Seasons Change
3 Outono
Notas iniciais
Outono
Suga girou na cama e abraçou Daichi de frente, escondendo o rosto no peito do mais jovem. Estava uma manhã úmida e fria, e o vice-capitão estava com uma preguiça enorme de levantar.
“Bom dia, Suga…”
“Hm… ainda é cedo, Daichi… e é sábado…”
“Sim, mas hoje é o festival de Halloween. Temos que ir para o colégio.”.
“Temos mesmo?”, suspirou de forma dramática e fez-lhe carinho nas costas, “Está frio lá fora e está tão quentinho aqui~”, a sua mão gelada entrou para dentro da t-shirt velha que o capitão usava para dormir.
O pobre Daichi corou até as orelhas. Por mais que estivesse namorando Suga há alguns meses, ainda ficava muito acanhado quando o mais velho agia assim. Mesmo que os toques do casal continuassem inocentes, o moreno não estava acostumado a ter sua pele tocada por outra pessoa.
“Precisamos… ou não receberemos parte da nota. E sei muito bem que você não quer deixar de jogar só porque precisa fazer recuperação.”.
Suga resmungou e voltou a esconder o rosto no peito do namorado.
“Ugh, que chato!”, suspirou, “Qual sua fantasia mesmo?”
“Minha irmã insistiu que eu fosse de múmia. Parece que ela viu algum filme e gostou do personagem”.
“É, tem tudo a ver contigo: velha e chata.”
Daichi riu e despenteou-lhe os cabelos, “Os meus colegas de equipa deixam-me velho e chato. O meu vice-capitão também.”
O mais velho rolou os olhos e afastou Daichi ao empurrá-lo gentilmente para trás pelo rosto, “Seu chato~”
Daichi voltou a rir, “E a sua fantasia?”
“Vampiro!”, disse com entusiasmo, “Vai ser divertido assustar o Asahi com minhas presas falsas~”
“Suga, por favor não faça isso com o pobre Asahi…”
“Mas é divertido!”
“Ele não merece…”
“Tenho a certeza que o Noya o ajuda.”, sorriu.
Daichi suspirou, corando de leve ao receber um beijinho do seu namorado.
“Eu tenho que ir para casa buscar minha fantasia… nos encontramos no colégio?”
“Claro… Mas fique para o café, meus irmãos ficarão chateados se você não provar as panquecas que eles tentaram fazer”
“Elas são seguras para comer?”
“Sim, só ficaram sem sal”
Riu, “Ah, então está tudo bem!”
Hinata chegava no colégio quando percebeu uma sombra a segui-lo. Ele olhou sobre ombro e deu um berro ao ver um fantasma.
“N-NÃO ME MATE, SENHOR FANTASMA, EU SOU JOVEM DEMAIS PARA MORRER!”
“Hinata-boke, sou eu!”
Hinata deu um guincho, “OK, ISSO É PIOR QUE SER UM FANTASMA VERDADEIRO!”
Kageyama bufou e tirou o lençol que lhe tapava a cabeça, “Tu és tão idiota!”
O ruivo fez biquinho, ajeitando as palhas que saíam de suas mangas. Ele estava vestido como um espantalho, e Kageyama sabia que a fantasia havia sido feita às pressas.
"Você não pode simplesmente aparecer atrás das pessoas vestido assim!"
"Posso sim, estar fantasiado é uma das regras do festival de hoje. Não tenho culpa que você seja tão medroso assim", resmungou.
“Eu não medroso, tu é que és assustador! Além disso, a fantasia não combina contigo!”
“A tua também não combina!”
“Claro que não combina! Os espantalhos são altos, senão não vistos no meio do milho, oh grande cérebro.”
"Viu? Por que não se fantasiou de laranja? Faria muito mais sentido"
Hinata franziu o cenho, cruzando os braços.
"E por que você não se fantasiou de rei da quadra? Seria mais assustador "
Kageyama pestanejou e mentiria se dissesse que o comentário não magoou um pouco. Deu de ombros e voltou a caminhar, “Tanto faz.”, murmurou e deu-lhe costas, “Nem sequer me queria fantasiar.”
O ruivo se colocou ao lado dele, “Nem eu, mas não temos muita escolha…”, fez biquinho, “Espero que a minha fantasia não seja a pior, a Natsu roubou algumas das minhas palhas para fazer cestinhas!”
Kageyama agora levava o lençol na mão, enrolando-o e desenrolando com as mãos em distração, “A Natsu também vem?”
Hinata sorriu, assentindo, “Sim, ela e a mamãe querem ver nossa Casa Assombrada! Só não podemos assustar muito a Natsu ou ela não consegue dormir de noite”, pediu.
Kageyama assentiu, “Tudo bem. Se ela consegue viver contigo e não se assustar, também deve conseguir ver a Casa Assombrada.”
O ruivinho beliscou-lhe o braço, “Tu és insuportável!”
“Tu também.”
Hinata fez biquinho, sorrindo assim que viu Suga mais adiante, “Suga-san!”
O veterano sorriu, mostrando as presas falsas, “Hinata-kun, Kageyama-kun!”
“Uau! Você é um vampiro! Que legal! O Kageyama é um fantasma deprimente!”, disse sem nem pensar.
O grisalho inclinou levemente a cabeça e pestanejou, encarando o moreno, que agora estava vestido normal porque ainda segurava o lençol.
“Deprimente? Está tudo bem, Kageyama?”
O moreno deu de ombros, "Ele está falando isso, mas berrou como um bebê mal me viu!"
"Porque você é feio!"
Kageyama franziu o sobrolho e encarou-o, “Não precisas de me lembrar o tempo todo idiota!”
Pegou no lençol de novo e usou-o para se tapar. Pronto, assim ninguém tinha de ver a sua cara. Talvez a ideia da fantasia não fosse assim tão má, afinal de contas.
Suga e Hinata trocaram um olhar, e o ruivinho seguiu atrás dele.
"Kageyama-yama-yama!", saltou nas costas dele, "Por que está azedo? Outro gato fugiu de você?"
O moreno tentou livrar-se daquela ‘pulga’, mas Hinata tinha mais força do que parecia.
“Deixa-me em paz, seu chato!”
O menor desceu, deixando que Kageyama se afastasse a bater os pés.
"Ué… ele está mais mal-humorado que o normal…", disse Suga.
Hinata cruzou os braços, “Porque ele é um chato!”
O grisalho suspirou e despenteou-lhe os cabelos carinhosamente, “Talvez tenhas de ser mais gentil com ele.”
"Ele não aceita gentileza de ninguém", Hinata lembrou, "Nunca entendi o motivo, mas ele sempre acha que estamos fazendo piada com ele…".
Sugawara suspirou de novo e abanou com a cabeça, observando as costas do outro setter que ia já ao longe, “Eu tenho uma teoria.”
“Tens?”, Hinata pestanejou.
“Sim. É que ele é muito inseguro e não confiança em si mesmo.” , explicou calmamente, “Sempre que dizem alguma coisa ele acha que é piada, porque não acredita que possa ser verdade, e isso magoa.” , suspirou de novo e voltou a despentear os cabelos fofos do ruivo, “Ele não vai por mal, aliás, ele não consegue controlar. Certamente que já ouviu tantos comentários maldosos que lhe custa aceitar um elogio, mesmo que seja genuíno.”
Hinata piscou, fazendo biquinho outra vez.
"Mas eu realmente acho ele legal e um ótimo jogador!", seus olhos brilharam, "O Kageyama pode ser irritante e assustador, mas jogar com ele é divertido e sei que estamos cada dia melhores. Eu já tentei dizer isso várias vezes, e sempre apanho".
Suga sorriu, "Que tal tentar dizer isso de novo? De preferência quando estiverem só vocês dois?"
"Oh! Pra ele não ficar tímido com o time?"
"Isso!"
O ruivinho sorriu, saltando em seguida, "Eu vou! Obrigado, Suga-san!", e saiu a correr: "Kageyama! Vamos apostar corrida!".
O ‘fantasma’ resmungou, “Não quero.”
Hinata prontamente o ignorou e o puxou pelo pulso, "Vamos! Se eu ganhar, você vai jogar bola pra mim! Se você ganhar, eu deixo você escolher alguma coisa!".
Kageyama quase que deu um guincho e tentou fazer força nos calcanhares para não ser arrastado — mas foi na mesma.
“Não quero!”
Como era mais forte que Hinata, o pobre ruivinho não conseguiu tirá-lo do lugar.
Então, ele suspirou e olhou para Kageyama, ainda lhe segurando o pulso.
“Você está chateado que eu disse que você é feio?”, se virou para o moreno, sério como poucas vezes o mais alto havia visto, “Não é verdade. Eu não acho você feio… Na verdade, você é… bem bonito”, admitiu, “Não precisa levar tudo o que eu digo a sério. Você está muito legal como fantasma”.
Kageyama não respondeu e Hinata simplesmente sabia que ele tinha aquela expressão irritada e assustadora, mesmo que na realidade não conseguisse ver por baixo do lençol. Hinata suspirou e percebendo que ia continuar o silêncio (que ele odiava) tomou medidas mais drásticas e levantou o lençol, entrando para dentro dele.
Esperava que Kageyama estivesse furioso, mas não… ele estava os olhos humedecidos e as bochechas rosadas.
“Kageyama…?”, chamou baixo, sinceramente surpreso com a expressão dele, e Kageyama cobriu a boca com a mão, acanhado.
O setter se afastou ao ouvir a voz de Narita, e correu para dentro do colégio deixando um surpreso e confuso Hinata para trás.
“Tsukki!”, Yamaguchi chamou ao ver o loiro, acenando alegremente, “Você realmente veio como o monstro de Frankenstein!”
Tsukishima ajeitou os óculos sobre o nariz, “Você insistiu”, ele resmungou, “Passou semanas me enchendo o saco para fazermos dupla de fantasia.”
O moreno sorriu, “Sim! Eu achei que ficaria divertido! A Yacchan aceitou vir de noiva de Frankenstein, ela deve chegar a qualquer momento!”
Encarou-o, “Então já não somos uma dupla.”
Yamaguchi não percebeu o olhar do seu amigo, e continuou a sorrir:
“É que a Yacchan não sabia qual fantasia usar, então sugeri que ela fizesse dupla com a gente!”
“Yamaguchi, seu idiota, não existe dupla com três pessoas”, ele resmungou, e o moreno piscou.
