Secret
2 Os cinco nobres
Notas iniciais
— Escute, tem certeza de que é aqui? — perguntou a loira.
— Era o que tinha escrito nos arquivos de Phipps — respondeu o mordomo.
— Mas não há nada aqui — rebateu ela.
— Peça a ele os arquivos então.
Estavam os três parados em frente à absolutamente, nada. A casa que deveria ser do barão de Manchester, agora não passava de uma pilha de entulhos. Havia pedras e tijolos por toda parte e a única coisa que restara dos compartimentos, eram muros derrubados.
Andando calmamente até os destroços, a loira apanhou um quadro circular. Sua moldura estava rachada na lateral, mas ainda podia ver a foto que se destacava em seu interior.
Era a imagem de irmãos gêmeos. O homem parado a direita parecia ser o irmão mais velho, apesar da conexão univitelina. Quanto ao homem da esquerda, possuía uma expressão incrivelmente jovem, distanciando-se da cara fechada do irmão. Para a garota, era como ver duas faces totalmente contrárias, mas deliberadamente idênticas.
— Vejam, não é esse o barão? — perguntou, apontando para o irmão da direita.
— Certamente — respondeu Phipps.
— Mas por que ele tem esta foto? Achei que fosse reservado e não gostasse de emoções como o afeto.
— Não é óbvio? — perguntou o mordomo de cabelos prateados, sorrindo e girando a espada na lateral da cintura.
— Rixas, minha cara. Mais precisamente, rixas e o capital desta cidade — continuou, puxando a loira contra si e apertando a lâmina contra seu pescoço alvo.
A garota recuou e o sorriso do conde esticou para os lados, deixando seus olhos pequenos como fendas. No entanto, sua brincadeira foi atrapalhada por mais alguém que estava presente ali.
— Grey! — chamou Phipps. – Há algo aqui.
— Tsc! — irritou-se o mordomo, retirando a espada do pescoço da loira.
Distanciando-se dos dois, ele andou até um muro inacabado, agachando-se em seguida. Segundo seu companheiro, havia algo importante ali, mas pela expressão do mordomo era tão inútil quanto um daqueles tijolos. Aproveitando-se do momento, Phipps aproximou-se da jovem, que parecia atordoada ao passar a mão sobre o pescoço buscando algum corte. O mordomo abaixou-se a sua altura.
— Escute, não ligue para o Charles. Grey só não aceita o fato de você ser melhor com espadas do que ele.
— Obrigada — a garota sorriu e Phipps voltou ao seu estado natural: apático e silencioso.
Durante algumas horas, os três permaneceram ali, mas não é como se tivessem encontrado muita coisa. Particularmente, não acharam a menor pista sobre o assassino e o máximo que descobriram, através das informações de Grey, foi à rixa oportuna entre os dois irmãos. Segundo o mordomo, o barão de Liverpool havia trapaceado o próprio irmão (barão de Manchester) quando mais novo. Os títulos na Inglaterra ou na maioria dos países são passados para os herdeiros mais velhos e apenas ao morrerem, passam para os irmãos mais novos. Ao nascerem gêmeos univitelinos em uma mesma família, propõe-se o título à criança que nascer alguns segundos antes de seu irmão, na hora do parto. No entanto, o barão de Liverpool parecia não pensar dessa maneira e trapaceando o próprio irmão, por meio de riquezas, tomou o título da cidade natal, o que levou o herdeiro mais velho a mudar-se para Manchester.
Construindo um enorme legado e obtendo a atenção do povo, o mesmo também conseguiu o título. Sua fortuna chegou a ser maior que a do irmão, levando a enormes guerras entre os mesmos. Entretanto, a informação que se tinha resumia-se até esta parte e os três servos não entendiam como uma simples viagem a Greenwich e o destaque do dia seguinte era: “Desaparece barão de Manchester”.
~~XXX~~
Ploc!
— Maldição! Por que temos que vir aqui primeiro? — reclamou o conde, passando a mão no rosto para retirar os pingos d’água que caíam.
— Você sabe o porquê. Agora, corra! — rebateu a outra, arrastando-o pelo caminho lamacento.
