Segredos Malditos
5 O Louco
Notas iniciais
Ascendi a lareira, jogando pedaços de lenha e olhando o fogo consumindo a madeira.
— Olá, filho. — Uma voz familiar soou.
— Pai? — Me virei vendo papai e corri para abraça-lo. — O que está fazendo aqui?
— Vim para te ver. — a resposta foi estranha, ele nunca visitava a casa dos meus tios. Um silencio se instalou.
— Mas você não gosta dos seus irmãos. — Quebrei o silêncio.
— Não gostou da surpresa?
— Não é isso. — Respondi dando uma olhada no rosto dele, os cabelos prateados e grisalhos, os olhos...masculinos! Ele ainda era homem, tudo tinha mudado na família, menos eu e ele. — Sabe onde está o tio Einar?
— Quem?
— Seu irmão. — Afirmei, percebendo que ele não lembrava do seu irmão Einar, refletindo que devia ser alguma coisa dentro da casa.
— Não tenho nenhum irmão com esse nome. Está tudo bem? — Não dei resposta, ele deveria ser uma mulher, pensei. Pela lógica. Das mudanças de gênero.
— Você não é meu pai! Ou resolveu visitar essa casa do nada? Não fazia isso há anos. — Confrontei ele o encarando nos olhos. Ele sorriu. Um sorriso sacana e falso, eu sabia que não era ele.
— Espertinho, filhão. Onde está o livro? — Ele deu um passo para perto de mim, a nossa altura era quase a mesma. Ele sabia do livro?
— Sabe quem me deu o livro, não é? Me diz onde ele está e eu te dou o livro! — Blefei, tentando extrair informações do paradeiro do tio Einar antes de responder ele. Quem é ele?
Sua mão pousou no meu ombro e dançou pelo meu braço, enquanto uma risada baixa se soltava da sua boca.
— Quantas cartas você já achou? — Sua voz grave aumentou o tom.
— 4. A Força, A Estrela, O Sol e A Temperança. — Revelei, pensativo.
— Muito bem Dankan. Qual acha que será a próxima? — Deixei-o sem resposta, sentindo o hálito quente próximo do meu rosto. — Seu pai nunca existiu. Sempre fui eu. Sabe, eu nem sempre soube que era uma carta. Um dia eu entendi que era apenas um personagem dentro desse maldito livro! O que você faria no meu lugar? Eu enlouqueci, é revoltante ter uma vida que foi dada por outra pessoa, eu sou a criação de um ser humano que não me deu um propósito! Viver é uma maldição, as vezes eu queria não ter consciência, não ter a capacidade de pensar. Feche os olhos, Dankan. — Não reagi, apreensivo. — FECHE OS OLHOS!
Quando fechei, fiquei alguns segundos no escuro, depois abri, e papai tinha sumido, e apareceu mais uma carta. Estava caindo lentamente sendo levada pelo ar. O título era:
“O Louco”
A peguei, e segurei, a figura era de um homem barbudo, com roupas sujas sendo seguido por um cão e segurando uma trouxa nas costas.
Número XXII.
Vinte e dois.
Minha visão girou, um dor de cabeça me atingiu junto com uma tonteira.
*
Som de campainha. Uma porta de madeira se abre e um homem atende.
— Einar? — Um rapaz muito jovem pergunta.
— É ele. — Responde o homem de meia idade. Oh não, é meu tio, do mesmo jeito que o conheci, a mesma aparência.
— Meu nome é Zack. Sou seu meio irmão. — O rapaz, de cabelos escuros, afirmou. Zack? Esse é o nome do meu pai. Que miséria! O rosto dele, é o rosto do papai, só que mais jovem. Na idade da puberdade.
— Eu não tenho um irmão.
— Ele não te avisou? Vou ficar com você.
— Não pode ser---
— Ligue para ele. — Depois disso, tio Einar ligou ao vovô, e confirmou a história. Eu não entendo! Como os dois poderiam estar se conhecendo pela primeira vez assim? Papai era o irmão mais novo, mas ele nunca me contou que era muito mais novo...porque Einar nunca aparentou ser tão velho.
Alguns anos se passaram.
— Quero que conheça uma pessoa. Esta é minha namorada, Leslie. — Com um sorriso no rosto, papai apresentou ao meu tio, uma moça jovial e muito bonita. Mamãe!
— Minha cunhada. Seja bem-vinda! — Einar a abraçou, e na blusa dela estava escrito o nome de uma república, e na blusa do meu pai o nome de uma fraternidade, revelando que os dois se conheceram na faculdade. Não acredito que estou vendo minha mãe viva e jovem.
*
Mais um salto temporal, e desta vez havia outra casa, que eu conhecia muito bem. A nossa casa. Havia um berçário e um bebê dentro. Ele já ficava de pé sozinho.
— Como vai o meu sobrinho? — Tio Einar chegou perto da criança, era eu! Impossível. Ele não envelheceu nada. Ainda tinha aparência de pai, mas não mudou nada, enquanto o papai estava com mais cara de adulto do que jovem.
— Eu quero te falar uma coisa, irmão. Escute bem. Não quero que fale sobre aqueles assuntos com o Dankan. Nunca! Não quero que envenene ele com as suas histórias, ou ele vai ficar igualzinho a você. Entendeu?
— Não são histórias, é real. Sabe disso, Zack. — Respondeu titio. Eu sabia que eles estavam falando das histórias que ele contava para mim e meus primos. E também envolvia os presentes.
— Não interessa, é meu filho, não seu! Fui claro? Ele nunca vai saber. — Meu pai foi bem esclarecedor agora, ele sabia que era real, sempre soube e nunca me disse.
*
A visão terminou.
Então meu pai sempre foi uma carta? E o encontro do meu pai com Einar foi bem diferente de como imaginei, os dois tem uma diferença de idade bem maior que eu tinha pensado. Tio Einar existe sim, está em algum lugar! E os dois sabem mais do que me contaram.
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