Notas iniciais
Oi pessoa! Desculpem o meu super atraso, esse capitulo demorou muito mais do que eu esperava e foi realmente muito difícil terminá-lo. Mas, graças as reviews dos meus amados leitores, consegui escrever. Esse capitulo foi especialmente difícil de escrever pois eu não havia preenchido algumas coisas na minha cabeça sobre a história futuramente, tive algumas idéias e me esforcei ao máximo para passar pro papel. Não sei se isso vai corresponder as expectativas de vocês, mas espero que gostem. Ah, só pra lembrar, muitas coisas ainda vão ser esclarecidas, ok? :D

No ultimo capitulo...

“Raito sorriu, mas era um sorriso diferente que Ryuuzaki nunca havia visto antes, e então lhe estendeu a mão direita

- Amigos? –perguntou.

Ryuuzaki hesitou – por um espaço de tempo tão curto que Raito não percebeu – mas apertou a mão do outro firmemente.

- Amigos “

(...)

“- Você devia ter me contado! – vociferou.

Raito cerrou os punhos de raiva e os dois voaram pra cima um do outro ao mesmo tempo, trocaram socos e chutes enquanto quebravam toda a mobília do quarto de Ryuuzaki. Watari se assustou com o barulho vindo do andar de cima e correu para o quarto do mais jovem, a porta estava escancarada então colocou apenas a cabeça pra dentro do quarto, observando os dois garotos brigarem furiosamente.

- Algum problema, senhor Lawliet? – perguntou preocupado enquanto os outros dois se levantavam do chão.

Ryuuzaki encarou o ainda furioso Raito com os olhos injetados de raiva, o ruivo retribuiu o olhar com a mesma intensidade.

- Nenhum problema, Watari. Raito está de saída, acompanhe-o até a porta”.

Capitulo 3 — Angeline

Raito acordou pouco disposto no dia seguinte, ainda não conseguia acreditar em tudo o que estava acontecendo e sua maior vontade era ficar na cama para sempre. Suspirou.

- “Eu não sou um covarde, eu não preciso de ninguém” Eu vou encarar isso.

Levantou-se, pegou suas roupas e foi até o banheiro. Estava determinado, descobriria tudo o que pudesse sobre sua vida anterior, e sozinho, sem a ajuda do maldito Ryuuzaki. Voltou para o quarto e novamente se deparou com Ryuuku.

- Yo Raito! HEHE.

Ignorou o shinigami e se sentou em frente ao computador. Seja lá quem Yagami Raito tenha sido, com certeza acharia alguma pista. Começou procurando informações sobre o caso Kira, achou diversos sites cultuando o que chamavam de “The Kira Justice”, mas nenhum deles oferecia informações realmente importantes.

- “Kuso. Isso tudo é inútil, nenhum site parece levar isso a sério...” – apoiou o rosto na mão, tinha que se concentrar – “O shinigami deixou claro, não vai me dizer nada”.

Continuou vasculhando pela internet insistentemente, era domingo, poderia ficar o dia inteiro ali. Estava começando a desanimar quando finalmente, depois de duas horas de pesquisa, achou um site que chamou sua atenção. Parecia ser um site destinado a casos singulares.

“Caso Kira. Justiça ou assassinato?

O maior serial killer que a história já conheceu matou centenas de criminosos condenados. Não se sabe até hoje sua identidade ou seu método, a única informação que temos é que tudo começou na região de Kantou, no Japão”.

- “Kantou?” – pensou entusiasmado.

Imediatamente seu cérebro começou a trabalhar intensamente, fazendo suposições que eram acompanhadas pelas pesquisas de Raito. Depois de alguns segundos conseguiu encontrar o site da maior faculdade de Kantou.

- “Ryuuku disse que o destino me conservou, então é obvio que eu era o melhor na escola também. Vou encontrar algo no site da faculdade, afinal ela é a melhor da região, devo ter estudado lá”.

Deixou escapar um palavrão quando foi barrado pela segurança do site. Só tinha acesso aqueles que eram alunos, professores ou integrantes da faculdade de alguma forma. Sorriu, estava realmente louco por um desafio. Dobrou as mangas da camisa até os cotovelos e estralou os dedos, em seguida começou a digitar rapidamente enquanto os olhos pareciam vidrados no monitor.

- Ei Raito.

- O que? – perguntou, sem parar o trabalho.

- O que você ta fazendo? – Ryuuku se aproximou do ruivo, olhando curioso para o computador.

Faziam horas que Raito estava sentado ali, digitando e lendo, digitando e lendo, o shinigami tinha a impressão de que a qualquer momento os olhos do humano poderiam saltar de suas orbitas.

- Estou hackeando o site da faculdade. Não sou programador e nenhum nerd da computação, mas acho que posso fazer isso.

Ryuuku observou Raito trabalhar meticulosamente para conseguir acessar as informações do site.

- Consegui – disse indiferente ao finalmente quebrar a segurança do sistema.

Correu os dedos suavemente pelo teclado, digitando seu próprio nome. Para sua surpresa encontrou 1 resultado para a pesquisa “Yagami Raito”. Então estava certo, havia mesmo estudado naquela faculdade. Era só clicar no resultado e poderia descobrir mais sobre sua vida anterior. Mas por que estava hesitando?

- “O que eu vou ver agora... Será capaz de mudar tudo, tudo o qual acreditei minha vida toda”.

Tamborilou os dedos na escrivaninha, deveria ou não? Fechou os olhos e apertou a ponte do nariz por alguns segundos. Faria isso, prometeu que descobriria. Abriu os olhos e clicou em seu nome no site lentamente. A página carregou e Raito sentiu seu queixo cair... E lá estava ele na foto, quer dizer, sabia que não era ele ali naquela foto, mas com certeza era alguém muito parecido, idêntico.

- Como...? – tocou a tela do computador com a ponta dos dedos.

Observou a foto mais atentamente. Havia algo de diferente naquele Raito, ele tinha a pela clara como a sua, seu cabelo no mesmo tom caramelo avermelhado também lhe caía pela testa, usava o mesmo estilo de roupa formal que ele e tinha a mesma expressão séria que conhecia tão bem em seu rosto, mas ainda assim era diferente. Levantou-se e foi até o banheiro, parando em frente ao espelho.

