Segredos Malditos

2 Como tudo começou


Notas iniciais
Boa leitura!!

O meu tio chegou da viagem.

— Titio! — Minha prima mais nova pulou sobre ele na porta, como era muito baixa só alcançou os joelhos do grande homem.

Todos estavam em volta da lareira na noite fria e na frente da árvore de natal. Ele era como o papai Noel, estava carregando junto com sua bagagem, em uma das malas o presente de cada um dos sobrinhos. Era assim todo final de ano.

Ele pegou no colo a pequena e sorrindo brincou com a sobrinha e fechou a porta que estava trazendo o vento gelado, e em seguida cumprimentou todos na sala, me deixando por último. Eu não conhecia muito bem o meu tio, apenas recebia um postal de cada lugar que ele visitava durante o ano.

— Tio Einar. — Falei o olhando nos olhos com um sorriso no rosto.

— Dankan. Quanto tempo. — O mesmo me abraçou, pesado com suas roupas de inverno, e eu retribui, concordando com sua afirmação, afinal só nos víamos nesta época.

O mais velho se sentou na nossa roda, se livrando do peso da bagagem, recebendo a ajuda dos dois rapazes gêmeos que se ofereceram.

— Já que me ajudou, Patrick você será o primeiro.

O homem retirou um embrulho da mala, e dele um boneco, a figura de um animal.

— O que é isto? — O jovem, mais novo do que eu perguntou.

— Seu presente. É um dragão. A maioria das criaturas teme ele. E esta peça foi feita com um material que repele a magia negra, então deixe ele em seu quarto e ficará protegido. Cuidado para não perder ele.

O rosto branco do garoto sorriu, como se estivesse zombando sem acreditar no que o adulto dizia. Os outros embora em silencio, se seguravam para não rir.

— Ah veja, ele acabou de pôr um ovo. O que quer dizer que é uma fêmea. — Titio ergueu o brinquedo e embaixo do mesmo uma pequena esfera dourada, fez a sobrinha mais pequena sorrir. — Cuide bem do ovo para ele chocar um dia.

— Impossível. — Patrick retrucou, guardando o seu presente. Todo ano o tio chegava de viagem com seus souvenires e sempre contava a história de cada um nos fazendo acreditar, quando éramos mais jovens, e agora que não gostamos mais tanto de contos de fadas, isso não tinha mais graça. Menos para a baixinha.

Para a menor, o presente foi uma boneca de fada, que levantava voo como se fosse um drone por um longo tempo; os meninos vasculharam o brinquedo procurando as pilhas dele ou a bateria, sem sucesso até aborrecer Natália.

Einar insistia que era mágico.

Para o outro gêmeo, Patrício, o tio entregou uma garrafa com um navio dentro. Um desses eu já tinha visto antes, mas havia água dentro do objeto, e o homem afirmava convicto de que não fora construído por um humano. A água, brilhante e transparente, não vazava para fora da garrafa destampada quando era virada e o adulto advertia que o vidro era inquebrável. Natália exclamou várias vezes que vira pequenas sereias dentro da água.

O presente de Narcisa, minha outra prima mais nova foi um origami de um balão de transporte. Einar avisou que era exatamente assim que foi o balão do mágico de Oz, mas meu tio já dissera que muitos dos presentes foram de muitos contos de fadas.

Eu estava curioso sobre o que ganharia este ano. Da última vez ele tinha me dado uma armadilha de vampiro, feita de prata. A irmã dele, minha tia ficou brava e disse que era perigoso um presente assim. Era como uma armadilha de rato, só que maior. Ele quase fora proibido de nos visitar este ano.

— Este é para você. — O barbudo me entregou um livro de capa dura, diferente dos outros brinquedos o meu era simples e sem interações, era apenas um livro.

Na capa estava desenhado uma carta, mas não de baralho, uma carta decorada e o título era “As trevas”.

— Obrigado. — Agradeci sério, guardando o livro e recebendo um sorriso que fez suas rugas aparecerem. Depois do jantar, folheei a obra e percebi que ao invés de texto como os outros livros continha imagens, pinturas muito antigas.

Em cada figura por página, estava escrito uma frase. “O Mago”, “A Imperatriz”, “O Papa”, “O Enforcado”, “A Morte” e até mesmo “O Diabo”.

Não consegui entender o que tio Einar queria dizer me presenteando com isso.

Na hora da sobremesa, ele nos serviu chocolate quente, e as crianças logo depois de beber já estavam dormindo. Ele se ausentou indo até a varanda.

— Acho que não entendi muito bem o meu presente. — Falei, o seguindo até o lugar isolado.

— Não gosta de livros, Dankan?

— Gosto, mas eu estava esperando uma geringonça, alguma máquina. E aquele livro é um pouco enigmático. — Respondi bebendo a minha xicara de chocolate e vendo o mais velho tragando um cigarro.

— Você é o sobrinho mais velho que tenho. Já está na hora de parar de usar brinquedos. Guarde bem aquele livro, vai precisar dele. Queria te perguntar se tem interesse em viajar. Para lugares novos, assim como eu.

— Eu nunca saí desta cidadezinha, eu não sei o que tem lá fora. — Disse, depois de pensar um pouco.

— Você é jovem e precisa conhecer culturas diferentes e pessoas novas. Eu sei como é difícil conviver com o meu irmão. Quero que venha comigo na minha próxima viagem. Eu saio semana que vem em um trem. Não precisa dar resposta agora. Escolhi você por que é o mais velho e o mais inteligente.

Pensando no que titio propôs, andei por um corredor procurando o meu quarto. Assim que vi um espelho fechei os meus olhos, até que meu pé atingiu um degrau e eu os abri. Não podia suportar ver o meu reflexo, desde uns anos para cá desenvolvi espectrofobia ou Eisoptrofobia, medo de se olhar no espelho. Eu sei, é ridículo.
No banheiro do meu quarto, coloquei uma toalha sobre o espelho, e em qualquer coisa que houvesse reflexo eu deixava de cabeça para baixo. Além disso eu comecei a ouvir na minha mente ecos altos de tudo que eu dizia em voz alta. As vezes era algo que eu falei recentemente ou uma frase que há muito tempo eu tinha dito e nem me lembrava.
Bom, foi assim que tudo começou. Todo mundo estava com o gênero oposto, e agora um dia depois tudo está invertido. Será que foi tudo um sonho?

Notas finais
Comentem, favoritem, divulguem!!