Secret

1 A dama e o corvo


Notas iniciais
A história possui personagens do mangá também, não achei seus nomes nos personagens do Nyah. De resto, não tenho muito a dizer, apenas que espero de coração que se agradem da fanfic e curtam esse shipper que tanto amo.

O sol havia se posto mais cedo naquela tarde, apesar do calor emitido por ele permanecer intacto nas ruas de Londres. No entanto, a informação que chegava através dos ventos não era a de uma noite quente, mas o contrário disto e em algum lugar próximo ao palácio real, três figuras distintas pareciam experimentar essa mudança.

O grupo desconhecido era composto por dois homens e um terceiro indivíduo encapuzado, vestidos em roupas nobres um tanto maltratadas. Quem os visse, obviamente desconfiaria de algo, mas as três figuras apenas se dirigiam a um canteiro de obras. O lugar certamente não possuía camponeses, estava abandonado, servindo de um ótimo local para descanso, e pisando sobre o caminho pedregoso, foram de encontro a um muro não terminado. Quando chegaram próximo aos entulhos, o indivíduo encoberto enfim, retirou o capuz.

— Obrigada pela capa — disse uma voz feminina.

— Não acha que deveria continuar usando? Você estava tossindo há poucos minutos — repreendeu outra voz.

— Não, eu estou...

— Irritante como sempre. Não tem como você ser mais útil?! — se irritou a terceira.

— Desculpe então, por ser uma garota! Não é normal para mim este tipo de viagem.

O mordomo a ignorou e eles se sentaram sobre o muro. Como tudo ali, não era muito confortável — considerando que estavam em um lugar que só havia barro, areia, tijolos e uma lama estranha que se esgueirava em direção aos seus pés — no entanto, era sua única opção. Durante alguns minutos que pareceram horas, a jovem permaneceu calada, enquanto o outro girava uma espada entre os dedos. No meio dos dois, encontrava-se o mais consciente do grupo, mas esse parecia estar tão desanimado quanto, até que alguém resolveu se pronunciar.

— Sem chances!

— Como? — perguntou o outro.

— A rainha. Quem ela pensa que somos? Capachos? Escravos? Cobaias de laboratório?! — reclamou. — E que droga aquele cara estava fazendo?

— Pelo que consta no histórico real o nome do conde era Ethan Harvey, dono da terceira maior empresa de vestimentas reais da Inglaterra e segundo o veredicto imposto pelo juiz, ele também era acusado de contrabandear armas, formando uma máfia criminosa no submundo.

— Seja como for, ele parece bem insatisfeito agora. Ou devo dizer, parecia — sorriu.

Um silêncio se estendeu no local e a garota ao lado dos dois mordomos pareceu incomodada.

— Ao menos saímos inteiros — comentou.

O jovem irritou-se.

— Chama isso de sair inteiro? — apontou para si próprio. — Pelo visto, a única coisa que se preze em sua cabeça é o conhecimento sobre espadas — respondeu ironicamente, puxando uma linha do casaco rasgado.

— Ora, não venha lançar seu aborrecimento em mim Grey! Não é minha culpa se você foi o único a ter um ferimento considerado sério! — rebateu a jovem.

O mordomo abriu a boca para retrucar, mas uma mão apareceu em sua frente. Phipps estava incomodado com a conversa e Grey virou-se para o lado, ignorando os dois. A jovem também voltara a se calar, passara a fazer isso mais do que fizera em toda sua vida. Quanto ao segundo Charles, este não estava prestado atenção. Seu olhar concentrava-se em um corvo próximo a uma cerca.

O animal estava empoleirado sobre a árvore rugosa em frente a eles e certamente, era o maior corvo que o mordomo já vira. Como gostava de pássaros, ele poderia dizer que o animal era “fofo”, mas definitivamente não era a melhor palavra. Apesar da elegância vinda da ave, alguma coisa sombria alastrava-se ao seu redor e como se percebesse o olhar do homem, o corvo abriu as enormes asas e voou para longe. Grey assustou-se. Phipps permaneceu no mesmo lugar.

— O que foi isso?

— Não faço id...

Foram interrompidos.

— Não foi nada! Vamos, ou a rainha vai se irritar — rebateu a jovem, andando para longe.