“Oh, é verdade…”, e sorriu, “Bem, então somos um trio! Até pensei que todos do primeiro ano podiam ter fantasias semelhantes, mas eu nem falei com o Hinata e o Kageyama e… Tsukki? Onde vai?”
“Beber água”, respondeu, as mãos fechadas em punho.
Por que Yamaguchi era tão idiota?
Por que ele não podia fazer dupla consigo, e apenas consigo?
“Tsukki, eu vou com você e--”
“Yamaguchi-san! Tsukishima!”, Yachi chamou, sorridente, “Uau, a fantasia de vocês está super divertida!”, ela disse, ajeitando o vestido branco.
Yamaguchi virou-se de imediato para cumprimentar a amiga, novamente sorridente, “Yacchan! A tua também!”
Ela riu atrapalhada e colocou uma mecha de cabelo atrás da orelhas, “Oh obrigada!”, olhou para Tsukishima, lhe sorrindo gentilmente, “Tsukishima, você combinou bem com o Monstro!”.
O loiro franziu o cenho, fazendo a garota se encolher, e voltou a se afastar. Confuso, Yamaguchi pediu licença para Yachi e seguiu o amigo, “Tsukki! O que houve? Perdeu um dos seus dinossauros?”.
Tsukishima não olhou para o moreno, apenas deixou que seus pensamentos saíssem pela boca: “Por que não para de me incomodar e volta para a sua namorada?”, reclamou, e Yamaguchi parou de caminhar.
Ao perceber o olhar confuso do amigo de infância, Tsukishima corou, saindo dali apressado e deixando Yamaguchi para trás.
“D-Daichi, acha mesmo boa ideia?”, Asahi perguntou, encolhido atrás do capitão enquanto eles entravam na Casa Assombrada. O mais alto estava apavorado, embora soubesse muito bem onde cada um de seus amigos estava escondido e que tudo não passava de fantasias, “E-eu não gosto disso!”
“Calma, Asahi! Precisamos conferir se tudo está funcionando devidamente. Não queremos que ninguém tropece e se machuque, certo?”
“Certo…”, murmurou sem certeza nenhuma, ainda sem largar os ombros do amigo.
Daichi suspirou, “Asahi… Sério…”
“Eu não gosto destas coisas!”, disse num tom amuado.
“Eu sei mas-”
“Buh~!”, Suga disse suavemente ao aparecer ao virar da esquina, vindo em direção contrária com um saco de doces para deixar na entrada.
Asahi deu um gritinho nada másculo e saltou para o colo de Daichi, que o segurou mais por instinto do que por vontade.
“S-Suga! N-não pode sair assustando seus colegas assim!”, o ace disse, a voz esganiçada.
Suga riu, abraçando a própria barriga, “Asahi, eu não sabia que seria tão fácil assustar você!”
“Suga, seu malvado!”
“Hey, hey, acalmem-se”, o capitão pediu, colocando Asahi no chão, “Asahi, o time escolheu fazer uma Casa Assombrada… Você já sabia que poderia levar sustos…”
“Sim, mas eu tinha votado no café, se lembra?!”, berrou, nervoso.
Suga, então, segurou o rabo da fantasia de Asahi, rindo outra vez, “Ora, ora… No lugar de um lobisomem, Asahi é um cachorrinho abandonado~”
“Eu não sou um--!! Eeek!!”, deu outro grito ao ser abraçado pelas costas por algo pequeno e assustador: um demónio.
“Asahi!”, Noya sorriu e logo pestanejou quando ele se afastou com um salto e se escondeu atrás de Suga, “...Asahi?”
“N-Noya?”, sua voz saiu em outro berro, e o líbero piscou, o rosto pintado de vermelho.
“Sim, ué! Eu disse que viria de diabo!”, sorriu, mostrando o tridente vermelho que havia feito com a ajuda de Tanaka.
Sugawara rolou os olhos, “Se viesses de anjo ele reclamava na mesma, Noya.”
O baixinho cruzou os braços, realmente chateado, “Qual é, Asahi! Eu mandei uma lista dizendo a fantasia de cada um do time, você já devia esperar um diabo saltando por aí e--”
A frase de Noya foi interrompida com o barulho ensurdecedor de uma serra elétrica, e logo um maníaco mascarado surgiu atrás de Asahi.
O ace, além de gritar com todo o ar de seus pulmões, ficou pálido e perdeu as forças das pernas, tendo de ser amparado por Daichi para que não caísse ao chão.
“Asahi-san!”, Tanaka disse ao tirar a máscara de Leatherface, largando a serra elétrica de papelão no chão e se ajoelhando ao lado do mais velho, “Asahi-san, desculpa!”
“Tanaka, seu idiota, você quase matou o Asahi!”, Suga censurou.
“Não era a minha intenção!”
“É, não precisa gritar com o Ryuu, Suga!”
O grisalho pousou as mãos na cintura e só encarou os dois. Naturalmente que ambos pararam de discutir de volta. Ele era, afinal de contas, o vice-capitão por algum motivo.
“Suga-san~!!”, Hinata chamou ao entrar e sorriu abertamente ao ver todos ali, “Olá!”
Suga sorriu, “Hinata, olá. Onde está o Kageyama?”
O ruivo deu de ombros, “Ele deve estar com dor de barriga, foi pro banheiro quando encontrei com o Narita-san e até agora não saiu.”
O vice-capitão suspirou, mas decidiu mudar de assunto.
“Certo, todos sabem seus papéis durante as apresentações, certo?”
Asahi levantou a mão.
“P-posso ficar como vendedor de ingressos?”
Sugawara deu outro longo suspiro, “Claro, talvez seja a melhor ideia. Mas algumas pessoas vem fantasiadas então por favor tenta não gritar com elas sim?”
Asahi fez um biquinho, “Eu não vou!”
“Certo, certo.” , sorriu e juntou as mãos, logo sorrindo, “Então nesse caso, estamos quase todos. Onde estão o resto dos do primeiro ano?”
Hinata apontou com o polegar por sobre o ombro, “O Yamaguchi e a Yacchan estão lá fora conversando. Parece que o Tsukishima também foi ao banheiro”, explicou.
Suga assentiu mais uma vez, e pediu:
“Pode chamar todo mundo? Quero falar com vocês”, sorriu.
Hinata sorriu abertamente, “Sim! Vou a correr!”
Tsukishima só queria ir para algum canto onde não tivesse ninguém e a escola estava tão cheia que o único que se lembrou foi a sala de volley.
Claro que ao chegar lá e ver Kageyama sentado também num canto a esperança de um lugar sossegado evaporou.
O setter, com o lençol no colo, levantou o olhar da revista que lia e franziu o sobrolho, “Que foi?”
“Nada. Eu nem falei.” , resmungou.
Continuaram a encarar-se por um momento até que o loiro deu um estalido com a língua e foi sentar-se no canto mais oposto na diagonal, tirando o telemóvel do bolso para ler. A comic que ele acompanhava havia sido atualizada na noite anterior, e Tsukishima queria saber dos novos acontecimentos.
Os dois colegas de equipe ficaram em silêncio por muitos minutos até sua ‘paz’ ser interrompida por um energético Hinata, que entrou no aposento sem cerimônias, “A-ha! Sabia que encontraria você aqui, Kageyama-- Oi, Tsukishima, não sabia que você estava aqui também…”
O loiro rolou os olhos, “A intenção era essa, anão”, reclamou, e Hinata fez biquinho.
“Não sou anão! Ainda estou em fase de crescimento!”
Tsukishima sorriu com maldade.
“Sim, percebo como a sua barriga tem crescido nos últimos meses.”
Hinata olhou para a sua barriga muito aflito, “Quê? Não! Ela está igual!
“Tens a certeza?”
O ruivinho foi até ao setter, “Kageyama!”, levantou a camisola, “A minha barriga está diferente?”
Ele corou e atirou-lhe com uma bola de volley que tinha ali, “Não tires a roupa à frente das pessoas, seu pervertido.”
Levando a bola no meio da cara, Hinata fez biquinho.
“Bakageyama, isso doeu!”, ele disse e esfregou o nariz, que estava vermelho, “Suga-san está chamando todo mundo, ele quer falar com a gente”, disse após se lembrar o motivo de ter ido até lá.
Kageyama apenas suspirou e levantou-se, logo se cobrindo com o lençol de novo. Tsukishima fez o mesmo, alisando as suas roupas. Até mesmo Hinata conseguia perceber que eles estava muito estranhos.
“Vocês discutiram?”
“Não.”, responderam ao mesmo tempo.
O ruivo torceu o nariz de leve, mas acabou por suspirar e sair na frente.
Tsukishima e Kageyama trocaram um olhar, e logo seguiram o mais velho.
“Ah, que bom! Todos estão aqui!”, Suga disse quando o trio chegou no local combinado, “Bem, como não é mais segredo para ninguém que Takeda-sensei e o técnico Ukai se gostam--”
“Eles se gostam?”, Yamaguchi questionou, e todos os demais olharam para ele, “Q-Que foi?”
“Yamaguchi, seu idiota, eu não esperava isso de você”, Tsukishima disse, ajeitando seus óculos, “Até mesmo a dupla desmiolada percebeu e você não?”
“E-eu achei que eles fossem bons amigos?”
Ennoshita deu-lhe uma palmadinha carinhosa nos ombros, “Bem, eles são bons amigos.”
Suga concordou, “Verdade, mas gostam um do outro na mesma. Quer dizer, se não não seriam bons amigos.”
Daichi riu baixo e o grisalho procedeu em lhe mostrar a língua.
Afinal, quantas vezes tinham dito que eram só ‘bons amigos’ também?
Yamaguchi riu, acanhado, e coçou a nuca. Nunca tinha parado para pensar que por detrás da boa amizade dos mais velhos poderia existir um sentimento romântico. Afinal, ele via a relação de Takeda e Ukai muito parecida com a sua e de Tsukishima…
Espera aí…
“Certo, no que podemos ajudar?”, Kageyama interrompeu os pensamentos de Yamaguchi, e Suga logo voltou a sorrir, animado.
“Estava pensando em convidá-los para vir até nossa Cassa Assombrada e assustá-los o máximo!”
“Isso não me parece muito romântico…”, Asahi disse, já se encolhendo.
“É romântico se eles derem as mãos para criar coragem!”, Suga explicou.