- Como pode... Ser tão igual a mim? – perguntou a si mesmo enquanto tocava o próprio rosto.

E então focalizou seus olhos, estavam mais abertos do que o normal, assustados, então de repente algo faiscou em sua mente. Era isso. Correu de volta pro quarto e sentou-se em frente ao computador rapidamente, observou a foto novamente e dessa vez pôde ver a sutil diferença. O Raito da foto tinha um olhar diferente, era duro, imponente, ameaçador, o que era muito diferente do seu olhar que – embora pudesse ser um pouco arrogante e cínico– ainda era de certa forma, inocente. Sorriu um pouco, estava aliviado por saber que havia diferenças.

- Ei Raito. Não seria muito mais fácil se vo-!

- Fique quieto Ryuuku. Está me atrapalhando – cortou o shinigami antes que terminasse de falar.

Voltou a encarar a página do site, dessa vez para anotar as outras informações. Ali havia nome, idade, endereço, telefone, nomes dos pais, algumas informações acadêmicas – não pode evitar ficar orgulhoso ao ver que era tão genial na outra vida quanto era nessa – e por fim, no final da página havia uma pequena mensagem em sua homenagem.

“Ao melhor aluno que esta instituição já teve. Um bom garoto, honesto, gentil e portador de uma das mais brilhantes mentes que todos aqui já viram. Descanse em paz.

Corpo Docente Faculdade Federal de Kantou”.

Sentiu sua expressão cair, provavelmente ninguém soube o verdadeiro porquê de sua morte. Será que alguém se preocupou em ao menos investigar? Certamente não. Que desculpa a policia havia dado? Acidente? Suicídio? Vitima de assalto a mão armada? Sentiu um calafrio na espinha ao imaginar o que aconteceria se soubessem o verdadeiro motivo.

Não conseguiu descobrir muitas coisas naquele site, mas estava satisfeito, pelo menos havia conseguido alguns nomes, alguns números de telefone e um endereço. Deveria ir até lá?

- “Se eu for até lá, e alguém da minha antiga família me reconhecer, será uma confusão e tanto. Tenho que pensar em outra forma” – colocou a mão no queixo.

Tinha que pensar em alguma forma de tentar contato com sua antiga família, mas sem mostrar seu rosto. Imaginou como alguém reagiria ao vê-lo, ou pior ainda, ao saber seu nome, ninguém acreditaria em tanta coincidência. Rangeu os dentes. Será que realmente não conseguiria fazer aquilo sozinho? Fechou os olhos. Não podia admitir isso, faria aquilo de qualquer maneira, seu orgulho não permitiria ajuda, principalmente se ela viesse de Ryuuzaki.

Pensar no moreno fez subitamente uma tristeza se apoderar de Raito, não queria admitir, mas estava se sentindo sozinho. Olhou pela janela, o sol estava brilhando fracamente apesar do tempo nublado. Se lembrou dos últimos domingos, aqueles que passara com Ryuuzaki, se lembrou de como se sentiu leve, e de como havia se divertido com as manias e esquisitices do mais velho.

Flashback on

- Ei Ryuuzaki! Vai precisar de bem mais que isso se quiser me vencer! – o ruivo gritou para o mais velho enquanto rebatia a pequena bola amarela com sua raquete.

Ryuuzaki pulou na bola a tempo, rebatendo-a de volta pro outro lado do campo. O jogo seguiu acirrado, ambos estavam dando o melhor de si.

- Relaxe, Raito-kun. É só um jogo – Ryuuzaki disse com sua voz tediosa.

Mas Raito entendeu aquilo como um incentivo e algumas jogadas depois conseguiu desempatar o jogo, vencendo o mais velho por 1 ponto de diferença.

- Ganhei! Você não é de nada mesmo, Ryuuzaki – disse brincando enquanto se aproximava do amigo.

- Como o previsto, você me venceu – respondeu sem se surpreender – Tênis não é meu forte – concluiu com o polegar nos lábios.

Raito sorriu para o moreno e ganhou um sorriso tímido em resposta. Era sempre muito difícil fazer com que Ryuuzaki alterasse sua expressão vazia, os momentos em que sorria eram sempre cheios de significado e causavam em Raito uma sensação agradável.

- Quer um sorvete? – perguntou, apontando o quiosque com a cabeça.

- Um sorvete? – Ryuuzaki respondeu ironicamente, rodando os olhos.

Raito riu e em seguida puxou o moreno pela manga da camisa até a barraquinha de sorvete, mesmo sabendo que Ryuuzaki devoraria pelo menos meia dúzia de casquinhas.

Flashback off

Ryuuzaki fazia realmente muito falta. Nunca se importou em ficar sozinho, mas depois que provara o sabor da amizade, a solidão parecia insuportável, como um manto negro e pesado sobre sua vida, estava brigado com seu único amigo há apenas um dia e já se sentia sufocado o suficiente para se permitir ficar triste. Não tinha motivos para negar isso a si mesmo, mesmo que ninguém jamais ficasse sabendo.

- O senhor não devia ir atrás dele?

- O quê? – perguntou distraído.

Não estavam conversando e a pergunta súbita o deixou confuso, apesar de saber sobre o que se tratava. Já haviam se passado três dias desde que Raito e ele tinham brigado. Era segunda-feira e o mais novo não apareceu na faculdade, o que deixou Ryuuzaki preocupado, como conseqüência estava comendo todo o estoque de doces desde que chegara em casa.

- Acho melhor dar um tempo a ele, como você disse – levou a colher melecada de chantilly até a boca.

Não queria admitir pra Watari que estava com medo. Medo de procurá-lo, e de sua possível reação, uma dose de fúria já havia sido mais do que suficiente para perceber que Raito não estava meramente chateado. Suspirou. Sabia plenamente que as coisas seriam difíceis, mas jamais em sua vida imaginou que se sentiria tão mal por não ter mais a amizade de Raito.

