Notas iniciais
Oi! Espero que esse, de certa forma, compense o atraso :) Ah, o próximo é o penúltimo.

O convidativo sol da manhã de sábado despertou Emily com uma ideia; daquelas que, de tão boas, dão coceira nas mãos, nós pés e em todo o resto do corpo, impedindo que se fique num mesmo lugar durante muito tempo. Ela realmente se julgou genial ao pensar naquilo. Acordou Hanna aos sacolejos como se elas fossem crianças em uma manhã de natal. Hanna a chamou de maluca antes e depois de Emily contá-la o que planejava fazer.

Jordan amara de tal forma o quintal com grama de verdade que implora para que a deixassem dormir do lado de fora, sob as estrelas. Em um primeiro momento, com todas ao redor da mesa de jantar, Hanna não permitira, alegando que a filha aparentemente tinha alguns parafusinhos soltos.

— Igual a você? – Emily erguera uma sobrancelha e olhara de relance para a amiga, numa calma que indicava superioridade, antes de tomar um gole de vinho branco. Ela e Jordan fizeram um high five em seguida.

— Lembra daquela barraca para duas pessoas que você tinha quando era pequena? – Pam fora a segunda a intervir, fitando Emily e depois Jordan. – Acho que ainda está no sótão. Eu fico com ela. O que acha de acampar esta noite, querida?

Os olhinhos da pequena arregalaram-se imediatamente e ela assentira, agraciando todas ali com seu sorriso parcialmente desdentado.

Agora, enquanto caminhava ao lado de Hanna em direção à barraca onde Jordan e sua mãe haviam passado a noite, Emily percebia que quisera fazer aquilo desde o início, e que ver a carinha de surpresa de sua afilhada iria ser o melhor presente de todos.

Pam já estava de pé quando as duas garotas se aproximaram da barraca; era previsível o porquê de Jordan ainda não ter acordado.

— Colocá-la para dormir foi difícil – Pam sorriu, parecendo estar ainda cansada, mas não era como se ela estivesse reclamando.

— Abra os olhos e vá tomar café, dorminhoca – disse Emily, agachando-se e agarrando um dos tornozelos da menina. – O seu dia vai ser cheio hoje.

Jordan virou para o outro lado, sem fazer a menor menção de levantar-se.

— Eu não quero tomar café – ela murmurou, em voz sonolenta. – Comi marshmallows demais ontem.

— Eu avisei – Pam agachou-se também, para recolher a embalagem vazia dos doces coloridos.

Jordan deu uma risadinha e esfregou um dos olhos.

— Estou falando sério, saia daí – Emily fingiu autoridade.

— Me dê um bom motivo – a pequena murmurou outra vez.

Emily revirou os olhos, secretamente achando graça da situação. Jordan inegavelmente tinha o DNA de Hanna.

— Eu te dou um se sair daí.

Jordan finalmente obedeceu, engatinhando devagarinho para fora da barraca.

— Vá tomar café – a morena repetiu, com as mãos ao redor da cintura da pequena – que daqui a pouco eu vou levar todo mundo para Cape May.

Jordan franziu as sobrancelhas douradas e esfregou um dos olhos mais uma vez.

— O que é Cape May?

— É uma cidade em Nova Jersey – Emily sorriu, orgulhosa. – Uma cidade litorânea. Você sabe o que isso quer dizer, não é?

A situação como um todo foi impagável. Jordan refletiu por alguns segundos e então pôs as duas mãozinhas nos ombros de Emily.

— Uma cidade que tem praia! – os olhos azuis da menina arregalavam-se enquanto ela falava. Ela jogou-se sobre Emily e em seguida soltou uma sucessão aparentemente interminável de “obrigada!”.

Pam cruzou os braços, também sorrindo, e trocou um olhar com Hanna por trás de Emily.

— Que conversa é essa?

Hanna ainda não havia tirado os olhos daquela cena; daquele abraço entre sua filha e sua melhor amiga. Era simplesmente lindo de se ver.

— Bem, parece que a nossa boa e velha Emily não tem jeito mesmo.

Logo depois do café, Emily levou as três ao – ainda – único shopping de Rosewood para comprar biquínis. Assim que todas já estavam com suas respectivas roupas de banho por debaixo de suas camisetas leves, Emily deu partida em seu carro alugado e rumou para o sul de Nova Jersey, que ficava a mais ou menos uma hora de Rosewood.

Desta vez, Emily não reclamou internamente do calor; nem se quer deu pela falta de ar condicionado no veículo. Estava animada demais para isso. Jordan parecia compartilhar do mesmo sentimento, pois não parava quieta ao lado de Pam no banco de trás – tentar mantê-la presa pelo cinto de segurança foi inútil. Hanna, como sempre, foi a única que já nos primeiros dez minutos de viagem grunhiu em impaciência, dizendo que estava derretendo. Enquanto ela se abanava com o catálogo de uma das lojas, Emily simplesmente ria.