“Por que é que dar as mãos é romântico?” , Hinata questionou, “O Asahi-san dá a mão a toda a gente quando estamos em Tóquio.”
Nishinoya riu alto, “É que ele é um oferecido.”
“N-Noya!”, o mais velho resmungou com um amuo, “Eu só dou a mão porque vocês atravessam a rua sem olhar! Não confio em vocês sozinhos em Tóquio!”
“Eu tive de te dar a mão para não te perderes na multidão.”, Daichi cruzou os braços.
O mais alto corou ainda mais, “I-Isso foi uma vez!”
“Uma vez por dia~”, o vice-capitão implicou, e Noya voltou a rir como um condenado, “Enfim, a ideia é assustá-los para que eles dêem as mãos e, quem sabe, se beijem logo!”
“Suga”
“Daichi, você também disse que eles precisam se resolver”
“Sim, mas no tempo deles”
“O tempo deles é lerdo demais e pretendo juntá-los antes de nos formarmos!”, o mais velho resmungou.
Daichi apenas respirou fundo. Sabia que era uma batalha perdida ir contra o seu namorado teimoso quando ele decidia alguma coisa.
“Certo…”
Suga sorriu abertamente e bateu palmas, “Então vamos lá, cada um nas suas posições! Vou diminuir as luzes, Tanaka liga a máquina de fumo, Asahi abre a bilheteira. It’s Showtime!”
A Casa Assombrada ainda mal estava aberta e já havia uma fila de pessoas para experimentar. Colegas de turma, amigos de amigos, familiares, alguns curiosos e até um grupo de rapazes cujo interesse era Shimizu (Noya e Tanaka assustaram esses mais que todos os outros).
Hinata corria pelos corredores a atirar teias de aranha falsas por cima das pessoas. Foi então que viu Kageyama-Fantasma a ser arrastado por algo pequeno e ficou todo animado quando viu uma menina de cabelo laranja ali, mascarada de bruxinha.
“Natsu!”
Ela deu um salto com o susto e depois fez biquinho, “Mano! Agora sei que és tu a chamar por mim!”
Hinata deu uma risada e coçou a nuca, “Desculpa!”
“Só se me deres mais rebuçados.”
“Eu não posso, a mãe--”
“O Tobio deu-me rebuçados!”, olhou para cima e sorriu abertamente para o fantasma. Ele estava atrapalhado, mas com o lençol não dava para ver e ele apenas deu de ombros. A menina sorriu e esticou os braços, “Tobio! Leva-me na tuas costas!”
Kageyama se abaixou, mas Hinata cruzou os braços.
“Hey! Nada disso! Natsu, nós estamos trabalhando, você vai atrapalhar!”
Natsu fez biquinho, “Não vou! Quero que o Tobio me leve nas costas!”
“Mas ele precisa assustar os visitantes e não vai conseguir com você aqui!”
“É só você espalhar fotos suas por todo lado, você é feio que dói!”
Hinata ficou rubro e colocou as mãos na cintura, “Nós somos irmãos! Tu és parecida comigo!”
Natsu mostrou-lhe a língua e abraçou Kageyama pelo pescoço quando ele se voltou a levantar e a segura-la cuidadosamente.
“Tu és alotado.”
“A palavra é adoptado e não sou!”, Hinata fez um biquinho.
A mais jovem sorriu, “Então eu quero alotar o Tobio. Ele dá-me doces.”
Kageyama, que até aqui estava muito quieto, olhou pelo ombro — sendo fácil graças aos buracos do lençol na zona dos olhos — “Obrigado, Natsu. Mas eu já tenho uma irmã.”
“Ela pode vir morar com a gente também! Assim eu tenho uma irmã!”, Natsu sorriu, e Hinata aumentou o biquinho, “Natsu, eu vou contar pra mamãe que você está nos incomodando!”
“Eu não estou incomodando o Tobio!”
“Está sim!”, reclamou e segurou o braço de Kageyama, “Ele e eu temos que trabalhar, sua chata!”
“Então vou contar à mamã que tu estás a ser chato só porque tens ciúmes!”
Hinata corou, apertando os dedos ao redor do braço de Kageyama.
“N-não estou com ciúmes!”
“Está sim, você está com ciúmes que o Tobio gosta mais de mim do que de você!”
“Isso não é verdade!”
“O que não é verdade?”
Hinata começou a balbuciar, atrapalhado e sem muita coerência. Kageyama suspirou, um tanto cansado e sem muita energia, como estava desde de manhã, “Párem com isso. As pessoas estão a olhar para nós e não se assustam com os outros…”
Natsu sorriu, agarrada no pescoço de Kageyama, e mostrou a língua para o irmão.
“Admita que tem ciúmes e eu solto o Tobio!”
“E-eu não tenho ciúmes!”
A mais jovem apertou de leve o moreno, que sentiu uma leve falta de ar (ainda mais com aquele lençol sobre o corpo), e segurou Natsu pelos braços, tentando mantê-la segura nas suas costas.
“Admita!”
“Não!”
“Admita!”
“N-não!”
“Admita que está com ciúmes que o Tobio gosta mais de mim do que de você!”
“Estou com ciúmes, ok?! Agora larga ele!”
A menina sorriu satisfeita e afrouxou o aperto (Kageyama achava que aqueles dois pequenos ruivos o iam matar do coração, é que Hinata também lhe apertava o braço), “Não custou nada vês?”
Mais vermelho que nunca, Hinata bufou levemente, “Tu era tão fofa antes e agora és uma peste!”
Natsu riu e imitou a maneira dele falar, “ Somos irmãos, somos parecidos~!”
Hinata fez um biquinho amuado e conseguiu ouvir Kageyama rir baixo, “Ok, larguem-me os dois senão não consigo pousar a Natsu.”
O ruivinho a contragosto largou o braço dele e o setter baixou-se delicadamente para a deixar saltar para o chão. A menina beijou-lhe a testa por cima do lençol, “Obrigada Tobio!”, ela disse e saiu dali aos pulinhos, contente por ter implicado com seu irmão favorito.
“A-Aquela chata!”, Hinata resmungou, e Kageyama olhou para si.
“Estava mesmo com ciúmes?”
“É claro!”, ele disse sem nem pensar, os olhos agora fixos em Kageyama, “Você gosta mais dela do que de mim!”
Kageyama pestanejou muito confuso, “Que raio de conclusão é essa?”
“Ué, você nunca me leva nas costas!”
“Por que haveria? Podes muito bem andar pelo teu próprio pé.”
Hinata fez biquinho, “Por isso digo que você gosta mais da Natsu do que de mim! Bakageyama!”, resmungou e saiu a bater pés, “Vamos logo começar com isso, o Suga-san foi convidar o Takeda-sensei e o treinador para vir até a Casa Assombrada!”
Kageyama rolou os olhos, “Tu és mais pesado que ela, sabes disso, certo? E não tens 4 anos.”
Deu de ombros, “Mas eu queria que você me levasse nas costas igual”, resmungou, e Kageyama, ainda confuso, suspirou.
Mas… não podia dizer que aquela nova informação não lhe deixara um pouquinho feliz.
Takeda conversava com alguns professores quando viu Ukai fantasiado de zumbi. O loiro acenou para si e o professor pediu licença aos seus colegas para ir até o mais jovem, sorrindo.
“Ukai-kun, olá!”
Ukai olhou Takeda de cima a baixo: o menor estava vestido de bruxo, e ele estava adorável com aquele chapéu pontudo. Na verdade, Takeda sempre estava adorável.
“Takeda-sensei, olá”
O mais velho sorriu outra vez, ajeitando o chapéu na cabeça.
“Que bom que pode vir! Sugawara-kun disse que quer muito que a gente vá até a Casa Assombrada que o time preparou. Os visitantes estão elogiando bastante!”
O loiro sorriu, sentindo-se um perfeito adolescente só por ter Takeda ali, “Eu fui ameaçado por vários corvos irrequietos para vir.”
Takeda riu, “Não acredito. Os que eu conheço são um amor e nunca fariam tal coisa.”
“Talvez não sejam os mesmos.”, riu também e caminhou com o professor por entre as outras tendinhas da escola, “Trouxe doces para eles, antes que tenha de ouvir reclamações.”
“Oh, doces! E para mim?”, o ‘bruxinho’ fez uma falsa expressão amuada, “Se não tiver doces tenho de fazer travessura.”
Ukai corou de leve, cobrindo a boca com a mão ao pensar quais travessuras desejava que Takeda fizesse.
“Hm… c-claro que trouxe, sensei”, disse e meteu a mão no bolso, tirando um pacotinho de guloseimas para o professor, “Espero que goste…”
Takeda piscou, pegando o pacotinho, e sorriu alegremente ao reconhecer que doces eram.
“Keishin-kun! São os meus favoritos, obrigado!”, ele exclamou enquanto desfazia o laço do pacote e comia um doce.
Ukai corou ainda mais: era a primeira vez que Takeda usava seu primeiro nome perto de outras pessoas (eles só se tratavam tão intimamente quando estavam à sós), e seu coração deu um pulo devido sua alegria. Ele ficava tão feliz de ver o professor contente…
“D-de nada, Ittetsu-sensei”.
O mais velho sorriu abertamente e Ukai só conseguia pensar em como ele era adorável e de como… e de como o queria beijar ali mesmo.
Sacudiu com a cabeça, não podia pensar aquelas coisas! Não perto das crianças e-
“BUUUH!”, uma noiva de Frankenstein saltou para a frente da pequena bancada da bilheteira e Asahi deu um guincho: não pelo susto, mas sim porque estava a pisar a cauda do vestido de Yashi e quase causou um acidente.
Os mais velhos riram, “Oh, é já assustador até mesmo cá fora!”
Asahi, coitado, colocou a mão sobre o peito e respirou profundamente, um tanto nervoso.
“Takeda-sensei, treinador… Bem-vindos à Cassa Assombrada!”, sorriu, e Yachi se colocou ao lado do ace.
“Por favor, sigam as placas dentro da Casa e tomem cuidado com os monstros!”, disse.
Takeda curvou-se um pouco e falou num tom de sussurro, como se segredasse algo, “E tem muitos monstros?”
“Sim!”, a menina sorriu entusiasmada, “Terrível monstros! Muito maus e assustadores!”
O professor riu, “Então prometo ter cuidado. Quem me vai salvar se eu for apanhado?”
“Eu não, professor. Desculpe.”, Asahi disse e Yachi riu, “Eu vou!”
