Second Chance
2 Ruptura
Notas iniciais
Bom, na verdade esse capitulo já estava pronto, mas não pretendia postar caso ninguém lesse, mas como arrumei alguns leitores, aqui está! :D
No ultimo capitulo...
"Aguardou a morte silenciosamente, e então viu algo que chamou sua atenção: Alguém estava ali, caminhando em sua direção com as mãos nos bolsos – alguém que não deveria estar ali. Mas por que não devia estar ali? – subitamente sentiu seu coração se acalmar, batendo devagar a cada passo que a pessoa dava em sua direção. Tentou sorrir, mas não conseguiu, finalmente descansaria em paz. Fechou os olhos lentamente, se entregando à escuridão que insistia em dominá-lo. A morte era calma afinal."
Ainda de olhos fechados ouviu um grito horroroso, seu coração se acelerando novamente. A voz era esganiçada e estridente e ao mesmo tempo grossa e assustadora, como se fossem diversas vozes gritando ao mesmo tempo."
KIRA!
...
(...)
Capitulo 2 – Ruptura
Abriu os olhos assustado, sentando-se bruscamente na cama. A respiração descompassada, o coração acelerado. Foi só um sonho, pensou aliviado.
- Raito-kun?
Passou as costas da mão na testa, enxugando o suor do rosto, agora que prestara atenção percebeu que realmente havia suado muito. Levou a mão ao peito instintivamente, ainda conseguia se lembrar da sensação, não que ainda estivesse sentindo dor, mas se lembrava de como a dor era.
O que aquele sonho significava? Estava apenas tendo um pesadelo perturbador ou realmente aquilo tinha uma explicação? Sua cabeça estava confusa, girando. Deixou os olhos vagarem pelo local e tentou se lembrar do que estava acontecendo.
Chuva, escuridão. "Você pode ficar a vontade na cama. Não vou usá-la". Lembrou-se, estava na casa de Ryuuzaki por causa da chuva. Sentiu algo chacoalhando seu braço.
-Raito-kun? Raito!
- Ahn? O que foi Ryuuzaki? – respondeu. A respiração ainda estava descompassada anunciando que não havia se acalmado.
-Te chamei pelo menos umas 5 vezes. Está tudo bem? – o moreno encarou o outro nos olhos.
Eram mais ou menos 5 horas da manhã quando Ryuuzaki percebeu o sono agitado do hospede. Raito rolava na cama, suando e murmurando coisas inaudíveis, ficou preocupado, mas decidiu não interferir.
- Vou buscar um copo de água pra você – Raito apenas ficou olhando enquanto o mais velho saía rapidamente pela porta.
Ryuuzaki estava realmente se sentindo um pouco perturbado, com o quê Raito estava sonhando? Ouvia o ruivo gemer baixo de agonia e dor, que tipo de coisa estava acontecendo em seus sonhos?
Subiu as escadas novamente, segurando desajeitadamente – com sua forma nada convencional de segurar os objetos – um copo de água gelada. Mas algo em especial lhe preocupava, Raito disse uma palavra um pouco antes de acordar assustado.
- Toma – disse enquanto entregava o copo para Raito.
Havia dito uma palavra, de forma baixa e quase muda. A palavra havia saído quase como um suspiro, como um apelo desesperado de uma vitima diante de seu assassino.
Sentou-se na cama, de frente pro outro, observando enquanto Raito tomava em grandes goles toda a água do copo.
Kira. A hora havia chegado afinal?
Raito se acalmou finalmente, respirando fundo e se espreguiçando.
- Que horas são Ryuuzaki?
- Alguma coisa entre 6 e 6 e meia da manhã.
- Não me parece uma boa hora para se acordar num sábado – disse vagamente.
Raito levantou o olhar, encontrando um par de orbes negras o encarando. Ficaram vários segundos se olhando.
- Será que...! – começaram a falar juntos.
Ryuuzaki tombou a cabeça para o lado, constrangido. Raito virou o rosto, escondendo o rubor.
- Pode falar – Ryuuzaki disse, tentando quebrar o clima constrangedor.
- Eu ia dizer que seria bom ligar para os meus pais, talvez eles já estejam a caminho – concluiu olhando pela janela, o tempo estava muito melhor do que o dia anterior. O sol decidira sair de trás das nuvens, brilhando timidamente.
- É uma boa idéia. Faça isso enquanto ligo pra Watari também.
Raito pegou o celular em cima do criado mudo e discou o numero do celular de sua mãe. Ryuuzaki saiu do quarto, descendo para a sala, com um pouco de sorte Watari já estaria levando o carro para a oficina.
A Senhora Yagami já estava a caminho e demoraria cerca de meia hora ainda para chegar em casa. Watari demoraria um pouco mais, voltaria só após o almoço.
Ao concluir que Raito ainda tinha algum tempo até ir pra casa, Ryuuzaki propôs que ele tomasse um banho já que estava todo suado por causa do pesadelo, Raito aceitou de bom grado.
Entrou no banheiro e tirou as roupas que Ryuuzaki havia lhe emprestado, colocando-as dobradas em cima do cesto de roupa suja. Ligou o chuveiro, deixando a água levemente fria. Estava realmente confuso, o sonho não saía de sua cabeça. Sem saber o porquê, de repente uma conversa que teve com Ryuuzaki há algum tempo lhe veio à mente. Nela, Ryuuzaki havia dito que os sonhos podiam ser previsões, sinais, ou até mesmo lembranças de vidas anteriores. Riu alto.
