Notas iniciais
Calhei no erro de dizer à Mrs.Nobody que estava em sofrimento por causa de duas corujas que fizeram ninho numa árvore aqui ao lado do meu quarto (eu vivo no meio do nada) e ela divertiu-se com a desgraça alheia

Foi com uma alegria enorme que a equipe de Karasuno recebeu a notícia de que fariam uma viagem à praia após treinar com outros colégios.

Mais uma vez, havia sido Takeda a conseguir ajeitar tudo para seus adorados alunos, e enquanto os adolescentes se ajeitavam na van alugada (e Tanaka e Noya imaginavam Shimizu de biquíni), Ukai estudava o mapa até o litoral, analisando qual seria o melhor trajeto a seguir. Ele fazia anotações no papel, e levou um susto quando Takeda se aproximou dele.

“Ukai-kun? As crianças estão todas na van!”, ele sorriu, e o treinador tirou a tampa da caneta da boca.

“Ah, Sensei! Claro, estou só dando uma olhadinha no mapa antes de irmos.”.

Takeda se colocou na ponta dos pés, observando o mapa por sobre o ombro do mais jovem, que corou de leve, “Acho que podemos usar essa outra rota. Pegamos a estrada principal, o que teria mais movimento, mas nos pouparia meia hora de viagem”, sugeriu.

Ukai ficou muito direito e nervoso com a proximidade. Takeda tinha já o cheirinho do protetor solar (era o tipo de pessoa que punha a primeira camada em casa) e vestia uma simples t-shirt e calções, o seu braço esbarrou no do treinador e era o suficiente para deixá-lo alerta.

Tossiu levemente, “Sim, parece… boa ideia.”

Takeda pestanejou e deu-lhe uma palmadinha carinhosa nas costas, sorrindo, “Óptimo. Agora o próximo passo é deixar de fumar.”, piscou-lhe o olho e logo rodou nos calcanhares para ir verificar se as “crianças’’ todas tinham já arrumado as malas e sacos na bagageira.

“Hinata-kun, já foste à casa de banho? Kageyama-kun, não lhe puxes o cabelo. Noya-kun, nada de levar bebidas na van e não Tanaka, comida também não porque vão enjoar. Paramos nalgum lugar para comer. Sugawara-kun, podes por favor controlar esses dois? Obrigado.”, sorriu e foi sentar-se no lugar ao lado do motorista.

Era um acordo não oficializado entre os adultos que Ukai dirigia na ida e Takeda na volta: as voltas eram sempre mais cansativas, e o treinador precisava descansar um pouco, já que na manhã seguinte trabalharia na plantação da família mal o dia raiasse.

Não importava quantas vezes Takeda agradecesse ao mais jovem por se dedicar tanto ao clube de vôlei, o professor sempre achava que não era o suficiente. Ukai acordava cedo para adiantar tudo no trabalho da família e depois ficava horas e mais horas treinando e cuidando de adolescentes cheios de energia e resmungos para, no fim do dia, ainda ter energia para estudar os times adversários e melhorar as táticas de Karasuno.

Takeda era imensamente grato ao esforços de Ukai, e sabia que o mais jovem era contra ser o técnico do time no início. O professor não se arrependia nem um pouco de ter insistido tanto, e via no outro rapaz um bom amigo.

“Ok, todos prontos?”, Ukai questionou, sentando-se atrás do volante, “Sensei, pode ligar o rádio?”.

Ele assentiu e atendeu o pedido, colocando a música baixo. Era o suficiente para que os Problemáticos começassem a cantar aos berros e de forma dramática logo na primeira oportunidade.

Ukai deu um berro para que fizessem pouco barulho, mas Takeda apenas riu. Aquelas crianças energéticas eram uma das suas maiores alegrias. E bem, se fazia Takeda sorrir, Ukai não se ia queixar muito.

A ideia tinha sido simples: após seis dias de treino intensivo com alguns colégios, a Karasuno ia aproveitar o final de semana num acampamento junto da praia. Para todas aquelas crianças nascidas e criadas na montanha, a praia era um paraíso.

Suga e Daichi coordenaram a montagem das tendas e a preparação do espaço — Asahi ia ajudar, mas Noya corria atrás de si com um caranguejo e o ace de coração de vidro tinha as suas prioridades bem definidas.

Kageyama e Hinata usavam o meio neurónio de cada para tentar perceber como montava a tenda, sendo o processo atrasado porque Tsukishima os atiçava com implicações sobre serem idiotas.

“Por que é que o Take-chan e o Ukai podem ficar numa cabana e nós temos de dormir no chão?”, Tanaka resmungou com um biquinho, terminando de montar a sua tenda.

“Porque Takeda-sensei e o treinador Ukai são velhos e devem ter dores nas costas”, Hinata disse enquanto segurava uma das estacas da barraca nas mãos. Kageyama lhe tocou uma pinha na cabeça, “Eles nem são assim tão velho, boke!”.

Hinata, então, retrucou também aos berros: “Eu não sei? Eles tem quase trinta anos, isso é ser velho!”.

“Tu tens pouco mais de metade da idade deles!”

“E?”

“E? Quando tu nasceste eles tinham a tua idade agora.”

“Kageyama, por favor! “, ele fez um biquinho amuado e atirou-lhe com a pinha de volta. O setter desviou-se com facilidade, malditos reflexos, “Isso não faz sentido nenhum. Quando eu nasci eles já eram velhos.”

“Então tu és velho também.”

“Quê? Claro que não. E se eu for velho, tu também és.”

Tsukishima, sentado na ponta da tenda dele com as pernas para fora deu um longo suspiro, “Porque não jogam a um jogo? Aquele que se aguentar calado mais tempo, ganha.”

A resposta foi imediata e em unissono, “Ganha o quê?”

O loiro sorriu, sempre com aquela malícia que a dupla desmiolada não entendia, “Ganha o prêmio de menos chato nos últimos cinco minutos!”, ele disse.

Os dois, então, concordaram, e Hinata contou “um, dois, três, valendo!” antes de ambos voltarem a montar as barracas.

Daichi e Suga terminavam de ajeitar a tenda deles quando o vice-capitão sussurrou: “Daichi? Eu tive uma ideia para unir Takeda-sensei e o treinador!”, ele sorriu, animado. O moreno piscou, colocando sua mochila dentro da tenda, “O que?”

“Podíamos preparar um piquenique para eles! Minha mãe fez bolo demais, e se juntarmos um pouquinho de cada comida que trouxemos, podemos montar um jantar romântico num instante!”.

Sempre a voz da razão, Daichi mordeu de leve o lábio, “Suga… Achas que dá para montar o que quer que seja com este caos todo?”

Apontou vagamente na direção do acampamento improvisado: A Dupla agora discutia em silêncio e Hinata usava uma vareta da tenda para cutucar Kageyama. Quando este lhe atirou com uma pinha, Hinata deu spike nela por puro instinto e ficou a resmungar que doía.

Noya invadia já a tenda de Asahi, gritando que tinha decidido dormir com ele e Yamaguchi juntava lenha com Ennoshita para depois fazerem fogueira.

Suga sorriu abertamente, “Acho~!”

Daichi suspirou, esfregando a nuca, “Certo, eu ajudo”

Suga sorriu, dando um beijo rápido na bochecha do moreno, mas logo tudo pareceu dar errado antes de sequer começar quando Tsukishima parou na frente da barraca deles e questionou: “Ajudar com o que?”.

O capitão colocou a cabeça para fora da tenda e resmungou, “Tsukishima, não ouça a conversa alheia!”

O mais jovem deu de ombros, “Vocês não fizeram questão de conversar baixo, todos nós estamos ouvindo. Hm, menos os idiotas, mas isso porque eles estão ocupados demais tentando jogar vôlei com pinhas”

Ennoshita, que saiu sabe-se de lá onde, sorriu, “Ouvi vocês falando sobre o sensei? O que houve?”, ao lado dele, Narita ajeitava o chapéu sobre a cabeça, “Eu achei que vocês estavam falando do treinador Ukai…”

Suga corou de leve, nervoso, e Daichi suspirou, “O Suga acha que o Takeda-sensei e o treinador Ukai se gostam e--”

“Ah, isso é óbvio”, Tsukishima e Ennoshita disseram em uníssono, e o moreno piscou, “Sério?”

Os mais jovens assentiram, “Aham, faz um tempo já”, o moreno disse, e Tsukishima bebeu um pouco de água, “Eles são discretos, mas aquela tensão sexual entre eles só aumenta”

“Tsukishima, é do nosso professor e treinador que você fala!”, Daichi censurou, mas o loiro só deu de ombros, “Mas é verdade”

“Enfim!”, Suga se intrometeu, “A minha ideia era preparar um piquenique para eles e ver se isso ajuda eles a se acertarem…”.

Os rapazes mais jovens trocaram um olhar, e Narita sorriu, “Eu acho uma ótima ideia! Quero ajudar!”

