Segredos Submersos
47 Um jantar com a Morte
Notas iniciais
Tânatos levantou-se da cama.
– Olá, Hermione – disse ele, com um leve sorriso estampando a face, que interpretei como sendo um gesto irônico. – Tudo bem com você?
– Tânatos, o que você está fazendo?
Ele ergueu as sobrancelhas e franziu os lábios ao reparar na aspereza em minha voz. Levantou as mãos ao lado do corpo, como se estivesse em rendição.
– Ei, ei, ei, só estou sendo amigável! Não precisa de tanto rancor... vim aqui estabelecer um laço maior em nossa amizade.
– Mas eu não quero ser sua amiga.
Cruzei os braços em frente ao corpo, um tanto desconfortável devido ao vestido preto que eu usava. Qual era o objetivo disso, de qualquer forma?
A personificação da Morte lambeu os lábios e por um instante pareceu confuso.
– Não somos amigos? Achei que seus amigos bruxos houvessem ficado comigo em prol do nosso relacionamento, Hermione. Não era para eu estar a ajudando?
Senti minhas mãos começarem a formigar e o sangue começar a subir por meu corpo ao ouvi-lo mencionar Harry e Ron.
– Troca de favores não necessariamente significa amizade – falei. Só sabia que não daria outro tapa na cara de Tânatos porque estávamos em um sonho. Remexi-me desconfortavelmente em cima daquelas sandálias de salto e apontei meu próprio corpo a ele. – O que você está realmente fazendo aqui? Qual é o objetivo de eu estar vestida assim?
– Ora, você não veio atrás de mim naquele dia querendo informações? Pois eu tenho informações. E quanto às roupas, bem, eu não poderia levá-la para jantar se você vestisse as roupas que tem usado em campo de batalha. Acreditei que esse vestido a deixaria bonita, e olhe, eu estava certo. Mais bonita do que a senhorita já é, naturalmente.
Ergui as sobrancelhas e o riso que saiu de meus lábios denotava mais escárnio do que humor. Tânatos não exibiu reação; apenas ajeitou o tradicional paletó preto.
– Jantar? – questionei, entre a ironia e a incredulidade. Ele assentiu, já impaciente. – Para quê?
– Conversamos, ora!
Segurou minha mão – seu toque era incrivelmente gentil e gelado, o que me fez estremecer por um leve instante e derrubar momentaneamente a fachada de frieza que eu estivera criando – e puxou-me em direção à porta.
Desvencilhei-me de seu toque assim que saímos do hotel. Já havia anoitecido e eram poucas as luzes que iluminavam as ruas. Viramos na Quinta Avenida e vê-la tão escurecida fez-me sentir um tanto temerosa. Ela estava deserta e sombria sob os escombros da batalha que ainda estávamos travando.
Não pude deixar de estranhar ao ver a Quinta Avenida assim tão vazia – apenas os meus passos e os de Tânatos pareciam quebrar o silêncio. As batalhas ainda deveriam estar acontecendo, mas não havia sinal qualquer de vida ali. Nenhum exército, nenhuma briga.
Olhei em silêncio para a Morte, ao meu lado. Ele olhava para a frente e seu braço roçava no meu ao caminharmos. Percebi o quão mais alto ele era em relação a mim. Ao perceber que eu o observava, tornou os olhos em direção a mim, sem dizer nada. O modo no qual ele me fitou respondeu o porquê das ruas estarem desertas – aquilo era um sonho, no fim das contas. Nós não estávamos realmente lá, e se estivéssemos, qualquer um que de fato estivesse travando batalhas nas ruas não notaria nossa presença. Reparei – um tanto admirada, tinha de admitir – que era quase como se ele houvesse me empurrado para uma outra realidade.
Eu ainda tinha um desprezo intenso por Tânatos pelo o que fez com Harry e Ron, mas não pude deixar de perceber em como suas feições, gestos e voz eram incrivelmente mais suaves do que suas ações. É claro, pensei. Ele representa a morte tranquila.
(Então por que Harry e Ron estavam tão amedrontados ao vagarem pelo Campo de Asfódelos?)
Não soube dizer qual foi o exato instante em que a Quinta Avenida chegou ao fim e aquele salão de luzes amareladas e chão de madeira clara apareceu ao meu redor, mas logo eu já estava sentada em uma mesa com toalha de seda, Tânatos de frente a mim.
