inglaterra.
Suas sobrancelhas franziram e ela aparentou estar um tanto incrédula.
– Sério?
– A-hã. E, adivinhe? Conseguimos falar com o Ministério da Magia e por enquanto o assunto com os bruxos está resolvido. Eles vão nos ajudar contra Pallas.
– Sério!?
– E não é só isso.
Contei a Annabeth resumidamente sobre as descobertas que tive em que eu não era a única híbrida entre bruxos e olimpianos por aí. O fato de eu ser híbrida nunca havia sido uma anomalia, havia diversos outros como eu – dezenas, talvez centenas – espalhados pelo país e possivelmente pelo mundo. Falei-lhe também sobre o Maelström e a resistência interna contra Pallas. A filha de Atena ouviu-me atentamente e estava boquiaberta assim que terminei. Lançou um olhar rápido e admirado a Montag e Mildred, que haviam se sentado em um dos sofás.
– Hermione, isso é incrível! – disse – Isso é... isso muda tudo! Poseidon tecnicamente não pôde ser exilado, porque ele não foi o único a ter filhos híbridos!
Ficamos em silêncio por um certo tempo, para eu deixar Annabeth absorver todas as informações. A pontada de esperança em seus olhos cinzentos ainda estava lá, quando mudei de assunto:
– E o que vocês planejaram até agora?
Annabeth guiou-me atrás do balcão de recepção e fez-me sentar na cadeira em que antes estivera. Apontou para sua agenda de endereços divinos.
– Bem, não estamos em uma situação favorável. O exército de Pallas é bem mais forte do que os campistas e não vamos aguentar por muito tempo. No máximo alguns dias... por isso decidi contatar daqui o máximo de divindades possíveis, a partir daquilo ali.
E apontou para o apetrecho que o filho de Hefesto havia mostrado a Quíron.
– Um de meus irmãos conseguiu desenvolver esse aparelho e os filhos de Hefesto o construíram. Já era um projeto que havia sido iniciado há algum tempo, mas finalmente conseguimos terminá-lo.
– É tipo um celular?
Annabeth fez uma careta.
– Não necessariamente... – percebi por suas feições que explicá-la de fato ia ser demorado – é... é simplesmente complicado, não vamos perder tempo, ok? O que vale é que funciona! Conseguimos contatar Apolo e Ártemis. As Caçadoras já chegaram e Thalia já está com elas, mas ainda assim. Ter o apoio de dois deuses já nos ajuda e muito. Você poderia ir ao front e recebê-los, quando chegarem?
– Com certeza. E, no final das contas, nenhum dos seguidores de Pallas vai me matar, não é mesmo? Já estou reservada para o próprio.
Annabeth suspirou.
– Infelizmente sim. Se a alegra saber, Hermione, enquanto você esteve fora Pallas disse que não ia descansar até ter sua cabeça em mãos.
Suspirei, também, logo em seguida.
– Não me alegra nem um pouco, mas fazer o quê?
Espalmei as mãos uma contra a outra e saí em direção ao campo de batalha.
– Quer ouvir um haiku?
– Apolo, honestamente, essa não é a melhor hora.
– Só estou tentando ajudar.
Eu tinha mais a fazer do que ficar ouvindo poemas estúpidos do deus do sol. Não quis ofendê-lo de tal forma, portanto nada respondi. Nem havia como responder, de qualquer jeito, considerando que estávamos de costas um para o outro e encarando um bando de criaturas horrendas – enquanto eu era híbrida entre bruxos e olimpianos, eles eram híbridos entre humanos e os monstros mais feios da história, possivelmente – ao nosso redor.
Eu e Apolo parecíamos andar em círculos, com as minhas costas quase apoiadas nas dele, apoiando nossas armas em direção aos mutantes que nos cercavam. Eles pareciam até rir de nossa incompetência. Eu sentia que Apolo também estava gostando de alimentá-los tal esperança.
Um dos mutantes – com chifres saindo de suas orelhas e dentes com formato de ganchos – avançou para cima de mim, erguendo garras. Chutei-o na barriga e lancei minha faca celestial em seu peito, fazendo-o virar pó instantaneamente.
– Boa mira, bruxinha! – disse Apolo, por mais que ele não olhasse para mim. Em sua voz havia humor e ele fazia movimentos frente ao inimigo de deboche.
– Apolo, você poderia levar isso um pouco mais a sério – falei.