O rapaz do primeiro ano assentiu, “É, talvez funcione. Mas… o que faremos com a dupla idiota?”

“Como assim?”

“Eles não sabem guardar segredo. Se ficarem sabendo sobre o piquenique, eles vão dar com a língua nos dentes e estragar tudo”.

Daichi cruzou os braços, sério, “E se eles não souberem? Podemos inventar alguma desculpa.”

Suga concordou, “E o Asahi também não pode saber de tudo. Ele não sabe mentir se for pressionado e alguém perguntar. E que tal se vocês dissessem que o piquenique é para nós?”, passou o braço pelo ombro do capitão.

“É perigoso ainda assim”, Ennoshita disse, e Narita sorriu, “E se nos dividíssemos? Vocês três ajeitam tudo enquanto Narita e eu chamamos os outros para jogar vôlei? Assim eles ficam ocupados, o Takeda-sensei e o treinador ficarão por perto e vocês ficam livres para ajeitar tudo!”.

Suga sorriu, indo abraçar o mais jovem, “Ennoshita~ Você realmente é um futuro capitão!”, ele deu um soco amigável no estômago do moreno, que riu acanhado, “É uma boa ideia. Só temos de ter certeza de que o Tanaka não veja que estamos perto da comida ou ele vai ir comer tudo”, suspirou.

“Parece um plano.”

Convencer a Dupla não foi complicado: depois de Ennoshita os ajudar a montar a tenda, antes que ficasse tarde e tivessem de dormir ao relento porque Tsukishima não ia querer partilhar a sua, sugeriu, “E que tal se jogássemos uma partida de volley de--”

Kageyama e Hinata quase que subiram para o seu colo, “SIM!”

O rapaz do segundo ano soltou uma risada enquanto coçava a bochecha, e enquanto Kageyama e Hinata faziam uma corrida aleatória até perto da água, Yamaguchi saltitou até Narita, o olhar cheio de ambição, “Kinoshita-san! Podemos treinar saques?”. O mais velho sorriu e concordou, e logo Noya já arrastava Asahi pela mão e dizia a todos que tinha um novo movimento para mostrar, empolgando seus colegas mais jovens.

“Pela gritaria que ouço, Ennoshita-san está conseguindo controlar aqueles lunáticos”, Tsukishima disse, ajudando Suga a ajeitar um pequeno ramo de flores que encontraram pelo caminho.

“Ah não sejas assim, o Yamaguchi não é lunático.”

O loiro suspirou, “Claro que não. Mas a Dupla é.”

Sugawara deu uma risada e amarrou as flores com umas folhas em forma de fita, “Prontinho. Acho que Sensei vai gostar.”

Tsukishima deu de ombros. Nem sabia ao certo porque tinha sido envolvido naquilo.

Montaram o piquenique num jardim perto da praia, de onde dava para ver o mar e Sugawa planeava tudo para que calhasse ao pôr-do-sol.

Assim que tudo ficou pronto ele levantou o polegar a Daichi e o capitão foi procurar os adultos.

Takeda e Ukai conversavam tranquilamente sentados nas cadeiras de praia, observando os alunos a jogar. Para desespero de Hinata e Kageyama, eles estavam em times opostos, e os berros entre eles aumentava a cada minuto.

“Hinata-kun e Kageyama-kun são bastante energéticos, não acha Ukai-kun?”, Takeda questionou, rindo de leve quando Hinata recebeu a bola na cara… pela milésima vez na vida.

Ukai riu também, concordando, “Às vezes eu fico cansado só de olhar… mas acho que é coisa da idade, eu também era mais ágil quando jovem”, deu de ombros.

O professor, então, lhe sorriu, “Mas você ainda é jovem, Ukai-kun.”, ele pendeu a cabeça para o lado, tendo de ajeitar os óculos que lhe escorreram pelo nariz, “E você mesmo me disse que ainda joga vôlei, então acredito que tenha bastante energia!”.

O loiro riu e coçou a nuca atrapalhado, “Bem sim, mas não… Assim.”, apontou vagamente na direção dos mais jovens. Hinata continuava a correr e a saltar de um lado para o outro mesmo que estivesse a jogar na areia. Kageyama acompanhava, mas os restantes começavam a ficar mais lentos, “Digamos que não tenho uma pilha infinita.”

Takeda riu, “Bem, entendo. O Hinata-kun é exeção.”

Ukai concordou, “E além do mais, eu não tenho assim tanto tempo para jogar volley ou jogging como tinha antes, tenho sempre muito trabalho.”

O professor suspirou levemente e assentiu. Era óbvio para si as olheiras fundas que o treinador por vezes tinha.

“Não podes tirar uma folga?”

Ele riu, “Poder posso, mas não consigo.”, encarou o professor novamente. As suas feições pareciam ainda mais suaves com os tons alaranjados do final do dia, “A mercearia é dos meus avós, foram eles que me criaram. Não consigo deixar tudo para eles, nem fico descansado se estiver muito tempo longe. O meu avô vai tendo sempre recaídas, especialmente no tempo frio, então não gosto que ele vá fazer colheitas.”, o seu tom passou a resmungo, “Mas o velho teimoso vai na mesma! Acreditas que ele caiu e nem disse nada? Precisa de ser tão vigiado como uma criança, só que tem pior comportamento!”

Takeda sorriu de leve, mas Ukai sabia que havia que o mais velho se preocupava com alguma coisa, “Acho que o comportamento do seu avô é normal, Ukai-kun. Pelo que sei, ele sempre foi um homem ativo e independente… ver que cada dia as coisas mais mundanas começam a ficar difíceis não é algo fácil de se aceitar”.

Ukai suspirou, retirando da caixa térmica uma garrafa de água gelada, “Você tem razão, sensei. Mas ele não deixa de ser teimoso só por isso!”, ele resmungou, e Takeda riu.

A risada do professor sempre desarmava Ukai…

“Eu sei, eu sei… Mas quem sabe você pode ser mais paciente com ele, Ukai-kun?”

“Eu sou”, o mais jovem fez biquinho, mas quando Takeda voltou a sorrir, Ukai corou de leve e bebeu sua água, “Ok, ok.”

“Além do mais…” , usou um tom implicativo, “As maçãs nunca caem longe da árvore.”

Ukai engasgou-se e tossiu, encarando-o em espanto e numa falsa ofensa, “Sensei! Estás a insinuar que eu sou teimoso?!”

“Eu? Nunca~!”, riu e pestanejou assim que viu o capitão da equipa a aproximar-se, “Daichi. Está tudo bem?”

O rapaz esfregou a nuca, “Sim...Nós… Nós preparamos uma surpresa para vocês, em agradecimento por todo o trabalho que tiveram para que esta viagem fosse possível.”

Takeda e Ukai piscaram, trocando um olhar antes de se levantarem.

Daichi sorriu, convidando os adultos para o seguir.

Ao se aproximarem do local, entretanto, o capitão do time começou a ouvir vozes. Primeiro, a de Suga, ansiosa. Depois, a de Tsukishima a resmungar. E, enfim… Tanaka.

“Hey, isso não é justo! Por que vocês dois estão aqui escondidos com esse bando de comida? Eu também quero!”, ele disse alto, e como se aquilo já não fosse ruim o suficiente, Hinata defendeu o saque de Kageyama e berrou de volta: “Comida?!”

Antes que o pobre Ennoshita pudesse controlar aquelas crianças caóticas, Hinata, Kageyama e Noya correram até a área do piquenique, o ruivo já a salivar pela fome, “Uau! Que lugar legal, vamos lanchar aqui!

“N-não--!”, Suga tentou dizer, mas Takeda, ingênuo, riu e bateu palmas, “Que arrumação maravilhosa! Hinata-kun, pode chamar os demais? Acho que está mesmo na hora de comermos alguma coisa antes que fique muito tarde.”.

Hinata respondeu logo afirmativamente e começou aos saltos, atendendo o pedido.

Suga e Daichi trocaram um olhar e o grisalho apenas suspirou.

Tarde demais.

Takeda sentou-se numa das almofadas e sorriu, “Está tudo tão bonito!”, ele disse, sentindo a areia afundar de leve com o seu peso.

Ukai olhou para o ramo de flores no meio da toalha e olhou de canto para Suga, que parecia chateado. Daichi dizia alguma coisa para o vice-capitão, mas logo que os demais estudantes chegaram, Suga sorriu de leve e sentou-se também, colocando as mãos sobre os joelhos.

O treinador, então, sentiu o olhar de Tsukishima sobre si e piscou, retribuindo com confusão. O blocker apenas deu de ombros e sentou-se ao lado de um animado Yamaguchi, e Ukai corou de leve, percebendo tudo.

Acomodou-se ao lado de Takeda, que fez um brinde pelo piquenique ajeitado por Suga, Daichi e Tsukishima, agradecendo aos três.

“Suga?”, Daichi chamou, e seu namorado se remexeu no saco de dormir, “Está muito chateado?”.