Inconscientemente, ela abraçava os próprios braços e seus olhos ardiam. Mas não ia chorar. Ao menos era o que esperava, até ver uma sequência de gotículas caindo no chão sob seus pés. Maldito corvo! Maldita Infantilidade! pensava enquanto chutava as pedras no caminho. Ela realmente detestava o fato de ter visto aquele animal, quando se desesperava no túmulo de seu noivo há alguns anos atrás.

~~XXX~~

— Sejam bem-vindos, meus queridos! Espero que tenham uma boa explicação para tal aparência — começou Victoria, sorrindo agradavelmente e apontando para as roupas surradas dos servos.

— Vossa Majestade — curvou-se Phipps. —, nossas formalidades.

— Ah, obrigada Charles. Mas vamos, conte-me o que aconteceu.

O mordomo confirmou e inclinou-se em reverência uma última vez. Em seguida, abriu na página marcada de seu caderno.

— Foram encontrado pistas dos crimes na casa de Harvey, Majestade. Parece-me que o conde possuía uma grande lista de contatos no submundo e a empresa servia apenas como uma visão “ilusionista” na tentativa de esconder a máfia de armas negras.

— Suas viagens também possuíam um objetivo: Wilder — continuou a loira —, mais especificamente Lord Alfred. Mafioso negligente e acusado de matar o próprio pai para conseguir o título.

— No entanto, como pode ver, Ethan Harvey não foi bem sucedido em sua festinha de boas vindas e este caso acabou por ser concluído no trigésimo dia de setembro. Em outras palavras, ontem. Para seu agrado majestade — disse Grey, fazendo uma reverência exagerada e provocando suspiros entediados em seus companheiros.

— Oh, bravo! Bravo! — exclamou Victoria animadamente, batendo palmas. — Como esperado de vocês meus queridos. Infelizmente, Ethan sempre foi um rapazinho ambicioso, não me surpreende ter conseguido todo este legado. Entretanto, parece que desta vez não teve tanta sorte — suspirou.

Todos no salão viraram-se para ela e os três servos parados a sua direita olharam-na com atenção. Harvey era um mafioso sanguinário e incessante, ninguém ousaria chamá-lo de rapazinho ou tratá-lo como uma mera criança que havia acabado de fazer o que não devia e agora recebia seu castigo. Ninguém exceto, a mulher em sua frente.

— Vossa Majestade, se me permite dizer, não acho que o conde poderá fazer muita coisa agora. A menos, que se transforme em uma daquelas criaturas grotescas e nossa amiga aqui corte-lhe a cabeça fora. Então, sim, é uma pena realmente. No entanto, não acho que tenha nos prendido neste lugar por tempo suficiente apenas para falar de um homem morto.

Grey era quem havia falado e alguns olhares tornaram-se nervosos para ele, os de Victoria em especial possuíam um brilho divertido. Já a loira parada ao lado de Phipps, parecia inquieta com alguma coisa e seu corpo estava rígido como uma das terríveis gárgulas do palácio.

— Vejo que é um bom observador conde, mas acho que deveria usar um tom menos presunçoso da próxima vez, querido — respondeu a portadora da coroa, sorrindo gentilmente.

— Porém, você está certo. Com um aceno de mão, ela chamou um dos guardas parados na entrada e com um enorme maço de papéis, ele lhe trouxe um livro de registros. Segundo o livro grosso, a rainha levantou-se e empertigando-se como um pavão, discursou para os três servos a sua frente.

— Como todos sabemos, nossa amada Inglaterra parece nunca se cansar de seus moradores incomuns. — ouviram-na, enquanto o livro acima de seu peito destacava-se como um troféu — Por conta disso, trago a vocês os arquivos de seu mais novo caso: Psicose.

— E quanto ao cão de guarda? Não era sua missão resolver os problemas de sua majestade e jurar fidelidade ao país? — replicou o mordomo de cabelos prateados.

— Não acho que Eliot possa fazer qualquer coisa a respeito da situação, querido. Acho que devemos nos preocupar primeiramente em visitá-lo no seu túmulo.

— O conde Ruskin está... Morto? — perguntou a jovem ao lado de Phipps.

— Temo que sim minha querida, mas me parece que não foi o único. As duquesas Lancasters e o barão de Manchester encontram-se na mesma situação. Além do adorável Thomas Hardy, camponês e escritor de romances que tinha como moradia Greenwich.

— O local dos crimes? — perguntou Phipps.

