Secrets
5 Erro.
Notas iniciais
Meus amigos acordaram atordoados naquela segunda-feira. Fazia uma semana que eu havia dado um tiro na minha cabeça, e eles só conseguiram pensar nisso no momento em que seus despertadores tocaram. Todos eles simplesmente esqueceram-se de seus problemas, como o fato de guardar o segredo que seu padrasto a abusa, que mantém uma pessoa refém em seu porão, ou o atordoamento de ter que revelar seu segredo para outra pessoa. É, meus amigos esqueceram-se de tudo isso naquela manhã de segunda-feira, apenas se lembrando de mim e ficando atordoados com a dúvida: “Por que Matheus se matou?”.
Todos eles chegaram no colégio com cara de bosta, ainda perturbados com o fato de que eu dei um tiro em minha própria cabeça, enquanto o resto das pessoas da sala de aula com quem eu compartilho o mesmo local durante anos simplesmente voltavam ás suas rotinas, e já haviam desistido de tentar descobrir os detalhes sombrios de meu suicídio, mas não meus amigos. Eles estavam ainda empenhados em saber o por que daquela carta misteriosa aparecer em meu armário. E foi isso o tópico de conversa deles no intervalo:
– E aí, ainda estão pensando naquilo? – pergunta minha amiga Laís á todos.
– Em todo momento. – fala Karine, ainda atormentada pensando na carta. – Eu acho que a gente deveria se encontrar melhor e debater sobre isso com mais calma.
– É. – fala Fernando. – Pode ser na minha casa hoje depois da aula.
– Todo mundo pode? – perguntou Natália para meus amigos. Todos pareceram concordar. – Ótimo. Combinado.
Mais tarde, no mesmo intervalo, meus amigos Luan e Ju encontraram-se para conversar sobre a coincidência de se encontrarem em seus locais de trabalho na noite passada. Lágrimas foram derramadas quando Juliana falou da morte de seus pais, e aos prantos ficaram os dois ao saber do esquema de drogas de Luan. É, por mais que eu achasse que meus amigos são pessoas fortes que aguentam qualquer coisa, vejo agora que a única coisa que pode deixa-los perder a força são seus passados. Deu para eu dar uma boa olhada nos passados de meus amigos agora. Cada um mais trágico que o outro, mas não vamos falar sobre isso agora. Esta tarde na casa de Fernando vai dar muito que se falar.
Ao terminarem as entediantes aulas de segunda-feira, que eu infelizmente tive que ter como minhas últimas aulas da vida, meus amigos pegaram um ônibus para o apartamento de classe média de meu amigo Fernando em Ipanema. Ao chegarem lá, passaram direto pelo rosto enfurecido de Milena, a madrasta de Fernando, que ao saber da visita de meus amigos ficara enfurecida. E ao chegarem no quarto dele, começaram logo a falar sobre mim:
– Então, tem alguma pista de para quem Matheus pode ter escrito aquela carta? – pergunta Luan.
– Não. Mas como vamos saber que foi ele quem escreveu a carta? – pergunta Daniel. – Pode ter sido outra pessoa.
– E ele recebeu uma carta de desculpas, isso fez ele se matar? – pergunta Natália, com seu jeito sarcástico. – Acho que não, hein.
– Então, nenhuma pista sequer? – pergunta Karine.
– Acho que não. – fala Ju. – Sabem, Matheus nunca foi de contar seus segredos para nós. E ele nunca deixava nada transparecer em seu rosto. Ele podia estar desmoronando, mas sempre não deixava isso transparecer.
– É. Vai ver foi isso que o matou. – fala Laís.
– Ah, Fernando, Larissa pode vir para cá? – pergunta Daniel.
Nesse momento, minha amiga Laís gelou de vez, tanto que nem pôde ouvir direito a resposta positiva de Fernando, dizendo que a namorada de Daniel, Larissa, podia ir para casa dele.
– Ela era amiga de Matheus, só quer participar da conversa. – fala Daniel, rindo.
– Laís, você está bem? Parece meio pálida. – fala Natália, olhando bem para o rosto de Laís.
