Segredos Fatais

18 Capítulo 17


Notas iniciais
Volteeeeeeei bitches!!! sim, sumi, pois é, arranjei um namorado e depois voltei pra argentina pra estudar, mas dai não me quiseram mais lá, voltei pra casa e namorei mais e estudei mais.... a coisa tava louca aqui. sorry por não voltar antes, mas estou aqui! e tenho capítulo novinho pra vcs. galera POR FAVOR comentem ok?? preciso mto do feedback de vcs especialmente nesse capitulo. senti saudades. curtam o cap.

A atmosfera tornou-se densa, insuportavelmente densa, assim que o grito desesperado de Illya ecoou. Com certeza eu quebrei seu fêmur com a pancada do peso arremessado.

Eu não mais tentei aparentar calma, diversão e muito menos controle. Parei de me preocupar com respostas, parei de prestar atenção em suas palavras e ignorei o terror exalando dos meus amigos atrás de mim.

Porque ele colocou Adriana na categoria de garota Belikov... E a partir desse momento, pra mim, ele não era mais humano.

“Você não é esperto colega...” eu observei amargamente. “Sério mesmo? Você nunca ouviu as histórias?” elevei a voz enquanto me dirigia à caixa de primeiros socorros que ficava bem visível sobre o balcão. De lá retirei duas faixas e voltei envolvendo-as de forma protetora em volta dos meus dedos. “Nunca ninguém te contou dos crimes de Zvezda? Nunca ninguém te falou como eu me tornei quem eu sou?” gritei em fúria quando me pus finalmente cara a cara com o homem loiro. Medo, puro medo, preenchia seus olhos e uma gargalhada de escárnio gelou o ambiente.

Alguns segundos depois, eu percebi que a gargalhada era minha. Uma parte de mim odiou a minha boca por produzir tal som. Mas não o suficiente para me fazer parar.

“Ninguém te contou?” eu baixei a voz. “Ou será que você não acreditou que uma garota podia te MATAR. COM. AS. PRÓPRIAS. MÃOS” Demarquei o ritmo da frase com um soco bem dado de cada lado de seu rosto em cada palavra que não podia deixar minha garganta sem ser em um grito.

O cheiro enferrujado de sangue invadiu minhas narinas. Obviamente a boca de Illya estava sangrando copiosamente, também verifiquei minhas mãos por via das dúvidas e vi algumas partes avermelhadas que logo se tornariam mais escuras, logo seriam doloridas. Eu não consegui me importar.

“Vanessa...” Alexander sussurrou quando eu parei respirando pesado. Vagamente ciente de minhas costelas machucadas doendo em protesto.

“NÃO! Você não tem direito de falar NADA Alexander! Você sequer tem NOÇÃO do que ele quis dizer? Você sabe o que é uma garota Belikov?” esbravejei. Ele recuou um passo ao me olhar nos olhos.

“Eu sei!” ele disse em voz baixa, linguagem corporal defensiva, mas seus olhos... Seus olhos permaneciam firmes, decididos.

As minhas lágrimas estilhaçaram sua imagem perante meus olhos e começaram a cair desesperadamente trilhando caminhos tortuosos pelo meu rosto contorcido de raiva.

Num movimento fluido eu me virei em direção a Illya e descontei a raiva em seu rosto novamente. Ele mal estava consciente quando eu parei respirando mais ofegantemente ainda, seja pelas lágrimas ou pelo esforço. Agarrei seu queixo com força e ergui sua cabeça pare que ele me encarasse.

“Vanessa...” Novamente a voz de Alexander me parou.

“NÃO!” Dessa vez eu nem mesmo deixei que ele terminasse a frase. “Você NÃO FAZ IDEIA do que homens como ele fizeram comigo! O que eles fariam com elas.” Eu apontei para minhas amigas e embora as lágrimas ainda dominassem meu rosto, a minha voz era clara como a água.

O rosto dele se contorceu numa expressão horrorizada e eu imediatamente sabia no que ele estava pensando. Novamente a risada gelada escapou de meus lábios e eu senti como se estivesse perdendo a cabeça.