- "Isso tudo é besteira. É só mais um pesadelo, como qualquer outro pesadelo".
Lembrou-se do grito horroroso do sonho e sentiu um calafrio na espinha, várias pessoas pareciam gritar juntas a mesma coisa, agora não conseguia se lembrar exatamente o que era. Decidiu deixar de lado esse assunto e desligou o chuveiro.
Ao sair do banheiro encontrou suas roupas limpas, secas e bem passadas. Suspirou. Por que Ryuuzaki estava lhe tratando tão bem? ... Por acaso não eram inimigos? ...Sabia muito bem a resposta.
Não, não eram inimigos. Agora sabia disso. Sorriu. Podiam até competir, podiam ficar nessa guerra para ver quem era o melhor para sempre, mas definitivamente não eram inimigos. Mas também não sabia se eram amigos, não conseguia imaginar Ryuuzaki e ele saindo juntos pra tomar um café, ou pra baladas, falando de mulheres e competindo pra ver quem arrasava mais corações por onde passava. Ponderou um segundo. Pensando bem, talvez Ryuuzaki ganhasse dele nessa.
Raito sabia muito bem que o outro não gostava de se relacionar com as pessoas, mas isso não significava que não gostava de cortejar as garotas. Jamais admitiria, mas Ryuuzaki era muito mais experiente do que ele com as mulheres. Por mais que Raito tivesse um rosto bonito e chamasse a atenção, raramente se interessava por alguém e mais raramente ainda chegava ao ponto de levar alguma garota pra um motel. Sentiu algo estranho no estomago quando imaginou Ryuuzaki e uma garota se beijando de uma forma não muito educada dentro de um quarto escuro. Sacudiu a cabeça. Por que estava pensando nessas coisas?
Terminou de se vestir e desceu. Não deixou de notar como a casa ficava mais bonita e viva iluminada pelo fraco brilho do sol. Olhou o relógio de pulso, 7:21 am, sua mãe já devia estar em casa.
Enquanto Raito caminhava lentamente até a sala, Ryuuzaki mexia seu chá 90% açúcar calmamente. Estava sentado em posição fetal numa poltrona da sala, logo Raito apareceria. Há muito tempo queria explicar um milhão de coisas para o ruivo, quase não conseguia se segurar, mas precisava, tinha que esperar a hora certa. Não podia errar dessa vez.
Olhou em direção ao corredor. Sabia e entendia o motivo de somente ele ter se lembrado, mas algo dentro de si sempre dizia que talvez as coisas pudessem ser diferentes, que talvez Raito tivesse mudado. Fechou os olhos. Não, não podia arriscar, tinha que esperar a hora certa. Raito era gentil, tinha um bom coração e um bom caráter, mas Ryuuzaki sabia que tudo isso podia mudar, tudo isso podia se corromper, tudo isso podia ser descartado restando dentro dele apenas o egocentrismo e a vontade de ser superior a todos, ele podia se corromper assim como da outra vez. Por isso Raito não se lembrava, caso contrário poderia fazer tudo errado de novo, poderia enlouquecer novamente levando todos em sua volta à ruína. Suspirou. Estava com uma missão difícil nas mãos, mas não se renderia, não perderia dessa vez. Sabia que o momento que estava aguardando durante toda sua vida se aproximava, logo as coisas estariam confusas para Raito e cabia a ele, Ryuuzaki, tornar tudo claro para o mais novo, cabia a ele não deixar o outro cair. Suspirou novamente. Querendo ou não, eles precisavam um do outro.
Pode ouvir os passos de Raito no corredor e logo o viu adentrando a sala.
- Espero que esteja se sentindo melhor, Raito-kun.
- Preocupado comigo, Ryuuzaki? – perguntou ironicamente.
Apenas o encarou como resposta, era a segunda vez que Raito perguntava aquilo. Tomou um gole de seu chá.
- Eu queria dizer que... – Raito começou a falar desajeitado.
Ryuuzaki olhou o outro calmamente, aguardando a conclusão.
-... Bom... Foi muito gentil da sua parte, me deixar ficar aqui – olhou o chão, tentando esconder o seu embaraço – Quer dizer, não sei se eu teria feito o mesmo ontem...
Ergueu o olhar, encarando diretamente os olhos escuros de Ryuuzaki.
- O que eu quero dizer é que talvez ontem eu não tivesse feito o mesmo por você, mas depois de tudo isso... Bom, acho que não te odeio tanto assim, mesmo você sendo um baka. – disse a ultima parte sorrindo, não podia deixar de provocar o mais velho.
Ryuuzaki sorriu discretamente em resposta, não esperava nenhum gesto de gratidão do orgulhoso Yagami Raito, mas estava feliz. Levantou-se ficando de frente para o mais novo. Raito ficou sério novamente.
- Sério. Obrigado, Lawliet – Ryuuzaki não soube se foi o agradecimento em si, o olhar caloroso de Raito, ou a forma como ele havia dito seu nome, mas teve uma sensação gelada na boca do estomago, como se agulhas de gelo estivessem lhe fazendo cócegas.
- Disponha sempre, Raito-kun – coçou a cabeça. Nunca sabia o que fazer em situações como essa.