Watari saiu do quarto, deixando o mais novo afundado em pensamentos. Devido a toda sua experiência conseguia ter uma noção do que se passava entre os dois jovens que eram tão parecidos e ao mesmo tempo tão distintos em todas as suas particularidades, via o brilho nos olhos de Lawliet ao falar em Raito e tinha certeza que jamais vira o “filho” assim por causa de nenhuma garota. Não iria interferir, deixaria que os dois descobrissem sozinhos.

Sentou-se na cama largado – sem sua habitual posição – ao ver Watari sair pela porta. Estava exausto, desde o dia da briga não conseguira pregar os olhos durante um segundo sequer, pensava em Raito e em o que ele poderia estar fazendo, o que estaria pensando e o que estaria tramando, principalmente. Sabia que o mais novo não ficaria parado. Saiu no fim de semana, andando vagamente pelos lugares que sabia que o outro gostava de ir, mas nem sinal de Raito. Ficou preocupado e pensou em ir até a casa do ruivo, mas desistiu. Pela primeira vez em duas vidas estava assustado, tinha medo de ter perdido de vez.

Estava olhando o nada quando sentiu uma presença no quarto, focalizou os olhos na figura assombrosa a sua frente.

- Shinigami? – perguntou a si mesmo sem alterar a expressão.

- Como sabe? HEHE.

- Algo em você me lembra Remu, uma shinigami que conheci.

- AH. Remu... Foi mesmo idiota, dar a vida assim... – respondeu enquanto andava pelo quarto.

- Quem é você? E o que quer aqui? – perguntou calmamente.

- Me desculpe a grosseria, HEHE. Meu nome é Ryuuku – o shinigami respondeu com os olhos estáticos.

Um calafrio percorreu a espinha de Ryuuzaki. Estava acostumado desde a outra vida com as coisas sobrenaturais, mas isso não o impedia de sentir uma dose de pânico na boca do estomago ao fitar aquela criatura estranha. Tinha um mau pressentimento sobre ele.

- O que faz aqui Ryuuku?

- Não se preocupe. Não vim fazer mal a você, nem nada. Vim aqui falar de Raito, HEHE – os olhos do moreno estreitaram um milímetro ao ouvir o nome do ruivo.

- Raito?

- Sim. Eu fui o escolhido d’O Destino para fazer a revelação e bla bla bla, sabe como é.

- Você fez a revelação?

Refletiu. Com Raito tudo havia sido diferente mesmo. Ryuuzaki não precisou de ninguém para lhe dizer o que estava acontecendo, deduziu por si só e logo em seguida teve um sonho estranho com um senhor particularmente simpático. Agora entendia o porquê do choque de Raito, ficaria perturbado também se uma criatura como aquela chegasse do além e começasse a falar coisas sobre reencarnação, Kira e etc.

- Qual o problema com Raito? – perguntou por fim. Esforçando-se para esconder a curiosidade.

- Ele anda um pouco obcecado, passa o dia todo pesquisando sobre sua vida anterior – Ryuuku respondeu sério.

- E isso é ruim? – arqueou uma sobrancelha.

- Esse não é o problema, afinal, ele não descobriu muito – o shinigami enfatizou – O problema é que ele se recusa a aceitar a sua ajuda no objetivo. Você sabe o que vocês têm que fazer, não sabe?

Ryuuzaki encarou o nada por alguns instantes, se lembrando vagamente do sonho com o senhor simpático.

- Sim. O caderno.

- Se não fizerem isso juntos, não vai adiantar nada. Só vai deixar o velhote ainda mais irritado.

- Mas Raito não sabe, não é? – perguntou enquanto andava pelo quarto lentamente.

- Não.

- Então por que está tão preocupado? – descarregou toda a intensidade do seu olhar no shinigami.

Ryuuku piscou os grandes olhos redondos de uma forma cômica. A boca dele posicionada naquilo que parecia um sorriso só fazia com que o rosto dele parecesse ainda mais macabro.

- Não me leve a mal, detetivezinho – disse por fim – Não estou a favor de vocês, mas não estou contra também. É que só posso sair do mundo humano quando vocês dois se entenderem e começarem a trabalhar juntos. Então quanto mais rápido vocês fizerem as pazes, mais rápido posso sair daqui. Não que eu não goste daqui, afinal, aqui tem maçãs docinhas, mas até shinigamis precisam de um pouco de sossego às vezes, HEHE.

Ryuuzaki continuou com a expressão vazia, inalterável, mas prestou muita atenção em tudo o que o shinigami disse. De repente seus olhos ficaram vazios e então pôde ver uma cena diante de seus olhos, uma repetição fiel a verdadeira. Era como se estivesse vivendo aquilo de novo. Já se acostumara com os dejavus.

“Você sabia L? Shinigamis só comem maçãs.”

Viu com clareza os papéis, as palavras que os criminosos haviam escrito antes de morrer, e então a mensagem subliminar, escrita sutilmente para que somente ele percebesse, como uma provocação. Seus olhos se focalizaram novamente no presente, caindo sob o shinigami.

- Ryuuku – chamou.

- O que? – respondeu o outro, coçando o queixo com um dos dedos pontudos.

- Qual é, exatamente, a sua ligação com Raito?

O shinigami fitou Ryuuzaki com os olhos amarelos.

- Como assim?

- Você acabou de dizer que gosta do mundo humano porque aqui tem maçãs, hum, docinhas – disse enquanto andava em círculos no quarto, tentando não dispersar o pensamento – Kira, na outra vida, me deixou uma mensagem dizendo “Você sabia L? Shinigamis só comem maçãs”, sei que isso não significava absolutamente nada, era apenas um teste. Raito queria ver o quanto podia controlar os criminosos antes da morte. Mas sabe, sempre me perguntei se havia algum motivo pra ele escrever justamente isso, ou então, o que estava pensando quando escreveu. Quando encontrei Remu, ela me disse que shinigamis não comem maçãs, e que não precisam comer. O que me faz pensar que gostar de maçãs é uma particularidade sua.

Ryuuku escutou atentamente enquanto Ryuuzaki fazia suas suposições e explicava. Conseguiu entender onde ele queria chegar.

- HEHE. Talvez eu tenha te subestimado, detetivezinho. É mais esperto do que pensei.

- Supondo que cada caderno tenha seu shinigami. Diria que há uma chance de 96% de você ser o verdadeiro dono do caderno que Kira usava.