A morena estava quase estacionando quando Hanna se virou no banco do carona, para encarar a filha que estava surpreendentemente quieta, com a cabeça colada à janela esquerda do carro. Seus olhos estavam fixos no céu azul.

— Cansou de perguntar se falta muito, foi?

— Não é isso – Jordan replicou, sem desviar os olhos. – Só quero ter certeza de que não vai chover.

— Bem, se chover, nós simplesmente vamos nos molhar – Emily desligou o motor e desprendeu seu cinto. – Agora olhe para o outro lado.

A menina obedeceu sem resistir desta vez, e pareceu que seus olhinhos azuis iam saltar das órbitas. Uma sucessão de “ah, meu Deus!” se seguiu enquanto Jordan tinha a ponta do nariz rente à janela direita do carro e os joelhos no colo de Pam.

Hanna ajudou Jordan a descer do carro e teve que segurá-la firmemente pelo pulso para evitar que ela cruzasse a rua em disparada, em direção ao mar. Já na areia, a loira agachou-se para despir a filha, deixando-a apenas com o biquíni verde-água e espalhando bloqueador solar pelo rosto e braços da menina.

— Só mais um segundo – Hanna puxou o celular da bolsa com um autêntico sorriso de mamãe orgulhosa no rosto. – Me dê a sua melhor cara de surpresa.

Jordan arregalou os olhinhos novamente e sorriu para a câmera, boquiaberta, antes de chutar os chinelos dos pés e correr para a água.

— Não quero você indo para o fundo – Hanna gritou, mas provavelmente foi como falar para as paredes.

Ao seu lado, Pam também se livrou das roupas, exibindo um maiô azul-escuro.

— Tome conta disso que eu vou atrás dela – a mulher virou-se para a filha e entregou-a sua bolsa de praia com as toalhas.

Hanna deu uma cotovelada em Emily enquanto via a mãe da garota se afastar em direção a Jordan.

— Mama Fields ainda está com tudo em cima – ela apontou, numa voz maliciosa.

Emily deu um tapinha no ombro de Hanna, fingindo indignação.

— Cale a boca.

Hanna gargalhou e em seguida ajudou Emily a estender as esteiras sobre a areia. O ar estava bastante fresco; a brisa que levava a maresia até elas era como um presente dos deuses. Mas Hanna se livrou de sua camiseta e de seus shorts curtos em movimentos rápidos, como se o calor estivesse matando-a.

Emily corou instantaneamente enquanto observava-a desprender as sandálias dos tornozelos. Hanna vestia um biquíni vermelho simples, pequeno nos ângulos certos. Emily mordeu sutilmente o lábio. Sua mente duelava entre “Mas que bela visão!” e “Você não é um animal, pare de olhar para ela assim”.

— Espalha pra mim? – o pedido de Hanna tirou Emily de seus devaneios um tanto quanto inapropriados. Ela jogava para a morena a embalagem de bronzeador em spray que havia comprado no caminho para ali.

— É claro – Emily desejou do fundo do coração não ter gaguejado como seu eu de uma década atrás e começou a aplicar o produto sobre a pele de Hanna, assim que esta deitou-se sobre sua esteira.

— Quero ver se consigo pegar uma cor – disse a loira. – Nova York conseguiu me deixar ainda mais branca.

Hanna falava de si quase que com desprezo, e Emily conteve-se para não mandá-la calar-se outra vez. Você é perfeita, sua idiota, ela estava morrendo de vontade de dizer, mas continuou quieta e aproveitou para discretamente apreciar o corpo da garota, coberto por uma fina camada de suor.

Você é definitivamente um animal, Emily pensou a respeito de si assim que Hanna virou-se, para que a morena pudesse passar o bronzeador em suas costas.

As quatro almoçaram em um restaurante de frutos do mar estilo rústico que tinha vista panorâmica para a praia. Jordan torceu o nariz assim que ouviu a mãe pedir lulas grelhadas na manteira para si, Emily e Pam, e perguntou educadamente para um jovem garçom se eles serviam filé de peixe e batatas fritas. Hanna fotografou os pratos assim que eles chegaram à mesa.

Depois do almoço, foi a vez de ela e Emily levarem Jordan para a água. Pam ficou sob o guarda-sol alugado, alegando que estava levemente queimada por não ter passado bloqueador antes.

— E aí? – Emily perguntou em tom de brincadeira à menina que estava ao seu lado, encolhida e com a água batendo em seu peito – Vamos mais fundo ou você está com medo?