Raito sorriu, mas era um sorriso diferente que Ryuuzaki nunca havia visto antes, e então lhe estendeu a mão direita
- Amigos? –perguntou.
Ryuuzaki hesitou – por um espaço de tempo tão curto que Raito não percebeu – mas apertou a mão do outro firmemente.
- Amigos – sorriu novamente – "Anjo caído, você não cairá dessa vez".
(...)
Na semana a qual seguiu o blackout várias coisas aconteceram simultaneamente. 1° A temporada de provas da faculdade se encerrou, 2° Devido à proximidade das férias os estudantes decidiram realizar uma grande festa em comemoração, 3° A mãe de Raito fora novamente viajar com seu padrasto; Por último Raito e Ryuuzaki entraram em "trégua" e conseguiram realmente se aproximar um pouco;
As provocações ainda existiam, mas haviam deixado de se ofender, agora eram apenas brincadeiras. O clima estava leve e aquilo agradava a ambos.
Ryuuzaki estava sentado em posição fetal num banco lendo um livro antes da aula, o pátio estava cheio então preferiu ficar um pouco afastado. Notou de longe a figura de Raito andando calmamente em sua direção, acenou com o braço para o agora amigo, que se aproximou rapidamente ao vê-lo ali sentado.
- Yo Ryuuzaki. Chegou cedo hoje – sentou-se ao lado do moreno.
- Ohayou, Raito-kun. Watari estava especialmente insistente em me fazer comer algo salgado hoje – respondeu o outro, fazendo uma careta de desgosto. Raito riu.
A cada dia ficava mais fácil se darem bem, apesar das faíscas que voavam vez ou outra, mas estavam realmente tentando. Até formaram dupla num trabalho da faculdade, já que parecia ser algo complexo e nem Raito e muito menos Ryuuzaki tinham muita paciência em explicar as coisas para as outras pessoas, ter um parceiro de mesmo nível intelectual era muito mais fácil.
- E ai? Pretende ir a tal festa que estão organizando, Ryuuzaki? – puxou assunto.
O mais velho colocou o polegar nos lábios.
- Não sei. Acho que vai estar cheio de mais por lá – Raito rodou os olhos.
- É claro que vai estar cheio baka, caso contrário não seria uma festa.
- Tem razão – deslizou o polegar pelo lábio superior – Talvez eu vá, afinal – disse por fim.
- Não se faça de difícil, não vai ser tão ruim assim – Raito respondeu batendo de leve no ombro de Ryuuzaki.
Um flash de memória passou pela cabeça do moreno. Lembrava-se desse Raito, apesar de ser a primeira vez em que realmente tentavam ser amigos nessa vida, se lembrava de ter visto parte dessa personalidade antes. Esse Raito era suave, honesto e agradável, muito diferente do que era com as outras pessoas, não era falso e não encarava a vida como um jogo o tempo inteiro. Concluiu que gostava bem mais desse Raito.
(...)
Algumas semanas se passaram. O tempo havia fechado novamente, as nuvens pesadas e escuras ameaçavam molhar a cidade a qualquer momento. Raito e Ryuuzaki continuaram se aproximando mais, agora se encontravam vez ou outra depois da faculdade para discutir sobre o trabalho que teriam que entregar, estavam conversando bastante ultimamente.
Os sonhos estranhos de Raito continuavam, mas ele não dizia a ninguém, nem mesmo a Ryuuzaki que era agora seu único amigo.
Plim bom (N/A: Onomatopéias ridículas buaa T_T)
A campainha ecoou pela casa, Watari se encaminhou até a entrada. Viu Raito pelo visor e abriu a porta.
- É bom vê-lo, Raito-san.
- É bom vê-lo também, Watari. Marquei com Ryuuzaki, ele saiu? – perguntou confuso, no geral era sempre o moreno que abria a porta pra ele.
- O senhor Lawliet está lá dentro, parece especialmente melancólico hoje – Watari disse preocupado – Talvez você possa animá-lo um pouco, Raito.
- Claro, vou ver o que posso fazer.
Raito adentrou a casa, deixando o guarda-chuva no hall de entrada. Watari foi para a cozinha e disse-lhe pra ficar a vontade. O ruivo subiu as escadas calmamente, entrando no quarto de Ryuuzaki e o encontrando vazio.
- "Onde se meteu?" – olhou distraidamente pela janela e viu Ryuuzaki no jardim dos fundos, estava parado na chuva olhando para o céu.
Desceu as escadas rapidamente, indo em direção a porta dos fundos na área de serviço.
- O que está fazendo aí, Ryuuzaki? – perguntou da porta. O moreno virou a cabeça em sua direção
O outro não ouviu. Disse mais alto, mas Ryuuzaki colocou a mão em frente ao ouvido sorrindo. Raito bufou, saiu na chuva e andou até o moreno.
- O que você pensa que está fazendo? – perguntou irritado.
Ryuuzaki levantou a cabeça deixando a água pingar em seu rosto
- Nada de mais. É o barulho dos sinos...
- Sinos? – Raito olhou em volta, do que estava falando? Não haviam sinos ali.
- Sim. Os sinos estão tocando muito alto hoje.
- Não fique falando asneiras – Ryuuzaki analisou Raito rapidamente.
- "Exatamente como antes" – pensou enquanto baixava a cabeça. Os sinos estavam realmente barulhentos.