Takeda voltou a sorrir, ajeitando mais uma vez o chapéu.
“Obrigado, Yachi-san! Ukai-kun, vamos?”, o loiro assentiu, coçando a nuca. Era só uma Casa Assombrada, mas… “Ukai-kun?”, o mais velho chamou de novo, um pouco preocupado, e Ukai riu.
“Vamos, vamos! Estava só pensando!”, disse e empurrou gentilmente Takeda para dentro, seguindo atrás dele, “Não se preocupe, sensei, vou protegê-lo!”, avisou quando a porta da Casa fechou.
“Eu sei que-”
Assim que a porta bateu atrás uma ventoínha ligou e, com um barulho falso de um fantasma a rir, espalhou confettis e teias falsas para cima dos dois. Ukai, que ainda segurava os ombros do professor, deu um guincho e apertou-o, escondendo-se atrás dele.
Takeda riu baixo, colocando a mão esquerda sobre a mão de Ukai. A diferença de tamanho era notável, e o professor sentiu o calor da pele do mais jovem.
“Obrigado por me proteger, Keishin-kun.”.
Ele compôs-se como pôde, pigarreando atrapalhado ao desviar o olhar. Ele tinha uma mão tão pequena e macia em contraste com a sua, já calejada pelo trabalho de campo e por anos de volley.
“Eu só não estava a contar com o barulho.”, resmungou amuado.
Takeda riu, ainda segurando a mão dele.
“Estou falando sério, Keishin-kun! Eu nem havia reparado no fantasma, e se ele me machucasse?”.
Ukai piscou, corando de leve. Takeda era adorável.
“Bem, eu… eu disse que o protegeria, certo?”
O professor sorriu, e Ukai baixou as mãos dos ombros do mais velho.
“Certo”, Takeda concordou, sorridente, e os dois voltaram a percorrer a Casa Assombrada.
Kageyama se posicionava quando Hinata se aproximou de si.
"Kageyama, você viu a Natsu? Minha mãe disse que ela não saiu da Casa Assombrada ainda…".
O moreno pestanejou e abanou levemente com a cabeça até se lembrar que o lençol não permitia que se visse o gesto e que teria, em alternativa, de responder verbalmente como o comum dos mortais.
“Não, ela saiu contigo e eu não a vi mais.”
O ruivo suspirou, esfregando a mão direita na testa.
“Ugh, ela deve estar escondida por aí para assustar os visitantes também…”, disse e fez olhinhos para Kageyama, “Por favor, me ajude a achá-la! Se eu não descobrir onde ela está, minha mãe me coloca de castigo!”
“E por que eu ajudaria?”
“Porque meu castigo é não poder treinar vôlei?”
Kageyama estremeceu.
“Vamos logo”.
Hinata rodou nos calcanhares para ir procurar pelo percurso e Kageyama seguiu atrás dele, tirando o lençol para conseguir ver melhor.
“Se fosses a tua irmã, onde te esconderias?”
“Nalgum lugar díficil de encontrar, Kageyama. É essa a ideia.”
O moreno suspirou, “Relembra-me de novo por que me estou a dar ao trabalho de te ajudar?”
“Porque não vives sem mim nos treinos.”, sorriu.
O moreno rolou os olhos, soltando um milésimo suspiro, e jogou o lençol sobre o ombro direito para manter as mãos livres.
“Por que ela está escondida pela Casa Assombrada?”, questionou enquanto Hinata se ajoelhava e procurava por Natsu sob as mesas onde diversos doces e decorações assustadoras estavam.
“Ela queria fazer parte do ‘elenco’”, ele fez sinal de aspas com as mãos, “mas como não é da nossa turma e escola, ela não pode”
“Ela é uma criança, ninguém se importaria se ela participasse”
“Eu não quero que o Diretor nos chame a atenção por causa dela, a Natsu ficaria muito chateada se nos trouxesse problemas, ela só não entendeu isso quando eu expliquei a situação”, suspirou, abrindo e fechando diversas portas de armários pelo caminho.
“Entendi”
A Casa Assombrada percorria duas salas de aula e uma sala do conselho estudantil, a qual era anexado um pequeno depósito onde o time de vôlei deixara seus pertences enquanto estava ocupado com a apresentação. Só faltava aquele anexo para os dois procurarem, e Hinata acreditava que, enfim, encontraria sua irmãzinha.
“Ela deve estar procurando doces na minha mochila”, disse enquanto abria a porta do depósito.
A lâmpada estava apagada, e havia mochilas jogadas de qualquer jeito no chão (certamente as de Noya, Tanaka e Kinoshita). Hinata não se deu ao trabalho de acender a luz e entrou no depósito, chamando pela mais jovem.
“Natsu?”
Kageyama seguiu atrás dele, tentando enxergar algo naquele breu.
“Natsu? A mamãe está chamando por você e--”
Com um estrondo alto, a porta do depósito foi fechada, e logo os rapazes ouviram o barulho da tranca.
“Hey!”, os dois berraram, e a voz risonha de Natsu foi ouvida:
“Isso é para você aprender a não ser chato, Shoyou!”
Hinata bufou, “Natsu! Abre a porta! Eu vou dizer à mãe.”
Ela riu do lado de fora, “E podes dizer, Queixinhas~!”
O mais velho resmungou, batendo na porta com força.
“Natsu! Natsu!”, ao não ouvir mais a voz da irmã, Hinata suspirou, olhando para Kageyama, “Você trouxe seu celular? O meu está sem bateria”
Kageyama piscou e procurou seu telefone pelos bolsos. Só que…
“Acho que o perdi por aí.”
“Como você pode perder seu celular, Bakageyama?”
“Como seu celular pode estar sem bateria, Hinata-boke?”
“Porque o Kenma e eu ficamos trocando mensagens a noite inteira e eu esqueci de trazer o carregador”, ele fez biquinho e se sentou no chão, “Vamos ter que torcer para que alguém venha pegar alguma coisa na mochila…”
Estava escuro, a pouca luz que entrava mal dava para fazer os contornos das coisas ali. Se desse, Hinata teria visto a expressão de desagrado de Kageyama.
O moreno suspirou e sentou-se no chão também, um pouco afastado dele, “Ou alguém passe lá fora.”.
Hinata assentiu, tirando o chapéu de palha da cabeça e o colocando de lado por um momento.
“Bem, vamos esperar”, ele sorriu, sem entender o motivo de Kageyama estar mais irritado do que o normal, “Hey, Kageyama? Por que você está tão estranho hoje?”
O setter piscou, olhando para Hinata.
“Eu estou no meu normal…”
“Não, não está. Mesmo que você esteja sempre de mau-humor, você está diferente.”
“Diferente como?”
“Você parece triste”
Kageyama piscou, um pouco desconfortável com a observação de Hinata.
Era verdade: ele se sentia triste já fazia algum tempo, mas não imaginava que (o idiota do) Hinata notaria isso. Kageyama gostava de Hinata, bem mais do que desejava, e ao perceber isso, ele ficou nervoso que aqueles novos sentimentos pudessem atrapalhar seu sonho de se tornar um jogador profissional de vôlei, ou que o baixinho fosse lhe odiar. Afinal, além de serem rivais, eles eram dois rapazes. Era estranho. Era errado.
“Não sei do que você está falando”, Kageyama disse, desviando o olhar.
Hinata pareceu não se importar com a esquiva do mais jovem, e apenas continuou a conversar com ele.
“Sabe? Eu converso bastante com a minha mãe sobre as coisas que estão me incomodando… ela sempre me disse que é bom desabafar com alguém que a gente confie, e eu ficaria feliz se você confiasse em mim e pudesse me dizer o que está incomodando você. Quem sabe podemos chegar juntos a uma solução?”
Kageyama rolou os olhos.
“Eu, definitivamente, não confio em você”, disse, azedo, mas o ruivo apenas fez biquinho.
“Bem, saiba que eu estarei sempre aqui se você precisar de alguém, ok?”
O moreno voltou a piscar, olhando para Hinata. Embora não o enxergasse bem, sabia que ele estava sendo sincero..
Hinata era sempre sincero, afinal.
“O que você acha do Takeda-sensei e do treinador se gostarem?”, Kageyama questionou, e Hinata deu de ombros.
“No início eu achei estranho…”
“Estranho? Porque são dois homens?”
Hinata balançou as mãos depressa:
“Não! Não por causa disso, eu só não imaginava que eles pudessem ter algo em comum além do time de vôlei. Digo, a mamãe sempre me disse como ela e o papai tinham mil coisas em comum, que eles gostavam de fazer coisas juntos e que eram bons amigos… eu não imaginava que o sensei e o treinador pudessem se gostar sendo que eu só os vejo falando sobre o time”, explicou, “Eles serem dois homens não me incomoda em nada… na verdade, eu ainda não entendi a preocupação do Tsukishima quando falamos sobre isso na praia…”
Kageyama suspirou, esfregando os cabelos.
“Porque as pessoas não acham… certo pessoas do mesmo gênero juntas…”
“Mas por que? Não é a mesma coisa?”, perguntou, confuso.
Qual era a diferença entre um casal heterossexual e um homossexual? Eles não se amavam na mesma?
“Não sei, elas só não gostam…”
“Bem, eu acho isso idiota. Se dois homens, ou duas mulheres, se amam e querem ficar juntos, é assim que deve ser!”, o ruivo disse com convicção, “Afinal, eu sou a favor do amor!”
Kageyama sorriu.
Claro que ele era.
“E… e se um rapaz gostasse de você?”, questionou, incerto do porquê.
Hinata piscou, apoiando o queixo na mão enquanto pensava.
“Bem, se eu gostar do rapaz também, eu vou ficar muito feliz. Se não, vou continuar sendo amigo dele”.
“Mesmo que esse rapaz seja seu inimigo?”
Hinata piscou de novo.
“Eu não tenho inimigos! Ou tenho?”, perguntou, e logo pendeu a cabeça para o lado, “Kageyama? Tem algum rapaz apaixonado por mim?”
Kageyama pensou na pergunta e abraçou os joelhos para ficar mais confortável. É, não fazia sentido. Hinata era muito simpático e extrovertido (ao contrário de si), estava sempre de bom humor (ao contrário de si), era pequeno e fofo (ao contrário de si) e havia qualquer coisa na aura dele que fazia toda a gente se querer aproximar (...ao contrário de si). Aquilo que a equipa implicava como sendo “Os Encontros de Casa de Banho de Hinata” era um exemplo concreto disso. Aone, Lev, Terushima...Todos eles ficam formado amizade com Hinata mesmo sendo de equipas rivais e todos eles tinham um respeito muito grande por aquele cabeça de vento cor de tangerina.
