Season of the Witch
4 Capítulo Três — Ritos
Notas iniciais

O som de gargalhadas rudes preenchia seus ouvidos, enquanto o príncipe apenas almejava concentrar-se na missão. Missão esta cujo derradeiro momento custava a chegar.
— Vamos, Lorde Lobo, a hora é tardia e amanhã levantaremos cedo! Aproveite os momentos de diversão que lhe restam! — o comandante de guerra Ulstan Leinster aconselhava junto a uma risada rouca e ébria. O filho do Rei Ecbert ajeitou a postura, colocando uma das mãos no cabo da espada, tencionando com o gesto manter-se alheio ao convite.
Ao varrer com os olhos o local para onde o comandante estrangeiro o levara, o príncipe de Wessex aspirou devagar, fazendo com que o odor amargo de cerveja, suor e outros fluidos corporais subisse até suas narinas. Mal disfarçou a expressão de repúdio, e teve de redobrar seus esforços para se manter paciente e composto.
Naquela noite, Ulstan decidira levar todas as tropas para um descanso renegado, ou seja, para receber conforto nos braços e corpos quentes de meretrizes de sua terra. O bordel de suposta sofisticação se localizava na periferia de Castelo Negro, no condado de Wicklow. Estavam perto de completar um mês viajando, desde que deixaram Wessex na companhia de alguns de seus melhores guerreiros. Gastaram uma semana de Wessex até Dummonia, no extremo oeste inglês, a cavalo. Depois, foram dos portos da terra natal do príncipe inglês até Waterford, no sul irlandês, em mais outra semana.
Para não despertar atenção, as tropas avançaram discretas pelas terras ermas da Irlanda, gastando duas semanas até chegar no condado vizinho a Meath, onde se localizava o castelo de Tara e o monastério da ordem de Columban, que pretendiam derrubar. Foram muitos dias e noites marchando e acampando, e o príncipe inglês pôde descobrir muito sobre os costumes e tradições do povo vizinho.
Naquele momento, Aethelwulf acompanhava com o olhar os inúmeros irlandeses avançando lupanar adentro, escolhendo para si companhias femininas e se servindo de cerveja em canecas grosseiras de madeira. Aquilo tudo despertava uma sensação de simultânea repulsa e familiaridade no príncipe inglês.
Fazia-o relembrar da época em que seu pai firmara um acordo com os vikings, para que conquistassem Mércia, retirando do trono a família da rainha Kwentrith. Fora forçado a trabalhar junto de uma corja de pagãos analfabetos, hereges e marginais. E a realidade atual não parecia assim tão distinta, por mais que o rei inglês insistisse em trata-los como um povo catequizado.
— Chame-me de Aethelwulf — retrucou o filho de Ecbert, suscitando em sua voz a melhor similaridade que podia com o tom calmo, porém perigoso, de seu pai. O comandante irlandês pestanejou, enquanto se punha a passar os braços na cintura de uma jovem de cabelos escuros, que se oferecia para ele em vestes simplórias e transparentes.
— É só uma maneira amigável de lhe tratar, Lorde Aethelwulf — esclareceu o príncipe de Tara, em seu sotaque irlandês ao falar o inglês antigo. — “Wulf” lembra Lobo — comentou Ulstan, e moveu os olhos para encarar o colo da prostituta que lhe presenteava com um largo sorriso.
— Não aprovo apelidos — reiterou o filho de Ecbert, sisudo. — Tampouco este tipo de frivolidade — ergueu o braço esquerdo, apontando para a sala principal do bordel. Boa parte de seus próprios guerreiros se unira aos irlandeses e se espalhava pelo local de meretrício, extasiados com a expectativa de prazer lascivo.
— Somos meros humanos... — O príncipe irlandês arqueou as sobrancelhas, abraçando as carnes da rameira que dava risadas ao seu toque. — Nosso Deus sabe que somos falhos, e compreende que lutamos, acima de tudo, pela Sua Vontade — disse Ulstan, junto a um sorriso zombeteiro. Aethelwulf não acreditava em sua fala cínica. — Então nos perdoará um momento de fraqueza carnal — acrescentou, ao passo que descia os braços da cintura da jovem para seus glúteos. Ela deu mais curtas risadas travessas.
O príncipe inglês meneou o rosto em negativa.
— Você é um homem casado, tal como eu — insistiu Aethelwulf, e Ulstan soltou um som de escárnio com os lábios. Depois, arregalou as pálpebras, como se estivesse incrédulo com a rigidez do herdeiro de Ecbert.