“Existem coisas piores que estupro.” Murmurei respondendo à sua pergunta não pronunciada.

“Elas são parte da minha FAMÍLIA ALEXANDER!” Esbravejei tentando fazer com que ele entendesse. “Eu passei a PORRA DE UM ANO sem saber se Adriana e Stephanie estavam vivas! 365 noites com o medo paralisante de morrer sozinha NA RÚSSIA! 365 dias em que MEUS PAIS achavam que eu tinha MORRIDO!” A dor se tornou tão evidente em minhas palavras quanto era em meu rosto quando minha voz embargou pela segunda vez na mesma noite. Passei a mão pelos meus cabelos com força.

“Vanessa...” ele tentou novamente. Mas eu o impedi.

“Você acha que isso e MUITO?” Eu apontei para a figura desfalecida de Illya. Com um sorriso irônico eu tirei o cardigan que protegera meus braços até então. Por baixo eu usava uma regata fina com um amplo decote na parte de trás. Virei-me e mostrei a ele minhas costas marcadas pelo chicote dos meus carrascos. Os olhos do meu chefe dobraram de tamanho quando ele entendeu que eu já tinha passado por algo pior.

“Mas isso não é o pior...” e ri sarcasticamente enquanto puxava Júlia pelo pulso direito e arregaçava sua manga para que ele visse as marcas de unha em sua pele alva. “Tá vendo isso? Quase TODOS na minha vida tem uma ou duas marcas como essa, sabe porque? Porque mesmo depois de ter voltado pra casa, eu não acordei daquele pesadelo. Na verdade eu tinha ataques de pânico que duravam horas. E sabe o que eu fazia durante esses ataques de pânico? Eu agarrava quem quer que estivesse ao meu lado com força suficiente para tirar sangue. Tudo isso por causa de GENTE COMO ELE!” Soltei a mão de Júlia e à passos rápidos fui até o peso cor de rosa e o arremessei no ombro do homem loiro com a força presenteada pelo meu coração remendado.

“Você quer mesmo vir cheio de moral pra cima de mim Alexander?” em um segundo eu já estava cara a cara com ele novamente. “Você realmente quer que eu acredite que se fosse Serguei sentado ali naquele banco você não estaria fazendo o mesmo?”

O silencio provavelmente voltou a reinar nesse momento, mas a batalha travada entre os nossos pares de olhos não deixou que eu percebesse. Eu via que ele não achava que eu estava pegando o caminho certo e ele via que eu não sabia outra forma de agir. Uma guerra entre o certo e a justiça poética pairou no ar cheio de eletricidade estática entre nós enquanto a minha respiração ficava cada vez mais rápida e superficial. Droga, minhas costelas estavam doendo muito agora.

Depois do que pareceram eras, ele finalmente se rendeu ao que eu sabia ser a verdade. É claro que ele não perderia a chance de punir Serguei por ter dilacerado sua família caso a oportunidade aparecesse. Abaixou os olhos envergonhado e a tensão que até então havia pairado no ambiente se esvaiu consideravelmente, tudo ficou mais leve e só então eu percebi o quão ofegantes eram as minhas respirações.

Com certeza seria por causa da grande montanha russa emocional que eu havia acabado de sofrer certo? Ainda mais misturada com todo o esforço físico necessário para uma tortura bem feita. Pausei por alguns momentos para recuperar minhas forças e seguir interrogando Illya.

No entanto, enquanto a minha respiração foi normalizando meus batimentos cardíacos a acompanharam e meu sangue foi ficando cada vez mais frio. A adrenalina estava me deixando e só então pude perceber a quantidade de dor que me consumia. De repente, tão rápido quanto havia reduzido minha respiração acelerou novamente, meus batimentos cardíacos aumentaram, mas dessa vez em protesto por eu continuar cobrando tanto de meu próprio corpo sem ter dado a ele a chance de se recuperar.

Sem aviso, cai de joelhos e o mundo ficou negro.

