Segredos Malditos
1 Mundo oposto
Notas iniciais
Abri a porta do quarto.
— Narcisa! — Gritei, quando uma garota de vestido passou por mim no corredor.
— É Patrícia. Esqueceu meu nome? — Sua voz infantil perguntou. Seus cabelos eram longos.
— Patrícia? Quis dizer Patrick, por que está vestido de menina? — Percebi que o rosto era o mesmo do meu primo Patrick. Ou do seu irmão gêmeo, nunca podia diferencia-los.
— Estou vestida de menina porque sou uma menina. — Sua voz estava feminina ou ainda não estava grossa por que era muito jovem? Não conseguia me lembrar, mas de fato falava como uma garota.
— Isso é uma brincadeira? De onde tirou esta peruca? — Dei uma gargalhada sem resistir e Patrícia, ou Patrick, permaneceu séria.
— Não é peruca, é o meu cabelo. Você está estranho! — Toquei de leve os cabelos do infante, e sem querer puxei, tentando provar que era falso.
— Mamãe! O Dankan está me importunando! — assim que gritou a mãe chegou e o seu rosto, masculino, me lembrou o pai. Se isso era um sonho, o pai que se chamava Stephano, deveria atender por Stephanna agora.
— O que está acontecendo aqui?! — Sua voz soava bem masculina, mesmo sendo a mãe da garota.
— Eu é que pergunto, o que está acontecendo aqui? Onde está o titio?
— Que tio, Dankan?
— O tio Einar. — Respondi, pensando estar em um sonho, por que todos aqui estavam com o gênero trocado?
— Que eu saiba você não tem nenhum tio com esse nome. — Meu outro tio, que deveria ser tia, respondeu.
Isto é um sonho? Se é seria um dos mais bizarros que já tive, estão me dizendo que meu tio não existe!
Voltei para o meu quarto e procurei por alguma prova do meu tio Einar. Alguma foto em que ele estivesse ou algo que tivesse a letra dele escrita. Nada. Parei por um segundo e me belisquei no ombro, e infelizmente não acordei de sono nenhum. Isso tudo é real.
Foi aí que encontrei algo, o livro que eu tinha ganho de presente do titio. Ainda estava ali e seria uma prova. Na capa estava desenhado uma carta, mas não de baralho, uma carta decorada e o título era “ As trevas”. Peguei a obra e corri para mostrar para todos, e para minha surpresa, a casa estava vazia.
Para onde teriam ido? Dei poucos passos no corredor e encontrei o presente de Patrício, ou outro nome do sexo oposto. Era a garrafa com o navio dentro. Soltei o livro em uma bancada e segurei a garrafa. Não tinha rolha e a água não vazava.
Levantei o objeto fazendo ficar de cabeça para baixo e o mais estranho é que por um momento nada aconteceu, mas depois um pingo desceu do vidro, e mais um atingindo o meu rosto molhando a minha pele. Arrepiei com o liquido frio até perceber que mais quantidade de água vinha brilhante e transparente escorrendo até deixar o tapete úmido. Soltei o brinquedo e ele não quebrou ao colidir no chão, liberando mais água do que caberia no vidro.
Desci as escadas até chegar ao primeiro andar.
— Tia? Tio? — Chamei. — A casa está ficando molhada!
O tapete das escadas estava tão úmido que eu podia sentir o peso dó de olhá-los.
— O que está acontecendo?! — Saiu da cozinha Stephano, ou Stephanna gritando.
— É UMA GOTEIRA! OU UM VAZAMENTO! — Aos gritos, o marido afeminado de gênero trocado entrava na sala. Não havia explicação, a água parecia surgir do nada e eu não pode revelar qual era a fonte.
Uma rajada forte de água cristalina e do tom mais belo que eu já tinha visto terminou de inundar o cômodo, me fazendo rolar e molhar todas as peças de roupa, flutuando até recuperar o fôlego chegando na superfície. Não consegui ouvir meus parentes.
O nível estava bem alto, era como se o liquido tivesse vindo de outro lugar, um lugar onde a água era tão limpa, não era daqui, assim que mergulhei de novo, meus cabelos tampavam minha visão, banhados no dilúvio, olhei para os móveis, alguns subindo outros afundando, enquanto prendia minha respiração notei algo no fundo, no tapete. Era uma estrela, eu não sabia de quem era mas queria vê-la mais de perto e tocá-la. Nadei.
Quando me aproximei, alguém a pegou antes de mim, e esta pessoa nadava muito melhor do que eu, e mais rápido, logo pude ver a razão, não tinha pernas e sim uma cauda de peixe. Agora era fantasioso demais, uma moça com longas mexas e uma nadadeira cheia de escamas!
Ela me chamava com o dedo para mais perto de onde estava, então eu encurtei a distância entre nós até vê-la mais de perto, parecia humana da cintura para cima. Era como se as histórias do meu tio Einar fossem todas verdadeiras!
Seus lábios se aproximaram de meu ouvido esquerdo até sussurrar:
— Obrigado por me libertar da garrafa! — Em voz feminina, e me devolveu a estrela, fria e escorregadia preenchendo toda a minha mão esquerda. Quando eu percebi que era uma estrela-do-mar.
A sereia nadou para longe indo embora enquanto eu admirava a aparência dela. Eu podia sentir o oxigênio sendo levado de mim, então procurei a porta mais próxima e girei a maçaneta sem poder abrir a porta. Estava emperrada então precisei fazer mais força. E se estivesse trancada por fora? Eu precisava colocar toda a água para fora do cômodo.
Tomei fôlego de novo subindo até a superfície, e o nível subia aos poucos, logo não haveria mais como recuperar o ar. Nadei para baixo de novo e joguei meu corpo contra a porta, forçando a maçaneta até que ela se abrisse e a corrente levasse o liquido embora, me pressionando naturalmente e bagunçando a mobília que flutuava, minhas roupas estavam encharcadas. Quando a água terminou de evacuar, a estrela na minha mão era um papel, não molhado, mas seco. Um pedaço que lembrava uma carta onde estava escrito ‘’A estrela’’.
Como se tudo não podia ficar mais louco, o meu livro que ganhei de presente estava úmido e jogado no chão, deve ter descido as escadas pela correnteza. As páginas não haviam se molhado, e a primeira tinha a mesma frase que a carta, um número romano XVII. Dezessete. E uma figura com uma mulher segurando uma estrela. Guardei e fechei o livro. O que quer dizer?
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