Segredos Fatais
19 Capítulo 18
Notas iniciais
Assim que cheguei a casa saí em disparada em direção ao meu quarto e me refugiei lá. Ninguém veio atrás de mim. Imagino que Alexander tenha tentado, mas Júlia deve ter dito a ele que não. Ela me conhece melhor que isso. Ela sabe que eu processo as coisas em meu próprio tempo.
Sozinha.
E foi assim que aconteceu. Eu não chorei a princípio. Só encarei a parede como se ela tivesse me feito algum mal. Ouvi rock pesado enquanto fui até a academia e soquei com toda a minha força alguns sacos de areia. Tomei um banho relaxante na banheira. Tudo isso sem dirigir a palavra para ninguém. Planejei todos os meus movimentos para não encontrar ninguém no meu caminho.
Matt.
Consegui passar 24h sem nem pensar em seu nome. Mas quando eu finalmente pensei.... Aquele pedacinho dentro de mim finalmente quebrou. A ficha caiu e eu estava finalmente pronta para o quinto estágio de luto. Aceitação.
Bom, quase porque eu ainda não tinha chorado. Não de verdade. E eu sabia que precisava. Mas algo dentro de mim simplesmente se recusava. Como se chorar fosse finalmente admitir que ele tivesse ganhado. Que o problema era real. Que ele tinha sucedido em roubar meu coração e fazer dele o que bem entendesse. Não, não roubado! Eu, como a idiota romântica que sou, tinha dado o meu coração a ele. Burra, burra, burra!
A raiva dentro de mim ainda não deixava que eu sofresse da forma correta. Não verdadeiramente. Esse era o meu maior talento: negação como forma de proteção. Mas a dor precisava sair. Então eu me levantei e pus o filme mais triste que a Netflix pode oferecer para assistir.
O interessante sobre filmes, músicas ou livros tristes é que eles te dão uma desculpa.
A história na tela não era real. Na verdade a história era relativamente genérica, do tipo que era trágica da forma que eu já sabia que seria, falando de problemas que eu diariamente resolvia. E ainda assim eu chorei naquela noite como nunca havia chorado por amor. Como se as lágrimas pudessem curar o meu coração quebrantado, mas ainda assim sabendo que não iriam. O final não tão feliz na tela me permitiu chorar copiosamente porque achou uma brecha dentro de mim que o meu orgulho não conseguia vedar. Abriu as comportas da represa de dor e solidão e eu derramei cada gota da minha alma.
Honrando o velho ditado, foi muito mais escuro antes do amanhecer. Todos os momentos tranquilos, os sorrisos, cada palavra de conforto tudo o que eu achei que fosse a nossa história de amor começaram a encaixar-se em minha mente como a grande farsa manipuladora que realmente tinha sido. Eu duvidei de cada sentimento, toque, palavra.
Eu duvidei do meu próprio valor.
Imaginei milhares de mundos onde Matt, na verdade, me amava muito, mas estava sendo obrigado a me trair contra sua vontade e um grito de dor escapou de meu ser quando decidi aceitar que estes não passavam de universos paralelos ao meu.
Porque nessa realidade, no meu cruel universo, Matt era o homem de sorriso fácil, capaz de conquistar a minha confiança sem nunca ter me contado muito sobre si mesmo. Ele era o homem que com algumas poucas conversas soube exatamente quem eu era, o que eu queria e sem esforço algum me fez acreditar que era puro destino, que ele fosse exatamente o mais imaculado fruto da minha imaginação, rotulado como príncipe encantado.
Sempre duvide da perfeição, a voz de meu pai tocou em meus ouvidos e mais uma vez suas palavras se mostraram verdadeiras perante meus olhos. O ódio e a falta de fé na humanidade jogaram sal na minha fratura exposta e, eu sei que isso parece mentira, mas eu juro que nada que os russos alguma vez tenham feito comigo conseguiu me deixar tão perto da fronteira da sanidade quanto aquela agonia.
Esse era o meu limite.
Dali para frente, eu não conseguiria. Não sozinha.
Felizmente, eu não precisava e, como sempre, a minha família soube a hora certa de interferir.
A história na tela já tinha acabado e eu agora chorava puramente pelas razões certas.
Foi quando elas entraram pela minha porta, provavelmente para me fazer comer algo, mas eu não posso ter certeza. Abraçaram-me, choraram comigo e me consolaram da forma que eu sabia que ninguém, jamais, conseguiria copiar. Demonstraram seu amor, nosso amor, nossa ligação mais densa que sangue quando não me puxaram pelo caminho sofrido, eu estando pronta ou não, não me incentivaram a ignorá-lo, mas ficaram ao meu lado me ajudando a carregar o fardo.