- Vamos sair daqui. Vai acabar ficando doente com toda essa chuva.
- Preocupado com a minha saúde, Raito-kun? – perguntou ironicamente.
- Estou. Você é a única pessoa que pode fazer dupla comigo nesse trabalho idiota, não se atreva a usar doença como desculpa pra escapar – Ryuuzaki encarou Raito por alguns segundos, parecia realmente preocupado. Mas seria por ele ou pelo trabalho?
Saíram da chuva e Raito sentou-se nos degraus de uma escada da área de serviço tirando os sapatos e as meias molhadas. Ryuuzaki logo apareceu com duas toalhas, jogando uma para Raito enquanto se secava.
- Nossa... Que tempestade, não? – o moreno disse enquanto se aproximava do outro.
- É culpa sua, por ficar na chuva – Raito rebateu enquanto secava o rosto e o cabelo.
- É verdade, me desculpe.
O menor estava distraído quando sentiu algo em seus pés, olhou pra baixo e viu Ryuuzaki os segurando.
- O que está fazendo, Ryuuzaki? – perguntou.
- Achei que podia ajudá-lo, já que está se secando – respondeu o outro simplesmente.
- Não, não precisa fazer isso.
- Também faço massagem – Ryuuzaki continuou encarando o ruivo – É o mínimo que posso fazer. E sou bom nisso.
Raito teve um dejavú, se lembrava dessa situação que nunca havia acontecido antes. Corou, não sabia por que, mas aquilo era familiarmente agradável apesar de triste.
- Faça o que quiser – desviou os olhos.
- Sim.
Ryuuzaki começou a secar os pés de Raito, enquanto os apertava suavemente em lugares estratégicos fazendo pressão com as pontas dos dedos. Estava realmente melancólico naquele dia, afinal, havia sido exatamente nesse dia, há muitos anos atrás, que havia morrido. Assim como naquele dia, ouvia os sinos tocarem, sentia a mesma melancolia que havia sentido, e apesar de essa data se repetir todos os anos, esse ano parecia especial, estar ali com Raito tornava tudo ainda mais parecido com antes, tornava tudo ainda mais triste.
Raito observou o cabelo ainda molhado do moreno pingar no seu tornozelo logo após Ryuuzaki secar o local. Pegou a toalha que estava usando antes e a levou até os cabelos negros, enxugando-os.
- Ainda estão molhados – disse enquanto acariciava superficialmente os fios desgrenhados.
- Perdão.
Continuou secando os pés de Raito por alguns minutos, o silencio pairava entre eles. Parecia um momento especial, então ninguém ousava dizer nada.
- Estou triste – Ryuuzaki disse quando terminou – Temo que em breve nos separaremos.
Raito encarou o outro sem entender, do que diabos Ryuuzaki estava falando? Eram amigos agora, não eram? Amigos ficavam juntos, independente do que acontecesse.
- Não seja tolo. Já disse pra não ficar dizendo asneiras Lawliet– o ruivo cruzou os braços virando o rosto para o lado.
Não sabia o porquê de ter dito aquilo, apenas fluiu naturalmente. Ryuuzaki ficou novamente com aquela sensação estranha na boca do estomago, não deixou de perceber como seu nome soava lindamente vindo da boca de Raito.
- "Não é como antes... É... Diferente".
Instintivamente se aproximou do mais novo fazendo Raito virar a cabeça em sua direção, mas o ruivo não o afastou, apenas o encarou nos olhos.
- Realmente gosto quando você diz meu nome – disse sem rodeios.
O rosto de Raito atingiu uma tonalidade púrpura, Ryuuzaki achou graça do embaraço do mais novo, então se afastou.
O resto do dia permaneceu mergulhado num silencio mórbido e sufocante, Raito queria dizer alguma coisa, mas Ryuuzaki parecia realmente empenhado em realizar o trabalho. Vez ou outra, um deles tentava puxar assunto, mas as palavras sempre se esgotavam antes da hora deixando o silencio ainda mais constrangedor.
Após finalizarem o trabalho, Raito tentou começar uma conversa para descobrir o que preocupava Ryuuzaki, mas não obteve sucesso. Pensou em chamar o moreno para tomar um café, mas mudou de idéia, o silencio já estava ruim demais naquela casa, num café seria pior ainda. Talvez outro dia conseguisse descobrir o problema.
Foi embora para casa, decidindo que o melhor a se fazer era deixar Ryuuzaki sozinho um pouco. A chuva havia parado e agora só restavam um céu nublado e um vento frio e cortante na cidade, Raito andou calmamente de volta para sua triste e solitária casa. Seu padrasto viajava muito por causa do trabalho e como conseqüência sempre levava sua mãe junto então Raito ficava sozinho em casa na maior parte do tempo.
- "Rum. Pelo menos aqueles dois me mandam dinheiro pra sustentar a casa" – não que fosse um garoto preguiçoso, mas trabalhar e ao mesmo tempo ser o melhor da faculdade não seria nada agradável.
Chegou à porta da casa e tirou a chave nova do bolso. Haviam trocado as fechaduras desde que Raito perdera as chaves. Subiu direto pro quarto, encostando a porta ao entrar e apoiando a cabeça nela. Suspirou. O que estava acontecendo com ele? Virou-se lentamente e ao olhar pra sua cama um grito de pavor cruzou seus lábios.