- É... Tudo bem. Você me pegou. É verdade, fui eu quem jogou o caderno no mundo humano.

- Por quê? – o moreno perguntou. Não entendia o motivo de o shinigami ter feito aquilo.

- Eu tava um pouco entediado. Queria observar a reação do humano que achasse o Death Note.

- Você jogou um caderno assassino no mundo dos humanos, causando a morte de milhares de pessoas, causando a morte de Raito, só porque estava entediado?

Ryuuzaki não gritou, nem mudou a expressão, mas algo no tom de sua voz fez com que Ryuuku percebesse sua fúria. O shinigami não deixou de notar a forma como o garoto pareceu mais irritado quando citou a morte de Raito.

- Não fui o primeiro shinigami a fazer isso. O fato de justamente Raito tê-lo encontrado foi uma infeliz coincidência, assim como o fato dele ter se tornado um serial killer.

O silêncio preencheu o quarto, Ryuuzaki estava absorto em seus pensamentos, tentava imaginar Ryuuku e Raito na outra vida, tentava recriar todas as cenas com a presença do shinigami. Se soubesse da existência dele, teria mudado alguma coisa? Jamais saberia, agora era tarde. Pensar no passado era uma mania insistente e inútil, não adiantava nada, tinha que pensar no presente e no futuro.

- Por que está aqui ainda? – perguntou quando se deu conta da presença de Ryuuku. Estava irritado e queria ficar só.

- Tenho mais um recado d’O Destino pra você. HEHE.

Olhou o shinigami com os olhos frios numa paciência cuidadosamente forjada, não queria transparecer a aversão que sentia pelo jeito estranho de Ryuuku, que até parecia se divertir com toda a situação. Esperou a resposta que veio logo.

- Segundo o velhote, essa é a ultima chance de Raito – disse num tom sombrio.

- Ultima chance?

- Sim. Não conte isso pra ele, pode ser traumatizante. Mas a alma dele não tem mais forças pra reencarnar, se a libertação não acontecer nessa vida, ele se tornará um fantasma e ficará vagando entre o mundo dos vivos e dos mortos por toda a eternidade.

- Entendo – disse colocando o polegar nos lábios – E quanto a mim?

- Você? – disse ironicamente enquanto se virava em direção à parede – HEHE. Tem muita sorte, sua alma é forte detetivezinho. Agora tenho que ir. Sayonara!

E antes mesmo que Ryuuzaki pudesse cobrar uma explicação mais detalhada, Ryuuku atravessou a parede do quarto e sumiu. O moreno caiu sentado na cama, exausto pela conversa longa e cheia e informações. Agora mais do que nunca, precisava fazer as pazes com Raito, ou pelo menos convencê-lo a trabalharem juntos, era tudo ou nada. Havia feito uma promessa, não a quebraria.

“What a shame, we all became such fragile broken things,
a memory remains... just a tiny spark.
I give it all my oxygen to let the flames begin, so let the flames begin
Oh glory, OH GLORY!”
*1

(...)

Andou calmamente com as mãos nos bolsos até o grande portão da faculdade. Não prestava atenção no caminho, fazia tudo automaticamente, só havia uma única coisa em sua mente: Kira. Desde que havia descoberto tudo não fazia outra coisa a não ser pesquisar, mal dormia, não saía de casa e vez ou outra faltava na faculdade. Não se importava mais com isso, tudo o que queria era descobrir a verdade, a qualquer custo.

- Raito-san! – alguém lhe chamou ao longe.

Olhou para trás e viu uma garota correndo em sua direção. Ele era magra e pequena, o cabelo repicado dava um ar rebelde aos fios louros platinados, vestia uma calça jeans acompanhada de camiseta e tênis. Ela tinha um estilo particular de se vestir, e embora fosse algo um pouco Rock’n Roll demais pro seu gosto, ela lhe parecia extremamente feminina.

- Midori-chan. Quanto tempo – cumprimentou a colega.

- Andou sumido. Fazendo algo de errado? – piscou um olho maliciosamente pra Raito.

Midori foi uma das colegas de Raito desde a infância e acompanhou toda sua rixa com Ryuuzaki desde o começo e nunca tentou esconder seu desafeto pelo mesmo. Comprava todas as brigas e discussões de Raito, chegava a ser mais ofensiva que o próprio. Ela era extremamente estourada.

- Não – respondeu friamente. A verdade era que Raito nunca foi próximo de ninguém. Midori era indiferente para ele – Problemas pessoais.

- Entendo.

Os dois continuaram caminhando em direção a faculdade enquanto conversavam. Raito percebeu claramente um par de olhos sobre si, sabia que uma certa pessoa observava todos os seus movimentos de longe.

- Sabe Raito – a garota se agarrou ao seu braço – Podíamos sair na sexta à noite. Faz tempo que não conversamos, apesar de estudarmos juntos...

O ruivo estava prestes a recusar o pedido, mas notou que estavam passando bem em frente dos olhos curiosos que insistiam em vigiá-lo. Não pôde evitar o sorriso maldoso que se formou em seu rosto.

- Claro Mi-chan. Conheço um lugar perfeito – tentou parecer empolgado com aquilo.

- Ah Raito-san! Fico tão feliz! – a garota pareceu se iluminar diante de sua afirmativa.

Sentiu vontade de sair correndo e fugir, não acreditava que aquela garota havia acreditado na sua falsa empolgação. Quando percebeu, lá estava ela lhe agarrando pela cintura possessivamente, tentou se livrar delicadamente e sem ofendê-la, não adiantou. Sentiu um jato de calor em suas costas e olhou na direção do banco onde Ryuuzaki estava sentado, o moreno lhe lançava um olhar tão maligno e furioso que chegava a queimá-lo. Como resposta, lançou seu melhor sorriso, deixando o outro ainda mais irritado.

Raito não sabia exatamente o porquê de estar tentando provocar Ryuuzaki, sabia menos ainda o porquê de aquilo ter funcionado. Não era como se estivessem tendo uma crise de ciúme um do outro. Corou. É claro que não, isso era coisa de namorados. E não gostava de homens, e mesmo que gostasse, jamais namoraria alguém esquisito como Ryuuzaki. Bufou irritado. Até seus pensamentos pareciam conspirar contra ele!