"Só um bocadinho.", o grisalho disse com um bocejo e virou para ficar de frente para si. Não dava para ver na escuridão da tenda, mas Daichi apenas pousou a mão sobre a bochecha dele.

"Lamento imenso. Podemos sempre tentar noutra altura."

Ele deu um resmungo frustrado, “Mas assim vai demorar mais! Ugh…”

O moreno sorriu de leve, “Hey, nós levamos algum tempo também… E deu certo, não?”. Suga suspirou mais uma vez, acomodando-se mais próximo de Daichi, “Sim, deu… mas Takeda-sensei e o treinador são tão adoráveis juntos… e agora que sei que não é imaginação minha que eles sentem algo um pelo outro, não consigo evitar querer que fiquem juntos. Nem que eu tenha que atirar um nos braços do outro!”

Daichi riu e passou o braço por cima dele, “Hey, hey, calma lá. Não os podemos forçar a nada.”

“Tens razão.” , suspirou.

“Tenho sempre, por isso é que sou o capitão.”

Suga agarrou na mão dele e riu, “Vamos fingir que isso é verdade.”

Daichi riu também, mas logo um “Calem a boca e vão dormir!” de Tanaka foi ouvido e o casal riu baixinho, começando a sussurrar: “Seja paciente, Suga. Podemos ajudá-los de outras formas, não há pressa.”

Suga sorriu, suspirando em seguida, “Certo… não há pressa.”.

E, realmente, não havia.

Ukai saiu do banheiro com a toalha sobre os ombros, passando pelo pescoço, "Takeda-sensei, pode usar o banheiro", ele disse.

Takeda ergueu o rosto, colocando uma enorme pilha de papéis ao seu lado no futon. "Oh, claro! Obrigado, Ukai-kun", ele sorriu, e o treinador ergueu uma sobrancelha, ajoelhando-se sobre o futon ao lado do de Takeda, "Sensei? Está corrigindo trabalhos a essa hora?", ele questionou, observando os papéis cheios de anotações.

O professor retirou os óculos para esfregar os olhos cansados e sorriu de leve, "Claro, eu tenho um cronograma a seguir, Ukai-kun".

Ukai suspirou, “É suposto estarmos de mini-férias.”

Ele sorriu, “Eu sei, mas ‘férias’ é um conceito que não existe para professores. Abdicamos delas logo no primeiro semestre de faculdade.”

“Então ainda bem que eu não fui.”, riu e deitou-se para trás no futon.

“Se tivesses ido, o que terias escolhido?”

Ukai olhou para o tecto da cabine e pestanejou, pensativo, “Boa pergunta… Talvez desporto? Gostava de ser treinador como o meu avô.”

“Tu és treinador como o teu avô.”

O loiro riu, “Mas ele era profissional! Chegou a treinar na primeira liga antes de ser um velho rezingão.”

Takeda riu um pouco, colocando novamente os óculos. Demorava meio segundo para que a sua visão cansada ficasse nítida, e a primeira coisa que ele viu foi o sorriso gentil e bonito de Ukai.

Na verdade, tudo em Ukai era belo: os olhos pequenos, o maxilar quadrado, as feições naturalmente sérias (o que assustava o professor no início, antes dele descobrir o quão gentil o mais jovem era), o cabelo descolorido e revoltado… O treinador era um jovem alto (fazendo Takeda sentir-se ainda menor do que era) e estava sempre a resmungar sobre tudo, mas também era muito entendido de vôlei e sabia como incentivar e tirar o melhor de cada aluno: Yamaguchi não ficava mais tão nervoso ao entrar em quadra; Hinata e Kageyama estavam cada dia mais em sintonia; Asahi estava menos ansioso...

Todos os dias Takeda ficava feliz por ter insistido tanto para que Ukai se tornasse treinador de Karasuno. Ele sabia que as habilidades (e o nome) dele faziam uma enorme diferença no time e nas chances daqueles alunos, e o professor de literatura não poderia estar mais feliz.

Bem… até poderia…

Balançou de leve a cabeça, tentando afastar aqueles pensamentos, e Ukai piscou, colocando os cabelos para trás, “Sensei?”

Takeda sorriu de novo e se ergueu após ajeitar todos os trabalhos na pasta e guardá-la na sua mochila, “Desculpe, meus pensamentos foram longe mais uma vez”, ele riu, “Vou tomar um banho.”, avisou, e Ukai assentiu, “Ok, eu vou fumar um cigarro antes de dormir”

O professor abriu a boca para censurá-lo, mas o treinador balançou a mão, “Só um, prometo.”.

Ele, então, sorriu, e seguiu para o pequeno banheiro.

Encostado na janela aberta, Ukai suspirou pesadamente.

Sua proximidade com Takeda aumentava a cada dia por causa do cargo deles como responsáveis pelo time, mas o rapaz às vezes se pegava desejando que pudesse sair e conversar com o professor sem que o assunto principal fossem os alunos. Talvez só um café, onde pudessem falar qualquer besteira que lhes viesse à cabeça, como o motivo de conseguirmos enxergar a lua de dia ou por que algumas corujas decidiram usar a árvore perto do quarto de Ukai para fazer ninho e mantê-lo acordado quase a noite toda porque elas vivem a berrar.

Coisas do tipo.

Coisas que se conversam com amigos… ou com alguém especial.

“Keishin, você é idiota”, ele resmungou consigo mesmo, os cabelos desalinhados a cair sobre seus olhos. Talvez sua mãe estivesse certa: ele deveria arranjar logo uma noiva e sair de casa. Talvez, assim, ele parasse de projetar em Takeda-sensei aquele tipo de pensamento.

Takeda Ittetsu-sensei…

“Ukai-kun?”, Takeda chamou pela terceira vez, e Ukai deu um pulo, “Sensei?”. O mais velho sorriu, as bochechas coradas por causa do banho quente, “Você estava a resmungar sozinho e fiquei preocupado.”, claro que ele ficara. Takeda sempre se importava com os outros, “Há algo o incomodando?”.

Ukai sorriu, apagando o cigarro e deixando a janela aberta para ventilar a cabana de madeira, “Nah, estava só pensando”, disse e estendeu sua toalha no encosto de uma cadeira, voltando a jogar-se no seu futon, “Acho que todos nós precisamos descansar. A turma vai querer passar o dia inteiro nadando e jogando amanhã.”.

O professor concordou, ajeitando tudo antes de se acomodar sob os lençóis. Mesmo naquele calor, Takeda gostava de se cobrir, e Ukai não conseguia deixar de achá-lo fofo ao praticamente ser ‘engolido’ pelo futon.

“Sensei?”, ele questionou após alguns minutos de silêncio.

“Sim?”, saiu quase num suspiro, o que demonstrava que ele estava quase a dormir

“Por que conseguimos ver a lua de dia?”

Takeda ergueu os olhos, vendo o loiro a encarar o teto.

“Porque a superfície da lua reflete a luz do sol, tornando-a visível. Sua proximidade com a Terra e tamanho também ajudam”, respondeu, e Ukai sorriu. Mesmo no escuro, Takeda sabia que ele estava a sorrir apenas pelo tom de voz dele.

“Obrigado, sensei. Boa noite.”

“Boa noite, Ukai-kun. Tenha bons sonhos.”.

E ele teria.

Ukai acordou mal amanheceu, como sempre. Habituado a levantar às 6 da manhã para ir trabalhar, mais horas de sono que isso era uma tortura.

Takeda ainda dormia e o loiro sorriu para si mesmo ao ver o quão adorável o professor ficava adormecido e tranquilo com os cabelos desalinhados. O seu coração aquecia sempre que olhava para ele, na realidade…

Suspirou, sacudindo a cabeça assim que imaginou a possibilidade de se poder enroscar com ele no futon e fez todo o cuidado para se vestir e sair sem fazer barulho.

O seu plano era simples: preparar um pequeno-almoço rápido para as “crianças” e aproveitar para irem fazer corrida matinal na praia, já que a areia era um bom lugar para treinar resistência.

Mal se aproximou do conjunto de tendas dos alunos, um pouco mais à frente, pestanejou e sorriu, abanando com a cabeça.

O sol ainda mal tinha raiado e Kageyama e Hinata estavam já lá fora, sentados num rochedo, ao lado um do outro. Hinata ajeitava os cordões das sapatilhas e Kageyama limava as unhas. Conversavam num tom baixo, bem, discutiam daquela maneira esquisita deles. E claramente que não havia restos de sono em nenhum dos dois.

Ukai sempre se esquecia que Hinata também se levantava muito cedo para atravessar toda a montanha de bicicleta para ir para a escola.

E que Kageyama tinha começado a fazer o mesmo só para lhe fazer companhia.

Cruzou os braços e só ficou a observar, esperando que eles dessem por si.

“Ka-ge-yama-yama.”, Hinata disse com um biquinho, “Podes parar de tratar das tuas mãos de princesa e ajudar-me a alongar?”