Estava chovendo no interior de Londres e como consequência, a estrada tornara-se crítica para aqueles que ousavam passar ali. Havia, no entanto, um grupo que corria em direção à enorme mansão no final do povoado e protegidos por capas de chuvas, pararam em frente às grades cinzas do lugar. Como previsto, não havia ninguém a sua espera e um cadeado enferrujado achava-se a sua frente, preso a grossas correntes. A jovem foi a primeira a demonstrar alguma reação, chamando por alguém como se o mesmo pudesse vir atendê-la, mas sua atitude foi interrompida.
Com um barulho ensurdecedor, as correntes que outrora estavam tão bem firmadas caíram no chão, fazendo a loira virar-se para olhar. Grey havia aberto o cadeado com a ponta do florete e quebrado as correntes com alguns golpes. Olhando para baixo, a garota percebeu que era seu florete e o puxou de suas mãos, enquanto o mordomo sorria e inchava como uma bexiga prestes a explodir.
— Vamos — chamou Phipps.
— Não podemos entrar — pediu a jovem em apelo —, estaríamos invadindo a mansão.
— Não me lembro de toda essa hesitação na casa de Harvey, Midford. Além do fato de que temos um mandato para procurar pistas por ordem da rainha — rebateu Grey.
— Eles eram criminosos, e nós os flagramos. Este homem estava servindo à rainha e morreu em sua própria função.
— Sabe o que eu acho Midford? — disse o mordomo aproximando-se e abaixando-se próximo ao ouvido da loira. — Que você ainda não superou a morte do seu noivo. Deveria cuidar logo disso ou vai cair na armadilha feita por si mesma — sorriu Grey, maldoso.
A garota recuou. Pela primeira vez, ele finalmente havia tocado em sua ferida e a jovem dama não sabia se deveria irritar-se ou enfiar-lhe a lâmina da espada de uma vez por todas. Abrindo os portões com violência, a jovem marchou para o hall de entrada da enorme mansão, ignorando os mordomos que ficaram para trás.
Diferentemente do que eles pensavam, não havia nada muito incomum dentro da casa. A não ser talvez, coisas desnecessárias até mesmo para um conde. Passando a mão sobre um enorme piano de ouro, a loira perguntava-se para que servia aquilo e lembrou-se sorrindo de que ele também gostava deste tipo de instrumento. O seu, porém, era um piano normal e por muitos anos, ela não o ouvira tocar.
Olhando para o lado e vendo seus dois companheiros observando algo escuro nas mãos, a garota aproveitou para tocar alguma coisa, mas seu plano não saiu como desejado. Apertando na tecla que deveria ser o dó, um som estranho saiu e a loira olhou no interior do piano para ver o problema. Debaixo de um enorme emaranho de cordas e martelos, havia um envelope branco e puxando-o para cima, a loira percebeu ser uma grande quantidade de libras. Surpresa, a jovem virou-se para os dois homens, mas parecia que ela não era a única a ter algo para contar.
— O que é isso? — perguntou apontando para o pedaço de tecido rasgado na mão de Grey.
— Parece que nosso assassino deixou-nos uma pista.
— Acha mesmo que isso é dele, Charles? — Phipps perguntou.
— E de quem mais seria?
Ouviram um barulho. Sentindo o maxilar tremer e com uma expressão que beirava a vômito, a garota apontou para algo atrás dos dois mordomos. Em seguida, disse aterrorizada:
— Não sei. Talvez... Dele.
Os mordomos se viraram. Preso a uma corda amarrada a uma das ripas do telhado por meio de um buraco, um homem encontrava-se suspenso pelo pescoço e sobre sua boca havia uma grande quantidade de sangue que pingava em direção ao chão, logo abaixo de seus pés. Grey assustou-se e Phipps parecia extremamente surpreso a ponto de não saber o que dizer. A loira, por outro lado, se entregara ao pânico.
— Sem chance... — sussurrou para si mesma.
— Quem é esse? — perguntou Grey.
— Certamente não é o conde Ruskin — respondeu Phipps. Andando em direção ao corpo do homem, o alto mordomo encostou o pedaço de pano no sobretudo negro e como se suas suspeitas estivessem certa, o tecido pertencia a ele. Segundo Phipps, a lateral havia sido rasgada violentamente por conta de uma queda ou de uma luta, mas a julgar pela mesa ao lado do corpo, provavelmente o motivo teria sido a queda.
— Então não foi suicídio, concluímos — disse Grey.
— Mais é claro que não — rebateu a loira. — Por que alguém viria à casa de outra pessoa para cometer suicídio?
— Para culpar o anfitrião da casa por assassinato?