Essa, meus amigos, é a definição de amor verdadeiro.
“Vamos embora.” Eu finalmente sussurrei algum tempo depois. Elas todas concordaram com a cabeça e começamos a nos movimentar em direção à porta do quarto.
“Calma, o que?” Alexander surgiu em minha frente trancando a passagem para o corredor. “Você não pode ir embora!”.
Em outras circunstâncias eu provavelmente dedicaria toda a minha energia a um olhar fulminante que, sozinho, colocaria meu amado chefe em seu lugar. Mas eu não tinha mais forças. Não haviam energias.
“Saia da minha frente Alexander” minhas palavras saíram em um suspiro cansado.
“Não! Você não pode ir embora! Você não... Como é que eu vou lidar com aquele... aquele MONSTRO que eu chamava de amigo...” a histeria era tão evidente na voz dele quanto tinha sido nas minhas lágrimas.
Parte de mim se comoveu. Eu juro. Mas ainda assim, o que saiu de minha boca foi:
“E o que te faz pensar que eu posso te ajudar com... ele?” O nojo pingou da palavra ao ser pronunciada.
“Eu não sei... Você entende como eles trabalham, o que eles querem... você pode me ajudar a proteger a empresa... E entregar ele para as autoridades...” suas palavras ficando cada vez mais esperançosas pintando um futuro utópico em que nós lutaríamos juntos contra o mal.
“Quem você acha que é?” Eu disse dando um passo pra trás e assisti as meninas se afastarem da eletricidade estática crescendo entre Alexander e eu. “Quem você acha que EU sou?”
“Zvezda” ele disse simplesmente e o meu sangue ferveu.
“Você não tem o direito de pronunciar esse nome.” Meu indicador voou apontando para o nariz dele e a minha voz congelou as ondas eletromagnéticas entre nós.
“Porque não? Esse nome parece ter assustado Illya o bastante para ele ir atrás do seu... chefe. Parece que você sabia bem o que fazer para... lidar com ele...” eu o cortei.
“Você sequer está se ouvindo Alexander?” minha voz subiu dois tons. “Você espera que eu saia por ai torturando pessoas até que o problema esteja resolvido? Não é assim que funciona! E mesmo que fosse, você acha que quando a polícia me pegar, e não se engane, eles vão. Eu simplesmente ia ser solta? Ou quem sabe virar a viúva negra e me juntar aos vingadores?!” a essa altura da conversa, todo o controle que eu já tive sobre minha própria voz caiu por terra.
“Eu só pensei que...” em outros momentos, o som de vidro quebrado em sua voz me teria feito parar, mas no segundo em que o portão foi aberto, todas as palavras precisavam sair.
“Você sabe como... as coisas que eu tive que fazer para me tornar Zvezda Alexander? As pessoas que eu já machuquei para poder sobreviver? Você sequer tem noção do que eles fizeram comigo ANTES de descobrirem que eu poderia ser aquele... animal?”
“Eu não preciso saber...” outro sussurro, mas dessa vez um pouco menos quebrantado.
“Eu acho que você precisa! Porque você está achando que aquele showzinho que eu dei na sua academia seria suficiente para dilacerar todos os dragões. E pior, você acha que aquilo é o pior que eu posso fazer! Você acha que aquele é o meu limite e eu nem...” imagens dos meus próprios crimes voaram pela minha mente sugando o ar de meus pulmões tal como um soco no estômago teria feito. Virei-me de costas, levantei meu cabelo e mostrei a marca na base do meu pescoço para ele.
“Eu estou marcada Alexander. Entrar nesse mundo de novo é perigoso demais para mim.” Minha voz ecoou pelo quarto estático e as respirações ofegantes entre nós dois eram um sussurro ensurdecedor.
Encarei seus chocantes olhos azuis novamente. Naquele mar gélido eu vi o desespero de quem estava sozinho. Eu já tinha passado por muita coisa com meus amigos antes, mas traição nunca foi uma delas. E Matt era o único amigo de Alexander...
“Eu... não vou conseguir um vôo até amanhã...” suspirei, o mínimo que eu podia fazer, em honra a nossa amizade, era não sumir tão repentinamente. Afinal, por mais egoísta que eu tivesse sido nas ultimas 24h, agora que a névoa começava a dissipar eu pude ver, que não era certo. Abandoná-lo quando o seu único amigo tinha dado-lhe as costas.... Isso seria quase desumano.
Em silêncio Alexander acenou com a cabeça e, eu sei que ele tentou, mas eu ainda pude ver o alívio em algum lugar na sua postura. Ele deixou o meu quarto silenciosamente e, exausta, eu me deitei na cama e tranquilamente mergulhei na escuridão da inconsciência.
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