“Não. E não são mãos de princesa, as tuas é que são de ogre.”

Hinata resmungou e deu-lhe um empurrão leve com o ombro, “Kageyama!”

O moreno encarou-o emburrado, “Os meus levantamentos estão dependentes das minhas mãos. Tem de estar tudo direito.”

Hinata pestanejou. Kageyama tinha umas mãos bonitas e bem tratadas: não era de admirar, ele até creme usava todos os dias! O ruivo olhou para as suas e franziu o sobrolho. Eram mesmo mãos de ogre e Hinata agora que pensava nisso não as achava nada atrativas.

“Kageyama.”

“Que foi agora?”

Estendeu-lhe a mão, “Lima as minhas unhas!”

O moreno encarou-o de novo, “Quê?”

“Lima as minhas unhas.”, repetiu mais devagar, como se fosse esse o problema, “Talvez os meus spikes fiquem melhores assim também!”

Kageyama ficou só a julgá-lo por uns momentos e depois com um suspiro de resignação, ele deu de ombros e segurou a mão dele com a sua esquerda, bem mais delicado do que Hinata esperava, usando a direita para limar. Enquanto lhe dava um sermão sobre roer unhas ser um hábito nojento, pensava em como a mão do baixinho era pequenina em comparação com as suas. Mais quente também, porque Hinata era sempre quente e energético.

Ukai sorriu ao ver os dois e tossiu levemente para indicar que estava ali, sem querer interromper nada, ao perceber que eles não o notariam. Hinata quase saltou pelo ar com o susto, meio se escondendo atrás do setter, mas Kageyama beliscou-o e resmungou para estar quieto antes que lhe fosse limar o dedo inteiro.

“Bom dia. Já acordados?”

O ruivo logo sorriu abertamente, “Treinador! Sim. Não consigo dormir mais. E nós de manhã fazemos sempre corridas, então decidimos ir correr na praia. O treinador podia vir connosco!”

Ukai sorriu de lado, “Eu por acaso pareço alguém que gosta de correr?”

Os mais jovens trocaram um olhar antes de o encarar e responder em uníssono, “Sim.”

O treinador rolou os olhos, ‘Mas não gosto.”, resmungou, “Bem, já que estão acordados, querem fazer parte de uma missão secreta?”.

Hinata animou logo e afastou-se de Kageyama para se poder levantar, olhando para um lado e para o outro, a verificar que ninguém estava ali.

“Uma missão secreta!?”, sussurrou (bem, ele falou como se sussurrasse) e Kageyama levantou também, “Tu não sabes guardar segredos.”

Hinata fez biquinho, “Sei sim! Nunca contei ao Tanaka-senpai que foi você quem mordeu a caneta dele!”

“Hinata-boke, não fale isso alto!”

Ukai riu, chamando a atenção dos mais jovens, e balançou a mão, “Só preciso da ajuda de você para organizar o café da manhã. Que tal?”.

“Isso não é missão secreta!”, Hinata disse de braços cruzados, “Não é segredo para ninguém que tomamos o pequeno-almoço todos os dias.”

Kageyama rolou os olhos, “É segredo que somos nós a preparar.”

“Mas eles vão descobrir.”

“Não se tu não contares.”

“Mas-”

Ukai deu um longo suspiro e pigarreou, “Sim ou não?”

“Sim, treinador!”, os dois responderam em uníssono e foram procurar pelas toalhas para estender e pela comida, enquanto Ukai fazia uma fogueira pequena para aquecer o café.

Logo os alunos ajeitaram tudo: as almofadas estavam devidamente afofadas (Hinata as amassou até seus pulsos doerem), os guardanapos estavam dobrados sobre os pratos e o café estava quase pronto.

“Treinador, terminamos!”, Kageyama e Hinata disseram ao mesmo tempo, e Ukai sorriu, “Podem acordar e chamar o restante do time e as meninas? Eu espero vocês aqui”.

Os dois assentiram e apostaram corrida até a área das barracas, fazendo Ukai rir de leve.

Sua animação aumentou quando ele percebeu Takeda a se aproximar, acenando para si, “Bom dia, Ukai-kun”.

Ukai acenou de imediato feito idiota, “Takeda-sensei! Bom dia.”

“Vou preparar-”

“Nós já preparamos!”, disse animado e apontou para a toalha enorme no chão junto da areia, “Não queremos que tenhas o trabalho todo.”

Takeda piscou, olhando para a arrumação que os mais jovens haviam preparado.

“Oh, mas ontem também não ajudei!”, ele riu, as bochechas vermelhas pela emoção, “Isso não é justo, Ukai-kun”.

O loiro riu, “A vida não é justa.”, implicou carinhosamente e logo viu que Hinata e Kageyama voltavam a correr, já a discutir quem tinha ou não ganho a corrida.

“Bom dia sensei!”, disseram ao mesmo tempo — Hinata aos berros e Kageyama no seu murmúrio sério de sempre. O mais velho acenou, “Olá, bom dia.”

“Gosta do nosso pequeno-almoço? Fomos nós que preparamos e-”

Kageyama tapou-lhe a boca com a mão, “Calado, idiota. É pra ser surpresa, lembras!”

O ruivinho resmungou, não dando para entender o que dizia e lambeu a mão do setter, que a afastou, “Que nojo!”

“É só saliva Kageyama, por favor pára de ser purico.”

“Eu não sou purico!”

Takeda pigarreou, “A palavra é ‘púdico’”

“Isso aí”, Hinata falou, e Takeda suspirou, sorrindo em seguida.

“Mesmo que seja surpresa, eu já estou aqui… então já posso saber, não acham?”

A dupla trocou olhares confusos, e Hinata olhou para Ukai: “Takeda-sensei pode saber do nosso segredo?”, ele questionou, e Kageyama lhe deu um murro na cabeça, “Agora nem adianta perguntar, seu idiota, o sensei já sabe!”

Takeda riu, cobrindo os olhos, “Sei do que? Eu não vi nada~”

Hinata pousou as mãos na cintura, “Ah! Vês, Kageyamayamayama, o sensei não viu!”

“Tu tens areia no lugar de cérebro!”

“Tu que tens!”

Começaram ali uma guerrinha de empurrões e só pararam quando Tanaka se aproximou por trás e segurou nos dois pelo colarinho como se fossem gatos, “Ok, ok. O senpai vai aqui separar o Neurónio e evitar guerras, pode ser?”

Hinata, por ser baixo, começou a sacudir as pernas para se livrar de Tanaka, mas isso só fez o mais velho rir e o segurar mais pra cima.

Takeda voltou a rir, inocente sobre os olhares carinhosos de Ukai, e sorriu aos alunos, “Bom dia, turma. Vamos ver a surpresa que Ukai-kun, Hinata-kun e Kageyama-kun prepararam para nós?”.

Tsukishima deu de ombros, “Os lunáticos provavelmente mais atrapalharam que ajudaram, mas claro, estou com fome.”.

A dupla, claro, logo começou a reclamar que Tsukishima era irritante e feio (o que ofendeu mais Yamaguchi que o próprio Tsukishima), e Tanaka precisou os conter com puxões de orelha, “Hey, parem de brigar, novatos!”.

Ukai soltou um suspiro e colocou as mãos na cintura, “Se vocês não se comportarem, vão passar o dia todo correndo na areia no lugar de se divertir. É o que querem?”.

Foi o suficiente para Hinata ficar quieto, “Não…”

“Óptimo, porque temos uma partida de volley de praia para--”

O ruivo já voltou aos saltos, agarrou Kageyama pelos ombros e abanou-o, “Vamos treinar o novo ataque! Vamos! Vamos!!”

Antes que Kageyama começasse aos berros, Daichi pousou a mão sobre o ombro do ruivinho, “Primeiro, comer.”

Embora Hinata reclamasse de leve, obedeceu e seguiu para o local do café da manhã, sentando-se, claro, ao lado de Kageyama.

Enquanto os alunos se ajeitavam, Yachi e Shimizu se aproximaram de Takeda, perguntando se o adulto poderia tirar algumas fotos do time durante o final de semana como a loira faria. “É um novo projeto que Hitoka-chan e eu estamos trabalhando, e seria ótimo se você pudesse nos ajudar, Takeda-sensei”, Shimizu disse, e Takeda, óbvio, sorriu, “Claro, deixem comigo!”

Yachi agradeceu, a câmera ao redor do pescoço, e explicou que ele poderia utilizar uma segunda câmera que ela havia trazido. Takeda ficou feliz ao ver que era uma câmera comum, não uma semi-profissional como sua aluna usava, e logo sugeriu: “Alunos, Ukai-kun, por que não se juntam? Quero tirar uma foto de vocês!”

O loiro pestanejou, “Oh, e eu tenho de aparecer?”

“Claro que sim! Fazes parte da equipa!”

O treinador coçou a nuca, visivelmente atrapalhado. Ele não era… muito dado a fotos, nem gostava muito da sua aparência. Mas se tinha de ser, tinha de ser.