— Não faria sentido, a menos que o mesmo fosse indiferente à própria vida.
— Isso não é raro de ser ver — replicou o mordomo —, são todos brutos!
— Inclusive você.
O conde se calou e como se estivesse segurando-se para não partir para um duelo com uma mulher, na casa de um homem morto, utilizando espadas que poderia destruir sua casa, avançou em direção ao corpo e replicou:
— Explique-me então, por que alguém faria isso? — apontou.
— Por causa disto — respondeu a jovem, segurando o envelope com as libras. — Estava dentro do piano, Ruskin parecia querer escondê-lo.
— Está sugerindo que este homem tentou roubar o conde e o mesmo o matou? — perguntou Phipps.
— Não acho que seja ele o ladrão — comentou e um clarão iluminou-os.
A tempestade parecia ter piorado lá fora e as janelas da sala estavam servindo como refletores. Seguindo os clarões do temporal, os três moveram-se para uma estante de livros e retirando uma das obras, observaram um papel dobrado cair no chão. Grey o pegou e descobriu ser uma lista.
Mas não era uma lista qualquer.
— O que é isso? — perguntou a loira.
O mordomo riu estranhamente.
— Parece que o conde não era tão fiel quanto pensávamos — comentou e sua face foi ficando esticada, ao passo que um sorriso macabro ia se estendendo. — Seja sincera Midford, não acha que um conde endividado até os ossos faria uma pequena lista para livrar a própria pele?
— Eu... Eu n... — tentou, mas a expressão do mordomo a estava assustando. Virou-se de costas — Não sei do que está falando.
— Oh, sério? Pois deveria.
Estendendo o pequeno pedaço de papel, Charles Grey apontou para um nome em especial. A jovem não queria virar-se para olhar, sentia que não queria ver o que estava escrito ali, mas ao contrário do que dizia sua intuição, o fez. No centro do papel, em longas letras vermelhas, o nome de alguém muito conhecido por ela estendia-se delicadamente e pela primeira vez, ela quis ter seguido sua intuição.
13 – Alexis Leon Midford. – morte em 12 de agosto de 1879.
— Papai?
~~ XXX~~
Estava frio naquele lugar, todavia, ela tinha medo de seu coração está virando um iceberg. Após terem saído da mansão, o grupo enviou uma carta à rainha informando os últimos acontecimentos, mas não voltaram ao palácio. Na busca por novas pistas, foram à casa do terceiro nobre: Thomas Hardy e apesar da decisão, um deles parecia estar pouco confortável com a situação.
— Bem-me-quer... Malmequer, bem-me-quer — ia sussurrando a loira, enquanto despetalava um pequeno buquê de rosas —, malmeq...
— O que está fazendo? — perguntou Phipps que sem o menor barulho, havia se colocado ao seu lado.
— Kya! — a loira assustou-se.
— N... Não é nada. Pelo menos, nada muito importante — sorriu amarelo, tentando esconder as três flores que compunha aquele buquê, atrás de si.
— Certo.
Ele havia se afastado e segurando novamente o buquê em frente ao corpo, ela voltou a despetalar as pobres flores. Phipps e Grey estavam um pouco a frente e a jovem os seguia a certa distância, não queria que vissem sua expressão melancólica.
A casa para onde estavam indo era diferente de todas que haviam visto, uma vez que Thomas Hardy preferiu tornar-se camponês e escritor, a possuir o título de conde. Os boatos diziam que o motivo da renúncia era a discórdia com seus pais, levando em conta que o senhor e a senhora Hardy eram extremamente rigorosos e jamais aceitariam que o mesmo se tornasse um mero escritor ao invés de se dedicar a parte financeira. Irritado, Thomas renunciou, e agora eles precisavam andar até uma casinha no final do campo para conseguir uma pista.
Estavam em Greenwich.
A caminhada não demorou muito e quando enfim chegaram à pequena varanda, a loira não sabia o que dizer. A casa era bem simples, não tinha muito mais do que alguns vasos de flores na janela e um tapete com os dizeres: Seja bem-vindo. Por dentro, só havia quatro cômodos e em quase todos havia centenas de livros, tinteiros e papéis, a exceção do banheiro. No geral, era uma simples casa de escritor. A única novidade ali era um gato preto que estava sobre uma das janelas, lambendo as próprias patas.
