Secrets
4 Performace.
Notas iniciais
Todos guardamos segredos. Isso é um fato. Não tem como simplesmente contarmos tudo de nossas vidas para outra pessoa, até por que não confiamos 100% em nenhuma pessoa.
A não ser que não tenhamos segredos que sejam muito obscuros, deixamos de contar coisas para nossos amigos. Meu amigo Daniel, por exemplo, não tem nenhum segredo obscuro, a não ser os segredos que ele guarda de seus amigos quando joga League of Legends, para saberem qual a próxima arma que ele usará. Tenho que admitir, Daniel é bom em LoL.
Mas um que realmente me chocou foi ao saber da minha amiga Ju. Eu realmente gostava muito dela. Ela era uma amiga em tanto. Mas nunca contou-nos sua história, portanto, deixe-me atualizar-los sobre a história dela.
Juliana nasceu em Brasília, e só tinha seu pai e sua mãe na família, tendo todos os outros morrido. Não tinha mais ninguém em sua vida quando, aos 10 anos, o carro de seus pais capotou após eles voltarem de seu jantar de aniversário de casamento.
Juliana ficou sozinha. De família de classe média alta, herdou mais ou menos 250 mil reais. Mas até ter idade suficiente para poder pôr a mão no dinheiro, fora para um orfanato. Ju então ficou lá até os 15 anos, quando por conta própria pediu para ir para o Rio de Janeiro e ganhar mais oportunidades na vida, além de poder usar sua herança para pagar um bom colégio, sendo monitorada pelo governo, enquanto mora no orfanato. E assim foi feito.
Assim conhecemos Ju. Que nunca nos contou sua história, nem por que ela fora para o Rio de Janeiro. Nunca fomos á sua casa, por que não se tratava de uma casa e sim um quarto que ela dividia com uma colega que nascera na Crackolândia.
Mas isso mudou quanto ela fez 18. Depois de poder administrar sua herança, poucos meses antes de eu me suicidar, Ju, para não pagar aluguel, comprou um apartamento barato no subúrbio carioca, bem longe de todos.
E assim Ju continuou por alguns meses, e dois meses antes de eu atirar em minha própria cabeça, Juliana se viu praticamente sem o dinheiro de sua herança, tendo gastado quase tudo em um apartamento de 100 mil reais e mais o condomínio e água, luz, parcelas de um bom celular e parcelas de boas coisas, Ju se viu sem dinheiro. E foi aí que seu verdadeiro segredo começou. E deixe-me explicar esse segredo enquanto narro o dia de domingo de minha amiga, ok?
Ju acordou naquele domingo particularmente disposta. Levantou-se de sua cama, tomou seu café da manhã que constituía em um sanduíche e refrigerante e foi para seu notebook.
Olhando suas novidades no Facebook, Ju pensou em ir olhar seu e-mail para ver se não haviam chegado mais solicitações.
Abriu, e viu lá mais um e-mail de seu acompanhante. Guilherme Aguilar. O e-mail dizia assim:
“Gostaria de um programa diferenciado hoje, topa?”
Ju já havia feito alguns programas diferenciados, por isso não se importou em responder:
“Depende, que tipo de programa diferenciado?”
E assim, em poucos minutos, outro e-mail respondia:
“Sair e conversar por algumas horas. Vamos?”
Ju não excitou em responder:
“De todos, você é o mais bizarro. Topo. Mas de quantas horas estamos falando, aproximadamente? E aonde caralhos você quer me levar?”
E depois de alguns minutos, Guilherme respondeu:
“Uma boate gay. Só vão ter uns strippers dançando, nada demais. Umas cinco horas, está bom?”
E, surpresa com o convite inesperado, Juliana respondeu:
“Agora é oficial: você é o pior. Com esse seu convite, cobro R$200 a hora, mais o dinheiro do taxi. Ficaria mais ou menos R$1000. Ainda quer?”
É, foi nessa parte do convite que mais me assustei, pois logo depois Guilherme Aguilar respondeu:
“Vamos. Sou rico, posso pagar uma puta de luxo se eu quiser. A boate se chama Sweet Angel, e fica na Urca. Encontro marcado ás 22:00, combinado?”
E, agora ainda mais chocado, vi Ju responder:
“Combinado. Beijinhos da Jennifer.”
É, e foi aí que oficialmente caiu a ficha de que minha querida amiga Juliana era de dia nossa linda e boa amiga que era mais normal de todas, e á noite ela era Jennifer, a prostituta de luxo do subúrbio carioca. É, foi de chocar, mas aí eu pude relaxar e me focar em outro amigo meu, Luan.
Nesse mesmo dia, perto das 22:00, Luan estava pelado em seu camarim, olhando para o espelho e pressionando a máquina de pressão em seu pênis, para deixa-lo maior. Isso é muito estranho de se ver, até por que fica de um tamanho monstruoso, mas não vamos detalhar esse assunto.
Depois disso, Luan coloca sua fantasia. Colete policial e óculos escuros. Sexy, não? É, Luan tem um segredo, e o segredo dele não é o fato de ele ser um policial disfarçado na escola para apanhar drogas e gostar de impressionar garotas com seu pênis enorme. Para entender isso, vamos olhar o histórico de meu amigo Luan:
Nascido aqui no Rio de Janeiro, no morro, Luan é fruto de uma relação de uma empregada loira de olhos azuis com seu patrão branco como a neve e de cabelos negros como o ébano. Não, ele não é Branco de Neve, mas é muito bonito.