E depois havia Kenma.
Hinata falava com e de Kenma o tempo inteiro. A troca de mensagens era constante e o entusiasmo para ir a Tóquio deixava Hinata quase histérico e mais cheio de energia que o normal. Quando estavam juntos, eles não se largavam.
Ao princípio Kageyama nem dava importância, mas certa vez ouviu Kuroo e Yaku comentarem com Suga que Kenma ficava muito menos tímido e irritadiço quando estava com Hinata. Mesmo que fosse mais o ruivinho a falar entusiasmado e Kenma só a ouvir. Isso fez um clique no cérebro de Kageyama que ele não gostou, mas atribuiu a sua embirrice só com o fato de que Kenma também era um setter e competia diretamente contra si.
Demorou a perceber que não, não era só isso. Em particular quando Hinata se despedia do loirinho com um abraço apertado e promessas que jogariam juntos algo online assim que chegasse a casa.
Mas Kageyama era teimoso e inseguro, uma péssima combinação de traços, disse a si mesmo que os seus sentimentos idiotas iam apenas atrapalhar e que seria mais fácil ignorar tudo e não por em causa o bom funcionamento da equipa.
E isso doía.
“Não sei.”, respondeu por fim, “Eu não dou a mínima para a tua vida amorosa.”
“Ah…”, Hinata murmurou, coçando um pouco os pulsos. A palha de sua fantasia começava a pinicar, e ele não conseguia deixar de tentar algum alívio ao se coçar. “Bem, se um rapaz estivesse apaixonado por mim, eu não ficaria brabo nem nada do tipo… eu só gostaria de gostar dele de volta”
Kageyama piscou, olhando para Hinata.
“Por que? Você gosta de algum rapaz?”
Se fosse possível, Kageyama ouviria o quão rápido o coração de Hinata começou a bater. O ruivinho começou a gaguejar, coçando-se ainda mais.
“B-bem… e-e se eu gostar?”
Oh.
O peito de Kageyama apertou, e ele sentiu como se não conseguisse respirar.
Era idiota, claro, ele conseguia respirar, mas a tristeza que o inundou parecia afogá-lo, e o setter apertou as unhas com força na palma de suas mãos para evitar chorar,
Claro que Hinata gostava de um rapaz.
E esse rapaz era Kenma, com toda certeza.
“K-Kageyama?”, Hinata chamou quando o moreno ficou em silêncio, “Kageyama, você está bem?”
Não.
“Sim”
“Mesmo?”
Não.
“Mesmo.”
“Hm… você não me odeia, certo?”
Jamais.
“Fique longe de mim.”
O coração de Hinata pareceu se despedaçar, e o ruivinho se afastou de leve de Kageyama, baixando o rosto no processo.
Um silêncio se instalou no depósito, e enquanto Kageyama torcia mentalmente para que alguém fosse até lá e os libertasse daquela ‘prisão’ insuportável. Foi então que Kageyama ouviu algum barulho vindo de Hinata, e, ao prestar mais atenção no rapaz ruivo ao seu lado… ele percebeu que Hinata chorava baixo.
“H-Hinata?”
“Hey, Kageyama?”, um soluço foi ouvido, e Kageyama percebeu que ele tentava segurar o choro, “Você me odeia porque eu gosto de um rapaz?”
“Hinata, eu não odeio você…”, ele criou coragem e segurou o pulso do menor, que voltou a soluçar, “Hey, eu não odeio você…”, garantiu.
Kageyama nunca conseguiria odiar Hinata: possuíam uma rivalidade enorme desde o início, viviam brigando e o ruivo o irritava muito. Mas o setter admirava muito a determinação e animação de Hinata. Admirava a facilidade que o baixinho tinha de fazer amizade com qualquer pessoa, independente do gênero, idade ou profissão. Admirava sua evolução no vôlei. Admirava sua energia. Admirava sua aura. Admirava Hinata completamente.
“Hinata, eu não odeio você”, repetiu, “Você e o Kenma formam um casal legal, não se preocupe com o que os outros possam dizer e--”
“Kenma?”, Hinata questionou, estremecendo de leve, “Como assim o Kenma? O Kenma é só meu amigo, não gosto dele dessa forma”, disse, e Kageyama piscou.
“Não?”
“Não"
Ué.
Ele não gostava de Kenma romanticamente?
"Então de quem você gosta?", questionou, "Deixa eu adivinhar: do Kogane?"
"O quê?! Não!"
"Do Lev?"
"Kageyama, de onde tirou isso?"
"Já sei! Do Aone?"
"Não, Bakageyama! Eu gosto e de você!"
“É o-- Quê?”
Hinata deu um longo suspiro, “Olha, nunca pensei em dizer isto, mas o Tsukishima tem razão. Tu és idiota.”
Kageyama estava satisfeito que houvesse pouca luz ali porque ele estava vermelho até às orelhas e com o coração aos saltos.
“Mas-”
O ruivinho segurou na mão dele e suspirou de novo, “Desculpa… Mas não é algo que eu possa controlar…”
Certo, vejamos se Kageyama havia entendido: Hinata Shoyou, 16 anos, 164cm, ruivo, idiota, gentil, um raio de sol entre os meros mortais gostava de si? Gostava mesmo de si?
“Hinata--”
“Olha, você não precisa gostar de volta. N-na verdade eu pretendia nunca dizer isso para você, porque não queria que as coisas ficassem estranhas ou algo do tipo, mas como você é idiota demais e por algum motivo assumiu que eu gostava de todos os meus amigos, acabei dizendo”, suspirou, “Só… eu só quero que você não mude comigo… Digo, quero continuar sendo seu amigo e colega de time, quero que você continue me mandando bolas para eu cortar.”
Oh… Hinata realmente gostava de si!
“Hinata, eu--”
“Ugh, já vi que foi má ideia… Desculpa, Kageyama, eu--”
“Hinata-boke, cala a boca por um minuto!”, ele resmungou, “Eu também gosto de você, seu sem cérebro”
Hinata piscou.
“Espera… o que?”
Kageyama bufou numa certa irritação nervosa e achava que estava a fumegar pelas bochechas a este ponto.
“Eu gosto de ti.”, repetiu com um certo embaraço, “Mas achei… que dizer-te podia fazer com que me odiasses ou que não quisesses mais jogar comigo e eu… não suportaria nenhuma das duas.”
Hinata assentiu de leve, lhe segurando gentilmente as mãos.
“Eu entendo, sentia o mesmo…”, sorriu, brincando com os dedos longos do moreno, “Mas agora que sei que você também gosta de mim, me sinto muito feliz.”
Kageyama corou mais (se é que era possível), e entrelaçou seus dedos nos de Hinata, sentindo como a mão menor era quente.
“Eu também”, ele sorriu também, e Hinata deitou a cabeça em seu ombro.
Talvez ter ficado preso no depósito com aquele idiota não fosse tão ruim assim…
“Kageyama?”
“Sim?”
“Isso significa que somos um casal?”
“Acho que sim?”
“Ah, ok.”, ele disse e ergueu o rosto, “Então isso significa que posso te dar um beijo?”
Certo, era assim que Kageyama morria: com a cabeça explodindo de vergonha.
“H-Hinata-boke, não diga essas coisas embaraçosas!”
“Ahh? Mas se somos namorados, temos que nos beijar!”, ele disse, e Kageyama escondeu o rosto na mão.
Namorados? É, agora Hinata era seu namorado…
“B-bem… você sabe como se faz isso?”
“Não é só encostar a boca?”
“Acho que sim”
“Quer tentar?”
“Pode ser…”
Os dois ajeitaram-se frente a frente, fechando os olhos enquanto aproximavam-se um do outro. O primeiro beijo deles foi um leve encostar de lábios, tão sem graça quanto chuchu.
“Hm… nos filme parece melhor…”
Kageyama concordou, coçando a nuca.
“Nos filmes eles usam a língua também…”
“Mesmo?”
“É… posso… posso usar a língua?”
Hinata ponderou por um momento, mas deu de ombros.
“Pode.”
Tsukishima tinha acabado de assustar Ukai e Takeda (bem, o professor mal se assustara) quando Yamaguchi se aproximou de si. O moreno parecia um pouco zangado, mas o próprio blocker não estava no seu melhor humor.
“Tsukki, precisamos conversar”
“Cala a boca, Yamaguchi, não estou com paciência e--”
Yamaguchi segurou-o pelo colarinho da camisa e o sacudiu, irritado.
“Você vai me ouvir, Tsukki! Você está agindo como um idiota total sem motivo algum!”
O loiro desviou o olhar, algo não muito comum dele fazer, e segurou os pulsos de Yamaguchi, como se aquilo fosse fazer o outro soltá-lo. Mas Yamaguchi continuou a segurá-lo firmemente, o cenho franzido.
Tsukishima suspirou, dando-se por vencido.
“Certo, o que foi?”
“Você, por algum motivo, assumiu que a Yacchan e eu somos namorados! Mas isso não é verdade, Tsukki!”
O loiro piscou.
“Não importa, já vi que você gosta dela. Não que eu me importe, mas eu não quero ser um extra no namoro de vocês: se vocês vão namorar, me deixem fora disso!”
Yamaguchi, com o punho fechado, bateu levemente na testa de Tsukishima como se fosse uma porta, e resmungou.
“Alô? O cérebro do Tsukki está aí ainda?”
“Cala a boca, Yamaguchi!”, ele tentou se afastar, mas o moreno o segurou firme.
“Cala a boca você, Tsukki!”, disse, e o loiro se calou, “A Yacchan e eu somos amigos, e não há nenhum outro sentimento além de amizade entre nós dois. Ficamos muito próximos nos últimos tempos, mas ela é como uma irmã para mim. Na verdade, para a maioria do time de vôlei: o Hinata, por exemplo, trata ela da mesma forma como trata a Natsu-chan!”, bufou, “A Yacchan tem uma pessoa que ela gosta, e pediu minha ajuda para confessar seus sentimentos, por isso sugeri que ela viesse como noiva do monstro.”
Tsukishima piscou.
“Espere, ela gosta de mim?”