- Yo, Raito. HEHE – havia uma criatura deitada em sua cama com os braços cruzados atrás da cabeça.
Ele não parecia humano. Tinha o rosto branco como giz e olhos redondos e amarelos, os dentes em forma de serra estavam expostos num sorriso sarcástico, as roupas eram negras e cheias de detalhes esquisitos. Raito estava com a boca aberta de choque.
- C-c-como você... Sabe meu nome? – perguntou enquanto colava o corpo na parede, tentando ficar o mais longe possível da criatura.
- AH É! – se levantou da cama – Você não se lembra.
Raito olhou melhor o ser a sua frente. Ele era vários centímetros mais alto que Raito, tinha os ombros largos demais em relação aos quadris, os braços eram compridos e finos assim como as pernas.
- Quem é você? O que está fazendo aqui? – conseguiu dizer sem gaguejar miseravelmente.
- Meu nome é Ryuuku. E bem... Eu sou um shinigami.
Raito riu nervoso, aquilo era brincadeira! Só podia ser. Ou então estava em mais um daqueles sonhos perturbadores.
- Fala sério. Shinigamis não existem – Ryuuku encarou Raito por um segundo – Existem? – perguntou duvidoso por fim.
- Pode parecer meio chocante – algo na voz da criatura soou familiar a Raito, deixando-o menos amedrontado.
- Mas ainda não respondeu como sabe meu nome – Raito disse friamente.
- Somos velhos amigos, Raito. Costumávamos nos divertir bastante, HEHE.
- Não seja estúpido. Não sei do que você está falando – o ruivo sentou-se na cadeira da escrivaninha, fingindo estar ocupado com alguma coisa.
- Eu sei. Por isso mesmo estou aqui hoje.
Raito rodou a cadeira na direção de Ryuuku.
- Como?
- Fiquei um tempão no mundo dos humanos então fiquei feliz quando voltei pro mundo shinigami – o estranho começou – Mas não pude curtir muito tempo por lá. O Destino logo me mandou uma missão complicada pra cumprir e bem, aqui estou eu – terminou naturalmente, como se estivesse contando a um amigo que saiu pra tomar sorvete.
- O destino o quê? Missão complicada? – Raito estava ficando irritado por não estar entendendo nada – Olha, eu não to nem aí se você é shinigami ou não. Mas eu enjoei desse sonho idiota.
- Baka, você não está sonhando. Eu vou explicar – disse se aproximando de Raito – mas acho melhor você permanecer sentado, Raito.
O ruivo arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços.
- Então, explique.
- Você teve uma reencarnação, hum, digamos "especial" – Ryuuku disse de uma vez.
Raito segurou o riso e fez menção de se levantar, mas parou quando outro começou a falar.
- É verdade. É meio complicado – disse coçando a cabeça – Ao contrário da maioria das pessoas, você reencarnou exatamente da forma como era na outra vida. O Destino fez questão de conservar sua aparência, personalidade e até mesmo o seu nome nessa sua vida nova.
Raito notou como Ryuuku falava do tal destino de forma respeitosa, quase religiosa.
- O Destino?
- O Destino é o ser superior de todos os seres do universo, de todas as dimensões. Ele entregou aos shinigamis o poder de controlar a morte, mas é Ele quem manipula as vidas, os acasos, as coincidências. É ele quem decide quem merece uma segunda chance ou não. Ele é chamado de Deus por muitos humanos. Na verdade isso tudo é uma chatice.
Raito ficou olhando o shinigami enquanto tentava absorver aquilo tudo.
- E por que minha reencarnação foi diferente? – perguntou por fim.
- ELE decidiu que você merecia outra chance. Achou que sua vida foi vivida tão medíocre e falsamente que te deu outra oportunidade de libertar sua alma.
- O que quer dizer?
Ryuuku deu uma risada sarcástica.
- Você não foi um bom garoto, Raito. Afinal, você era Kira.
Raito arregalou os olhos. Conhecia bem a história do maior assassino em série que já havia aparecido no mundo. Kira ficou famoso por matar milhares de criminosos, e alguns inocentes. Ele foi relatado nos livros de historia e todas as crianças do primário estudavam sobre ele e seus feitos. Sua verdadeira identidade nunca foi revelada ao publico, só diziam que era do Japão, e que era um louco ensandecido pelo poder. Não foi divulgada também a forma como ele conseguia causar ataques cardíacos nas vitimas.
- Eu estou ficando louco, é isso. Você não passa de uma alucinação – Raito concluiu.
- É a verdade, Raito! Você era Kira, matou todos aqueles criminosos, ficou jogando esse joguinho por muito tempo. Tsc, até teria ganhado se não tivesse sido tão pretensioso. Mas você perdeu, e teve como recompensa uma morte medíocre e solitária.
Raito balançou a cabeça negativamente. Não podia acreditar naquilo tudo.
- Você está mentindo.
- Tem que acreditar, Raito. Pra poder se libertar, ou ficará vagando pelo mundo pra sempre.
- É mentira – repetiu enquanto sentava na cama, decidindo ignorar o shinigami.
- O Destino quer que você cumpra um objetivo. Sua alma ficará livre depois disso e você poderá viver tranquilamente. Caso contrário, ficará reencarnando até cumprir sua tarefa. Perder tempo negando só vai dificultar tudo, Raito.