- Er, tenho que ir pra aula agora Midori. Até mais! – não estava sendo fácil se livrar daquela garota.

- Ah, tudo bem. Me pegue às sete na sexta! – gritou de longe para que o ruivo ouvisse.

Apenas acenou com a mão, ainda de costas, para que a garota soubesse que havia entendido. Midori podia ser uma boa pessoa, mas era irritantemente pegajosa. Não fazia idéia de como sairia vivo daquilo.

Ring Ring Ring

Esticou a mão até o criado mudo e pegou o aparelho prateado.

- Moshi Moshi?

Estava sentado em posição fetal na cama lendo um livro qualquer pra passar o tempo. Na verdade queria se distrair, esquecer a irritação. Havia algum tempo que as garotas do “Fã Club” do Raito haviam deixado de perturbá-lo, principalmente aquela loura irritante, agora ela estava se aproximando novamente. Parecia que estava fazendo de propósito para estragar seus planos. Odiava-a profundamente, desde sempre. Deixou o assunto em segundo plano quando uma voz familiar lhe falou no telefone.

- Ei Lawliet! Tenho uma boa notícia.

- Angeline? – perguntou preguiçosamente.

- É claro que sou eu. Não reconhece mais minha voz? – a voz feminina pareceu manhosa do outro lado da linha.

- Algum problema? Você nunca liga.

- Eu sei. Nenhum problema. Estou no Japão, pensei que podíamos tomar um chá, tenho coisas novas pra você.

- Tudo bem. Encontre-me as sete no lugar de sempre, na sexta.

A garota soltou um gemido de insatisfação do outro lado da linha. Parecia chateada.

- Sempre tão formal Lawliet. Podia se soltar um pouco, sabe.

- Sayonara – e desligou o celular sem esperar resposta.

Não estava com paciência para joguinhos, ou provocações. Estava realmente cansado, queria pelo menos poder dormir, amaldiçoou seu velho habito nesse momento. Nem todo anime do mundo poderia tirar seu tédio agora.

Decidiu beliscar algum doce, provavelmente a geladeira estaria abarrotada deles. Ao chegar à cozinha, encontrou Watari preparando um chá. Foi direto até geladeira e se serviu de um grande pedaço de torta de limão. Em seguida sentou-se à mesa na sua posição peculiar.

- Comendo doces há essa hora?

Olhou desinteressadamente pro relógio da cozinha. 11:15 pm.

- Angeline ligou.

- Ligou? – perguntou assustado enquanto sentava-se ao lado do mais novo.

- Sim. Ela disse que está no Japão – respondeu logo após levar a colher à boca.

- No Japão? Sabe que adoro a senhorita Angeline, mas ela me dá calafrios.

Os dois suspiraram pesadamente.

- Sei o que quer dizer – Ryuuzaki disse colocando mais um colherada de torta na boca – Mas não faço idéia do que ela quer. Disse que tem algo novo pra mim.

- Informações?

- Provavelmente, ela parecia séria. Mas sobre o quê exatamente? Essa é a questão – Ryuuzaki estava inquieto.

- Seja lá o que for, ela se aproveitará disso para vê-lo, não acha? – Watari sorriu e levou a xícara à boca, bebericando um pouco de chá.

- Você sabe como ela é direta, já marcamos. Creio que seja algo importante, ela não sairia da mansão em Londres apenas para me ver. Não é do feitio dela.

Os dois permaneceram em silencio. Ryuuzaki podia ter aquele jeito indiferente e sério, mas não havia como ficar indiferente diante de Angeline. Ela era assustadora, e tinha um temperamento forte e mimado. Não queria nem imaginar o que aconteceria quando ela o encontrasse, afinal, havia desligado o telefone na cara dela.

- “Ela deve estar furiosa” – levou o polegar aos lábios.

- Algum problema senhor?

- Estou pensando. Desliguei o telefone na cara dela, acho que estava prestes a dizer alguma coisa sem importância.

Watari deu um pulo, quase caindo da cadeira. Encarou o moreno incrédulo.

- Vo-você desligou na cara dela? – perguntou assustado.

- Sim.

Imaginou um demônio de vestido cuspindo fogo e destruindo a cidade e sentiu o suor escorrer pela sua testa.

- Meus pêsames – disse por fim.

- Ela vai me surrar, eu sei – Ryuuzaki disse conformado suspirando em seguida.

A sexta-feira chegou logo. Raito não pôde evitar ficar irritado, nunca devia ter aceitado o convite daquela garota. Aquilo parecia ser uma forma divertida de irritar Ryuuzaki, mas sabia que não tinha tempo pra perder com encontros, precisava continuar sua pesquisa. Sem contar que Midori tinha um ar levemente fútil, aquilo era irritante.

- Ela não é tão ruim assim Raito.

- Ryuuku, você já disse isso um milhão de vezes.

Agora o shinigami o seguia pra cima e pra baixo, como uma sombra.

- Não sei por que está tão irritado. Ela é bonitinha.

Raito bufou.

- Não tenho tempo pra perder com essas idiotices sem sentido. Preciso pesquisar.

O shinigami ficou parado encarando Raito. Coçou o queixo e soltou uma risada sarcástica.

- Qual o problema? – o ruivo perguntou irritado ao ver o shinigami rindo.

- Desde aquele primeiro dia, você não encontrou nenhuma informação. Uma semana trancado em casa procurando, e não achou absolutamente nada de novo – riu novamente.

- Isso não é engraçado.

- Desculpe Raito. Mas acho que sair com essa garota é melhor do que ficar em casa a toa.

- Cale a boca – disse sério.

Raito parou em frente à casa de Midori. Ela era quase do mesmo tamanho que a sua, não teve tempo de tocar a campainha, assim que se aproximou da porta ela se abriu e a garota pulou em seu pescoço. Ryuuku andou pela rua até desaparecer, daria pelo menos um pouco de privacidade a Raito durante esse encontro.

- Bem na hora Raito-san – Midori sorriu.