— Não estou com medo – Jordan rebateu; um sorrisinho ansioso esboçava-se em seu rosto mas ela mantinha os braços ao redor da coxa esquerda de Emily.

A morena tomou-a em seus braços e impulsionou-se devagarinho com a menina até um ponto onde elas não davam mais pé.

— O que acha de aprender a nadar? – Emily fitou Hanna em seguida, que estava ao seu lado, como se estivesse pedindo permissão. A loira sorriu, assentindo brevemente e afastando-se cerca de um metro.

Jordan não respondeu de imediato; tinha o olhar preso nas pequenas ondas que se formavam ao redor delas – parecia incerta –, mas concordou por fim.

Emily ensinou-a a fazer bolhas de ar na água, para ajudar na respiração, e em seguida disse a ela para esticar os braços e tentar bater as pernas até alcançar Hanna. Jordan pegou o jeito depressa e não demorou muito até que Emily não precisasse mais segurá-la pelo tronco tão firmemente.

As três continuaram em tal jogo de vai e volta até as pontas de seus dedos enrugarem. De vez em quando, Jordan olhava para Pam na areia, como se estivesse perguntando a ela se estava indo bem, e a mulher esticava o braço, acenando animadamente.

Vida, Emily refletia enquanto tinha Jordan em seu colo dizendo que, quando crescesse, queria nadar tão bem quanto ela, isso é o que eu chamo de vida.

Antes de irem jantar no Pizza Hut, que ficava no centro comercial de Cape May, cercado de pequenas lojinhas, as quatro se dirigiram a um parque de dirversões semelhante aos que existiam nas areias das praias de Los Angeles. Jordan tranquilizou Pam dizendo que não precisava ter medo de andar na montanha-russa.

— É só não olhar para baixo – explicou a pequena, como se fosse uma psicóloga experiente.

Hanna, porém, foi a que mais gritou e, ao lado de Emily, apertava a mão da morena de tal maneira na hora dos loopings que quase quebrou-a. Emily, por sua vez, não deu a mínima; e também gritou, entre risadas da mais genuína felicidade.

A chuva, que Jordan tanto temera que chegasse antes que ela pudesse se divertir, deu as caras, calma, assim que Emily começou a dirigir de volta para Rosewood.

— Você tem muita sorte, sabia? – Emily olhou para a menina através do retrovisor; ela estava deitada no banco de trás, a cabecinha no colo de sua avó emprestada.

— Eu sei – ela murmurou, já de olhos fechados.

A maior parte da viagem foi refeita em silêncio. Hanna, que definitivamente não era de ficar muito tempo calada, tinha uma expressão docemente serena em seu rosto, e algo nela fazia Emily querer contemplá-la a cada sinal vermelho. De alguma forma, as argolinhas prateadas que pendiam de suas orelhas combinavam perfeitamente com seus cabelos ainda sutilmente úmidos. Deus, ela era tão linda! O momento fazia Emily querer estacionar de mal jeito, em qualquer lugar e dar em Hanna um longo beijo no rosto. Assim, por nenhum motivo; ou melhor, por todos os motivos que a faziam ser quem ela era.

Porém, foi quando Emily estacionou de verdade em frente à sua casa, ao ouvir o “vamos, meu amor” que Hanna sussurrou para Jordan antes de carregá-la agilmente para dentro, que ela percebeu que amava sua melhor amiga como mais do que uma melhor amiga – e que gostaria de beijá-la não só no rosto. Surpreendentemente, a conclusão não a assustou; pelo contrário, a fez sentir-se plena e segura de si.

— Acho que não vai dar pra acampar hoje – Jordan murmurou outra vez, fazendo do ombro de Hanna um travesseiro.

A loira riu suavamente enquanto levava a filha para o quarto de hóspedes, que ficava no andar de baixo.

— Não, não vai – a chuva caía já torrencialmente do lado de fora. – Mas não se acomode muito aí, mocinha, porque você vai ter que ir para debaixo de um chuveiro agora. Está toda salgada.

Jordan balbuciou algo sobre estar cansada demais para tomar banho, mas Pam interveio.

— Você vai poder acampar lá em cima quando sair do banho, prometo.

A menina abriu os olhos para encarar Pam na mesma hora; o sorrisinho empolgado curvava novamente seus lábios.

— Mesmo?

— Não, não – Hanna apressou-se em dizer. – Já chega de estripulias por hoje, não acha?

— Deixe disso – Pam insistiu. – O meu quarto tem espaço suficiente para aquela barraca. Não vai ser problema nenhum, se você não se importar em dormir sozinha mais uma noite.