Ryuuku observou Raito sentado, parecia um pouco chocado, mas acabaria por acreditar, ele tinha frieza suficiente pra fazer isso.
Ryuuku suspirou, tantos seres no universo e O Destino tinha que escolher justo ele pra fazer isso? Talvez merecesse mesmo, por ter começado tudo.
- "Isso vai ser interessante" – pensou.
Raito estava muito confuso, não conseguia acreditar que tudo aquilo estava acontecendo de verdade, tinha que ser um sonho! Tinha que ser só um sonho! Essa história de shinigamis, reencarnações, destino, era ridícula! Era patética.
- Ei Raito.
Piscou os olhos, aquilo estava acontecendo mesmo?
- O que foi? – perguntou com a voz engasgada.
- É muita informação, sei que você não ta acreditando nem um pouco por enquanto, mas é tudo verdade.
- Cale a boca. Estou esperando esse sonho medonho acabar.
Ryuuku suspirou. Talvez Raito tenha perdido um pouco de sua malicia nesse negocio de reencarnar.
- "Da outra vez foi bem mais fácil" – pensou enquanto coçava o queixo com um dos dedos pontudos.
Raito pareceu se acalmar depois de alguns breves minutos, então se levantou e foi se sentar na escrivaninha. Ligou o computador e começou a vagar pela internet procurando informações sobre o caso Kira.
- Ei Raito.
- O que?
- Tem maçãs aí?
- Como? – perguntou se virando pro shinigami.
- Tem maçãs? Adoro essas coisas.
Raito levantou uma sobrancelha.
- Desde quando shinigamis comem maçãs? – disse enquanto se levantava da cadeira.
- HEHE, você me dava bastantes maçãs, sabe, antes – Ryuuku soltou sua risada esganiçada.
- Pare de falar como se fossemos amigos.
Raito desceu as escadas e foi até a cozinha, pegou uma cesta e colocou tantas maçãs quanto cabiam nela. Voltou ao quarto e parou de frente para o shinigami.
- Você as quer? – perguntou estendendo a cesta para Ryuuku, que levou a mão até as maçãs vermelhas.
- HEHE Quero – mas Raito afastou a cesta do shinigami.
- Então vai ter que me dizer algumas coisas.
- Como o quê?
- Como, por exemplo... – colocou o dedo no queixo, fingindo pensar – Que objetivo é esse que o tal destino quer que eu cumpra?
Ryuuku ficou, pela primeira vez, sério.
- Não posso te dizer isso.
- Sinto muito, não vai comer maçãs hoje Ryuuku – virou as costas e colocou a cesta de maçãs na escrivaninha.
- EH, espera aí Raito! Não posso te dizer ISSO, mas posso talvez te dizer outras coisas.
Raito sorriu satisfeito e virou novamente de frente pra Ryuuku.
- Como o quê?
- Me deixe pensar – coçou novamente o queixo com um dos dedos pontudos – Que tal se eu te disser que você não está, hum, sozinho nessa missão.
O ruivo observou o outro atentamente.
- Explique.
- Há outra pessoa envolvida, alguém especial como você. Quero dizer, alguém que teve uma reencarnação especial como você.
Raito se sentou na cadeira da escrivaninha apoiando os cotovelos nos joelhos.
- Me diga mais.
- Ora, primeiro me passe umas maçãs. Então te conto o resto.
Entregou apenas uma maçã para o shinigami, afirmando que só teria mais delas se dissesse tudo.
- HEHE. Raito, você sabe quem é. É até bom que já estejam amiguinhos, afinal vão ter que se unir – Ryuuku disse após dar uma mordida na maçã.
- Como? – parou um instante -... Você está se referindo a... Ryuuzaki? – foi a única pessoa que passou por sua cabeça.
- Bingo Raito. Você não está tão lerdo assim afinal – e Ryuuku mais uma vez riu.
- Não pode ser – Raito não conseguia entender – Por quê?
- Vocês se conheceram na outra vida. Mas não eram tão... Hum... Íntimos assim. HEHE – o shinigami disse maliciosamente.
Raito pensou um pouco. Ryuuku disse que Ryuuzaki e ele se conheciam, mas que não eram próximos. Se Ryuuzaki estava aqui nessa outra vida com ele novamente era porque tinha de alguma forma marcado sua vida antes, mas se não tinham sido amigos, só podiam ser então...
-... Inimigos – sussurrou para si mesmo.
Até que fazia sentido, pelo menos isso explicaria a rivalidade sobrenatural deles.
- É... Digamos que era uma relação meio complicada – Ryuuku disse maliciosamente de novo dando sua risada de escárnio logo em seguida.
- Isso está ficando complicado. Como ele pode ter sido meu inimi- Quer dizer, inimigo de Kira? Era louco ou algo assim?
- É, talvez você esteja subestimando o esquisitinho. E sabe, tem um detalhe muito interessante sobre essa história toda. HEHE.
- E o que é?
Ryuuku se aproximou de Raito, rindo debochadamente.
- Ele se lembra de absolutamente tudo, Raito. Ele se lembra da outra vida como se não tivesse morrido.
O menor arregalou os olhos. Ryuuzaki havia sido seu inimigo na outra vida, tudo bem, mas se lembrava de tudo? E nunca contara nada pra ele? Nem mesmo quando se diziam amigos?