Raito forçou um sorriso de volta, se preocupando se parecia realmente tão irritado quanto estava. Afinal, de certa forma Midori não tinha culpa, ele havia aceitado, não seria justo ser grosseiro com ela. Ofereceu o braço pra loira e foram caminhando juntos até o pequeno restaurante chamado Koucha Shokudou, ou apenas Shokudou como todos costumam falar.

O lugar era pequeno e aconchegante, as mesas ficavam bem distantes dando privacidade aos clientes. Os garçons e garçonetes passeavam pelos corredores atendendo a todos sem alvoroço. A luz amarelada dos lustres dava um ar charmoso ao ambiente que era freqüentado principalmente por casais. Mas mesmo com o clima de romantismo, uma pessoa estava solitária em uma das mesas de visão privilegiada. Ryuuzaki olhava distraído através da grande janela ao lado de sua mesa, havia um jardim lindo do lado de fora. Estava tão distraído que não percebeu quando um casal familiar sentou-se na mesa ao lado.

- Não acredito – Raito reconheceu imediatamente aquela forma de se sentar.

- O que?

- Ryuuzaki está aqui. Na mesa ao lado.

Midori virou a cabeça na direção do moreno e rangeu os dentes de raiva. Não suportava Ryuuzaki.

- Tantos restaurantes pra ele ir e decide vir justo aqui?

O alvo da conversa parecia paralelo ao mundo, sequer se mexia, parecia muito distraído pensando em algo. Raito suspirou. Sabia muito bem que esse era o lugar preferido de Ryuuzaki, mas jamais imaginaria que essa coincidência pudesse acontecer. O que ele estaria fazendo sozinho ali afinal?

Decidiu esquecer o rival e conversar com Midori. A loura parecia estar prestes a se levantar e expulsar Ryuuzaki do restaurante, isso seria constrangedor. Sabia que assim como Midori não gostava de Ryuuzaki, Ryuuzaki também não suportava Midori, se a garota puxasse o gatilho, aquilo não acabaria bem. Confiava que o moreno jamais faria um escândalo em algum lugar publico assim, mas não ficaria calado diante das ofensas da loura. Estremeceu ao imaginar o quão vergonhoso seria se os dois começassem uma briga naquele restaurante. Suspirou.

- Algum problema Raito-san? – Midori parecia preocupada.

- Não, nenhum.

- Está com uma cara abatida. Aposto que é a presença desse esquisito – respondeu com raiva.

- Não, só estou pensando na minha mãe, sabe faz tempo que ela está viajando.

Para a sorte de Raito, Midori parecia engolir bem suas mentiras e desculpas. Pediram a comida e o ruivo teve que ouvir todo um discurso sobre música, moda e suas tendências enquanto esta não chegava. A garota não parecia se importar com o monologo, e de fato não se importava, estava feliz só por Raito ter aceitado sair com ela. Continuava falando, falando e falando enquanto Raito olhava vagamente na direção oposta a Ryuuzaki soltando suspiros vez ou outra.

- “Sequer percebeu que estou aqui. Talvez não tenha ficado tão irritado quanto pensei” – virou o rosto na direção do moreno. Não sabia por que, mas queria que ele o visse.

E nesse exato momento a cabeça de Ryuuzaki pendeu para o lado, e seus olhos giraram em torno do restaurante caindo exatamente sobre si. Raito corou. O moreno continuou encarando o outro, e então, muito discretamente, um sorriso quase imperceptível apareceu em seus lábios, de alguma forma aquilo havia sido encantador para Raito, não conseguiu desprender seus olhos de Ryuuzaki. Ficaram ainda alguns segundos se olhando até que Midori percebeu o olhar do mais velho. Raito não sabia por que, mas aquele parecia um momento importante, mesmo sem motivo. Quase não se deu conta da loura que parecia prestes a explodir em fúria.

- O que pensa que está fazendo? – Midori disse alto para Ryuuzaki.

O outro deu de ombros, parecia entediado.

- Apreciando a boa vista do restaurante.

Raito corou até o ultimo fio de cabelo com o comentário de duplo sentido, escondeu cabeça no braço e implorou baixo para que Midori parasse com o escândalo.

- Não paro!Não posso simplesmente aceitar que esse... Esse... Estranho fique estragando o encontro dos outros.

- Vindo de uma... Garotinha que se veste assim – a loura olhou para suas vestes, calça jeans rasgada e camiseta – Não acho que “Estranho” seja uma ofensa – a voz feminina era firme e calma.

Midori – que a essa altura já estava em pé no corredor entre sua mesa e a de Ryuuzaki – virou-se para trás e viu uma mulher parada, a dona da voz. Ela era extremamente pálida e magra, usava um vestido longo marcado na cintura, o decote era discreto e enfeitado pelos longos cachos negros que caiam como cascata por seu colo e costas.

- Quem você pensa que é? – quase gritou.

- Saia da frente, imunda. Está no meu caminho – os olhos azuis escuros quase negros brilharam malignamente.

Diante de tanto poder Midori não pode fazer nada, algo naquela mulher cheirava a confusão, era como se ela pudesse esmagá-la como um inseto com aqueles sapatos de grife. Seus olhos faiscavam ódio. Era assustador. Decidiu recuar e se sentar à sua mesa junto a Raito.

- Não sabia que gostava de causar escândalos em publico Lawliet – A morena disse no que pareceu ser um inglês perfeito e impecável.

- Finalmente... Angeline – a voz tediosa de Ryuuzaki foi a ultima coisa que ouviram.

Em seguida, o moreno – que havia se levantado num salto quando Angeline apareceu – se apressou em puxar a cadeira para a garota. Os dois começaram a conversar baixo, de forma que apenas eles pudessem ouvir.

- Humpf, quem essa branquela pensa que é, falando assim com os outros – Midori estava perturbada.

- Não faço idéia. Nunca a vi na vida.

Raito observou melhor a garota. Ela era bonita, e parecia extremamente próxima de Ryuuzaki, será que eram namorados? Sentiu uma sensação estranha ao imaginar isso e logo baniu esse pensamento. Tinha que se concentrar em Midori.

Na outra mesa, Ryuuzaki parecia um tanto quanto irritado, Angeline estava novamente lhe dando uma bronca sobre sua forma de se sentar.