* * *

“Eu ainda acho que deveríamos tê-la levado no hospital” foi a primeira coisa que escutei assim que voltei do mundo dos sonhos.

“E dizer o que? Então, ela caiu das escadas! Com a quantidade de cicatrizes que ela tem, no mínimo você teria sido preso por agredir uma mulher! ” Uma voz feminina discordou, mesmo parecendo igualmente preocupada.

“Mesmo assim! Você não acha que teria valido o risco? Ela está dormindo a quase 24 horas! ” A voz masculina voltou a falar me confundindo um pouco. Teria eu ficado realmente 24 horas inconsciente? Pelas dores que eu já sentia no corpo, mesmo sem ter mexido um musculo, eu não acreditava ter dormido mais que uma hora.

“Matt, não é como se nós tivéssemos simplesmente ignorado os machucados dela. Você ouviu o que Ryan disse, ela só tem umas duas costelas trincadas e um monte de hematomas, ela está bem! ” Ouvi outra voz masculina adicionar à discussão, mas essa voz estava muito mais perto. Como se estivesse bem ao meu lado. Seria essa a voz de Alexander?

“E quem é que disse que esse tal de Ryan e confiável Alexander? ” Yep, acho que era ele sim. “Ele é só o seu motorista, cara! O que ele sabe? ” Matt levantou um pouco a voz e um coro de “shhs” acompanhou sua mudança de tom.

“Caso você não saiba o Ryan fez três tours no Afeganistão. Ele sabe muito bem o que são ferimentos preocupantes. Se ele diz que ela vai ficar bem, eu acredito! ” Alexander respondeu com a voz ainda no volume de um sussurro

“Você só está com medo dessa história sair na mídia e todos te rotularem como um agressor de mulheres que são suas assistentes. Você não se importa com ela, nunca se importou e isso não me surpreende, mas no mínimo eu achei que eu significasse mais para você que isso Alex! ” A voz de Matt ficou cada vez mais alta e mais próxima, agora eu podia ouvi-lo ao meu lado, respirando pesado. Ouvi o som de sua fúria. “O que eu vou fazer se ela morrer Alexander? “ Meu namorado completou e ouve um momento de silencio.

Ao meu lado pude ouvir a inspiração forte que Alexander deu e eu conhecia aquele som. Ele estava prestes a estourar e isso não ia ajudar ninguém. Afinal a briga era desnecessária, eu estava bem viva, e tomei essa deixa para mostrar a todos esse fato:

“Morrer? Por causa de algumas costelas machucadas? Por favor Matt, eu achei que você soubesse que eu sou melhor que isso. “ Minha voz rouca devido a minha garganta seca soou no quarto.

Vagarosamente eu fui abrindo os olhos e me localizando no local. Vi a decoração e rapidamente identifiquei este como sendo o meu quarto. Quatro pares de olhos me encaravam com preocupação durante uns segundos de silencio.

Até que Júlia gargalhou alto, pulou sentada ao meu lado na cama e meio que me abraçou na minha estranha posição, meio sentada e apoiada nos travesseiros.

“Eu disse pra esse povo que eles estavam se preocupando à toa! ” Ela gargalhou mais forte e eu me juntei a ela. Ou melhor, tentei, porque minhas costelas se recusaram a aceitar mais abuso em silencio e foram bem claras ao me informar sua revolta. Eu resmunguei, e a risada parou imediatamente.

Um coro de “tudo bem” ressoou ao meu redor e eu acenei com a cabeça, ainda sem folego para usar minha voz.

“Vamos ali buscar algo pra você comer Nessa” Julia disse, agarrando a mão de Alexander e Adriana no caminho e os puxando pra fora. Foi então que Matt e eu trancamos os olhos um no outro pela primeira vez desde que eu abri os olhos. Durante alguns segundos houve silêncio, e eu tentei ao máximo analisar o que tal silencio significava, mas o seu olhar era sempre enigmático demais para mim.

“Então quer dizer que você me despacha para o hospital preocupada comigo e depois desaba no meio de sabe lá o que você estava fazendo com aquele cara... Sério, será que você não podia vir comigo não? ” Ele finalmente disse num suspiro cansado.