— Vamos procurar nos livros, tivemos sorte da última vez — comandou Phipps, dirigindo-se a uma das estantes.
Dividiram-se, e Grey foi até a oficina de livros que servia de local para Hardy escrever suas obras. A garota, no entanto, havia ficado com o quarto e o enorme mordomo, acomodou-se na sala.
O quarto ficava para o lado esquerdo e andando pelos corredores até uma porta de madeira, no final do corredor, achou-se no cômodo. Assim como no restante da casa, não havia nada muito especial e o máximo que a loira conseguiu ver, foi uma cama próxima à parede, uma escrivaninha ao lado, um guarda-roupa velho e duas estantes de livros.
Claramente, a garota se dirigiu as estantes.
Pegou um livro intitulado Judas, o Obscuro e iniciou a procura, mas ao invés de encontrar pistas, encontrou uma boa história. Ignorando o decorrer do tempo, a garota se sentou na cama e encantou-se com o livro. Não era muito de seu feitio ler, mas havia encontrado uma exceção, e apesar de ser um drama, estava difícil parar de ler. No final, foi interrompida por algo na escrivaninha.
Levantando-se e andando até ela, abriu as gavetas, mas o barulho vinha de trás do móvel. Arrastando-o para frente e encontrando uma fenda que dava para um compartimento escondido, procurou por algo que pudesse quebrar a madeira. Mas se ele havia escondido algo ali, certamente não havia sido por aquela fenda. Arrastando novamente a escrivaninha, a garota abriu a gaveta que dava para o local escondido e constatou que Thomas era realmente inteligente. Qualquer pessoa que olhasse para dentro da gaveta veria nada mais do que alguns tinteiros e brancos papéis, mas se você arrastasse para frente a madeira do fundo e a puxasse para cima, daria em um orifício secreto como se a gaveta fosse dividida em dois compartimentos, sendo um deles, escondido.
Segurando a gaveta nas mãos, ela andou até a cama e a colocou sobre o colchão. O barulho ouvido vinha do amontoado de cartas, que já não cabendo dentro do compartimento, impulsionava a gaveta para frente. Estendendo uma das cartas, percebeu ser de uma mulher que escrevia para Hardy desesperadamente com a esperança de encontrá-lo, mas não havia nome. As outras cartas também eram todas femininas, assim como eram todas de amor, sendo a maioria, respondidas por Hardy.
O motivo de esconder aquelas mensagens, a jovem não sabia, mas ficou um bom tempo lendo todas porque não aguentou seu lado aventureiro lhe impulsionando como um cabo de força para tocar nos bilhetes. Quando terminou, seu rosto estava molhado e limpando-o com a manga do vestido, irritou-se.
— Emotiva! — gritou para si mesma, segurando a colcha com força.
Então, seu pai lhe veio à mente e ela ficou tocada a escrever-lhe uma carta, mas sabia que não havia como aquilo acontecer. Ruskin estava morto e nada ou ninguém poderia mudar isso. Sua covardia resumia-se a ele e ninguém iria ajudá-lo a terminar sua lista negra temendo a própria vida.
— Sem chances! — ouviu a voz de Grey, vindo da sala.
— Mas que diab...?
— É só o gato — comentou Phipps.
A garota foi em direção à sala.
— O que houve? — perguntou.
— Esse pulguento pulou em cima dos papéis que eu estava lendo — reclamou o mordomo, empurrando o felino com a bota como se tivesse algum tipo de doença contagiosa.
— Deixe-o em paz Grey!
O mordomo a ignorou. Segurando alguns papéis nas mãos, ele apontou para Phipps e para si mesmo, em seguida, disse:
— Não encontramos nada nesse lugar e o outro cômodo estava tão ridiculamente entediante que me dispus a vir aqui.
— Não havia nada no quarto também — respondeu a jovem, concordando com o mordomo — a não ser talvez, estas cartas.
Grey puxou os bilhetes de suas mãos e lendo rapidamente as mensagens, seu cenho foi ficando franzido enquanto uma expressão enfadada tomava sua face. Por fim, ele as devolveu para a loira.
— Cartas de amor? Não me interessa as paixões de um escritor apaixonado, a rainha espera que encontremos um assassino.
— Não é minha culpa se o máximo que Hardy deixou para nós seja isso.
— Então procure mais — rebateu o mordomo.
— Estou procurando — replicou a garota.
