Notas iniciais
Boa leitura!!

— Dankan, procure N! Ele deve estar dormindo na casa da árvore, deve estar com frio! — Deveria estar falando de Natália, minha prima que em sua versão oposta deveria ter outro nome. Atendi ao pedido de Orenthal, minha tia que mesmo em uma forma de homem ainda parecia fazer parte do mundo feminino.

Todo mundo, em sã consciência, saberia que durante o inverno era uma péssima ideia passar a noite em uma casinha em cima da árvore. Mas o filho, ou filha de meu tio ou tia, era apenas uma criança.

— Dankan! — Sua voz infantil chamou meu nome quando me encontrou do lado de fora da construção.

— Seu pai está o procurando, onde estava? — Perguntei.

— Na casinha da árvore.

Lembrei do tio Einar e suas histórias. Quando éramos mais jovens as adorávamos, e agora que não gostamos mais tanto de contos de fadas, isso não tinha mais graça. Menos para a baixinha. A mais jovem, Natália.

— Não seja bobo, deve estar congelando lá dentro! Pode ficar doente, sabia? — Repreendi o menor, que deveria se chamar Natanael, Natálio ou Natalino ao contrário de sua versão menina.

— Não se preocupe, eu usei um cobertor! — Ao dizer isso, saiu correndo e entrou na casa.

Dei uma olhada na árvore. Estava sem folhas, por estar fazendo frio e o telhadinho estava branco de tanta neve. As paredes de madeira deviam deixar todo o vento frio entrar.

Subi na escada apoiada no tronco, e impulsionei meu corpo para subir na casinha, a temperatura do lado de dentro era muito baixa.

No chão havia um tapete peludo que aparentava ser quente, e o cobertor da criança estava jogado de lado. Na ponta do tapete, uma cabeça de leão. Parecia real, mas como poderia ser?

Como sempre meu presente estava junto comigo. Na capa estava desenhado uma carta, mas não de baralho, uma carta decorada e o título era “ As trevas”.

Foi aí que encontrei o novo bilhete do titio. Estava no chão próximo a grande cabeça e passaria despercebido se eu não estivesse procurando exatamente por isso.

O papel tinha uma frase:

“Esta carta fala sobre a força bruta e sobre o desafio de ‘matar um leão por dia’. Deve estar na boca do leão.

Do seu tio Einar.”

Coloquei a mão dentro da bocarra, repleta de dentes falsos e afiados e consegui pegar a próxima carta.

“A Força”

Escrito debaixo de uma figura a frase, e no alto o número romano XI. Onze.

A figura era de um homem musculoso segurando o focinho de um leão com um dos braços e com o outro, a boca. Aparentemente o animal estava morto.

Eu estava tremendo de frio quando percebi que devia ir para o meu quarto. Chegando lá, pude me aquecer levemente embora ainda estivesse com o corpo gelado. Alguém bateu a porta. Minha tia Orenthal, ou melhor Orentho entrou.

— Olá. — Saudei.

— Achou meu filho?

— Sim, eu fiz o que disse, ele já está em casa. — Respondi, sem receber nem um agradecimento ou um sorriso em troca. Estava segurando o livro das cartas na mão, depois de ter guardado a número onze.

— Ainda com este livro? — Titio fez a pergunta sério.

— Já falei que é um presente! Eu... — lembrei do bilhete, e entreguei a ele. — Se não acredita que tio Einar é real, leia isto!

O homem deu uma olhada longa no papel, e depois disse:

— Qual é a prova de que foi escrita pelo seu tio...Einar que não existe? Qualquer um pode ter escrito isso! — Ao ouvir isso, dei a ele, ou ela todos os bilhetes que tinha guardado.

— Dankan, foi você que escreveu tudo isso! Por que não diz a verdade?! INVENTOU ESTA HISTÓRIA E AGORA ESTÁ ENLOUQUECENDO! — Gritou comigo depois de ler um por um.

— É claro que não! Minha letra nem é assim! — Exclamei, pensando se devia ter algum exemplar da minha caligrafia dentro do meu quarto, então procurei pela agenda e entreguei nas mãos do meu tio, ou tia.

— Dankan...é exatamente igual a sua letra! É a sua letra! Você mentiu! SE CONTINUAR ASSIM, NÃO VOU PODER TE RECEBER MAIS NA MINHA CASA! — Orentho se alterou e saiu do meu quarto.

Eu comparei as duas grafias, a dos bilhetes e a da agenda, onde descrevia minhas atividades diárias. Realmente eram idênticas. Não!

Eu tinha escrito tudo que dizia nos bilhetes?

“Tio Einar não existe.”

“Você é louco!”

“As cartas que está procurando quem está o guiando é você mesmo! ”

As vozes na minha mente ecoavam e formigavam na minha cabeça, me fazendo refletir, se eu encontrava as cartas, sem saber a razão, como eu poderia saber de tudo? Não! Eu não sei!

Uma dor de cabeça me golpeou.

Notas finais
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