“Desde quando eu faço as coisas do jeito fácil? “ Brinquei enquanto tentava me endireitar na cama, mas os meus músculos protestaram contra o movimento e eu arfei de dor. Matt cruzou o quarto rapidamente e num segundo estava ao meu lado ajeitando os travesseiros para mim.

Ao passo que minha respiração retornava ao ritmo normal, eu me inclinei contra o seu peito e inalei o seu perfume maravilhoso, ouvi seu coração. Era difícil acreditar que ele era meu.

“Você tem noção de como me assustou hoje? ” Ele sussurrou no tom que era basicamente um fantasma de sua voz normalmente tão segura e confiante.

“Eu já passei por pior...” sussurrei de volta tentando acalmá-lo

“Eu não” o seu murmúrio era tão cheio de dor que meus olhos queriam se desintegrar em lágrimas.

“Você sobreviveu, e eu também é o que importa. ” Murmurei colocando um sorriso não totalmente verdadeiro na voz.

“É acho que somos mesmo o casal maravilha” replicou olhando nos meus olhos, e me beijando em seguida. Um beijo que fez a realidade parecer muito, muito longe de mim.

“Será que a gente pode não mencionar pra o mundo que eu levei uma surra feia e você praticamente matou o cara com o seu mindinho? “ Brincou alguns segundos depois e eu gargalhei alto apesar da dor no peito e abdômen.

“Será que estamos exagerando Matt? “ Consegui dizer entre as gargalhadas.

“Não, quero dizer, eu só vi um pedaço da coisa toda, mas o Alex me contou. Você praticamente matou o cara na voadora, Nessa! “ Exclamou ele fazendo movimentos bobos com as mãos que deveriam imitar golpes de karatê.

“Eu te amo...” Declarei instintivamente, falando português em meio as nossas gargalhadas bobas. Essas três palavras mágicas saíram de minha boca e congelaram o mundo ao meu redor com o choque de tal declaração. No entanto, no instante que se fizeram sólidas no ar denso entre nós eu sabia que eram verdade, eu sabia que não havia volta, a estrada do amor não tem retorno.

Seus grandes olhos verdes me encararam profundamente com aquela expressão deliciosamente enigmática e seus lábios começaram a se curvar levemente em um sorriso zombeteiro enquanto as minhas bochechas esquentavam.

“Você me ama! “ Exclamou quase que como uma acusação.

“Eu nunca disse isso! “ Me defendi sem saber exatamente porque, sendo que ele já tinha me dito as três palavras decisivas primeiro.

“Não minta para mim Nessa, eu sei o suficiente de espanhol pra perceber que isso aí foi um eu te amo. “ A gargalhada oculta em sua voz quebrou as minhas defesas e eu sorri de volta.

Sem esperar uma resposta ele me raptou de cima da cama no estilo de noiva e me girou pelo quarto em uma explosão de alegria enquanto ele repetia: “Eu sabia, eu sabia, eu sabia!” E eu gargalhava alto.

Até que ele parou, me pôs no chão, olhou-me fundo nos olhos e, por eles, fez a sua pergunta ser declamada: “Eu estou certo? “

“Mas é claro que eu te amo! “ respondi de volta.

E então eu não tinha mais dor, porque encontrei no seu beijo magnífico o poder das três palavras mágicas que curaram cada pedacinho quebrado do meu coração.

Porque agora não haviam mais dúvidas. Ele era meu.

* * *

Nos próximos dois dias eu fui basicamente reduzida a prisão domiciliar para o que as pessoas daquela casa passaram a chamar de “recuperação”. Basicamente eu ficava em meu quarto, comia no meu quarto, não era autorizada a respirar fora do quarto.

Eu tentei explicar que algumas costelas machucadas e músculos doloridos não eram razão pra todo esse fuzuê, mas claro que todos os meus esforços foram inúteis, eles estavam veementemente determinados a cuidar de mim, eu precisando ou não.