Os alunos mais entusiasmados já prepararam as poses. Noya foi para o colo de Tanaka, que o segurou como se fosse o Titanic, Asahi ajudava a segurar, aflito que o líbero fosse cair. O resto apenas levantou as mãos em sinal de paz ou passaram o braço pelo ombro do colega do lado. Hinata fez corninhos em Kageyama e Tsukishima menteve-se quieto.

“Quando eu contar até três, gritem ‘queijo’!”, Takeda disse, sorrindo.

Quando a contagem chegou no três, entretanto, os alunos gritaram as coisas mais aleatórias possíveis: Yachi, Shimizu e Daichi disseram ‘queijo’, como deveria ser; Tanaka e Noya berraram ‘Shimizu-san!’; Asahi berrou que Noya cairia; Suga falou alguma coisa sobre refrigerante de laranja; Ennoshita, Kinoshita e Narita algo sobre o Pé Grande (que fez Asahi berrar de novo); Yamaguchi apenas sorriu, fazendo sinal de paz com os dedos; a dupla começou a se empurrar e Tsukishima, como sempre, não fez nada.

Ukai manteve-se muito direito ao lado de Tsukishima, embora logo após Takeda baixar a câmera, ele puxasse as orelhas de todos os alunos que causaram confusão, “Vocês estragaram a foto!”, ele censurou, mas o professor ergueu a mão livre, “Ficou ótima! Capturou bem o espírito do time!”

“Sim, um espírito caótico”, Tsukishima disse, e Kinoshita começou a implicar com seus colegas: “Vocês sabiam que fotos conseguirem capturar nossas almas? É verdade, foi meu avô quem me contou!”.

Tsukishima ajeitou os óculos, “Então não tem problema. O Neurónio já sacrificou as almas. Um a ver se deixa de ser anão e o outro a ver se aprende inglês.”

“Seu grande--”

“Vá, vá.” Sugawara deu palmadinha nas costas de Hinata — já meio que a agarrar no tecido para o segurar se necessário, “Comportem-se. Depois queremos essa foto, sensei!”

Takeda sorriu, “Claro, acho que Yachi-san não vai se importar, não é mesmo?”

Yachi ergueu o polegar, “Podemos fazer um álbum de fotos da Karasuno! Seria muito divertido!”, ela disse, e logo todos se animar.

Certo, talvez Ukai, Kageyama e Tsukishima não, mas os demais pareciam bem empolgados para tirar fotos. Principalmente Tanaka, que já tirava a camisa e fazia poses, “Serei o jogador mais fotogênico de todos os tempos!”

“Tanaka-san, por favor vista-se”, Tsukishima pediu, a cara de tédio igual.

Os alunos, então, voltaram sua atenção à comida, e logo Takeda sentou-se novamente ao lado de Ukai, que lhe alcançou uma xícara de café, “Sem açúcar, como você gosta, sensei”.

Takeda pestanejou e segurou no copo de plástico, “Oh obrigado…”

Tinha quase a certeza que não tinha comentado nunca com Ukai aquele pormenor de que gostava do seu veneno puro e sem açúcar. Talvez Ukai fosse mesmo uma pessoa observadora.

O outro sorriu-lhe levemente, “De nada…”

Como forma de retribuir o favor, chegou-lhe uma das sandwiches com fiambre e manteiga, “Sem queijo, como gostas.”

O treinador piscou, sorrindo de leve com aquele gesto carinhoso do seu sensei favorito.

De sua pessoa favorita.

“Obrigado, sensei!”

Suga cutucou o namorado com o cotovelo (fazendo-o tossir seu suco de limão), e sussurrou: “Eles são tão adoráveis e lentos que chega a doer!”.

Daichi olhou na direção deles por meio segundo antes de encarar o grisalho, “Suga…”

“Que foi, é verdade.”, ele fez biquinho, “Tenho vontade de os empurrar…”

“Você prometeu ter paciência”, ele suspirou, e Suga aumentou o biquinho, “Eu sei, mas…”

Tsukishima pigarreou, e os mais velhos olharam para si, “Com os lunáticos por perto é impossível. Melhor desistir”.

Suga abanou com a cabeça, “Não podemos desistir!”, coçou a nuca pensativo, “Só precisamos que o Kageyama e o Hinata entendam.”

Tsukishima deu de ombros, “Que é o mesmo que desistir.”

“Tsukishima…”, Daichi suspirou.

O mais jovem os observou com o mesmo olhar de tédio de sempre, questionando: “Por que está tão interessado em juntá-los?”, questionou ao vice-capitão, que retrucou: “E por que está tão interessado em me fazer desistir?”.

Tsukishima piscou, e Suga viu o olhar dele ser desviado em direção a Yamaguchi, que conversava animadamente com Yachi.

Ah…

A conversa foi logo interrompida por Kinoshita, que colocou seu braço ao redor dos ombros de Suga, “Hey, o Narita disse que encontrou uma toca de caranguejos! Estamos pensando em ir vê-los depois do café da manhã, o que acham?”

Daichi sorriu, “Contanto que prometam não incomodar os animais, claro”

Hinata e Kageyama logo voltaram sua atenção aos mais velhos, “Caranguejos? Podemos mesmo?!”, questionaram, e o ‘pai’ da equipe voltou a sorrir, “Já disse que sim. Mas comportem-se e--”

“Vamos caçá-los para o almoço!”, Tanaka e Noya berraram, o mais alto logo tirando a camisa e a rodando em cima da cabeça.

“Tanaka, não”, Daichi censurou.

"Mas Daichi-San! Somos como os guerreiros, temos de caçar e-"

"Não."

"Eu não sei como é que não tens cabelos brancos de tão chato que és."

"O Suga ficou com todos.", implicou.

“Hey!”, Suga resmungou, “Tenho cabelos platinados, não brancos!”

“É basicamente a mesma coisa”

“É nada e--” Hinata saltou na sua frente, “Suga-san, vamos ver os caranguejos? Por favor, por favor!”, ele pediu, animado e com a boca suja de geléia.

Suga suspirou e pegou num guardanapo para lhe limpar a boca, olhando para os adultos que conversavam alheios ao caos. Deviam estar acostumados.

“Certo, vamos lá. Mas antes, vamos arrumar as coisas”, disse e se levantou.

Animados, os garotos do primeiro e segundo ano se levantaram rapidamente e começaram a ajeitar tudo, fazendo Ukai reclamar que não havia terminado seu sanduíche. Yachi, ao descobrir que veriam caranguejos, saltou alegremente até Hinata e perguntou se poderia tirar fotos do ruivo com os animaizinhos na mão. Embora Daichi tenha dito pela milésima vez que não era pra ninguém mexer nos animais, o ruivo o ignorou totalmente e prometeu para sua amiga que posaria para ela.

Daichi suspirou, sentindo a responsabilidade de ser capitão e ‘pai’ daquele time fazer suas costas doerem. Às vezes ele entendia o motivo de Ukai e Takeda gostarem de beber, embora ele mesmo fosse contra bebidas alcoólicas.

Seguiram animadamente para onde Kinoshita disse que havia visto os caranguejos. Hinata, Noya e Tanaka eram os primeiros a correr junto do pinch server do segundo ano, sendo seguidos por um também curioso, mas mais ansioso, Kageyama. Yachi, Yamachi e Shimizu seguiam com calma, a conversar animadamente, enquanto Narita e Ennoshita tentavam acalmar os nervos de Daichi. Asahi, medroso, comentava com Suga que não era uma boa ideia mexerem em caranguejos, berrando um “Já viu as garrinhas deles?!” desesperado. Tsukishima era o último e menos empolgado da turma, ficando à frente apenas de Takeda e Ukai, que observavam um pouco mais afastados toda aquela agitação.

Ouviu o professor comentar com o treinador:

“Ah, as fotos que tirei no caminho ficaram desfocadas…”

Ukai riu de leve, “Sensei, suas mãos tremem muito… é melhor você tirar fotos quando estiver parado”

“É que eu tenho tanta coisa para fotografar! Essa praia é tão bonita e eu não venho ao litoral há anos.”, ele fez biquinho, “Fico animado…”

O mais jovem voltou a rir e estendeu a mão, “Posso?”

Takeda lhe entregou a câmera, e modificou algumas configurações para que a tela mostrasse linhas de enquadramento. Se aproximou do professor, baixando-se de leve para que ficasse numa altura mais confortável para o mais velho, “Vê esses quadrados? Vão ajudar na hora de tirar as fotos, é só enquadrar a paisagem da forma que achar melhor”.

Takeda sorriu, erguendo os belos olhos castanhos para Ukai, “Obrigado, Ukai-kun!”

Ukai sorriu, esfregando a nuca, “Que isso, sensei.”.

“Take-chan, olha só!”, Tanaka se aproximou do professor com um caranguejo nas mãos. O professor, coitado, levou um susto e quase deu um grito, mas acabou por rir e tirar uma foto de seu aluno (que logo tinha as orelhas puxadas por Daichi).