“Não idiota, ela gosta do Narita-san! Frankenstein é o livro de terror favorito dele, então assim ela podia ter um assunto em comum com ele!”.
O loiro voltou a pestanejar, agora encarando o seu melhor amigo irritado, “Oh.”
“Oh? Bastava teres perguntado, seu grande idiota! Nem parece teu fazeres conclusões idiotas dessas e--!!!”
Tsukishima, que sentia como se um peso tivesse sido levantado de si, pousou as mãos sobre as bochechas dele e agiu por puro instinto ao aproximar seu rosto do dele e beijá-lo.
O blocker sempre se orgulhou de ser uma pessoa racional e não agir como os problemáticos do time de vôlei, mas após sofrer por quase um ano inteiro de amores por seu amigo de infância ao pensar que ele gostava de outra pessoa, Tsukishima não conseguia evitar agir como seus colegas sem cérebro: ele estava aliviado e feliz demais para pensar nas consequências, e ele sabia, bem lá no fundo, que Yamaguchi nunca o odiaria, mesmo que o moreno não sentisse o mesmo que si.
Porém, Yamaguchi sentia.
“T-Tsukki!”, ele soltou num choramingo, afastando-se de leve, “Qual é o seu problema hoje? Primeiro acha que estou namorando com a Yacchan e agora me beija?”
“Yamaguchi, cala a boca…”, o loiro disse, puxando Yamaguchi para um abraço.
O moreno rolou os olhos, retribuindo o gesto, e suspirou.
“Tsukki idiota. Como alguém tão inteligente como você consegue ser tão idiota às vezes?”
“Yamaguchi--”
“‘Cala a boca’, eu sei. Mas é verdade, Tsuki: você é um idiota”, ele resmungou, beijando Tsukishima mais uma vez.
Tsukishima até podia ser um idiota.
Mas era o idiota que Yamaguchi amava.
Ukai segurava firmemente a mão de Takeda enquanto percorriam a Casa Assombrada. O treinador tinha total consciência de que todos os monstros eram seus alunos, mas ele não conseguia deixar de sentir um pouco de medo cada vez que algum deles, devidamente fantasiado, pulava para assustá-los.
O pior deles era Tanaka, definitivamente: o rapaz usava uma motosserra falsa e a balançava animadamente na frente das ‘vítimas’, o celular dele emitindo o terrível barulho do objeto para aumentar o susto, e ele era ótimo em rir de uma forma maníaca.
Ukai nunca foi uma pessoa medrosa, mas ele também não era idiota o bastante para brincar com coisas sobrenaturais ou psicopatas, então toda aquela ideia que o time de vôlei inventou o deixava nervoso.
Takeda, entretanto, parecia se divertir bastante com tudo aquilo, e não se importava que Ukai, que antes dizia que o protegeria, se escondia atrás de si.
“I-Ittetsu-sensei, você não está assustado?”
O mais velho piscou, ainda segurando a mão do treinador.
“Hm… Não muito? Digo, eu sempre me assusto quando os alunos pulam do nada, mas como eu adoro filmes de terror, logo acho tudo muito divertido!”
Oh? Takeda gostava de filmes de terror? Ukai nunca imaginaria que o (adorável) professor pudesse gostar dessas coisas.
“Divertido?”
“Sim! Eles se dedicaram tanto para arrumar a Casa Assombrada e parecem estar se divertindo tanto! Acabo por me divertir também”, ele sorriu, as bochechas levemente coradas.
Ukai sorriu. Claro que Takeda, a pessoa que mais apoiava o time de vôlei, se divertiria junto dos alunos: o carinho que o professor sentia pelos mais jovens era genuíno, e o treinador conseguia ver no mais velho um pai orgulhoso de seus filhos. Ou, nesse caso, corvos.
“Você tem razão, Ittetsu-sensei! Devemos nos divertir com os alunos”, Ukai sorriu, o medo que ele sentia anteriormente diminuindo.
Takeda riu, assentindo.
“Falta só mais uma sala, quem será que vai nos assustar?”
“Pela lógica, Kageyama e Hinata? São os únicos que ainda não vimos…”, o loiro respondeu.
O professor voltou a assentir, e abriu a porta para a última sala… e não viram nada.
Claro, os últimos alunos deviam estar escondidos em algum canto para pular sobre eles, e Ukai já apertava de leve a mão de Takeda, mas o moreno achou tudo muito silencioso.
“Hm? Será que eles se sentiram mal e precisaram sair?”, Takeda questionou mais para si do que para Ukai.
“Acho que é propositado…”, Ukai disse entre dentes, semicerrando os olhos para tentar ver sobre a escuridão.
Takeda apertou a mão dele levemente, “Talvez mas… São o Kageyama e o Hinata.”, disse. Se havia alguém que era péssimo a fazer silêncio e suspense eram esses dois.
Abanou com a cabeça e decidiu chamar alto, “Kageyama-kun? Hinata-kun?”
Ukai, que não estava a contar que ele levantasse a voz não conseguiu evitar um gritinho.
Takeda olhou para Ukai, que corou até as orelhas.
Embora o treinador estivesse com aquela maquiagem de zumbi, o mais velho conseguia perceber que ele tinha as bochechas rosadas devido o embaraço.
“Keishin-kun, obrigado por vir aqui comigo”, disse sorridente e ajeitou o chapéu, “Fazia muito tempo que eu não me divertia tanto!”
Ukai piscou.
“Hm… meu grito divertiu você?”
“O que?”, Takeda riu, “Não! É que eu gosto muito da sua companhia, Keishin-kun! Mas como geralmente nos encontramos para falar do time de vôlei, é muito agradável estarmos juntos por outro motivo! Embora a Casa Assombrada seja dos nossos alunos, não estamos conversando sobre o próximo treino ou disputa… e sim sobre outros assuntos, como amigos fazem!”
Ukai sentiu-se meio idiota — sempre ficava assim perto do professor — e usou a mão livre para coçar a nuca, “Ah sim, tens toda a razão.”
A verdade era que o treinador queria se reunir com Takeda para conversar sobre outros assuntos além do time do Karasuno. Queria conhecê-lo ainda mais, assim como tornar-se mais íntimo do professor. Queria saber do que Takeda gostava e não gostava, dos filmes e livros favoritos dele e se ele cantava no banho. Porque ele imaginava que o mais velho, com aqueles adoráveis olhos escuros, cantava alegremente enquanto se enxaguava.
É, ele pensava em Takeda em todas as situação.
Todas mesmo.
“Hm, nós podíamos sair para beber qualquer hora dessas… sem ser para falarmos do time...”
O professor piscou, um sorriso enorme e alegre sendo direcionado à Ukai.
“Isso seria maravilhoso, Keishin-kun!”
Ukai sorriu, o coração leve e a bater descompassadamente.
Que idiota, ele parecia ter dezesseis anos de novo.
“Ittetsu?”, chamou, e Takeda olhou para si mais uma vez. O professor estranhou de leve a falta do ‘sensei’, mas a sonoridade carinhosa com o que o mais jovem lhe chamara deixou-o acanhado, e Takeda voltava a corar.
Ah, ele era tão adorável: o chapéu torto na cabeça, os óculos que escorregavam pelo nariz dele, as bochechas roliças e os olhos grandes… Não conseguia mais resistir aos seus sentimentos pelo professor, e, então, ele agiu sem nem pensar.
Ukai avançou um passo, usando a mão livre para acariciar a bochecha macia e quente de Takeda. Não era justo que um homem com quase trinta anos tivesse uma pele tão macia e uma expressão tão jovial como a que o professor tinha, mas aquilo só aumentava todo o carinho que o treinador sentia pelo mais velho.
“K-Keishin-kun…”, Takeda chamou num suspiro, a ponta dos dedos de Ukai deslizando sobre sua pele avermelhada pelo acanhamento. O professor fechou os olhos, não podendo ver o sorriso que seu chamar provocou em Ukai.
O mais jovem, então, aproveitou que em nenhum momento eles deixaram de dar a mãos para entrelaçar seus dedos nos de Takeda, que soltou um suspiro falho e levou a outra mão até o pulso de Ukai. Se por um instante o treinador temeu que estivesse passando dos limites ou que tivesse ofendido Takeda, sua empolgação voltou com ainda mais força quando o mais baixo apenas pareceu usar seu corpo como apoio, e deitou a cabeça contra a mão que lhe acariciava.
Novamente, Takeda era adorável!
Nesse momento, Ukai soltou a mão de Takeda para que pudesse puxá-lo para mais perto pela cintura. O professor, então, segurou um punhado da camisa amarrotada do loiro (se era proposital por causa da fantasia feita às pressas, ele não saberia dizer), e Ukai também fechou os olhos, aproximando seu rosto do dele.
Não havia rejeição por parte de Takeda: o professor continuava de olhos fechados, e quando Ukai encostou seu nariz no dele, o mais velho suspirou pesadamente.
Naquela hora, o treinador tinha certeza de que, finalmente, seu sonho de beijar o professor seria realizado. Faltava apenas um centímetro e--
Um alto ‘thumb’ chamou a atenção de ambos, que se afastaram com o coração aos pulos como se a simples presença um do outro os queimasse.
“O-ouviu isso?”, Takeda questionou, olhando para onde o som havia vindo.
Ukai, morrendo por dentro, assentiu e apontou para uma porta no canto da sala, que estava com uma cadeira na frente.
“Acho que veio dali”
O moreno praticamente enterrou o chapéu na cabeça, tentando esconder o seu embaraço, e seguiu até a porta, percebendo-a trancada, a chave no buraco da fechadura.
“Estranho…”, ele murmurou, destrancando a porta e abrindo-a.
Nada preparou nenhum dos dois para que apanhassem dois dos seus mais caóticos e barulhentos alunos sentados num canto aos beijos.
Hinata tinha ocupado o colo do setter, que o segurava carinhosamente pela cintura num meio abraço.
"Hinata-kun! Kageyama-kun!"
Os dois assustaram-se e Hinata saltou, literalmente, do colo do moreno até se encostar na parede oposta, "Professor!"
Takeda soltou um suspiro audível, e Kageyama logo se colocou em pé, nervoso.
“Nós estávamos trancados aqui!”
“S-Sim, a culpa é da Natsu!”, o ruivo logo acrescentou, cobrindo o colo com uma das mochilas ali perto.