– Eu? Eu estou ótima. – fala Laís, soltando um sorriso falso. – Preciso ir ao banheiro.
Laís atravessa o quarto e entra no banheiro da suíte de Fernando. Ao fechar a porta, pensa em como eu sabia controlar minhas emoções e em como ela já me perguntara sobre isso em uma conversa. É, meus amigos sabiam que eu sabia esconder minhas emoções, e isso ficou claro ao minha avó que eu gostava tanto ter morrido e eu simplesmente parecer novo em folha no dia seguinte, na aula. Ela se olhava no espelho enquanto se lembrava de nossa conversa:
– Matheus, como você consegue fazer isso? Esconder suas emoções? – perguntou ela para mim, no nosso churrasco que tivemos durante as férias, em seu prédio.
– Ah, Laís, assim você quer saber demais. – disse eu para ela, enquanto tomava mais uma lata de cerveja e me deitava na espreguiçadeira á borda da piscina.
–Vamos, por favor, eu e Leandro estamos em um momento difícil, uma máscara seria boa. – falou ela para mim, implorando.
Aí veio meu problema: a pena que sinto pelos outros. Naquele mesmo momento, eu falei:
– O segredo está no olhar. Não deixe transparecer nada. Apenas mantenha um olhar firme para a pessoa, e não ria, não faça nenhuma expressão que seja suspeita. Não fale nada incomum, apenas finja que está tudo bem e acredite nisso em sua cabeça. Você não fez nada de errado, não aconteceu nada. Até que você consiga acreditar nisso, você pode fingir á vontade.
É, foi assim nossa conversa. Meu conselho salvou seu namoro. E tem que salvar de novo, pois dessa vez não existem segundas chances. Se Laís for descoberta, tudo se desmorona. Ela se olha no espelho, lembrando de minha “aula”, e é agora que ela pode sair do banheiro. Laís dá uma descarga, só para disfarçar para quem está de fora, e abre a porta, saindo do banheiro e dando de cara com Larissa, enquanto ela cumprimenta todos no quarto.
– Laís! – fala Larissa. Laís percebe que ela obviamente não é tão boa em esconder suas emoções feito ela, mas ela não teve aula comigo.
– Larissa! Quanto tempo! – fala Laís, dando um abraço e dois beijinhos em sua amante no meio de seus amigos. – Fazem quantos meses?
– Acho que uns quatro. – fala Larissa, sorrindo falsamente para Laís. – E Leandro? Como vai?
– Ótimo. Melhor impossível. – fala Laís, dando um sorriso e indo se sentar no chão novamente, para continuar o debate.
– Bem, como a gente ia dizendo... – continua Luan. – Matheus era muito bom em esconder emoções.
– É. Ele era. – fala Laís, olhando de relance para Larissa, enquanto ela dá um beijo na boca de Daniel.
– Mas ele tem que ter dito alguma coisa! – fala Karine. – Não pode ter simplesmente atirado em sua própria cabeça por nada.
– Na verdade, eu acho que sei de algo... – fala Larissa.
É, ela seria a última pessoa que eu pensaria que soubesse de algo. Mal me encontrei com Larissa, e nas poucas vezes, ela já sabe mais sobre minha vida do que meus amigos.
– Então, fale. – fala Natália, curiosa, olhando para Larissa assim como todos meus amigos.
– Bem... – começa Larissa. – Sabem aquela festa social, três semanas atrás, que teve no salão de festas do amigo de Luan?
– Quem? Orangotango? – pergunta Juliana, tentando se lembrar de todas as sociais que fomos esse ano. Não foram poucas.
– Sim! Orangotango. – fala Larissa, lembrando do apelido escroto do amigo escroto de Luan que só sabe fazer sociais fodas em que meninas fazem sexo oral nos banheiros. – Eu estava indo para a cozinha pegar mais vodka, e eu ouvi Matheus no telefone com alguém. Não sei quem era, só me lembro das exatas palavras dele: “Não! Eu não vou me entregar pra polícia! Não quero passar o resto de minha vida na Fundação Casa por conta de um erro do passado.” Nesse mesmo momento, alguém apareceu e foi entrando na cozinha direto e ele desligou o telefone.