(Porque eles ainda estão vivos...)
– Vinho? – a voz de Tânatos interrompeu meus pensamentos. Por um segundo olhei ele um tanto confusa. Balancei a cabeça, momentos mais tarde.
– Não precisa... – murmurei. Meus ombros estavam tensos.
– Champanhe?
Neguei.
– Vodka? Whisky? – ele suspirou quando recusei todas. Não demonstrou, mas era como se revirasse os olhos internamente. Pegou uma garrafa d’água e virou em minha taça.
Ficamos em silêncio por um bom tempo, seus olhos fixos em mim ao passo que bebericava um copo de whisky. Lembrei-me de Harry e Ron e seus olhares desesperados, condenados a vagar pelo Mundo Inferior, e senti aquela inquietação inicial voltar aos meus músculos. Não desviei o olhar de Tânatos e por alguns longos minutos – pareceram ser décadas – apenas nos encaramos.
Era um tanto patético, pensei, eu estar brincando de sério com a Morte. Apoiei-me na mesa e levantei as sobrancelhas em gesto de impaciência.
– Tânatos, se importaria em ir logo ao que é importante?
Ele pareceu levar uma eternidade para engolir aquela bebida, ainda sem tirar os olhos de mim. Minhas mãos voltaram a formigar com a antecipação misturada com a raiva.
– Lembra-se das minhas irmãs? – perguntou, finalmente pousando o copo na mesa.
– Como eu poderia me esquecer? – minha voz soou ainda mais áspera do que eu pretendia, referindo-me às Queres, aqueles demônios alados meio-humanos que por pouco não haviam me matado. Ele soltou uma risada baixa. – O que tem elas?
– Bem, elas se aliaram aos titãs. Morfeu vai começar a levá-las em seus cortejos nessa guerra. Elas geralmente vão atrás de Ares, mas como nenhum dos Doze além de Apolo e Ártemis tem se posicionado nessa guerra, elas resolveram ir contra os bruxos.
– Isso não é exatamente uma novidade, mas tudo bem.
Tânatos revirou os olhos e voltou a ficar em silêncio, tomando outro gole de sua bebida. Fez um gesto breve com as mãos e um prato com torta apareceu em minha frente. Esperei que dissesse algo a mais, mas ele aparentava já ter concluído.
– O que, é só isso? – perguntei, implicitamente zombando de quando ele perguntara a mesma coisa para mim e meus amigos, antes de pegar Harry e Ron. Tânatos deu de ombros.
– Já fiz a minha parte, minha querida.
– Pena que essa sua parte foi algo inútil. Foi para isso que você teve de capturar meus melhores amigos?
– Você queria informações, não é? É o que eu estou lhe dando, e você aceitou o pagamento que teve de me dar. – Aquela suavidade em suas feições parecia estar indo embora.
– Antes de tudo – disse eu, meus punhos se cerrando e eu tendo de me controlar o máximo possível para não batê-lo outra vez –, eu não aceitei porcaria alguma. Você me obrigou, dizendo que sua ajuda seria algo indispensável para nós! Mas adivinhe só? Ela não é, porque a única informação que você me trouxe já era algo óbvio!
Respirei fundo para retomar a calma. Meus ombros se retesaram outra vez, e, com um sorriso falso, empurrei o copo de whisky de Tânatos ao chão. Ele coçou um dos olhos com a mão e suspirou.
– Não seja infantil, Hermione – sua voz estava calma, mas era possível perceber a raiva começando a borbulhar nela.
– Então não seja covarde, Tânatos, e assuma logo uma posição nessa guerra. Aposto que as Queres nem sabem que o irmãozinho dá “informações” à bruxa que elas tanto queriam matar. É por causa disso que você está tão em cima do muro?
– Isso não é verdade.
– É, sim, e nós dois sabemos muito bem disso. Você não passa de um covarde, dizendo que está de um lado na guerra mas em momento algum o ajudando. E isso porque você está se cagando nas calças ante a perspectiva dos possíveis inimigos.
– Cale a boca.
Ri asperamente, não conseguindo mais me controlar.
– Fale o que quiser sobre Morfeu e como ele causa problemas na família, Tânatos, mas pelo menos eu tenho de admitir que ele é determinado e soube escolher um lado.
Ele respirou fundo e fechou os olhos, provavelmente querendo me estrangular. Não me importei.
