Segredos Malditos
3 O Sol e A Temperança
Notas iniciais
— Por que ainda está segurando este livro? — Minha tia Orenthal perguntou, na sua forma de homem assim que desci as escadas e deixei o meu quarto.
— Eu gosto de ler ele. — Menti. Ele, ou ela ainda fazia suas tarefas de dona de casa, como varrer e cozinhar. Eu havia tido uma boa noite de sono e mesmo assim esse pesadelo não acabou. — Foi um presente.
— Do seu tio Einar que não existe. Pare de dizer isso ou vai parecer um louco!
Louco é esta situação, pensei. Me abanei pensando em como estava abafado. Não é verão, como a temperatura pode ter subido tanto?
— O aquecedor está ligado? — Perguntei.
— Não, Dankan.
Abri a porta da entrada de trás da casa, vendo os flocos de neve caírem lentamente e ainda assim o calor continuava, minha blusa estava úmida de suor, então a tirei tendo a visão da minha pele suada.
Procurei a origem da onda de calor. A neve não derretia e meu rosto ia ficando molhado de suor. Os cabelos longos deixavam a sensação térmica ainda maior.
Na árvore coberta de neve estava pendurado o boneco de dragão, o presente de Patrick, um dos gêmeos, que agora era uma menina. Puxei ele e o toquei encarando seu rosto de réptil tentando entender o que ele estava fazendo ali, quando encontrei atrás do tronco da árvore o ovo, que meu tio disse que o dragão havia posto. O que era impossível um brinquedo por um ovo.
Dragões cuspiam fogo nas lendas. Então o calor significa a temperatura do bafo desta fera? Segurei o ovo, preenchendo bem as duas palmas e notei um desenho de um sol amarelo na casca. Estava muito quente. A região em volta de onde o ovo estava não tinha neve, o calor havia derretido toda ela.
Procurei o livro deixando o pesado ovo de lado. Um papel amassado se soltou das páginas quando percebi que era um bilhete.
No bilhete estava escrito:
Drago
Os dragos são grandes répteis que encontrei certa vez que possuem hálito de fogo e também feras destruidoras que eu quero que saiba que são reais, querido sobrinho.
Do seu tio Einar.
Mais uma vez, titio reforçava que as suas histórias foram fatos. Eu ainda precisava de mais provas para crer. Quando olhei para o imenso ovo, que podia muito bem abrigar um filhote de avestruz, notei que a casca estava quebrada, sem que eu tenha ouvido o ruído, e dentro dela estava a nova carta.
Segurei-a e desta vez ela se chamava “O Sol” e o número romano XIX (dezenove) com a habitual figura que desta vez era a mais simples, um desenho de sol com um rosto, como se fosse um deus.
— O que está fazendo sem camisa? Vai ficar doente! — Minha tia Orenthal, ou melhor Orentho, exclamou, me assustando por aparecer tão de repente.
— Tudo é real, tio. Tudo que Einar nos dizia todos os anos!
— Tudo o que, rapaz? Já disse que esse Einar só existe em sua cabeça! Nossa família pode ser grande, mas não conheço nenhum tio com este nome! — Proferiu em sua voz grave.
— Sobre a magia. O que achamos que eram contos de fadas. É tudo verdade! — Revelei.
— Se continuar dizendo isso, vou começar a desconfiar que é louco, Dankan.
— Isso significa alguma coisa para você? — Perguntei mostrando a carta do Sol.
— Claro que não. De onde isto veio? — Fiquei em silêncio e depois desconversei.
*
Aquilo que titio, ou titia, disse me fez pensar se eu estava mesmo louco. Dentro do meu quarto folheei mais uma vez o livro que ganhei e o reli quando olhei pela janela e vi algo maior que um inseto, voando, indo em direção ao poço da casa, que pela temperatura, deveria estar congelado. Primeiro pensei que era uma libélula ou uma cigarra, mas era a boneca fada.
O presente de Natália minha prima mais jovem, foi uma boneca de fada, que levantava voo como se fosse um drone por um longo tempo; eu lembro que os meninos vasculharam o brinquedo procurando as pilhas dele ou a bateria, sem sucesso até aborrecer Natália, que deveria se chamar Natalino ou Natálio nesta nova versão oposta que eu ainda não tinha encontrado.
Imediatamente saí da casa e segui o brinquedo em seu voo até o poço. Deveria estar me levando a uma resposta, ou até o próximo bilhete de meu tio Einar!
Caminhei por uma trilha de neve por um tempo até perceber onde levava.
O poço da casa. A água devia estar congelada, como todos os rios e lagos. Ficava um pouco afastado, mas dentro dos limites do terreno. O pequeno telhado que cobria o reservatório estava nevado, e o baldinho na parte mais profunda.
O brinquedo terminou seu voo pousando e eu peguei a boneca de fada antes que caísse e guardei para devolver ao meu primo ou prima mais tarde.
Comecei a puxar a corda, em uma temperatura congelante, para trazer o pequeno balde para cima, desviando o olhar para evitar de ver meu reflexo na água. Isso também me distraia do frio que atingia minhas mãos enquanto trabalhavam. Quando o balde, pesado chegou na superfície eu pensei que só ele pudesse trazer a resposta.
O que eu não pensei é que o balde não estaria cheio de água e nenhum liquido, pesado e manchado. A temperatura gélida quando despejei no chão; horrorizado gritei alto irracionalmente ao ver o conteúdo vazar escuro e vermelho. Sangue! E carne morta, seria humana? Animal? Eu não podia fixar meus olhos por muito tempo, estava me atordoando, não sabia se era coração ou tripas. Ou os dois, a quem pertenceria?
Entre as partes, um pedaço de papel sujo de sangue e muito gelado. As palavras ainda estavam legíveis.
O bilhete dizia:
“Esta carta simboliza a transferência de uma vida passada para a próxima vida. A água passando de um recipiente para outro significa a essência da vida.”
Meus batimentos que estavam rápidos desaceleravam aos poucos até encontrar a carta. Se a água significava vida, a ausência de água representa a morte? No lugar da essência da vida havia apenas sangue. A vida tinha deixado a casa!
XIV. Quatorze.
Um anjo feminino de longos cabelos segurando dois vasos retratado na carta. A água de um estava sendo transferida para o outro. Um par de grandes asas brancas podiam ser vistas em suas costas.
“A Temperança”
Busquei o livro entre os meus pertences e guardei a nova carta dentro.
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