Notas iniciais
Boa leitura!

Sinto falta do tio Einar. Ele resolveria essa anormalidade toda. Lá fora, ainda nevava.

― Dankan! ― Uma voz de criança cortou os meus pensamentos. Era um dos meus primos.

― Narci... ― Eu iria dizer Narcisa, mas suas roupas eram de menino.

― Narciso, bobão. Me ajuda, primo! Perdi meu presente! ― O pequeno disse já correndo pela casa.

O presente de Narcisa, minha outra prima mais nova foi um origami de um balão de transporte. Einar avisou que era exatamente assim que foi o balão do mágico de Oz, mas meu tio já dissera que muitos dos presentes foram de muitos contos de fadas.

― Preciso descobrir se o balão me levará a Oz! ― Contou sua voz infantil ― como no livro, quando um tornado faz a casa flutuar e viajar.

― Talvez tio Einar seja o mágico de Oz. ― Falei, imaginando como seria a casa toda sendo levada pelo vento, o que não seria má ideia.

― Quem é tio Einar? ― Perguntou o baixinho. É claro, ele tinha o presente de natal, mas não lembrava quem o tinha presenteado!

― Qual foi o último lugar em que o viu? ― Mudei de assunto o seguindo.

― O jardim de bonsais. ― Contou o infante. Estava se referindo a um jardim de árvores miniaturas que um de meus primos cultivava, não me lembro qual.

― Está bem, eu procuro lá. ― Falei, deixando Narciso sozinho.

*

Chegando no cômodo, arejado por janelas, estavam muitas árvores de tamanho mínimo, dentro dos recipientes e apoiadas em um muro.

Havia algo enterrado na terra de um dos bonsais. Uma carta.

Uma dor de cabeça me atingiu.

*

O Eremita

IX – Nove.

O desenho era um velhote barbudo, segurando um lampião na mão e uma bengala na outra. Luz sempre significa conhecimento. Havia um papel amassado junto.

― O eremita isola-se para descobrir o conhecimento que o rodeia, na natureza, e também para se autoconhecer. ― Li em voz alta o bilhete do titio que estava anexado.

― É, talvez seja isso mesmo. ― Uma voz madura e grave soou. Um velho homem estava em pé na minha frente. E se parecia muito com o sujeito da carta.

― O senhor é o eremita? ― Perguntei a ele.

― É assim que me chamam. ― Sua voz era um barulho cansado. ― Minha missão é buscar conhecimento, é o que faço todos os dias. Durante anos tentei entender os meus colegas, sabe, as outras cartas. Suas motivações, seus anseios.

― E como tem se saído nessa tarefa? ― Falei, o fazendo falar mais o que sabia.

― Ah, muitas ainda são um mistério para mim. ― O eremita coçou sua barba grisalha e longa. ― É difícil conviver eternamente com outras 21 pessoas. Pelo menos alguns deles são pessoas. Uns e outros nem tem consciência que são cartas. Já tive muitos mestres. Vós é o mais jovem de todos, Dankan.

― Qual é a carta que mais te abomina? ― Seus olhos me fitaram, surpresos. Pensei que sua resposta seria ‘O Diabo’ ou ‘A Morte’, as mais ameaçadoras.

― O louco. De todos nós, ele foi o único que buscou seus próprios interesses, quando seu dever seria esperar pelo novo escolhido. Interesses que eu nunca descobri quais eram.

O louco era o homem com a cara do meu pai, mas que não era meu pai. Traga-o aqui, pensei.

Entretanto eu sou o mestre dele. E de todas as restantes.

Abri o livro e peguei XXII – vinte e dois.

― Venha. ― O chamei. O vulto que apareceu não era como eu imaginei. Ele tinha outro rosto, e não lembrava o meu pai.

― O que quer? ― Sua linguagem corporal dizia que não pretendia ajudar.

― Respostas. ― Respondi, sem lhe dar escolha.

― Então pergunte. ― Ele disse inexpressivo.

― Esqueça. Eu quero o meu pai. Me devolva ele. ― Ordenei, mudando de ideia.

― Eu não quero. ― Sua expressão mudou para outra emoção. Raiva? ― Eu não quero! Eu não quero!

― Eu não pedi! Faça o que mandei! ― Gritei, impondo uma ordem. Quando foi a última vez em que eu fui tão autoritário? Acho que nunca. O eremita sorriu.

Não consegui ver de onde ele saiu, mas um corpo alto e de ombros largos, cabelos acinzentados veio na minha direção.

― Pai! ― O abracei, envolvendo em meus braços, sentindo o seu calor em mim.

― Dankan! Senti saudades. ― Sua voz estava chorosa. ― Me desculpe. Me perdoe por não ter te contado, sobre tudo. Tudo que seu tio Einar falava, é tudo real, se eu tivesse te dito, nada disso teria acontecido. Aquele desgraçado fingiu ser eu todos esses anos, eu vi como ele te tratava e não podia fazer nada! Miserável!

― Está tudo bem papai. Agora nada disso importa. Que bom que te achei. ― Suas mãos grandes estavam pousadas no meu rosto, eram quentes. Seus olhos estavam tão marejados quanto ondas do oceano.

― Aquele ser nefasto era o mais perigoso de todos nós. Agiu corretamente, jovem mestre. ― Observou o eremita. ― Acho que ele não irá nos perturbar tão cedo.

― Onde eu consigo achar as outras cartas? ― Perguntei ao ancião.

― Acho que já tem esta resposta, filho. ― Papai falou, fazendo cafuné em meus cabelos.

Eu deveria saber?

Ah, eu sei.

― Usando as outras cartas. ― Deduzi.

― Esse é o meu menino! ― Meu pai sorriu satisfeito.

― Onde está meu tio Einar, pai? ― Fiz a pergunta com a respiração acelerada.

― Infelizmente eu não sei onde. Ele está com aquele outro. O elfo. ― Suspirei frustrado com a resposta.

― O nome dele é Oberon. ― Informou o velhote.

― Então eu sou mesmo um elfo? ― Indaguei.

― Pelo que sei de elfos, sim você é um. ― Revelou o eremita. Talvez eu fosse o primeiro que ele conhece que nem é capaz de fazer coisa alguma de útil, pensei.

Notas finais
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