– Tudo bem, Hermione – falou. – Acha que minha ajuda não está sendo importante?
– Não ao ponto de eu ter sacrificado meus melhores amigos por sua causa.
– Ótimo. Se a senhorita é tão mal agradecida a esse ponto, por que ter a minha ajuda em primeiro lugar? Entre ser um fardo para você enquanto tento ajudá-la ou ficar em cima do muro, honestamente prefiro a segunda opção.
Tânatos deu uma última garfada em sua porção de torta e repentinamente o salão em que estávamos se dissolveu e vi-me novamente com ele na Quinta Avenida. A repentina mudança de luz, do salão bem iluminado à avenida em penumbra, fez com que meus olhos tivessem de se ajustar.
A Quinta Avenida, porém, não mais trazia aquela sensação estranha de sonho que tive inicialmente. Por mais escurecida que estivesse, não estava mais deserta – quadras à frente, pude perceber movimentação dos exércitos, tanto do meu lado como o de Pallas. Eu não mais trajava o vestido preto e as sandálias, mas as mesmas roupas que eu vestia antes de adormecer no hotel.
Tânatos havia me acordado e agora – era o verdadeiro ele, não mais uma mera visão de sonho – me arrastava pela Quinta Avenida. Havia uma grande raiva em seu andar, entretanto seu toque continuava suave como usual. Era quase como um estranho paradoxo.
– O que você está fazendo? – exclamei, enquanto ele me puxava pelo pulso entre as quadras de Manhattan.
– Quer saber de algo? – disse ele, ignorando minha pergunta. Assim como seu toque, sua voz expressava calma e ódio simultâneos. – Seus dois amiguinhos bruxos são incrivelmente chatos. Pensei que levando-os como pagamento eu até teria um pouco de diversão, mas ver aqueles dois trastes vagarem pelo Campo de Asfódelos acabou se tornando uma das coisas mais deprimentes de toda a minha eternidade.
Soltei-me de seu aperto assim que Tânatos me fez virar na 30th Street. Tive a impressão de saber aonde ele me levaria.
Entramos no beco estreito e Tânatos abriu a tampa do bueiro que levava ao labirinto subterrâneo cujos destinos podiam ser tanto o Maelström como o Mundo Inferior. Ele me deu um breve empurrão, fazendo-me descer.
Meus pés não tardaram a encontrar a fraca corrente d’água que seguia em direção ao Mundo Inferior. Tânatos desceu logo após e fechou a tampa, jogando-nos em completa escuridão.
– Luz, por favor? – pediu.
– Lumos – murmurei e a ponta de minha varinha logo se iluminou. A raiva por aquele homem ainda borbulhava em meu sangue e não pude deixar de soltar outra risada falsa e áspera. – Você me enoja, Tânatos.
Ele havia se virado de costas para mim, começando a andar pelo túnel, mas assim que pronunciei tais palavras, voltou em minha direção. Seu rosto, parcialmente coberto pela escuridão, tornou-se lívido. Agarrou a gola de minha blusa com uma brutalidade maior do que eu esperava e pressionou-me contra uma das paredes curvas.
O modo como ele me empurrou contra a parede impedia-me de levantar os braços, portanto toda a luz dirigia-se apenas em direção aos nossos pés. Não conseguia mais ver seu rosto, mas sentia perfeitamente suas mãos próximas aos meus ombros e seu rosto extremamente próximo do meu.
Senti sua cabeça se movimentar e sua respiração quente bater contra meu ouvido.
– Pare com essas gracinhas, Hermione.
Aquietei-me e não pude negar que de fato fiquei assustada. Tânatos provavelmente reparou em como meus batimentos cardíacos haviam acelerado, devido à proximidade em que estávamos. Soltou-me, voltando a sua suavidade natural.
Andamos em completo silêncio. Assim como outrora havia acontecido com os membros sobreviventes do Maelström, a única coisa que não permitia a quietude ser absoluta era a água escorrendo.
Não soube dizer por quanto tempo andamos, mas aparentou ser uma eternidade. Quanto mais nos aprofundávamos dentro dos túneis, mais bifurcações e outros caminhos pareciam começar a cortar o túnel principal, mais curvas iam sendo formadas e gradativamente eu sentia uma certa claustrofobia começando a se apoderar de mim. Após um certo ponto, mesmo que eu e Tânatos estivéssemos em silêncio, a água não mais era o único som ecoando pela curvatura das paredes. Sussurros e silvos baixos, muito similares àqueles das entidades no Campo de Asfódelos, passaram a reverberar ao meu redor, persuadindo-me, querendo guiar-me para fora do caminho que eu e Tânatos seguíamos.