(É, eu percebi minha cantada de pedreiro horrível, então ignorem-na e vamos prosseguir.)
Luan teve uma mãe simplesmente desempregada após ter engravidado de seu patrão, e que depois que teve seu filme queimado em toda área nobre do Rio de Janeiro, teve que virar traficante de drogas. A única coisa em que seu pai ajuda é pagando uma boa escola para o filho, achando que assim está contribuindo de alguma forma para seu futuro.
E assim sua mãe, Giselda, passou a vender tudo e ficar conhecida em sua parte do morro. Maconha, cocaína, heroína, LSD, crack. Tudo que você imaginasse, Giselda tinha. Antes de se ver no meio de uma briga de gangues. E foi assim que Giselda ficou devendo á seus fornecedores, após perder tudo que tinha quando fora roubada pela gangue de traficantes rival. E assim, para suprir o dinheiro que perdera para seus fornecedores, arrastou seu filho de 17 anos para vender junto com ela.
Família que vende droga unida permanece unida. E depois de alguns meses, Luan sabia o perfeito local para vender: boates gays. Gays adoram drogas. Assim como seus strippers. E com 17 anos, com seu corpo perfeito, Luan virara stripper. E um dos melhores, por sinal. Muito requisitado, o maravilhoso Branco de Neve. É, o trocadilho que eu fiz no início tinha uma ligação, sim.
E hoje, Luan vendia para os strippers a cocaína. Eles cheiravam como se não houvesse amanhã, enquanto Luan ficava só olhando. Com seus amigos strippers doidões e vestidos de policiais, Luan entrou no palco, fazendo seu show para gays desesperados por um pênis. É, Luan sentia-se poderoso nesse momento toda semana. O Branco de Neve, arrasava corações. Inclusive o seu próprio, quando ao olhar para a plateia de seu show, vira sua amiga Ju com um vestido apertado, meia de rede preta e maquiagem pesada junto á um gay discreto de paletó.
Bem no momento em que iria tirar sua calça e mostrar seu pênis para os gays, Luan olhou nos olhos de Ju, e Ju nos olhos de Luan. Somente por alguns segundos, pois logo depois os olhos de Ju voltaram-se para imagem do pênis de seu amigo.
E assim, Luan terminou o show da pior forma possível, simplesmente saindo do palco depois de despir-se todo, colocando seu roupão rapidamente no camarim e indo para a plateia, enquanto seu colega stripper chapado fazia o show. Juliana, ainda em choque, pediu licença á seu cliente gay e foi falar com Luan.
– Ju. – fala Luan, desconfiado.
– Luan. – fala Ju, igualmente desconfiada.
É, meus amigos descobriram os segredos um do outro. Cara a cara, os dois olhavam-se e perguntavam para si mesmos o que seu amigo pensa de vê-lo dessa forma. Mas foi Ju, mais desbocada, que quebrou o gelo:
– Então... Stripper, não é? – pergunta Ju.
– É. Eles pagam bem, sabe. – fala Luan, totalmente sem graça.
– Claro, pelos seus dotes, dá para perceber por que pagam bem. – fala Ju, com um sorriso leve na cara, que logo se converte para uma face de questionamento. – Luan, por que não contou isso para seus amigos?
– Pelo mesmo motivo que você não contou que é uma puta. – fala Luan, indignado com Ju.
– Ei! Você não sabe de nada sobre mim, nem como vim parar aqui. – fala Ju, quase chorando na frente de Luan.
– Nem você de mim. – fala Luan, estufando o peito para Juliana.
– Está bem. Não somos os amigos que compartilham tudo. – fala Ju, envergonhada. – Mas, agora que sabemos, podemos combinar de...
–... Não contar nada á ninguém? – pergunta Luan, olhando para Ju e terminando sua frase. – Não conte meu segredo, que não conto o seu.
– Fechado. – fala Ju.
– Então... Quer conversar sobre isso ou... – Luan começa, mas é interrompido por Ju:
– Depois. Tenho um cliente me esperando. Depois a gente se aprofunda nisso. – fala Ju. – Jennifer tem que atende-lo.
– Jennifer? – pergunta Luan.
– Meu nome á noite é Jennifer. – fala Ju, corando.
– Gostei, Jennifer. – fala Luan, sorrindo. – E seu cliente, ele é meio...
– Gay? – pergunta Ju, completando a frase de Luan. – Totalmente. Mas tenho que aguentar todos os tipos de esquisitões, não é? Até amanhã na aula, Branco de Neve.
– Até, Jennifer. – fala Luan, sorrindo.
E assim, a noite continuou. Ju, ou Jennifer, voltou para casa com sua cabeça só no pensamento: “será que ele vai contar?”, enquanto Luan tinha sua cabeça presa ao pensamento de “será que ela vai contar?”. É, quando descobrimos segredos por acaso, isso pode ou ser irrelevante, ou nos consumir. É o que acontece. Mas aí, quando alguém descobre nossos segredos, é que podemos perguntar á nós mesmos: “Será que eu confio naquela pessoa?”. É. Nunca saberemos. Até por que, dois podem guardar um segredo se um deles estiver morto. E foi isso que me matou. E é isso que mata todos que tem segredos.
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