O professor voltou a rir, usando as dicas de Ukai para tirar mais fotos daquela turma energética. Yachi fazia o mesmo, o olhar dela muito mais profissional.

“Ah, a vista daqui é tão bonita!”, Takeda comentou de novo, olhando ao redor, “Ukai-kun, tive uma ideia!”, ele disse e segui até um rochedo ali perto.

Tinha a intenção de fotografar Karasuno de um ângulo superior, e ele sorriu alegremente quando, com muito esforço, chegou ao topo da rocha e chamou alegremente: “Pessoal, posem para a foto!”, pediu, acenando alegremente.

“Sensei, cuidado!”, Ukai pediu, e Tanaka berrou: “Take-chan vai tirar uma foto, todo mundo junto!”

O professor sorriu, vendo todo mundo se amontoar, e quando ele tirou as fotos, fez sinal de ‘ok’ com os dedos e os estudantes voltaram a observar os caranguejos.

Embora Yachi tivesse levado as câmeras para registrar o time em sintonia, ela não resistiu e acabou fotografando mais os bichinhos fofos e alaranjados do que inicialmente tinha pensado.

“Asahi, olha o caranguejo!”, Noya disse, tentando mostrar o animal para o amigo, que saiu correndo como se o caranguejo fosse um predador muito perigoso, Noya logo começando a correr atrás dele.

Não deu nem meio segundo e Tanaka e Kinoshita seguiam Noya, praticando bullying no veterano chorão.

“Pessoal, não sejam cruéis com Azumane-kun-- aaaaah!”, Takeda pediu enquanto descia da rocha…

Só que seus chinelos escorregaram na superfície molhada e cheia de limo, e enquanto ele terminava de chamar a atenção dos mais jovens, ele caiu com um baque seco nas pedras, logo sendo atingido por uma onda.

“Sensei!”

“Take-chan!”

Ukai e os alunos correram até Takeda, que mantinha o braço esquerdo próximo ao peito. O treinador logo reparou que o pulso do professor estava, literalmente, o dobro do tamanho e roxo, assim como ele tinha os joelhos ralados.

“Takeda-sense, está tudo bem?”, Shimizu questionou, preocupada, e Takeda, para acalmar seus alunos, sorriu com dificuldades, assentindo.

“Está tudo bem… Yachi, não se preocupe, salvei sua câmera!”.

Ela choramingou logo, aflita e Ukai pediu para todos se afastarem, "Sensei!", ele também tentou manter a calma, sem muito sucesso, "Bateste com a cabeça? O que dói?”

Takeda continuava sentado sobre as pedras, as pernas um pouco trêmulas. Ele sentia imensa dor no pulso, mas precisava manter a própria calma se quisesse que os mais jovens também se acalmassem.

“Ora, ora, foi só uma queda!”, ele sorriu forçado, e Ukai se ajoelhou ao seu lado, o olhar cheio de preocupação.

“Pareceu uma queda feia, Take-chan!”, Tanaka disse, coçando a nuca, e Ukai franziu o cenho, “Certo, certo… preciso que todos se afastem.”, envolveu Takeda pelo tronco, ajudando-o a se levantar. O professor gemeu baixo de dor, mas manteve o sorriso, “Shimizu, pode trazer o kit de primeiros socorros? Sawamura, me ajude com o sensei. Yachi, está tudo bem, calma…”, Ukai tentou controlar os jovens, e Yamaguchi colocou uma mão sobre o ombro da amiga, “Yachi, vamos ajudar a Shimizu-san”, convidou e a loira, ainda a soluçar baixo, o seguiu.

“Sensei, como podemos ajudar?”, Hinata e Kageyama se ofereceram (logo discutindo sobre quem realmente iria ajudar), e Ukai rosnou de leve, ele e Daichi apoiando o professor.

“Se querem ajudar, tragam uma cadeira pro sensei sentar!”.

Os dois assentiram e saíram a correr, como sempre.

Takeda suspirou, “Está tudo bem, está tudo bem. Foi só um acidente.”

Ukai fazia força para segurar a maior parte do peso do professor, sendo complicado de atravessar as rochas escorregadias.

Daichi mantinha-o firme também, graças à sua força e Takeda suspirou, “Desculpem…”

Daichi, como bom capitão, foi o primeiro a falar: “Não precisa se desculpar, sensei! Estamos aqui para ajudar no que for preciso!”.

No instante seguinte, Kageyama e Hinata voltavam com uma cadeira cada, o ruivo já berrando: “Eu cheguei primeiro, ele vai sentar na minha cadeira!”

“Hinata-boke, ele vai sentar na minha!”

“Calados os dois!”, Daichi e Ukai falaram ao mesmo tempo, o capitão com aquela aura assustadora que os novatos só haviam visto no primeiro dia de aula. Hinata ainda tinha pesadelos com o rosto do mais velho, e Kageyama sentia arrepios só de se lembrar.

“Sensei, sente-se”, Ukai pediu, a voz baixa, e Takeda obedeceu (Kageyama sorrindo vitorioso por ele ter sentado na ‘sua’ cadeira).

“Ora, ora, já disse que está tudo bem!”, o professor falou, e logo Shimizu voltava com o kit de primeiros socorros, “Takeda-sensei, como posso ajudar?”

O treinador pediu, então, que a aluna fizesse uma tipóia para Takeda conseguir apoiar o braço sem mexê-lo muito. Shimizu assentiu e fez seu melhor trabalho, sempre gentil.

Ukai mordeu o lábio inferior, atento ao pulso machucado de Takeda. Pelo inchaço, o treinador já havia previsto o pior, e ele sabia que o professor precisava de cuidados médicos.

Ele olhou para Daichi seriamente.

“Sawamura? Preciso que você, Sugawara e Shimizu cuidem de todos enquanto eu levo Takeda-sensei ao hospital mais próximo”.

Os veteranos trocaram um olhar, mas Takeda interrompeu completamente o pedido: “O que? Ukai-kun, você não pode deixar os alunos sem supervisão! Além de ilegal, é perigoso!”.

Daichi abanou com a cabeça, “Professor, não se preocupe. Mesmo os Problemáticos não são mais crianças e vão compreender.”

Ukai concordou,”Sim. Estão todos preocupados contigo e tens de ir ao hospital.”

“Mas-”, ele já começou aflito e o treinador abanou com a cabeça, “Eu sei que não é nada de grave, mas temos de ter a certeza. Quanto mais depressa formos, mais depressa voltamos,está bem?”

Takeda, mais uma vez, balançou a cabeça, “Não posso fazer isso. É meu dever como professor e orientador acadêmico zelar pela proteção e bem estar dos aluno e--”

Seu discurso foi interrompido por Tanaka, que corria na direção deles com três mochilas, uma nas costas e duas nos braços, “Take-chan! Vamos ao hospital, já pegamos nossas mochilas e o pessoal todo está na van esperando!”, disse, entregando uma mochila para Hinata e outra para Kageyama.

O professor piscou, “Mas--”

Yachi logo apareceu atrás de Tanaka, “Sensei! Já está tudo pronto! Shimizu-san, eu trouxe sua mochila também!”, a loira sorriu, as bochechas coradas por causa de tanta correria.

“M-mas assim vocês não vão aproveitar nada do acampamento… já está para escurecer, eu posso pegar um táxi…”.

“Claro que vão.”, Ukai disse num tom tranquilizador, “Vão na mesma poder fazer o que estava planeado. E nós vamos ao hospital e voltamos rápido, porque não vai ser nada de grave, certo?”

“Mas--”

Tanaka, pela primeira vez na vida dos adultos, falou seriamente: “Take-chan, todos nós estamos preocupados com você. Nós organizamos o acampamento e o Tsukishima e o Suga-san recolheram todas as nossas coisas. Nós queremos acompanhar vocês no hospital, prometemos nos comportar.”, ele garantiu, e Takeda sentiu o coração encher de alegria.

“B-bem…”, ele segurou o choro, sorrindo, “Certo, mas tenho certeza de que voltaremos cedo e poderemos aproveitar o dia de amanhã.”.

Tanaka levantou o polegar e sorriu abertamente, “Vamos sim, Take-chan! Só não vai poder jogar volley connosco.”

O mais velho riu, um pouco mais aliviado, “Nem tinha intenções. Prefiro ver-vos jogar.”

“Prometo marcar um pouco por si!”, Tanaka disse animado.

O coração de Takeda acalmou um pouco e Ukai tinha um orgulho muito grande nas suas crianças.

Todos seguiram para a van, Takeda ainda se apoiando em Daichi, e Ukai nem precisou mandar os alunos se aquietarem, já que todos estavam sérios e prontos para partirem. Tsukishima entregou a chave da cabana para o treinador, que agradeceu e foi para trás do volante.

Ao chegarem ao hospital mais próximo, Ukai pediu para Daichi e Suga ficarem de olho nos alunos e entrou com Takeda.