Todo esse tempo livre, é claro, foi convertido em muitos filmes abraçadinha com Matt ou comendo pipoca com as garotas e, inevitavelmente, pensar. Afinal, eu tinha um assassino russo no porão de uma casa que nem era minha para começo de conversa, e as pessoas iam começar a suspeitar se Alexander continuasse a manter dentro da casa somente quem era absolutamente necessário, mas ainda pagando a todos.

Cada osso do meu corpo queria mata-lo. Mas a parte racional do meu cérebro argumentava que, se eu não tinha rendido o resto da moralidade que me restava por Serguei, Illya não chegava nem perto de valer a pena. Sem contar o fato de que matar o mensageiro não impediria quem quer que fosse de mandar outro, e um mais letal da próxima vez.

Minha mente várias vezes flertou com a ideia de voltar a tortura-lo, mas até eu sabia que não podia ser confiada perto de tal monstro novamente sem cometer um erro irreversível. Isso sem considerar o fato de que o treinamento que ele teve foi com certeza um milhão de vezes mais intenso que o meu e eu nunca quebrei sob tortura.

Todos os caminhos apontavam para uma solução e quando eu finalmente estava pronta para toma-la como correta, chamei o meu chefe para discutirmos os detalhes.

“Só porque eu não era permitida fora desse quarto não significa que você não podia entrar Sr. Monroe” eu dispensei saudações quando ele entrou na cela domiciliar que eu chamava de quarto.

“Eu sei” foi sua resposta seca. Franzi a testa não entendendo sua reação. Mesmo quando, aliás principalmente quando, estava irritado Alexander entrava nas minhas brincadeiras. O único indicador de seu humor era o nível de acidez das suas respostas.

“O que, você estava com medo que eu te atacasse com pesos de academia também? “Permaneci com um leve sorriso na voz, tentando ao máximo trazer um pouco de normalidade a um relacionamento que já era complicado para início de conversa.

“Não, eu estava com medo de lembrar porque eu quero tanto matar o bastardo lá em baixo.” Ele permaneceu seco, olhando fixamente para o meu braço direito. Segui seu olhar e percebi o foco de sua atenção.

Desde que revelei boa parte da minha história, ainda que enigmaticamente, na sessão de tortura. Desisti de continuar escondendo as minhas cicatrizes mais obvias. Naquele momento mesmo eu estava usando uma regata de alças finíssimas preta e uma calça de moletom. O estilo cavado nas costas deixava bem a mostra muitas das linhas enrugadas deixadas pelo maldito chicote de Dimitri. E uma delas continuava uns centímetros após o meu ombro direito. Obviamente, tendo visto sua irmã ser assassinada perante seus olhos, ele sentiria uma raiva especial de alguém capaz de fazer isso comigo. Não que tivéssemos a relação de irmãos, nem perto disso, mas eu sabia que ele tinha algum tipo de instinto protetor sobre mim.

Tentando tirar a atenção das minhas marcas odiosas eu me levantei vagarosamente da cama e coloquei o robe pendurado nas costas da cadeira atrás de minha escrivaninha e sentei nela, acenando pra que Alexander tomasse a poltrona para sí.

“Nós temos que dar um jeito de tirar ele daqui. ” Eu fiz o favor de afirmar o obvio e ele apenas concordou com a cabeça.

“Algo em mente?”

“Vamos dizer que eu tenho algumas ideias...” sorri meu melhor sorriso maquiavélico e ele sorriu de volta. Isso ia ser divertido.

* * *

Se tem uma coisa que Alexander Monroe sabe como fazer é enganar pessoas. Toda nossa história com o pôquer e a forma com a qual ele conseguiu convencer Matt a ajuda-lo com algumas coisas na empresa pra que o meu amor não estivesse aqui durante a duração do plano me fizeram ter uma grande ideia do que ele era capaz, mas eu não compreendia a extensão de seus conhecimentos até planejarmos enganar Illya juntos.