Ainda parada no meio da sala com uma Jordan sonolenta nos braços, Hanna ponderou por alguns segundos e trocou um breve olhar com Emily; a morena sabia que Hanna estava refletindo sobre o que havia ouvido dela no dia anterior. Vai ser uma tremenda alegria para ela ver a casa movimentada de novo. A loira, então, sorriu também, balançando levemente a cabeça.

— Do jeito que vocês a mimam, ela vai dar trabalho quando crescer.

Em seguida, Emily seguiu a mãe escadas acima e arrastou-se até sua suíte, afinal ela também precisava de um banho. Estava exausta, mas extremamente feliz. Aquele, com toda a certeza, era o melhor dos cansaços.

Ao sair do banheiro, já dentro de um pijama divinamente confortável, Emily refletiu sobre a possiblidade de atirar-se em sua cama e dormir pelas próximas doze horas – ou pelo menos pelas horas que restavam até a missa, que estava marcada para as nove da manhã seguinte; mas ela resistiu à tentação por mais um minuto. Precisava dar um boa noite especial para suas duas loirinhas favoritas.

Para sua surpresa, Jordan já dormia, ocupando uma faixa estreita do lado esquerdo da cama de casal de sua mãe; Hanna estava sentada na beirada da cama, com os pezinhos descalços de Jordan sobre seu colo. Pam estava parcialmente deitada ali também, ao lado da pequena, como se guardasse o sono dela.

— Eu decidi tomar um banho também, antes de começar a remontar a barraca – a mulher explicou-se suavemente, acariciando os ralos cabelos loiros de Jordan. – Ela não aguentou esperar.

Emily fitou a pequena barraca colorida – e vazia – que estava, agora, armada ao lado da cama e sorriu.

— Bem, acho que a solução é deixar o meu boa noite para uma outra noite, não é? – não foi uma pergunta para alguém em particular mas, sem mover um único músculo, Jordan respondeu, num murmúrio arrastado.

— Não, você pode me dar boa noite agora – ela ainda estava de olhos fechados e parecia falar com alguém em seus sonhos.

As três em volta da menina riram, e Emily enfiou-se entre ela e sua mãe na cama, dando uma sucessão de beijinhos em sua bochecha em seguida.

— Boa noite, princesa.

Jordan não replicou, e Emily também não importou-se. Ela não queria sair dali, afinal, estava cercada pelas pessoas que ela mais amava no mundo. Não havia mais nada que ela pudesse querer.

Antes que Emily pudesse, relutantemente, fazer menção de dirigir-se ao seu próprio quarto, Hanna ajoelhou-se à frente da filha e acariciou-lhe as costas da maneira mais terna possível.

— E então, Jordie? – ela sussurrou – O que você tem a dizer à Emmy a respeito de hoje?

Emily aguardava um doce “muito obrigada”, porém não foi o que ela acabou ouvindo.

— Emmy é a segunda melhor mãe do mundo.

Um silêncio relativamente comprido instaurou-se entre elas, para que tais palavras pudessem ser absorvidas. Hanna encontrou os olhos já marejados de Emily; veja só isso, dizia a loira subliminarmente. Pam tocou o ombro da filha por trás, como se soubesse exatamente o que aquela minúscula palavrinha havia feito com o emocional de Emily.

Sim, ser chamada de mãe era, de fato, a única coisa a mais que Emily poderia secretamente ter desejado. Aliás, tão secretamente que nem ela mesma pensou que ficaria mexida de tal maneira.

Deu um último beijo no rosto da garotinha, ainda contendo as lágrimas de felicidade, e despediu-se da mãe enquanto ouvia Hanna dizer que era ela que, agora, precisava de um banho para se livrar de todo aquele sal. E então saíram as duas dali pé ante pé.

— Vamos aproveitar bem essa fase – disse Hanna ao fechar a porta atrás de si com cuidado –, porque daqui a pouco ela faz quinze anos e começa a bater as portas na nossa cara.

Emily apenas sorriu ao pensar em si dali a dez anos, tentando ajudar Hanna a “colocar juízo” na cabeça da versão adolescente de Jordan; uma menina que provavelmente usaria gargantilhas de tachas pontiagudas e mechas roxas nos cabelos.

— Boa noite, Em – Hanna sorriu para ela uma última vez antes de descer as escadas em direção à suíte do quarto de hóspedes.

— Boa noite, meu bem.

Assim que Emily finalmente relaxou as costas em seu colchão, percebeu de verdade o porquê de aquelas duas últimas palavras terem escorregado de seus lábios de uma forma tão amorosa e descomplicada. Ela não apenas amava sua melhor amiga de um jeito mais intenso como também ansiava viver uma vida inteira ao lado dela. E mais uma vez, tal conclusão não a assustou.