“Ah, espero que o Take-chan fique bem”, Tanaka disse, Shimizu assentindo, “Tenho certeza de que sim…”.

Yachi suspirou e abanou com a cabeça, “É tudo culpa minha… se não tivesse dado a ideia idiota das fotos…”

“Nah, não é sua culpa”, Tanaka garantiu, “O Take-chan vive caindo, só aconteceu dele cair de um lugar mais alto”, ele riu, e os veteranos riram com ele.

“É verdade, Yachi-san. O Takeda-sensei é uma pessoa um pouco desastrada… tenho certeza de que ele não culpa você.”, Daichi garantiu.

A loirinha assentiu, mas não parecia convencida disso. Hinata saltitou até ao lado dela e deu-lhe um meio abraço, “Além disso, a tua ideia foi fantástica!”

“Foi?”

O ruivo assentiu, erguendo o polegar, “Aham! Se não fosse pela sua ideia, ele não teria se machucado! Agora que o treinador Ukai vai cuidar dele, eles finalmente podem se casar!”.

Houve um silêncio de alguns segundos, que pareceram alastrar-se por uma eternidade, até Kageyama o quebrar, “Tu és idiota. Eles não se podem casar sem namorar primeiro.”

Mais um silêncio se seguiu até Tsukishima, mais perplexo que qualquer outro aluno, questionou:

“Espera, vocês repararam nisso?’

“Ahm… está meio óbvio? O treinador Ukai só sorri pro sensei!”, Hinata fez biquinho, Kageyama completando: “E uma vez o treinador deu um picolé pro Takeda-sensei. Ele não gosta que a gente tome picolé porque não alimenta bem.”.

O loiro suspirou, esfregando as pálpebras, ‘Se até esses dois acéfalos perceberam, toda Miyagi percebeu.”, resmungou e colocou os óculos de volta no rosto.

“Isso é ruim, Tsukki?”, Yamaguchi questionou, e o mais alto olhou para Suga, que estava bastante sério, “É uma cidade pequena e eles são homens. As pessoas falam.”.

A maioria suspirou, ficando séria também, mas Yachi e Hinata eram demasiado inocentes para entender o real problema.

“Qual é o problema de falarem?”, Yachi comentou, “Eles são os dois solteiros, podem fazer o que quiserem.”

Hinata concordou, “Sim. Quer dizer, sim? Nenhum deles é casado… pois não?”

Shimizu suspirou, “É melhor mudarmos de assunto… podemos conversar sobre isso quando estivermos num local mais calmo”, sugeriu.

Embora os mais jovens continuassem sem entender, eles concordaram e logo o assunto mudou.

“Desculpe mais uma vez, Ukai-kun”, Takeda pediu, o braço esquerdo engessado até acima do cotovelo, “Eu não queria dar tanto trabalho assim à você e aos alunos”.

Ukai abanou com a cabeça, “Também não querias acabar as mini férias num hospital, certamente. Foi um acidente, acontece. Vamos ficar gratos que não foi grave e está tudo resolvido.”, sorriu levemente, “Melhor ainda, tudo resolvido antes do jantar.”

Takeda sorriu tristemente, “Certo… Mas eu não tenho muita fome.”

“Não ligo, vou obrigar-te a comer nada mesma.”

O professor riu baixo, segurando no braço saudável a sacola com medicamentos para dor. Ele havia fraturado o pulso e precisava tratar dos ferimentos nos joelhos. Ou seja: ele não poderia aproveitar a praia como desejava.

Ao se aproximarem da van, os alunos correram até eles, todos curioso para saber o que estava acontecendo e Yachi foi a primeira a falar: “Sensei, me desculpe! Se eu não tivesse pedido que me ajudasse com as fotos, nada disso teria acontecido!”.

Takeda sorriu ternamente, colocando a mão no ombro da aluna, “Está tudo bem, Yachi! Nada disso foi sua culpa, e fico feliz que a câmera não tenha quebrado.”, ele riu, “A foto ao menos ficou boa?”.

Ela tinha as lágrimas nos olhos. Era uma menina frágil e preocupada.

“E-Eu não sei…?”

Takeda abanou com a cabeça e tentou dar-lhe um meio abraço, sendo que Yachi logo retribuiu com todo o cuidado do mundo e choramingou.

“Take-chan, também quero abraço, isso não é justo!”, Tanaka implicou carinhosamente e Suga sorriu, “Concordo!”

“Eu também quero abraço!”, Hinata saltou junto com Noya.

“Acalmem-se, o sensei está machucado!”, Ukai ralhou, mas foi prontamente desobedecido pelos alunos, que abraçaram carinhosamente Takeda.

O professor sorriu alegremente, emocionado ao sentir tanto carinho vindo daqueles jovens. Acreditava em cada um de seus alunos, sacrificava horas e mais horas de seu tempo livre marcando treinos e amistosos; os aconselhava dentro e fora do colégio; cuidava de todos eles como se fossem seus próprios filhos… Não havia como não amar Takeda Ittetsu-sensei, e era isso que os alunos queriam que ele soubesse.

Que era amado.

“Take-chan, posso assinar seu gesso?”

“Também quero!”.

Takeda riu, “Claro, claro. Mas com calma, dói um pouquinho quando mexo o braço…”

“Eu tenho marcadores!”, Noya disse, já à procura na sua mochila, “Hey Ryuu, posso desenhar no teu braço também!”

“Sim! Faz-me tatuagens!”

O líbero riu alto e começou a distribuir marcadores pelos colegas. Suga logo desenhou um coração na testa de Daichi, que resmungou.

Entre diversos marcadores, assinaturas e desenhos, Takeda sentiu-se ainda mais especial. Yachi lhe desenhou borboletas e desejou melhoras; Shimizu fez uma carinha sorridente; Kageyama e Hinata desenharam bolas de vôlei e até mesmo Tsukishima assinou, desenhando um pequeno dinossauro ao lado do seu nome.

Em poucos minutos, o gesso do professor estava cheio de mensagens e desenhos fofos e engraçados, e Takeda chegou a desejar que não precisasse retirá-lo nunca.

“Bem, eu acho que a opção mais inteligente é voltarmos para casa”, Asahi sugeriu.

“M-mas não é necessário! A doutora disse que eu só não posso fazer esforços!”

Noya saltou, “O Asahi ‘tá certo, sensei! É melhor você descansar, ou vai estar com dor na segunda-feira!”

Yamaguchi sorriu, “Sim, e sabemos que será difícil dar aulas com o braço imobilizado”.

Ele abanou com o braço saudável, “Que tal amanhã? Está escuro para conduzir, é tarde. Vamos jantar, dormir e amanhã pensamos nisso, pode ser?”

Começaram todos a falar ao mesmo tempo e Takeda abanou com a cabeça, “Eu não vou embora sem comer marshmallows na fogueira.”

Um sorriso animado surgiu no rosto de cada um dos alunos, e logo o trio barulhento (Noya, Hinata e Tanaka) berraram: “Marshmallows!”.

Todos correram para dentro da van novamente, o clima bem mais alegre que antes, e Kinoshita puxou uma cantoria qualquer, sendo seguido pela maioria do time. Shimizu e Yachi foram ver as fotos que Takeda havia tirado.

E a foto antes da queda estava perfeita.

Assim que a comida foi servida o ambiente mudou para o de sempre. A fogueira acesa era reconfortante e as risadas dos mais jovens eram o suficiente para que Takeda se sentisse calmo. O pulso doía um pouco, mas era suportável. Todos queriam ajudar: a chegar comida, a preparar outro marshmallow, a ir buscar mais água.

E ali perto daquela praia bonita, no começo da noite, Takeda sentia o coração cheio, de um amor genuíno e puro dos seus alunos.

Aos poucos, os alunos seguiram para as suas barracas, ansiosos pelo dia seguinte.

Hinata bocejou, sonolento e encostou-se no braço de Kageyama ao voltarem para a tenda. O setter reclamou do abuso mas não faz o mínimo esforço para o afastar.

“Kageyama.”

“Que foi?”

“Aquilo que o Suga-san disse sobre o Takeda-sensei e o Ukai-san… “

“Que tem?”

O ruivinho suspirou e murmurou, “É assim tão mau dois meninos gostarem um do outro?”

Kageyama pestanejou e levantou o olhar para céu estrelado, um tanto pensativo, “Eu acho que não? Quer dizer, vai dar no mesmo, se são dois homens ou duas mulheres ou… sei lá, duas bolas de volley.”

“Também podem ser duas de futebol...”, Hinata sorriu, sentindo um estranho alívio. Apertou o abraço dele e riu sozinho, “Não acho que se fosse uma bola de ténis e uma de basquete o namoro fosse dar certo.”

“É capaz de ser complicado, a diferença de tamanho é grande.”, Kageyama disse solenemente e o ruivinho suspirou em contentamento.

“Kage-yama-yama. Aposto contigo que nem uma bola de volley ia querer namorar contigo.”