O professor olhou para ambos: havia palha espalhada por todo canto, os alunos tinham os lábios inchados e as bochechas coradas… Ah, a juventude!
“Ora, ora, não precisam se explicar!”, Takeda sorriu, “A porta não está mais trancada. Ukai-kun e eu vamos terminar o passeio pela Casa Assombrada e nós nos vemos mais tarde~”, ele disse e agarrou o treinador pelo pulso, arrastando-o para longe dali.
Ukai deixou-se ser arrastado. Sentia que era ele quem tinha palha no cérebro ainda.
Takeda apressou-se a ir para outra divisão e assim que tinha a certeza que estava longe do alcance dos alunos, começou a rir alto como um condenado.
O loiro piscou, vendo Takeda apoiar-se na porta de saída enquanto continuava a rir. O professor parecia se divertir com toda aquela situação, mas o treinador estava um pouco confuso.
“Sensei?”
Takeda limpou o canto dos olhos, que estavam úmidos pelo lacrimejar da gargalhada.
“Desculpe, Ukai-kun, eu só achei tudo muito engraçado… Não sabia que atrapalharíamos os dois, se não eu nem teria destrancado a porta!”, sorriu.
Ukai sorriu levemente, “Não acho que tínhamos outra forma. Eles não podiam ficar ali trancados.”
O mais velho concordou, ainda a tentar acalmar o riso, “Verdade. Pobrezinhos, ficaram tão envergonhados.”, ele voltou a rir, um pouco nervoso, “Não imagino como eles devem se sentir! Serem pegos aos beijos…”, balançou a cabeça, e suspirou, “Vamos torcer para que eles não tenham ficado chateados…”.
Ukai abanou com a cabeça, “Tenho a certeza que eles vão compreender que não foi propositado…”, coçou a nuca.
Takeda assentiu, mas o mordeu o lábio enquanto devaneava no nervosismo acidental que podia ter causado aos seus alunos. Por experiência, quando tinha a idade deles, sabia que ser apanhado por um adulto aos beijos com outro rapaz não dava bons resultados. Lembrava ainda, palavra por palavra, do sermão de horas que o seu pai tinha dado assim que os professores lhe ligaram e também do castigo de semanas que teve, mesmo que ele insistisse que havia sido apenas por curiosidade. Lembrava da injustiça que sentiu e de como se achara atraiçoado pelos seus professores, que eram adultos que ele admirava.
Quando ele mesmo decidiu ser professor, prometera a si mesmo que estaria sempre presente para os seus alunos, em tudo o que precisassem. Queria garantir que Kageyama e Hinata sabiam disso e que podiam confiar em si.
“Mais tarde falo com eles.”, disse com um novo suspiro, “Mas por agora, vamos terminar a Casa Assombrada, sim?”
Sorriu levemente ao treinador, mas Ukai sentia a aura dele diferente e, junto com o seu nervosismo que ainda não tinha desaparecido, achava que tinha sido culpa sua.
“S-Sim, claro…”
Apenas uma porta separava a Casa Assombrada do corredor do colégio. Ali fora, diversos alunos, professores e demais visitantes estavam a brincar e correr de um lado para o outro, e Ukai tinha consciência de que fora daquele metro quadrado, ele voltava a ser o treinador de Karasuno e Takeda o professor conselheiro.
Não poderiam ser Keishin e Ittetsu, e logo um medo de que sua tentativa (falha) de beijar o mais velho tenha posto a amizade deles a perder.
Maldita paixonite!
“Sensei?”, Takeda olhou para o mais jovem, mas toda a coragem que Ukai havia reunido momentos antes caiu por terra quando ele percebeu o quão nervoso Takeda ficara com a situação de Kageyama e Hinata. Ukai não sabia do passado de Takeda, e assumiu que a culpa de tudo era sua, então ele forçou um sorriso, “Saímos para beber hoje?”
O professor sorriu, abrindo a porta para o corredor.
“Claro! Mas eu fico até mais tarde hoje, preciso me certificar que nenhum aluno ou visitante fique no colégio após o festival acabar”.
O loiro sentiu um alívio no coração. Pelo menos Takeda não o odiava, “Tudo bem, eu posso esperar.”
Takeda voltou a sorrir, e antes que eles deixassem a Casa Assombrada de vez, ele olhou para Ukai:
“Obrigado pelo passeio, Keishin-kun. Foi divertido”.
Ukai sorriu todo bobo, e os dois saíram para o corredor tranquilamente.
“Foi sim.”
Sugawara, que os observava de longe, suspirou em derrota ao perceber que seu plano havia falhado de novo.
Kageyama fez um sutil biquinho, seguindo Hinata pelos corredores do colégio.
“Acho desnecessário irmos conversar com Takeda-sensei.”
“Kageyama, ele nos pegou aos beijos! E-eu não suportaria que ele fique brabo com a gente!”, suspirou, “Gosto muito do Takeda-sensei, não quero que ele pare de gostar da gente…”
“Ele não vai parar de gostar de nós.”, rolou os olhos, “Não sejas paranóico.”
“Eu não sou paranóico. Só penso demasiado nas coisas…”
“Exacto. Não penses.”
O ruivinho bufou levemente, “És pior que o Tsukishima, sabias?!”
Kageyama olhou em volta, certificando-se que não havia mais ninguém no corredor e agarrou na mão dele, “Nem sou.”
Hinata corou até as orelhas, mas suspirou e entrelaçou seus dedos nos de Kageyama.
“Takeda-sensei pareceu muito surpreso quando abriu a porta… e você mesmo disse que dois rapazes namorando não são bem-vistos…”
Kageyama piscou.
“Estamos namorando?”
“Não estamos?”
“Estamos?”
O ruivinho ainda corado bufou levemente e apertou a mão dele, “Agora estamos.”
Kageyama pestanejou e desviou o olhar para esconder o sorriso, “Aposto contigo que sou um melhor namorado que tu.”
“Bakayama!”
Takeda abriu a porta do gabinete e não se surpreendeu exactamente ao ver a dupla problemática ali. Nenhum dos dois estava capaz de o encarar, ambos vermelhos e atrapalhados. O professor achava fofo.
Sorriu e pousou as mãos nas cabeças deles, despenteando ambos ao mesmo tempo, “Vieram visitar-me!”
Ambos os alunos coraram mais um pouco, Hinata sendo o mais corajoso entre eles para iniciar a conversa:
“Takeda-sensei, sobre o que você viu no depósito…”
O professor piscou, sorrindo em seguida e lhes cedendo espaço na porta para que os dois sentassem. Kageyama e Hinata trocaram um olhar, mas se acomodaram nas cadeiras ali dispostas.
“Claro, querem conversar sobre isso?”
Nenhum deles falou por algum tempo, os dois adolescentes acanhados e sem muita coragem para dizer ao professor, em voz alta, que gostavam um do outro. Não que fosse necessário, claro, o mais velho já havia percebido tudo e aguardava, com muita paciência e carinho, que seus adoráveis corvos se sentissem confortáveis para desabafar.
“Takeda-sensei, a questão é que… Foi o Kageyama quem começou!”
“Hinata-boke, não fale essas coisas!”
“Mas você me beijou primeiro!”
“E foi você quem se declarou primeiro!”
“Porque você achava que eu estava namorando meio mundo!”
“Não tem como você namorar meio mundo, você nem conhece tanta gente assim!”
“É forma de dizer, Bakageyama!”
“É uma forma burra e--!”
“Meninos?” Takeda pigarreou, e os dois olharam para ele.
Assim que os mais jovens se calaram, ambos a fazer biquinho, Takeda sorriu.
“Não precisam se explicar. Vocês são jovens e se gostam. Não há nada de errado nisso, mas o colégio não permite que os alunos fiquem aos beijos pelos depósitos, então só peço para que na próxima vocês esperem até chegar em casa”.
Os dois ficaram a encará-lo, pestanejando confusos, “O professor… não está chateado connosco?”
Takeda sorriu e abanou com a cabeça. Sentia-se um pouco mais calmo: os seus alunos não o odiavam pelo que tinha acontecido. Sem esse peso nos seus ombros, o pequeno professor conseguia agir normalmente e toda a situação agora lhe parecia cómica.
“Claro que não. A vida é vossa e não estão a fazer nada de mal.”, reforçou a ideia, mas ficou um pouco mais sério logo de seguida e ambos se encolheram por instinto, “ Só por favor tenham cuidado, usem proteção.”
Os dois pestanejaram de novo e trocaram um olhar antes de o encararem de novo, respondendo numa sincronização que só podia ser obtida quando se partilhava um único neurónio:
“Proteção contra o quê?”
O professor suspirou e tirou os óculos, pousando sobre a mesa.
Estava na hora de ter “A Conversa”.
Ukai engasgou-se com a cerveja que bebia e riu alto, “Tu torturaste os pobres coitados!”
Takeda riu também, sem derrubar uma gota sequer de sua bebida, e deu de ombros.
“Eles precisavam saber sobre as flores e as abelhas, Keishin-kun. Você já teve essa idade e sabe como os hormônios podem ser uma dor de cabeça quando resolvem controlar a situação”, olhou para o mais jovem, que limpava a boca, “Além do mais, eu não sei se eles conversariam com a família sobre sexo, e como o plano do Karasuno é começar uma aula de educação sexual no próximo mês, resolvi adiantar o assunto para eles”, explicou.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!“Oh? Isso é bem legal… na minha época não tínhamos escolha a não ser perguntar aos alunos mais velhos o que devíamos fazer…”, bebeu o resto da cerveja e suspirou, “E, claro, esses alunos mais velhos haviam perguntado para outros alunos mais velhos e assim sucessivamente… Geralmente a prática não era como a teoria e meus amigos e eu nos decepcionamos bastante”
O professor voltou a rir.
“Posso imaginar… na minha época devia ser pior”.
“Ah Ittetsu, não és assim tão mais velho que eu.”, riu e deu outra golada na cerveja.
O professor corou novamente ao ser chamado tão intimamente por Ukai. O rapaz loiro já estava alegre pela bebida, e parecia não perceber como agia com o mais velho.
“Ora, muitas coisas mudam em três anos, Keishin-kun”, Takeda riu.
“Nah, três anos não é nada. Quer dizer…”, coçou queixo, “É muito quando tens 15 anos, a partir dos 25 já não. Com quase 30 então é que não é.”
Takeda fez biquinho, “Não precisa me lembrar que tenho quase 30 anos, Keishin-kun! Isso é cruel!”.