– Espera, Larissa, você sabia disso o tempo todo e não contou pra gente? – perguntou Fernando, pressionando Larissa.
– Eu estava em choque. Eu não sabia se aquilo significava alguma coisa. – fala Larissa. – Além do mais, eu achava que Matheus contava tudo para vocês!
– Eu me lembraria se ele dissesse que teria chances de ir para um centro de detenção de menores infratores. – fala Natália, também não acreditando que Larissa guardara isso.
– Por falar nisso, vocês viram que agora oficialmente a maioridade penal reduziu? 16 anos? – falou Karine. – Agora todos nós podemos ser presos.
– Já tenho 18. Já podia ser presa há muito tempo. –fala Ju, dando seus pequenos foras de sempre.
– Grande diferença. Não é como se nós tivéssemos cometido um crime ou algo do tipo. – fala Luan, observando.
– Tô com fome. – fala Laís, levantando-se bruscamente do chão. – Fernando, vou pegar um biscoito pra comer na sua cozinha, ok?
– Tudo bem. – fala Fernando.
– Eu vou com você. – fala Larissa, levantando-se, surpreendendo Laís. – Não como nada desde o café da manhã.
Laís não fala nada, apenas sai andando pensando no real motivo de Larissa querer ir com ela para fora do quarto. Passam pela porta do quarto dos pais de Fernando, e acham sua madrasta deitada, cochilando, antes de chegarem à cozinha.
Laís finge que elas são simples conhecidas e pega o pacote de biscoitos, apenas jogando no balcão para elas comerem.
– Então é assim? Vai fingir que não acontece nada entre a gente? – pergunta Larissa, comendo um biscoito.
– Aqui não, Larissa. – fala Laís, comendo um biscoito.
– Aqui sim, Laís. – fala Larissa, pressionando Laís. – Temos que saber se levamos a sério o que temos.
– Só temos uma diversão. Só sexo. – fala Laís, apesar de saber que não está falando a verdade. – Não vamos além com isso por questões óbvias. E se você veio até aqui só para me testar, pode sair. Vai ver toda aquela sua história de que ouviu Matheus conversar no telefone é mentira.
– Não é mentira. Eu realmente escutei ele falar no telefone naquela festa. – fala Larissa, enquanto alisa o ombro de Laís. – E não somos só sexo, e você sabe disso.
– Larissa, aqui não. É muito arriscado. –fala Laís, soltando a mão de Larissa de seu corpo.
– Assim que eu gosto. – fala Larissa, colocando seu rosto próximo ao de Laís e beijando-o, como nunca beijou em toda sua vida.
Laís se derrete pelo beijo da pessoa que ela ama. Nunca fora pega de jeito assim por Leandro ou nenhum outro homem. Larissa era especial. Até que o momento acabou quando ela ouviu o som de vidro se quebrando no chão.
Laís olha para a porta da cozinha e vê meu amigo Daniel, olhando para elas espantado, como quem não acredita no que vê. Larissa fica apavorada ao olhar para Daniel.
– Eu posso explicar. – fala Larissa, indo em direção a Daniel.
– Nem tente. Isso já explicou tudo. – fala Daniel, que sai andando da casa de Fernando, totalmente raivoso, com Larissa correndo atrás dele.
Laís não faz nada. Apenas fica em estado de choque pensando nos rumos que sua vida pode tomar a partir desse momento. Mas antes, ela não pode sobrecarregar a cabeça. Pouco antes do resto dos meus amigos chegarem para ver o que aconteceu, Laís abaixa-se e cata os cacos de vidro do copo d’agua que Daniel deixara cair no chão.
É, segredos não são fáceis de guardar, ainda por cima quando uma pessoa que guarda o segredo não sabe contê-lo. Eu aprendi isso da pior forma, e Laís fora uma vítima de uma pessoa dessas. Uma paixão iludida, uma paixão sem futuro. Uma amizade perdida por conta de algo banal. Somente agora minha amiga Laís descobrira sobre isso. Pelo menos ela não foi aprender isso somente depois de ter dado um tiro na cabeça, como eu. É, segredo bom é segredo morto.
Fale com o autor