- É totalmente deselegante e excêntrico.

- Não fico confortável de outra forma.

- Só não está acostumado – respondeu friamente enquanto olhava o cardápio.

- Não veio aqui para me dizer como devo me sentar, não é?

- É claro que não. Só acho que devia se portar melhor, pelo menos em publico.

- Se veio aqui para criticar a minha falta de etiqueta, obrigado, mas prefiro ir para casa – Ryuuzaki soou extremamente frio.

- Desculpe... – Angeline olhou para baixo melancolicamente – Eu não queria te chatear.

- Não está – agora era a vez dele de olhar para o cardápio – Só não estou com paciência para suas implicâncias hoje.

O silencio pairou incômodo durante alguns longos segundos. Angeline não ousava levantar os olhos.

- Na verdade, eu vim até aqui, para te dizer o quanto eu sinto – Ryuuzaki a encarou confuso – O quanto eu sinto por todas as minhas ações, nos últimos anos.

- Me pergunto se isso é algum tipo de piada, ou – cortou a garota – Se você está a beira da morte, e quer se redimir para ir ao céu, ou algo assim.

- Cale a boca, é claro que não é nada disso. Deixe-me terminar – olhou no fundo dos olhos de Ryuuzaki – Sabe, Lawliet. Se não fosse por você, talvez eu estivesse morando embaixo de alguma ponte em Londres. Talvez eu estivesse morta, ou algo assim. Tudo o que você fez por mim, embora eu tenha sido uma garotinha mimada todo esse tempo, foi muito legal, de verdade.

- Não sei por que você está tocando nesse assunto justo agora. Não faz nenhum sentido, Angeline.

- Não, eu quero falar. Eu fui egoísta todos esses anos, nunca reconheci o que você e Tadashi fizeram por mim.

- Angeline, não me obrigue a dizer essas coisas, sabe que não sou bom nisso. Mas você é minha irmã, é meu dever cuidar de você, independente de você ser um doce ou um demônio.

Angeline olhou para Ryuuzaki com os olhos cheios de lagrimas, se sentia culpada. Sentia que a única coisa que havia feito durante esses anos era viver de luxo às custas de Ryuuzaki, nunca parou sequer para agradecer. Nunca sequer se preocupou em saber como ele se sentia. Só queria saber de suas vontades, de seus caprichos. Formava suas próprias regras e obrigava todos a seguirem-na, não se importava com ninguém além dela mesma.

Mas eles eram irmãos, e essa era uma longa história.

(...)

Era verdade que os pais de Ryuuzaki haviam morrido quando ele tinha apenas 5 anos, mas eles não eram seus pais biológicos. Os pais verdadeiros o haviam abandonado na Wammy’s House, na Inglaterra, quando era apenas um recém nascido, onde um casal de origem japonesa acabou por adotá-lo. Naquela época não sabia ainda que Angeline, sua irmã biológica, havia sido abandonada junto com ele, ela tinha pouco mais de 1 ano. O casal decidiu voltar ao Japão e 5 anos depois morreram num acidente de carro, deixando Lawliet aos cuidados de Hashimoto Tadashi, o mordomo de confiança, apelidado de Watari por Ryuuzaki. Algum tempo depois, Watari descobriu sobre a existência de Angeline e tentou adotá-la, mas a burocracia do lugar não permitiu. Começou então a levar Ryuuzaki para visitá-la vez ou outra, apesar de o garoto parecer não gostar muito da irmã, ela era mimada, egocêntrica e sarcástica, mas Angeline parecia sempre muito feliz ao ver o irmão caçula, no fim Ryuuzaki acabou gostando dela também, apesar de tudo.

Quando Angeline completou finalmente 18 anos e pôde sair do orfanato, Ryuuzaki a chamou para morar no Japão junto com Watari e ele, mas ela recusou. Afirmou que queria permanecer na Inglaterra e que embora soubesse falar japonês, preferia infinitamente o inglês. Como não queria deixar a irmã desamparada, Ryuuzaki deu parte da herança deixada por seus pais adotivos a ela. Desde então Angeline vivia numa luxuosa mansão em Londres, cercada de empregados e mimos. Os dois não costumavam se ver muito, e Angeline nunca telefonava, mas trocavam bastante emails. Na verdade, sempre estavam ocupados demais com suas próprias metas que não tinham tempo para fazer visitas.

- Ah meu irmão! Tenho sido uma pessoa horrível – choramingou.

- Não seja tola. Já se esqueceu do quanto têm me ajudado? Mesmo que seja de longe.

- Sou só uma curiosa buscando informações por onde passo Lawliet.

Tocou suavemente as mãos pálidas de Angeline.

- Suas investigações envergonham qualquer detetive da Scotland Yard. Você é muito competente nisso. Se não fossem suas informações, jamais descobriria tudo o que sei sobre o caso Kira.

Desde a adolescência, quando “acordara” e se lembrara da outra vida, Ryuuzaki teve o apoio de Angeline que o ajudou nas investigações, aos poucos foram preenchendo as lacunas. Ela era sua fonte primária de informações, não havia nada que eles não pudessem descobrir.

- Mas sabe que se investigar não fosse algo de meu agrado, eu não faria nada disso. Eu sempre fazia por mim, não por você – cobriu os olhos com as mãos.

Ryuuzaki continuou conversando por mais algum tempo até que Angeline se acalmou. Geralmente ela era controlada, embora não fosse inexpressiva como Ryuuzaki. Era realmente estranho para qualquer pessoa que a conhecesse, vê-la chorando, se lamentando e se desculpando, principalmente com Ryuuzaki que era quem ela mais gostava de usar como alvo de seu escárnio.

- Eu não acredito que você saiu de Londres para vir até aqui choramingar – disse tediosamente.

- Não seja tão insensível, você decidiu ser solidário e compreensivo hoje?

- Está ficando tarde. Você provavelmente ficará no hotel. Não pode andar pelas ruas assim.

Angeline suspirou e bebeu um pouco do saquê que haviam pedido.

- Tudo bem. Vamos falar a sério. Vim até aqui principalmente porque descobri uma coisa extraordinária.