Raito se afastou do shinigami furiosamente, socando a escrivaninha com força.
- NÃO PODE SER! – jogou todos os objetos do móvel ao chão.
Ryuuku encarou Raito atônito. Não esperava essa reação do ruivo.
- "Xiii. Acho que não devia ter feito isso..." – pensou enquanto observava o humano destruir praticamente o quarto inteiro – "Estranho... Esse Raito é muito estranho".
Raito desceu as escadas correndo, abrindo a porta da casa com um chute e disparando pela rua como um foguete. Queria olhar pra cara de Ryuuzaki, queria segurar seu pescoço com as mãos a apertá-lo até que aquela pele pálida se tornasse roxa. Como ousava enganá-lo assim? Confiou nele, acreditou que eram amigos. Mas Ryuuzaki provavelmente só estava usando-o para cumprir seu objetivo idiota. Rangeu os dentes de raiva.
Chegou até a casa do mais velho. A conversa com o shinigami havia levado horas embora parecesse terem se passado apenas minutos, já era noite e apenas uma luz fraca brilhava no andar de cima da casa. Socou a porta de entrada insistentemente até que passos apressados foram ouvidos. Watari apareceu de pijama na porta.
- Raito-san, algum problema? – perguntou preocupado ao ver o olhar de fúria no garoto.
- Lawliet – sibilou enquanto adentrava a casa sem ser convidado.
Subiu as escadas de dois em dois degraus e não se preocupou em bater na porta do moreno, chutou a placa de madeira fazendo-a bater com força contra a parede do quarto. Ryuuzaki estava sentado no sofá lendo um livro.
- Raito-kun? – chamou.
Raito andou furiosamente até o mais velho, pegou-o pela gola da camisa branca erguendo-o até que seus olhos estivessem na mesma altura.
- Maldito! – gritou enquanto chacoalhava Ryuuzaki pela camisa.
Ryuuzaki continuou sem expressão enquanto Raito gritava coisas sem nexo.
- Eu confiei em você! Pensei que éramos amigos! MALDITO! – chacoalhou o outro ainda mais.
- Chega – Ryuuzaki sibilou em resposta, se livrando das mãos de Raito – O que está acontecendo?
- O que está acontecendo? Que tal... Hum... Não sei... Reencarnação, Kira. Te lembra alguma coisa Lawliet?
Ryuuzaki parou. Então finalmente tinha acontecido? O momento esperado chegou enfim, turbulento e confuso como imaginou que seria. Raito estava furioso ali diante dele. Entendia o ruivo, afinal, sabia de tudo desde o começo e o outro tinha direito de se sentir traído por não ter sido avisado de nada. Sua expressão se suavizou.
- Vamos conv- Ryuuzaki não teve tempo de terminar, Raito o atingiu em cheio com um soco no rosto.
O moreno caiu sentado no sofá de couro. Encarou Raito friamente e logo revidou acertando um chute em cheio no queixo do ruivo. Os dois levantaram e ficaram alguns segundos se encarando.
- Você devia ter me contado! – Raito vociferou.
- Eu não podia. Tinha que esperar o momento certo.
- Momento certo? Claro... tudo isso fazia parte do seu joguinho – Raito sentia o sangue correndo feito lava em suas veias – Só estava me usando pra conseguir alguma recompensa.
Ryuuzaki arregalou os olhos de surpresa. Raito se sentiu usado? Patético. Será que ele não entendia? Jamais seria capaz de usá-lo, eles tinham um objetivo pra cumprir juntos. Sentiu raiva, como Raito ousava duvidar assim dele?
- Conseguir alguma recompensa? – o moreno disse com raiva – Como o quê, por exemplo?
- A libertação da sua maldita alma, por exemplo! – quase cuspiu as palavras na cara de Ryuuzaki.
- Não seja tão patético, Raito – respondeu friamente.
Raito cerrou os punhos de raiva e os dois voaram pra cima um do outro ao mesmo tempo, trocaram socos e chutes enquanto quebravam toda a mobília do quarto de Ryuuzaki. Watari se assustou com o barulho vindo do andar de cima e correu para o quarto do mais jovem, a porta estava escancarada então colocou apenas a cabeça pra dentro do quarto, observando os dois garotos brigarem furiosamente.
- Algum problema, senhor Lawliet? – perguntou preocupado enquanto os outros dois se levantavam do chão.
Ryuuzaki encarou o ainda furioso Raito com os olhos injetados de raiva, o ruivo retribuiu o olhar com a mesma intensidade.
- Nenhum problema, Watari. Raito está de saída, acompanhe-o até a porta – disse sem tirar os olhos do mais novo.
Raito ajeitou a camisa e limpou o sangue da boca com as costas da mão antes de se virar e andar em direção a porta do quarto.
- Não precisa me acompanhar, sei muito bem onde fica a saída – passou reto por Watari e virou a cabeça pro moreno antes de sair – Traidor maldito.
Ryuuzaki ouviu a porta da casa bater com força, denunciando que Raito já havia ido embora. Caiu sentado no chão, tremendo de nervoso e raiva. Jamais imaginaria que Raito faria esse escândalo todo, nem que iria até sua casa agredi-lo. Passou as duas mãos pelo rosto suado e percebeu que alguns cortes leves sangravam um pouco. Bufou irritado.