– Não dê atenção às vozes – disse Tânatos.
Logo os diversos caminhos pareceram se cruzar outra vez e o túnel retomou um rumo principal, abrindo-se em direção à escuridão e abaixo de nós, em um ponto no qual o chão passava a ser uma escada circular.
Tal escada parecia ser ainda mais interminável do que o caminho que até então havíamos percorrido, e senti como se eu nunca houvesse descido tanto em minha vida. Após uma longa caminhada, os degraus abriram-se em um vasto campo, cujo estranho céu parecia se dobrar ao infinito e cuja grama morta parecia se estender para sempre em direção ao horizonte interminável.
O Campo de Asfódelos, o purgatório no qual as almas deviam esperar julgamento. Por mais que eu já houvesse estado lá em um sonho, na realidade ele era ainda mais grandioso e assustador. Os sussurros que haviam me acompanhado até ali, antes fáceis de serem ignorados, agora penetravam em minha mente com um ardor tão constante que a única coisa na qual eu conseguia propriamente pensar era como eu sairia daquele local.
– Nox – entoei baixinho; já não era mais necessário uma luz que me guiasse. Ainda que o Campo fosse escurecido, havia mais luz lá do que no túnel. Perguntei-me o porquê de tal coisa.
Tânatos não parecia nem um pouco incomodado com as vozes ou a estranheza daquele local, pelo contrário, aparentava ganhar mais forças e seu rosto parecia mais saudável. Aquela era a terra dele, no fim das contas. O sorriso leve voltou a estampar seu rosto e seus olhos castanhos adquiriram a mesma suavidade de antes de me encontrar no hotel.
– Estou sendo gentil, Hermione – disse ele, virando-se para mim. Vê-lo mais forte e contente me trouxe uma certa raiva. – Eu poderia facilmente matá-la e você sabe disso. Poderia mantê-la presa pela eternidade comigo e você sabe disso, mas hoje eu me sinto como um homem bondoso.
Tânatos se aproximou de mim e cutucou minha bochecha de modo brincalhão. Tirei sua mão de meu rosto. A personificação da Morte apontou um ponto em específico do Campo com a cabeça, onde pude ver de relance cabelos ruivos.
Senti as lágrimas imediatamente subirem aos meus olhos e de minha boca irrompeu um soluço.
– Harry? Ron? – falei, sem erguer a voz. Ainda assim, por mais distantes que eles estivessem, suas cabeças viraram em minha direção.
Quando tomei consciência de mim mesma, eu já corria pelo Campo de Asfódelos desesperadamente, enlaçando aqueles dois rapazes em um abraço apertado e sentindo as lágrimas correrem livremente por minha face.
– Hermione? – ouvir a voz de Ron pela primeira vez depois de tanto tempo pareceu música aos meus ouvidos. Eu mal conseguia falar ou ver qualquer coisa devido aos soluços e lágrimas.
– Você veio nos buscar? – perguntou Harry, sua voz mal passando de um murmúrio. Sequei as lágrimas que turvavam minha visão e finalmente percebi o quão abatidos os rostos de ambos estavam. Isso me deu ainda mais vontade de chorar, portanto apenas concordei com a cabeça.
Soltei os dois e prossegui em abraçá-los separadamente. Tanto em Harry como em Ron enterrei a cabeça em seus ombros e senti seus corpos tremerem junto do meu, conforme as lágrimas voltavam a cair.
Tânatos veio andando em nossa direção, não parando ao chegar perto de nós.
– Só façam um favor para mim – disse ele, passando por nós e não olhando por cima do ombro. – Sumam daqui.
Pela primeira vez senti-me grata perto daquele homem. Ainda segurando os ombros de Harry e Ron, observei Tânatos se afastar cada vez mais.
– Tânatos – chamei. Desta vez, ele olhou para trás. – Como sairemos daqui?
Mesmo distante, pude vê-lo dar de ombros.
– Descubram o caminho pelo labirinto, ora – falou e tornou a cabeça na outra direção, voltando a se afastar.
Por mais que eu não fosse capaz de ver seu rosto, tinha certeza que em seus lábios haveria um sorriso cínico.
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