O loiro encarou-o em confusão é pousou a lata de cerveja na mesa, "Cruel por que? É a idade que tens o que há de errado nisso?", pestanejou, "Ninguém dá-te dá mais de 20 e se viveres até aos 90, ainda tens 60 anos pela frente que é quase uma vida inteira."
Ele abanou com a cabeça baixou o olhar, Ukai então colocou sua mão sobre dele, "Qual é o problema, Ittetsu?"
O professor sorriu de lado, "Vivemos em uma vila pequena Keishin-kun. E quase todas as pessoas da minha idade que conheço, amigos ou colegas de escola antigos, têm já casamentos e famílias ou negócios e fortuna. Alguns ambos. Eu tenho a idade que tenho e não tenho nenhum dos dois.", começou a brincar com a lata da cerveja para ocupar as mãos," Os anos passam, o relógio não pára. Cada ano pesa mais que o anterior."
O mais jovem voltou a piscar.
“Isso… incomoda você?”
Takeda sorriu por educação, ainda não encarando Ukai, e assentiu de leve.
“Eu sei que é ridículo pensar isso, afinal eu estou vivendo a vida que escolhi: saí de casa para estudar, me tornei professor e eu amo o que faço, estou aprendendo sobre vôlei e sou feliz…”
“Mas?”
“Mas sempre que paro para pensar na minha vida, e no que conquistei ou não nesses primeiros trinta anos… Não consigo evitar me sentir um total fracasso. Minha família espera que eu me case logo e tenha filhos, quanto mais o melhor, e cada dia que passa, sinto que os
decepciono mais ainda”, suspirou, encolhendo-se em seus ombros, “Lembrar da minha idade e que não estou cumprindo meu papel como filho e homem me deprime…”
Ukai deu um longo suspiro, "Eu não quero ser hipócrita, mas no final, a vida é tua. Tu mesmo é que a estás a condicionar por causa da tua familia. É uma opção tua."
Passou o braço pelo ombro dele num meio abraço, "E, além do mais, queres ainda mais filhos? Quantos alunos tens? 40?"
O professor não conseguiu evitar uma risada e, esquecendo-se de que estava em um bar, deitou a cabeça no ombro de Ukai.
“57, na verdade…”, sorriu, “Você é sempre tão gentil comigo, “Keishin-kun…”
O loiro corou, piorava por culpa do álcool, mas ajeitou-se para o acomodar no meio abraço, "Impressão tua."
Mas Takeda voltou a sorrir, aproximando a boca da orelha de Ukai para lhe sussurrar:
“Fico feliz que seja o treinador do Karasuno… Assim pude conhecer você melhor, Keishin-kun”
Olhou na direção dele. Estavam agora próximos demais, a ponta do nariz do professor tocava na sua. Ukai só desviou o olhar do dele por meio segundo para encarar os lábios avermelhados do professor. Devia ser culpa do álcool, não? O seu coração parecia que ia sair pelo peito fora só pela proximidade de Takeda.
"Eu também fico… por teres insistido… "
Ele sorriu mais uma vez (seus sorrisos ficavam mais fáceis por causa do álcool) e terminou a sua cerveja.
“Hm, Keishin-kun, eu acho melhor irmos para casa…”, disse, “Está ficando tarde e embora amanhã seja domingo, preciso ajudar a limpar o colégio.”
Ukai sorriu, sentindo falta do calor do professor quando ele se afastou para pegar a carteira. Mesmo embriagado, Takeda sempre era muito gentil e sensato, e ele entregou o dinheiro certinho para o garçom. Ukai paragaria a sua parte no dia seguinte após se curar da ressaca. Eles faziam isso sempre, já que o treinador geralmente ficava zonzo demais para contar além de 3.
“Ah, que noite agradável!”, Takeda exclamou ao sentir a brisa fria tocar suas bochechas coradas e quentes, “Eu adoro o outono, as temperaturas são sempre tão amenas!”
Ukai deu um pequeno tropeço antes de parar ao lado do professor, que riu de leve.
“Não gosto muito do frio…”, disse, colocando as mãos nos bolsos, “Prefiro o verão: roupas mais leves, não é tão horrível sair da cama às quatro da manhã…”
“Você realmente acorda cedo…”, os dois começaram a caminhar lado a lado, seguindo na direção do apartamento de Takeda. Já fazia alguns meses que Ukai primeiro acompanhava o professor até seu ‘lar doce lar’ antes de seguir para sua própria casa, e embora Takeda fosse contra aquilo no início (pois Ukai morava do outro lado da cidade), aquela rotina era algo que nenhum deles desejava abrir mão, “Como consegue manter sua energia pelo dia?”
“Com muito café”, Ukai riu, sendo seguido por Takeda, e retirou o maço de cigarros do bolso.
Antes de conseguir acendê-lo, entretanto, Takeda lhe segurou o pulso.
“Por favor, não fume! Não traz benefício algum e você fica fedendo a tabaco…”
Ukai suspirou, "Mas é um vício. E sempre me acalma. Aliás, mantém-me ocupado."
Ele fez biquinho, deitando a cabeça no ombro do mais jovem.
“Mas assim não sinto o seu perfume…”
Certo, se fosse possível, o coração de Ukai teria saído do seu peito naquele momento: Takeda Ittetsu, o cara por quem ele era completamente apaixonado há meses, estava agarrado em seu braço, no meio da rua, a comentar que gostava do seu perfume. Seu. Inexistente. Perfume. Porque Ukai não usava perfumes… Não, ele os achava irritante na pele e no olfato, então ele só usava desodorante e sabão, então o que o professor elogiava era o seu cheiro natural.
Ah, ele não devia se sentir como um adolescente novamente por ser elogiado daquela forma!
“O-obrigado?”
Apesar do embaraço, eles não haviam parado de caminhar, e, para a infelicidade de Ukai, o conjunto de apartamentos onde Takeda morava era na próxima quadra. Não tinham mais muito tempo juntos, e o treinador desejou, com todas as forças, poder diminuir a velocidade de seus passos para que aquele momento delicado, onde o mais velho esfregava a bochecha roliça no seu braço, durasse por mais tempo.
“Por favor, só por hoje… só por hoje não fume, Keishin-kun…”, ele pediu, a voz serena e baixa.
Não era como se Ukai tivesse sequer hipótese de recusar um pedido daqueles.
Aliás, ele não negava nada a Takeda, afinal de contas.
Guardou os cigarros no bolso, "Está bem, eu não fumo."
O professor, então, sorriu. E o sorriso dele fazia tudo valer a pena, mesmo que fosse uma noite sem cigarro.
“Obrigado!”, Takeda agradeceu, voltando a esfregar a bochecha no braço de Ukai, e os dois subiram juntos os três degraus que separavam a rua do andar que Takeda morava.
Ukai nunca estivera no apartamento do professor, mas podia imaginar o quão organizado e limpo o lugar era. Afinal, se havia alguma coisa que Takeda era, era ser organizado com seus documentos.
“Chegamos, Ittetsu-sensei”
O professor soltou um leve suspiro, mas logo voltou a sorrir.
“Quer entrar e beber mais alguma coisa, Keishin-kun?”
Encarou-o incrédulo pelo convite e a resposta foi sincera e imediata, "Adoraria."
O professor abriu a porta com um pouco mais de pressa do que desejava, mas assim que entraram em seu apartamento e ele ligou as luzes, retirou seus sapatos e foi até a cozinha, “Fique à vontade, vou pegar uma cerveja”
Ukai agradeceu, mas ficou ali na salinha. Era um apartamento pequeno e era, como o esperado, organizado. Tinha vários papéis espalhados pela mesa — testes e trabalhos por corrigir — mas fora isso, estava tudo impecável.
O professor voltou com duas latas e deu-lhe uma, "Aqui tens."
Ukai agradeceu e pegou a lata, apontando para uma foto onde um pequeno e rechonchudo Takeda estava no colo de uma senhora.
“Sua mãe?”
O professor sorriu, assentindo.
“Sim!”
“Você tem os olhos dela…”, Ukai notou, e Takeda sorriu mais uma vez, lhe segurando a mão.
“Venha, vamos nos sentar…”, convidou, puxando o mais jovem até o sofá. Por ser um móvel pequeno, os dois sentaram-se com as pernas encostadas. O calor daquele simples toque foi o suficiente para fazê-los corar, e Takeda, ainda sem soltar a mão de Ukai, questionou baixinho: “Keishin-kun, hoje na Casa Assombrada… você ia me beijar?”
Ukai ficou visivelmente vermelho, "Ah eu… Eu…", não havia fuga e suspirou, "Eu… ia"
O professor mordeu o lábio inferior, visivelmente nervoso, mas não menos esperançoso.
“E… você mudou de ideia?”
Ok, se até aquele momento Ukai não morreu de vergonha, ele não morreria mais. O treinador até coçou a nuca, mas o álcool lhe ajudou a criar coragem e admitir:
“Não. Eu quero beijar você há muito tempo, Ittetsu”
Ao olhar para o professor, viu que ele estava tão vermelho quanto um tomate maduro. Takeda, então, retirou a lata de cerveja das mãos de Ukai, a colocando ao lado da sua sobre a mesinha de centro, e segurou as bochechas do treinador, o beijando.
“Suga, você não vai dormir?”, Daichi chamou, acariciando os cabelos do namorado ao perceber que ele digitava alguma coisa no celular. O mais velho suspirou, deixando o celular de lado antes de girar no futon e abraçar Daichi pelo tronco, “O que foi?”
“Decidi desistir de juntar o Takeda-sensei com o treinador Ukai… Estamos nessa missão desde a primavera, mas eles são idiotas demais para se resolverem”
O capitão sorriu, lhe beijando a testa.
“Bem, eu sempre disse que esse assunto era só deles… se Takeda-sensei e o treinador realmente se gostam, cabe a eles decidir o que fazer com esse sentimento”
“Eu sei--”
“Saber não basta”, o moreno disse, fazendo o menor suspirar, e sorriu, “Eles são adultos, tem a própria vida… vamos torcer para que, independente da escolha deles, eles sejam felizes”
Suga aumentou o biquinho.
“Você sempre fala como um capitão”
“Bem, eu sou um… mas estou sendo sincero, Koushi~”
O mais velho corou, escondendo o rosto no peito de Daichi.
“Daichi, seu bobo!”
“Também amo você, Koushi.”
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