“Ela ia namorar comigo mais depressa do que contigo. Pra ti tinha de ser uma de pingue-pongue, minúscula como tu!”

Hinata faz biquinho, começou a reclamar e dali a nada corriam como loucos para a tenda.

Ukai e Takeda permaneceram sentados lado a lado, aquecidos pelo calor da fogueira.

O professor não conseguia parar de sorrir, e embora estivesse com sono, a presença de Ukai era reconfortante, e Takeda não queria deixar de conversar com o treinador.

“...E foi por isso que entrei no time de vôlei”, o loiro disse, rindo de leve, e Takeda sorriu, o braço saudável segurando uma xícara de chá.

“Nunca imaginei que você seria um aluno desleixado, Ukai-kun”, ele disse com sinceridade, e Ukai deu de ombros.

“Digamos que ter o avô como técnico me rotulou como alguém igual a ele…”

“E você queria que vissem Ukai-kun, e não Ukai-san”, o professor percebeu, e o mais jovem sorriu.

“Sim. Mas minha paixão pelo vôlei venceu qualquer birra inicial minha. Pelo menos em quadra, eu era um jogador, não o neto de alguém.”.

Takeda sorriu outra vez, levando a xícara aos lábios.

“Você sempre será Ukai-kun para mim”, ele garantiu.

O loiro coçou a nuca atrapalhado, “Esse não é o meu primeiro nome…”

O professor riu de leve, “Eu sei que não, Ukai-kun…”, disse, mas Ukai ficou um pouco sério, olhando para o mais velho com muita timidez.

“Você… pode me tratar pelo primeiro nome, se quiser… Pelo menos quando estivermos a sós”

Takeda piscou, corando até as orelhas ao ouvir a sugestão do loiro. Seu coração batia apressado, e ele desviou seu olhar para a fogueira, que estava quase apagada.

Ukai ficou quieto pelos próximos segundos, nervoso de que aquilo pudesse ser uma péssima ideia. Ele e Takeda se conheciam há pouco tempo, e o mais jovem entendia completamente que não havia intimidade o suficiente entre eles para se tratarem dessa forma.

Porém, aumentar sua intimidade com Takeda era o que Ukai mais desejava, mesmo com todos os desafios que pudessem vir a enfrentar.

“S-só…”, a voz do professor soou baixa e tímida, e Ukai se inclinou um pouco para ouvi-lo melhor, “Só se você me chamar de Ittetsu.”.

As bochechas do treinador ficaram tão vermelhas quanto as de Takeda, e ele sorriu enquanto concordava com a cabeça.

“Claro, Ittetsu-sensei.”.

Takeda sorriu, deitando sua cabeça no ombro do outro rapaz.

“Então estamos combinados, Keishin-kun”.

Ukai ficou ainda mais nervoso, mas feliz por ele estar tão perto. Parecia um sonho.

Ouviam o mar dali, mesmo que o escuro não permitisse ver, as folhas das árvores abanavam numa brisa suave e agradável, ainda mais acolhedora com o calor da fogueira.

Uma coruja, algures, piava em histeria e Takeda fechou os olhos, suspirando em puro contentamente, “Keishin-kun, por que é que as corujas piam tanto?”

Ukai suspirou, coçando a nuca, “Não faço ideia. Um casal de corujas se mudou para perto da minha janela e eu mal consigo dormir…”

Takeda riu, sentindo pena do mais jovem, “Keishin-kun, eu posso ver as corujas?”

O treinador olhou para o professor, cuja voz sonolenta soou baixa.

“Claro, Ittetsu-sensei.”

Takeda sorriu de novo, os olhos ainda fechados.

Gostava de ouvir Ukai chamá-lo pelo primeiro nome.

Suga bocejou preguiçosamente quando saiu da van, tendo dormido a viagem inteira de volta para Miyagi. O último dia de praia foi resumido em partidas de vôlei na areia e brincadeiras no mar, então todos os jovens estavam muito cansados e loucos para voltar para suas casas.

Hinata e Kageyama estavam estranhamente quietos por causa do sono, e o vice-capitão não controlou uma risada, “Kageyama-kun, Hinata-kun, eu achei que a bateria de vocês era infinita?”

Kageyama bocejou também e resmungou, “A minha é normal. Ele é que é esquisito.”

“Eu não quero ouvir isso do idiota que passa a vida a beber leite. Isso sim é esquisito.”, bocejou também e deu uma cotovelada em Kageyama.

Que lhe deu outra de volta, sonolento, “Leite ajuda a crescer, mas tu não saberias o que é isso.”

“Calado!”, resmungou e Suga suspirou, “Vá, vá, não se zanguem.”

“Ele que começou.”, responderam em unissono.

O mais velho voltou a rir, abraçando os dois pelos ombros, "Deixem toda essa energia para o treino de amanhã! Ouvi dizer que o treinador Ukai quer testar novas combinações!"

Hinata sorriu abertamente, “Oh! Boa! Eu quero experimentar!”, abanou o braço de Kageyama, “Tu também queres, não é? Não é?!”

O moreno pestanejou e assentiu, “Sim.”

E Hinata sabia que mesmo com o tom monocordio ele estava entusiasmado.

O ruivinho sorriu, e foi como se o sol estivesse ao pico outra vez. Kageyama desviou o olhar, fazendo beicinho, e Suga riu.

Ukai chamou os alunos e colocou as mãos na cintura:

“Amanhã o treino será no horário de sempre. Descansem bem essa noite porque temos muito trabalho a fazer!”.

Takeda sorriu e agradeceu mais uma vez:

“Obrigado a todos pela ajuda. Nos vemos amanhã, sim?”

Os alunos todos responderam ‘sim’ de imediato, e após algumas confusões de palavras e mochilas trocadas, seguiram para suas casas.

A sós com o professor, Ukai coçou a nuca.

“Hm… Ittetsu-sensei, ainda quer ver as corujas?”

Takeda sorriu, as bochechas vermelhas por ter sido chamado pelo primeiro nome mais uma vez, “Sim, Keishin-kun! Se não for incomodar, claro…”

Ele abanou com a cabeça, "Nunca incomodas. Não te preocupes com isso."

Mais uma vez aquele sorriso amoroso foi dirigido a si, e Ukai não resistiu em sorrir de volta. Era incrível como Takeda conseguia lhe fazer tão bem com tão pouco…

Seguiram para a casa do treinador conversando tranquilamente. O assunto, como sempre, era sobre o time, e Ukai começou a explicar as ideias que ele desejava pôr em prática na manhã seguinte. Takeda o enchia de perguntas, e o mais jovem sabia que o professor só não anotava cada novidade no seu caderno porque lhe era difícil escrever com dor.

Ukai gostava da curiosidade genuína de Takeda, e gostava ainda mais de trabalhar com o professor.

“Bem, chegamos”, Ukai disse, abrindo o portão da casa e seguindo para o pequeno jardim dos fundos. Uma enorme árvore se encontrava ali perto, e o loiro apontou para a copa: “Consegue vê-las?”

O professor ajeitou os óculos e semicerrou os olhos. Ser miope no escuro não era muito agradável.

“Hum...Não?”

Ukai riu baixo e ficou atrás dele, tentando ignorar como o seu coração ficava pela proximidade. Passou um braço pelo seu ombro e apontou na direção de um ninho que tinha dentro da parte superior da árvore, “Ali, naquele tronco. Tem uma coruja dentro, a outra deve estar a caçar. Provavelmente fazem barulho porque tiveram bebés.”

O professor sentia a respiração quente de Ukai na sua orelha, e ele fechou os olhos por um instante antes de olhar para onde o mais jovem apontava. Tentou acostumar sua visão com a péssima iluminação, e sorriu ao conseguir perceber a silhueta da ave.

“Sim! Oh, que gracinha!”, ele riu e olhou sobre o ombro, o rosto próximo do de Ukai, “Corujas são aves extremamente inteligentes! É uma pena que estejam incomodando seu sono, Keishin-kun, eu as adoro!”

Ukai corou outra vez quando Takeda olhou para si.

Caso alguém os visse tão perto um do outro, pensariam besteiras.

“Sim, elas são fofas”, o treinador disse, voltando a ficar ao lado do professor, que sequer percebeu seu acanhamento.

Os dois ficaram em silêncio por um momento, ouvindo a coruja a crocitar, e Takeda chamou baixinho: “Keishin-kun?”, o loiro olhou para si, “Você… Você não quer assinar meu gesso também?”.

Ukai piscou, sorrindo em seguida.

“Quero”.

Takeda, então, vasculhou pela sua mochila um marcador, e entregou ao treinador.

A ponta de seus dedos roçaram de leve, e Ukai demorou um pouco mais do que o necessário para pegar a caneta e começar a escrever.

Takeda só conseguiria ler a assinatura de Ukai quando voltasse para casa, mas ele preferiu continuar mais algum tempo a observar as corujas com o mais jovem.

Afinal, gostava da companhia dele.