— Ei! — chamou Phipps — Acho que vem uma nevasca por aí.
De costas para os dois, o alto mordomo olhava o céu através da janela e ao perceber o silêncio de seus companheiros, virou-se pensativo. Os outros, ao contrário, procuraram sair o mais rápido possível dali e segurando suas enormes capas de chuva, foram em direção à porta. Phipps os seguiu.
Grey, no entanto, havia esquecido algo e demorando mais tempo do que deveria guardando os bilhetes no casaco, sentiu algo molhado em sua perna. Sua bota possuía agora uma enorme mancha amarelada e olhando para o lado, viu um barbante rolar em sua direção. Incrédulo, abriu e fechou a boca como se não soubesse o que dizer e observando o autor do ato encarando-lhe sobre a mesa, sentiu uma veia saltar-lhe a testa. Por fim, fechou a cara e pronunciou um xingamento final:
— Bruto! — bateu a porta atrás de si.
O gato miou em resposta.
~~XXX~~
Estavam próximos a casa das duquesas Lancasters, que assim como Hardy, moravam em Greenwich. Segundo os arquivos de Phipps, foram as únicas nobres a morrerem em seu próprio lar, escondidas em um porão secreto, o qual a Scotland Yard demorou um mês para encontrar. No entanto, para um ato fúnebre, a rua em que moravam parecia estar bem movimentada. Podiam até ver bêbados caídos em calçadas próximo ao bar ou mulheres com risinhos exagerados, agarradas ao braço de um bravo cavalheiro. Parece que a burguesia não era tão diferente assim das classes mais baixas.
O enorme casarão encontrava-se no centro da rua e consequentemente, no meio de dois outros casarões. Um fato estranho sobre esse edifício eram os proprietários da casa, no caso, as duquesas Lancasters. Sabe-se que as duas mulheres eram viúvas e moravam sozinhas na enorme casa, enquanto todos ali possuíam uma completa família ou pelo menos, eram incentivados a começar uma. As mulheres, porém, após a morte de seus respectivos maridos nunca mais reconsideraram ter uma família, ao menos não pelo que se sabia.
Segurando o florete na mão, era a vez da garota demonstrar habilidade para com as correntes. Fazendo Phipps e Grey afastarem-se, deu dois golpes nos objetos e observou as correntes se quebrarem. Logo após, foram em direção ao hall de entrada. A casa das duquesas não tinha nada especial, a exceção do porão escondido. Sem esperar por um convite, o trio desceu pelo alçapão até o local secreto.
Tudo que havia no porão eram caixotes de madeira, nada aterrorizante como facas, armas ou outro objeto de tortura. Segundo a Scotland Yard, as mulheres haviam sido encontradas jogadas lado a lado próximas a um dos caixotes, mas depois de examinarem os enormes objetos, nada foi encontrado. O porão estava apenas fazendo o papel de porão: guardando coisas velhas que ninguém mais usaria.
Dividiram-se novamente.
Desta vez, a jovem dama ficou com três cômodos e novamente, eram os quartos e a sala. Digamos que não seria certo um homem entrar no quarto das mulheres sem que estas fossem suas respectivas esposas e agora ela subia as longas escadas para chegar até o andar de cima, resguardando a pureza dos cômodos. Grey havia ficado com o quarto do marquês, o pai das mulheres, e com o quarto de hóspedes. Phipps ficou com o restante da casa que seria a cozinha, o quartos dos criados e até mesmo os banheiros.
— Encontre-nos aqui daqui a meia hora! — gritou o alto mordomo no andar de baixo quando a loira já ia mais adiante.
— Certo — respondeu.
Novamente no quarto que não era o dela, a jovem parou na porta. Sua expressão era a de uma pessoa enfeitiçada, melhor dizendo, encantada. Há muito tempo ela havia sido alguém considerada fofa, mas após tornar-se governanta da rainha, já não sabia mais o que significava essa palavra. Porém, vendo o quarto que provavelmente seria da duquesa mais nova, a loira abriu uma exceção e andando até um coelho de pelúcia que lhe lembrava de Bitter, passou um tempo brincando com o bichinho.