— Naturalmente.

— Alguma pista de quem possa ser o assassino?

— Tudo o que precisarão estão nestes arquivos. Só peço para terem um pouco de cautela, pois de acordo com os médicos, o responsável pelas mortes não costuma deixar pistas e a isto, refiro-me aos corpos das vítimas.

Os três acenaram positivamente e estendeu-se um silêncio entre os presentes ali. Entretanto, agindo como um verdadeiro conde indiferente, Grey saudou a rainha em uma última reverência e saiu em direção às pesadas portas do salão.

Phipps ficou encarregado de cuidar dos arquivos e a jovem ao lado do mesmo, ajudou-o a carregá-los. Mas Victoria parecia não ter terminado seu diálogo ainda e com um único barulho de palma que chamou a atenção do mordomo e da garota, pediu para que a jovem se aproximasse.

Segurando firmemente a barra do vestido rasgado e andando calmamente, a loira parou próxima a mulher. Sua expressão era ansiosa e sua curiosidade só aumentou quando Victoria estendeu-lhe um embrulho. Olhando para o pergaminho amarrado a uma tira, ela ouviu a rainha dizer-lhe:

— Suponho que irá precisar disso, minha querida. Soube do lhe aconteceu na casa de Harvey e acho que a marquesa não irá gostar de saber que o bem tão precioso de sua filha foi ultrajado. Portanto, use com cuidado.

— Meus agradecimentos, Majestade — agradeceu a garota, inclinando-se.

— Imagina minha jovem, não é necessária tanta formalidade, pelo menos não a noiva de meu falecido rapazinho — piscou e seus olhos brilharam divertidamente mais uma vez.

A garota sorriu em resposta, mas não conseguiu expressar mais do que isso. Com um simples aceno de cabeça, ela saiu em direção às portas do salão. No trono, com uma expressão comicamente deprimida, Victoria ficou para trás, apoiando o queixo sobre o punho e murmurando algumas palavras:

— Espero que encontre o que está procurando, minha querida Elizabeth.

~~XXX~~

— Senhorita? — alguém bateu na porta.

— Sim?

— O jantar está na mesa.

— Já descerei Paula. Espere só mais alguns minutos — respondeu e o som de sinos foi ouvido.

Suspirando pesadamente, a garota levantou-se do chão. Não entendia porque tinha que descer, nem ao menos estava com fome. Bem... Talvez um pouco. Mas definitivamente, não estava interessada. Segurando um coelho de pelúcia sob o braço, que ela carinhosamente chamava de Bitter, encostou-se em uma das grades da enorme varanda. Apesar do quarto escuro, as grandes lhe proporcionavam uma ótima visão da rua lá embaixo, fazendo com que a mesma se encantasse com a comemoração a São Valentim feita pelo povo.

Eles haviam terminado as decorações e em cada casa agora, via-se uma candeia iluminado diferentes cores. Também havia faixas e as danças eram todas alegres e comemorativas. Em outras palavras, a rua havia sido invadida por eles e o mínimo que ela podia fazer, era observar.

Paula chamou novamente. Não restou outra opção, a não ser descer até o saguão da pousada.

— Senhorita, olhe! Chegou uma carta para você — disse a governanta, animadamente.

— Obrigada Paula, se não me engano é do grande irmão certo?

— Como sabe, minha dama?

— Digamos que recebi mais cinco destas cartas — piscou.

A governanta sorriu-lhe e foi se sentar próxima a jovem.

Durante todo o jantar, não conversaram sobre mais nada e a garota parecia um pouco mais feliz, após ler a carta do irmão. No entanto, na primeira badalada do velho relógio, a loira resolveu ir para seu quarto e vestindo uma roupa branca que a lembrava de um fantasma, jogou-se sobre os lençóis, também brancos — não que a cor fosse horrível ou algo assim, mas vestir uma garota tão branca quanto à própria, era realmente algo estranho de se ver —, abraçou Bitter em seguida.

Durante o sono, teve um sonho nenhum pouco agradável e como se seus temores estivessem certos, aquela “coisa” apareceu de novo.

Era 30 de agosto de 1889 e o dia parecia estar coincidindo perfeitamente com os sentimentos de uma certa garota.

— Senhorita, espere! — chamou-lhe a governanta, tentando inutilmente alcançar a pequena garota correndo pelo jardim. — Seus pais estão vindo.