Estavam ali há horas. Raito observou calmamente toda a conversa de Ryuuzaki com a mulher misteriosa, mesmo sem ouvir o que diziam. Na maior parte do tempo Ryuuzaki pareceu consolar a tal Angeline.

- “Não sou do tipo curioso, mas daria qualquer coisa para ouvir o que eles dizem” – suspirou pesadamente.

Midori estava emburrada, não estava recebendo a atenção que queria e Raito só sabia suspirar e olhar para o nada. O encontro havia sido um fracasso. Já haviam comido e bebido mais do que o esperado e aqueles dois não pareciam estar perto de alguma despedida, Raito não tinha mais desculpas para permanecer no restaurante.

- Vamos embora Midori. Está ficando tarde.

- Tudo bem.

Levantaram-se e Raito se permitiu dar uma ultima olhada para Ryuuzaki – que estava imerso na conversa com Angeline – antes de sair pela porta. Foram andando calmamente pelas ruas vazias, chegaram logo até a casa de Midori. Raito parou no portão.

- Bom, acho que foi um jantar agradável – disse tentando quebrar o gelo.

- Foi sim. Fico feliz que Raito-san tenha aceitado sair comigo.

Raito sorriu sem jeito e antes mesmo que percebesse Midori já havia se aproximado, colando seus lábios aos dele. O ruivo ficou sem reação, não esperava algo assim. Midori continuou com os braços enlaçados no seu pescoço.

- Não quer entrar? – perguntou baixo.

- Ahn... – Raito afastou delicadamente o corpo da loura – Midori, não confunda as coisas.

- Como?

- Aceitei sair com você porque você é uma garota legal, mas eu não... Tinha nenhuma intenção de... – não terminou a frase, a garota se afastou bruscamente.

- O que você está dizendo?! Não sou boa o suficiente para você, não é? Eu nunca devia... – virou as costas e saiu andando – Eu sou uma burra mesmo.

O ruivo ficou parado no meio da rua olhando enquanto Midori batia a porta com força. Qual era o problema daquela maluca? Amaldiçoou o momento em que aceitara sair naquele encontro. Jamais imaginou que aquilo pudesse ser tão fatigante.

- “Preciso me lembrar de nunca mais aceitar nada que venha de Midori”

Esquecera-se da garota assim que deixou o portão de sua casa, pensou em Ryuuzaki o caminho de volta inteiro. Queria muito saber quem era aquela mulher, e o que diabos os dois estavam fazendo juntos. Não sabia por que, mas naquele momento quando Ryuuzaki havia sorrido, um daqueles sorrisos raros que só aparecem em ocasiões especiais, sentiu toda a raiva e ódio que havia alimentado nos últimos dias desaparecer, era como se os sentimentos ruins estivessem escorrendo pelo ralo em direção ao nada. E agora estava vazio.

Chegou em casa cansado e tirou os sapatos, olhou no relógio da cozinha, 10:40. Afrouxou a gravata e desabotoou alguns botões da camisa enquanto subia em direção ao quarto. Só queria dormir. Deitou-se na cama de roupa e tudo, não estava nem um pouco preocupado em tomar banho ou em colocar um pijama. Só queria dormir.

Rolou de um lado pro outro na cama de solteiro, estava exausto, mas por algum motivo seus olhos pareciam ter vontade própria, não importava o quanto tentasse, eles não se fechavam. Sua mente estava cheia de Ryuuzaki e sorrisos... E blackouts... E partidas de tênis aos domingos... E todas aquelas esquisitices que tornavam o moreno tão singularmente intrigante.

- “Kuso! Não vou conseguir dormir assim”

Deitou de bruços e colocou a cara no travesseiro, em seguida soltou um grito abafado. Estava se sentindo patético, primeiro por não conseguir dormir, segundo porque o motivo disso era Ryuuzaki e principalmente, se sentia patético pelo que faria a seguir.

- Tadaima – saudou ao chegar em casa. Provavelmente Watari estaria acordado ainda.

- Okaeri Ryuuzaki. Como foi? – como esperado, ele estava sentado no sofá da sala de estar.

- Cansativo, de um jeito diferente. Não acreditaria se fosse outra a pessoa a te dizer.

- Vou pegar um pedaço de torta de chocolate para o senhor.

Quando voltou da cozinha, Ryuuzaki já estava confortavelmente sentado numa poltrona. Watari ouviu tudo o que o mais novo dizia com atenção, sua expressão ia da surpresa á pena. No fundo sabia que Angeline só precisava aceitar que não estava sozinha, só precisava de sua família, e Ryuuzaki era a única que ela tinha. Quando a historia finalmente havia sido contada inteira, já era quase meia noite. Watari subiu pro quarto, tão cansado quanto Ryuuzaki.

- Talvez eu deva tentar dormir, pelo menos hoje – disse para si mesmo enquanto andava em direção a escada.

Plim Bom

- “Há essa hora?” – andou preguiçosamente de volta ao hall de entrada.

Abriu a porta sem se dar ao trabalho de olhar no visor da câmera externa. Encarou a pessoa parada do lado de fora surpreso, mas sem alterar a expressão. Ele estava encostado no batente de madeira. Os olhos se encontraram, castanho no preto, preto no castanho, tudo pareceu sumir. Era novamente o fogo ardente tentando derreter o gelo frio e duro daquela escuridão profunda, assim como também o gelo tentava engolir e amenizar o calor das labaredas flamejantes que pareciam sair dos olhos do mais novo. Ambos se consumiam, ali fazia frio, mas era quente. Ali estavam o doce e o amargo. A luz, e a escuridão. Ali fora a partida, e ali finalmente, seria o retorno.

- Raito?

(...)

Fim do terceiro Capitulo.

Notas finais
*1 : Esse trecho é da música Let The Flames Begin, da banda Paramore. Eu adoro essa música, e de alguma forma acho que ela se encaixa na fic. Para quem não entende muito de inglês, vou colocar a tradução abaixo.
Que vergonha! Nós todos nos tornamos coisas tão frágeis e quebradas. Uma lembrança permanece... Apenas uma pequena faísca.
Eu dou todo o meu oxigênio para que as chamas comecem, então deixe que as chamas comecem.
Oh, glória. OH, GLÓRIA!