Depois do que pareceram alguns minutos, a loira voltou à realidade e colocando o coelhinho sobre o colchão, procurou pistas na mobília do quarto. Não havia nada. Andando até a janela, a garota suspirou. Quando enfim resolveu sair do aposento, bateu o pé na madeira da cama e se amaldiçoou internamente, mas após observar o coelhinho de pelúcia cair no chão e rasgar-se como uma folha de papel, calou-se de imediato. A cabeça do coelho rolou até seus pés e de onde seria o pescoço, centenas de cartas dobradas espremiam-se para sair. Horrorizada, a loira caminhou até o “corpo” do bicho de pelúcia e pegando as cartas nas mãos, passou a lê-las. Eram cartas de amor e ela conhecia aquela letra.
O aposento da duquesa mais velha era um tanto diferente do da irmã. Possuía um ar forte, mas sem perder a delicadeza. Olhando para um quadro na parede, ela pensou que talvez a duquesa e sua irmã fossem bem unidas e observou a imagem em que sorriam abraçadas. Ainda segurando as cartas na mão, iniciou sua busca mais uma vez pela mobília da casa. Novamente, nada. Diferente da irmã, a duquesa parecia não ter segredos.
Após sair do quarto, a loira caminhou em direção à sala. Grey já estava lá, jogado no sofá, brincando novamente com suas amadas lâminas. Phipps parecia não ter voltado ainda e ela se dirigiu a uma estante de decorações.
— Achou algo? — perguntou o mordomo, enquanto a loira olhava uma pequena xícara de porcelana.
— Cartas.
— Sério? — sentou-se — Achei uma arma.
A jovem pareceu surpresa.
— Não se preocupe, ela não estava carregada, então posso concluir que ninguém a usou. Mas quem sabe, talvez ela tivesse alguma utilidade... — sorriu maldosamente.
— O marquês era bem rigoroso — comentou a jovem.
— Ele não era apenas rigoroso, era um coletor.
— O que quer dizer?
— Que ele vendia e comprava terrenos, e quem não o pagasse corretamente... Bem, espero que tenham escondido bem o traseiro para que não precisasse ser chutado.
— Grey!
— O quê?
A jovem o ignorou e o mordomo voltou a se jogar sobre o sofá. Phipps apareceu alguns segundos depois, parecia cansado e se sentou ao lado de Grey, no braço do estofado.
— O que descobriram? — perguntou.
— Cartas de amor de uma duquesa apaixonada — respondeu a garota.
— E a arma do Sr. Rigoroso — continuou Grey.
— Como?
— Pergunte a nossa amiga aqui.
Silenciaram. Haviam chegado ao seu ponto alto de irritação. Fazia dias que estavam na busca pelo autor dos assassinatos e o máximo que haviam achado era um quadro quebrado, um homem morto, a lista de um psicopata, cartas e a arma de um velho mal-humorado. Definitivamente, nada que ligasse a um assassino cruel. Até mesmo os objetos mais perigosos pareciam ter ligação com os nobres e não com o autor dos crimes.
Levantando-se violentamente, Grey marchou até a porta. A loira e Phipps ficaram parados, observando o que o mordomo faria. Abrindo a porta com força, o jovem jogou a capa de chuva sobre o ombro e arqueando a sobrancelha, perguntou:
— O que estão esperando? Vamos! Não há nada aqui — fechou em seguida.
Phipps e a loira correram atrás dele, mas ao chegarem no batente da porta viram Grey caído no chão, próximo ao portão. Ele xingava a mulher que esbarrara nele e que agora corria rua abaixo. Abaixando-se e ajudando o mordomo a se levantar, observaram quando algo negro passou por eles. Seus corpos se tornaram frios de repente. Tremendo e observando a coisa ir atrás da mulher, a loira largou Grey e correu, desembainhando o florete. Phipps saiu em seu encalço e Grey com dificuldade, levantou-se para ir atrás de seus insanos amigos.
O vulto negro virou à direita. A garota o seguiu. O mordomo não deixou por menos.
Próximo a um latão de lixo, escorada na parede, estava a mulher que esbarrara em Grey, e a garota percebeu que ela não era mais do que alguns anos mais velha que a própria. Observando o vulto parar em sua frente, viu quando a jovem se contorceu violentamente e implorou para não ser morta, mas não foi ouvida. Sentindo uma ânsia de vômito lhe corroer, a loira viu quando o corpo caiu imóvel no chão, fazendo um barulho surdo. Ouviu as vozes de Phipps e Grey à distância e tentou correr, mas alguém se colocou em sua frente e ela conhecia aquele rosto.
— Ciel?
O demônio sorriu.
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