A base do plano era muito simples: ele precisava achar que não está sendo seguido, para que nos levasse até o seu chefe. Dentro dessa base muitas ideias vieram e eu devo admitir que muitas delas eram tão irrealistas quanto as sequencias de ação dos filmes Missão Impossível.

No entanto, eventualmente chegamos em um consenso, e sem demora colocamos o plano em prática:

“NÃO ALEXANDER!” eu gritei no corredor que dava para a academia onde Illya ainda estava preso. “Você NÃO PODE SOLTÁ-LO, ele só vai atrás de quem quer que seja o chefe e trazer o inferno de volta com ele. É isso que você quer? Morrer? Você sequer compreende a seriedade da situação Alexander?” Gritei com todo o poder da minha voz.

“Se eu compreendo? Se eu compreendo que você quase MATOU uma pessoa debaixo do MEU TETO? Se eu compreendo que posso ir preso a qualquer momento por ser cumplice em um sequestro? Sim, eu compreendo tudo isso, e essa é a razão pela qual eu vou soltá-lo e oferecer a ele e ao chefe dele mais dinheiro que eles podem sonhar!” Ele gritou de volta, numa histeria quase shakesperiana.

“E você acha que adianta Alexander? Eles JÁ TEM DINHEIRO! Esse não é um trombadinha qualquer da rua não!” Me desesperei de volta.

“Ainda é a nossa melhor chance! Agora, você vai calar a boca ou eu vou precisar te deportar?” ameaçou da forma que só um Monroe sabe como e eu recuei dois passos.

Do outro lado do corredor Adriana fez um sinal positivo, isso significava que, pela câmera, ela confirmou que Illya havia ouvido a história toda e estava interessado na conversa. Essa era a minha deixa:

“Me deportar? Não me faça rir Alexander! Com as coisas que eu sei sobre a sua empresa você não pode me tocar. Ou você vai querer que William descubra sobre aquelas irregularidades monstruosas no balanço da América Central?” Não segurei o veneno em cada palavra.

O sorriso de Adriana ficou enorme e eu sabia que a missão tinha sido cumprida. Indo para a fase dois.

“Você não ousaria” Retrucou ele incrédulo.

“Me teste!” Desafiei com meu melhor olhar prepotente. Sem mais uma palavra, me virei e caminhei lentamente na direção oposta, desaparecendo no topo das escadas segundos depois de ouvir um raivoso Alexander arremessar um armário de corredor no chão.

Assim que estava fora de alcance, corri o mais rápido que pude para a sala de câmeras, onde Júlia e Adriana estavam em meio a penumbra da luz dos monitores. Meio sem fôlego, cheguei a tempo de ver boa parte do plano terminar de ser desenvolvido.

Pelo monitor preto e branco eu vi Alexander parar na porta da academia e encarar Illya que parecia dormir com a cabeça pendida para a esquerda.

“Ele está assim faz um tempo já, fingiu dormir assim que Alexander começou a rodear a porta da academia” informou-me Júlia sem tirar os olhos da tela.

“Ele é esperto.” Murmurei.

Na tela assistimos Alexander passar as mãos sobre o rosto e o cabelo, com uma ótima encenação de angústia. Ele olhou a caixa de ferramentas sobre o balcão e deu dois passos tentativos em direção a esta, mas parou no meio do caminho com uma expressão de dúvida intensa.

“Acho que ele devia ter sido ator” sussurrou Adriana arrancando baixos risinhos de todas nós.

“Quer saber, dane-se ela!” A voz de Alexander explodiu no autofalante e todas nós voltamos a atenção ao show se desenrolando em frente os nossos olhos. Alexander cruzou a sala com um alicate na mão e se embora começou a cortar as tiras de plástico que nos serviram de algemas das mãos es pés de Illya, que por sua vez, abriu os olhos com uma expressão alarmada.

“Você vai embora AGORA!” Ele enfatizou agarrando o homem pelo cotovelo e o levantando a força para empurrá-lo em direção a porta. Illya mancava dolorosamente tentando acompanhar o passo, sem muito sucesso.

“O que...” Illya começou a dizer, mas Alexander fez um sinal de silêncio.