Ele virou a cabeça para o lado, desviando o olhar do inimigo.
– Seu senso de humor ilumina meu coração, senhorita Granger.
Levantou uma mão e fez um breve movimento com ela, trazendo uma onda de força tão grande ao ponto de derrubar todos os mutantes ao nosso redor de uma só vez, inconscientes.
Aprumei o corpo ao vê-los todos caídos e peguei a faca celestial do chão.
– Fui sério o suficiente para você? – agora havíamos virado de frente um ao outro. Dei de ombros.
– Bem, obrigada por isso – disse eu.
– Por nada – Apolo piscou e pegou minha mão, dando um suave beijo nela ao passo que mostrava seu sorriso de propaganda dentária. Revirei os olhos e espalmei seu peitoral.
– É. Tanto faz.
Ele soltou uma estrondosa risada, mas, um milésimo de segundo depois, as feições de Apolo se tornaram sérias e em um único instante ele agarrou meus braços e puxou-me para o lado, fazendo-me desviar de algo que vinha pelas minhas costas.
– Ei, ei, ei, cuidado! – exclamou, ao mesmo tempo em que senti algo pontudo e muito rápido passar a milímetros de meu rosto. Segundos depois, uma grande flecha se fincou na lataria de um dos carros parados no meio da Quinta Avenida. Engoli em seco e a adrenalina que percorreu meu corpo fez meu coração palpitar.
Apolo estreitou os olhos em direção de onde a flecha viera. Suas pupilas contraíram e suas feições não estavam mais brincalhonas como antes.
– Acho que é bom você voltar àquele hotel, bruxinha – falou ele. Assim que pronunciou tais palavras, senti a fadiga imediatamente dominar minhas pernas. Eu já estava em campo de batalha havia um bom tempo e o sol já havia se posto. Em pouco tempo o céu anil já estaria escuro, e a luta estava longe de acabar. – Você não pode se desgastar muito aqui, ainda mais do jeito que aquele Pallas é... sabe que uma hora ou outra você se tornará o curinga de toda essa história, não é?
Respirei profundamente e pareceu levar séculos até eu soltar todo o ar.
– Você não tem ideia, Apolo.
Ele fez questão de me acompanhar até o hotel. Agradeci-o imediatamente, e assim que entrei no lobby, outros campistas se levantaram e seguiram Apolo de volta ao campo de batalha. Fazia parte do revezamento montado.
Thalia, que estava prestes a retornar ao ataque com algumas Caçadoras, sorriu para mim.
– Vá descansar – disse – acho que Rachel está ajudando a organizar alguns quartos no quinto andar.
Assenti e logo peguei o elevador. Rachel estava à porta do 505 e indicou-me com a cabeça para entrar. Apenas sorri, cansada demais para falar qualquer outra coisa.
Havia pelo menos outras seis pessoas dentro do cômodo. Não me importei com a cama, de qualquer forma. Joguei-me em um sofá no canto do quarto e adormeci imediatamente.
O sonho que se desenrolou após eu ter caído no sono foi possivelmente o mais estranho que tive.
Primeiro que, nele eu ainda estava no quarto do hotel, deitada exatamente no mesmo sofá. Era como se eu houvesse acabado de acordar do mesmo sono em que havia caído há poucos minutos. Só pude perceber que eu não havia acordado de fato quando vi que o quarto estava vazio.
As janelas estavam abertas e o vento fresco da noite que balançava as cortinas fez minha pele arrepiar por um breve instante. Foi só aí que eu reparei que eu nem mesmo estava com as mesmas roupas que vestia durante o dia. No momento, eu trajava um vestido preto relativamente chique e em meus pés havia sandálias de salto.
Tentei não estranhar muito a situação.
– Você está muito bonita, senhorita Granger – a voz masculina atrás de mim sobressaltou-me. Virei em sua direção e, sentado na cama do hotel, havia um homem de paletó e camisa pretas. Suas roupas, escuras como seus cabelos e olhos castanhos, trazia um grande contraste com a pele clara. Parecia ter uns trinta anos de idade, mas eu sabia que ele devia ter mais.
Demorei um certo instante até reconhecê-lo de fato. Minha mente levou um tempo até associar aquelas feições – um tanto harmoniosas, não podia negar – ao homem que havia tirado Harry e Ron de mim como uma espécie de pagamento. Senti uma náusea quando seu rosto clicou de fato em minha mente.
– Tânatos?
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