- Vai precisar de alguns curativos, Lawliet-sama – Watari disse enquanto entrava no banheiro da suíte, trazendo um kit de primeiros socorros em seguida.
- Estou bem.
Watari o conduziu até o sofá de couro preto, obrigando Ryuuzaki a se sentar da forma normal – o que deixou o outro mais irritado ainda. Ignorou os protestos do mais novo e fez os curativos necessários enquanto tentava suavemente acalmar o moreno.
- Raito só está chocado. Dê algum tempo a ele.
- Ele passou dos limites. Raito continua ingrato como antes.
- Pense bem, Lawliet – Watari começou docemente – Nessa vida, assim como na outra, Raito era muito solitário e pela primeira vez ele teve um amigo de verdade, você. É normal que ele se sinta traído por você não ter contado tudo a ele, dê um tempo para que ele possa absorver tudo. Tenho certeza que quando ele estiver calmo, o senhor vai poder explicar a situação e Raito entenderá.
Ryuuzaki ficou encarando o nada enquanto pensava no que Watari dissera. Entendia a confusão que devia estar na cabeça de Raito agora, afinal o mais novo não havia sido preparado como ele. Para Ryuuzaki tudo tinha sido um processo lento e gradativo, primeiro os sonhos, depois os dejavu's e por fim as visões. Não se lembrava exatamente quando, mas chegou um ponto em que sabia de tudo, se lembrava da outra vida como se a estivesse vivendo ainda. Com Raito havia sido diferente, tudo aconteceu de uma hora pra outra; Entendia o fato de estar perturbado, mas isso não amenizava a raiva que sentia por ter sido acusado tão injustamente.
Traidor maldito...
As palavras ecoaram novamente em sua cabeça, fazendo-a latejar.
Estava tão irritado que não sentia a mínima vontade de ajudar Raito agora, queria deixar o outro a própria sorte, deixá-lo enlouquecer. Suspirou. Sabia que não podia abandoná-lo, era sua missão cuidar de Raito e eles tinham algo a fazer, tinha que se acalmar e ter paciência. Suspirou novamente e fechou os olhos. Teriam muito o quê conversar, mas primeiro precisava de um bom banho.
(...)
Raito voltou pra casa correndo, bater em Ryuuzaki não diminuiu sua raiva, parecia apenas tê-la inflado ainda mais. Socou e chutou todos os objetos que pôde até chegar ao quarto, Ryuuku ainda estava lá comendo suas maçãs, ignorou-o e pegou suas roupas pra tomar banho. Ao entrar no banheiro permitiu que algumas lagrimas de raiva caíssem de seus olhos, nunca havia se decepcionado com alguém. Olhou-se no espelho e passou os dedos suavemente pelas marcas arroxeadas e pelos cortes superficiais, havia apanhado tanto quanto havia batido. Apertou os dentes.
- "Empatamos de novo?" – perguntou-se com raiva. Será que nunca poderiam nomear o vencedor?
Um fluxo de pensamentos invadiu sua cabeça, queria parar, mas não conseguia, os pensamentos simplesmente brotavam e floresciam em sua mente por vontade própria. Se eles haviam sido inimigos e Ryuuzaki se lembrava de tudo, então provavelmente o outro só havia se aproximado pra poder prejudicá-lo de alguma forma. Nunca havia confiado em ninguém, e quando o fez acabou se arrependendo. Queria sumir, virar pó ou fumaça e desaparecer. Deixou a água quente escorrer por seu corpo relaxando os músculos tensos pela briga, amanhã seria outro dia, pensaria em outras coisas e esqueceria essa loucura.
Quando saiu do banheiro Ryuuku ainda estava em seu quarto. Não gostava daquele sorriso sarcástico no rosto do shinigami, de alguma forma aquilo era muito irritante.
- Por que está aqui ainda? – perguntou friamente ao fechar a porta do quarto.
- Não tem outra forma de conseguir maçãs aqui no mundo dos humanos, Raito.
- Por que é tão obcecado assim? – perguntou sem estar realmente interessado na resposta.
- Elas são... Como vocês humanos dizem... docinhas. HEHE.
Raito suspirou. Não sabia o que era mais ridículo, acreditar que essa situação era verdade ou aquele shinigami estranho.
- Faça o que quiser, mas saia da minha cama e me deixe dormir.
O shinigami obedeceu e saiu da cama de Raito. Teria que ficar alguns dias de olho no garoto, caso contrário O Destino o castigaria severamente, já tinha certeza que ouviria umas boas sobre ter causado toda essa confusão com o detetivezinho. Mas afinal, que culpa tinha de os humanos serem tão imprevisíveis? Não fazia idéia de que Raito reagiria tão violentamente, pelo menos não era assim que o Raito de antes costumava agir. Observou Raito pegar no sono rapidamente, estava realmente esgotado.
- Raito, Raito... – observou o ruivo dormindo um sono pesado – Vocês terão muito o quê fazer, HEHE. Serão capazes de trabalhar juntos? Ou vão se matar de novo?
Ryuuku observou a lua brilhando alta no céu, que estava azul escuro como um manto bordado de pedras brilhantes, nem parecia que mais cedo havia chovido bastante.
A tempestade estava passando? Ou essa era só a calmaria antes do verdadeiro temporal?
...
Fim do segundo Capitulo.
Notas finais
Até a próxima! JaNe.
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