— Não! Eu quero ver Ciel! Quero ver... — rebateu, sentindo suas lágrimas encharcarem o pescoço.

Os portões abriram-se.

— Quem são vocês? — alguém lhes perguntou.

— E-Elizabet... — tentou a menina, parando a corrida.

— Somos da família Midford, meu senhor. Essa é Elizabeth, filha mais nova do marquês de Middford e eu sou Paula, sua governanta — disse a mulher, enfim conseguindo segurar o ombro da garota.

— Por aqui, por favor — respondeu a voz que agora, descobriram ser de um homem alto e magro em pé atrás do portão.

As duas damas o seguiram e observaram as lápides acinzentadas ao longo do cemitério. Debaixo de uma árvore envelhecida e enrugada, foi onde encontraram o que estavam procurando e brilhando em enormes letras pretas, com flores ao redor, estava o nome que ela se lembrava: Ciel Phantomhive.

Como se não pudesse acreditar no que via, a jovem dama tornou-se rígida por alguns segundos e Paula achou melhor deixá-la sozinha, saindo juntamente com o velho homem que as acompanhava. Ficando para trás, a pequena garota ajeitou o vestido e apanhou o buquê de rosas que havia deixado cair. Em seguida, se aproximou daquelas letras.

— Ei, Ciel — chamou — Você consegue me ouvir? Se conseguir, tenho a dizer que você ganhou a partida. Sim, ganhou. Veja, Londres está calma por sua culpa — disse sorrindo, mas seu rosto estava molhado.

— Era o que você queria, não era? Mas não era o que eu queria — passou a mão sobre a bochecha, tornando-se extremamente vermelha para alguém com pele tão branca — Sabe, mesmo que eu o irritasse, não precisava me dá um castigo tão grande. Isso é mais do que posso aguentar! — continuou, passando o polegar no nome negro piche.

— Então... — um nó formou-lhe na garganta — Por que não volta? Por que não aparece na minha frente? Prometo que vou tentar melhorar, olha, já nem estou mais chorando feito uma desesperada como da última vez — riu-se.

Uma brisa suave atingiu seus cabelos e a jovem fechou os olhos. Aquela sensação definitivamente era a pior que já sentira. Talvez, nem mesmo da última vez que o Phantomhive se fora, ela poderia dizer que tinha sido tão ruim. Então, sem que percebesse, a pequena dama entendeu o porquê de estar ali: o perdera pela segunda vez.

— Ahr! — ouviu um grasnar.

Levantando-se, ainda aturdida, ela procurou de onde vinha o som e olhou para os lados. Sobre a árvore rugosa e envelhecida, viu um corvo adulto. Tão grande quanto um pássaro dessa raça poderia ser. O animal olhava diretamente para a menina e seu bico apontava para a lápide do garoto. A jovem tentou dizer algo, mas o animal voou sobre ela antes que a mesma conseguisse. Assustada, a pequena Midford gritou e procurou espantá-lo, mas suas garras eram mais fortes e a segurou. Com uma voz distante, palavras entoaram em sua cabeça:

“Disse-lhe uma vez que não posso oferecer nada de bom. Por que continuar acreditando em mim?”

A jovem recuou.

Soltando um grunhido lamentável, o animal soltou os braços da garota que agora, servia de defesa contra o corvo e voou. Em seguida, rodeou sua cabeça e foi para longe. Atrás dele, a jovem dama observou o animal ir embora e com um aperto no coração, respondeu a pergunta que tão secamente tinha ouvido.

— Porque... — suspirou — Porque eu te amo.

~~XXX~~

— Ei Midford, acorda. Vamos, acorda! — chamou uma voz, balançando-a pelos ombros.

— O q...

— Como assim o quê? Está na hora de irmos ou acha que vamos esperar seu maravilhoso sono terminar para que possamos ir?

A garota observou o relógio sobre a cabeceira e o mesmo marcava uma e quarenta, da madrugada. Coçando os olhos e se sentando sobre as próprias pernas, observou Grey e Phipps parados em pé olhando para ela.

— Por que tão cedo? – perguntou.

— Fácil, em qual hora acha que um assassino cruel e ardiloso agiria?

— Agora? — chutou.

— Que bom que ainda resta algo nesse seu cérebro, Midford.

A jovem suspirou.

Notas finais
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