Júlia foi acompanhando o progresso deles com as câmeras até a porta de trás da casa, pela lavanderia. Lá Alexander parou o processo bruscamente e pudemos ver o grande desconforto de Ilya que arfava de dor e cansaço se apoiando pesadamente na perna que não estava quebrada.

“Eu não poderia ligar menos para o que ela fala. Não importa, ter você aqui é um rico muito grande, porque mais um segundo e ela vai perder o controle e vir aqui te matar. Eu não posso ter um corpo na minha casa!” Alexander prosseguiu com sua encenação.

“O que você vai fazer?” Illya fez um trabalho porco tentando parecer assustado.

“Eu vou ligar pra o meu guarda da portaria e pedir pra ele vir aqui enquanto você vai embora.” Disse Alexander e um sorrisinho vencedor ameaçou surgir no rosto desfigurado de Illya. Antes, é claro, de Alexander agarrá-lo pela gola da camiseta e encará-lo com um de seus olhares mais ameaçadores. “Agora, você escute muito bem o que eu estou prestes a te dizer. Se eu sequer ouvir o seu nome mais alguma vez na minha vida, eu vou te caçar, te trazer de volta aqui, e deixar ela fazer O QUE ELA QUISER contigo. Preciso ser mais claro?” Illya ficou mais branco que papel e acenou positivamente repetidas vezes antes que Alexander o empurrar e chamar o guarda pelo interfone.

Illya não perdeu tempo e mancou o mais rápido possível na direção oposta ao meu chefe. Um suspiro de alívio embalou nós que estávamos na salinha de monitores.

Parte 1: Completa.

* * *

Duas horas depois eu estava com Alexander, Júlia e Adriana dentro de um taxi indo em direção a área industrial da cidade, no armazém para o qual Ryan havia seguido Illya. Obviamente simplesmente soltar o nosso prisioneiro estava fora de questão, mas também precisávamos saber quem mandava nele. Por isso todo o teatro que tivemos que armar.

Illya ligou para alguém por um orelhão e foi até o tal armazém e agora estávamos nós cheios de antecipação para descobrir que era o filho da mãe que mandou Illya para nos vigiar.

Saímos do carro e fomos andando calmamente pelo lado de fora da construção gigante e paramos todos embaixo de uma janela perto das duas silhuetas masculinas que vimos de longe. As vozes eram baixas e a posição em que o sol se encontrava me impedia de ver o rosto do tal chefe, eu só podia ver que ele era alto e bem vestido.

“Então ele me falou para correr antes que ele desistisse.” Illya concluiu o relato.

O chefão andou de um lado para o outro tentando pensar no seu próximo passo. Eu o odiei naquele momento. O homem bem vestido com o rosto ocultado pelo sol estava friamente analisando o que fazer conosco. O mesmo que havia enviado alguém para me tirar da minha bolha de alegria.

Eu queria Matt ao meu lado, queria que ele me abraçasse que me falasse que tudo ia ficar bem, queria que ele fosse meu porto seguro para que a preocupação não me alcançasse mais. Como esse monstro ousava vir e estragar a minha alegria?

Por causa daquela criatura eu passei muito perto de me perder em mim mesma novamente, cheguei muito perto de assustar os outros para longe de mim, eu poderia ter perdido Matt por causa dele. O ódio por tal ser me dominou total e completamente e cada batida do meu coração implorava para que o sol me permitisse ver seu rosto, para que eu soubesse em quem descarregar minha vingança.

22 batidas depois o sol finalmente atendeu o meu pedido e eu desejei com tanta força nunca ter nem saído de casa que por um segundo até acreditei ser possível dar meia volta e fingir que isso não tinha acontecido porque quando o homem bem vestido virou seu rosto em nossa direção e o sol se deixou ser coberto por uma nuvem misericordiosa eu pude ver o rosto do objeto do meu ódio. Meu coração clamou desesperadamente pela ignorância que a tal nuvem havia retirado de mim.

Porque o rosto perfeitamente esculpido em minha frente, era o rosto do meu namorado.