— Minha esposa está aqui? Ou a sua? — Deu-lhe um olhar de deboche, e não mais gastou palavras com Aethelwulf. Empurrou a jovem consigo sem delicadeza para um dos aposentos do prostíbulo, deixando o comandante inglês sozinho com o monge Bressal. O sacerdote era um rapaz irlandês, fluente em inglês antigo, outrora missionário em Sussex, na Inglaterra. Ecbert o contratara para ser o tradutor particular de seu filho na viagem, em caso de necessidade.
O príncipe inglês controlou uma exclamação raivosa, fechando a expressão e mais uma vez balançando o rosto em desaprovação. Poucos de seus homens se mantinham reticentes, o olhando de vez em quando como se aguardassem suas ordens. Não se moveram para sair, tampouco para festejar com as meretrizes.
Aqueles estrangeiros se portavam por vezes de maneira que beirava o selvagem, como rufiões e bárbaros. A cada dia que se passava, Aethelwulf concordava mais com as reticências de Edmund e dos sacerdotes de Wessex.
Talvez aquela manobra política fosse mesmo a primeira falha de seu pai.
— Malditos irlandeses... Maldito país pastoril — murmurou para si mesmo, mas Bressal pareceu escutá-lo, pois logo respondeu.
— Não se preocupe, senhor, eles estão de fato comprometidos com a batalha — assegurou-o, seus olhos fundos castanhos dirigindo-se para as íris azuis escuras do príncipe inglês. O padre era o único naquela tropa de patifes que não tinha aquele sotaque irritante dos irlandeses.
— Bela forma de demonstrar comprometimento — ironizou, abrindo a porta pela qual entrara e saindo para a noite escura. Deixou aquele casebre redondo, construído de maneira rudimentar, e seu fétido telhado de colmo. Céus, detestava até mesmo a arquitetura daquele país.
Não conseguira dissuadir boa parte do exército daquela noite de arrelias, então era melhor que ao menos um dos comandantes da tropa desse o exemplo de disciplina. Seus homens mais fiéis o seguiram, e ele os dispensou para que pudessem dormir e descansar.
O monge continuou seguindo Aethelwulf, que decidiu subir na muralha de Castelo Negro. Não tinha sono, não se habituava as condutas confusas daquele país que por vezes lhe inspirava os modos da cristandade, e, em outros momentos, parecia pulsar conforme os preceitos pagãos. Até mesmo as cruzes das igrejas e a decoração sacra daquela ilha se mesclavam aos seus hábitos religiosos antigos, em cruzes arredondadas, padrões e desenhos rúnicos que em nada se assemelhavam a herança romana.
Você deve estar se divertindo, não é, pai? Pensou Aethelwulf, entre a raiva e a amargura, deixando seu olhar transpor a grama escura metros abaixo, se perdendo na mata fechada nos arredores do castelo.
Não podia desertar Ecbert, tampouco tramar contra ele. Não era páreo. Seu pai era o homem mais inteligente e sagaz que conhecia, e todo o seu futuro como possível herdeiro do trono de Wessex e da Bretanha dependia do sucesso de Ecbert.
Deve estar aos risos e chistes com Judith, troçando de meu destino.
Respirou fundo para controlar o ódio fervente que lhe subiu pelo sangue com aquele pensamento. Sabia que, para Ecbert, não era nada além de uma peça que seu pai movia conforme lhe fosse útil em seus jogos de política.
Mas, se desprezava tanto seu pai, por que dentro de si aquele mesmo ímpeto de quando era um garoto ainda queimava? Por que insistia com todas as suas forças em querer prova-lo errado?
Seu pai amara Athelstan, o culto monge que acolhera em Wessex. O mesmo monge que engravidara sua esposa, a mulher que seu pai tomara para si como concubina, independente de ser casada com seu filho. A quem Ecbert parecia, também, amar. Em seus estranhos modos.
Ora, seu pai chegou até mesmo a admirar Ragnar, o grande rei viking, por sua engenhosidade e audácia.
Por que Ecbert parecia reconhecer algo valoroso em todos, menos em seu próprio filho?
Aethelwulf abaixou o rosto, atormentado, apoiando os braços na muralha de pedra do Castelo Negro de Wicklow. O monge Bressal se mantinha parado ao seu lado, vez ou outra murmurando quase inaudível algumas preces. Tochas estavam dispostas pela muralha, permitindo que aqueles que a guarneciam pudessem vigiar adiante dos territórios do castelo.
À fraca luz das chamas que se perdiam na escuridão da noite, um movimento chamou a atenção do príncipe. Uma sombra vagava para fora da floresta próxima, caminhando na direção da muralha. Surpreso, o filho de Ecbert fixou seus olhos na figura que vagava, tentando discernir seus contornos.
— É uma mulher — articulou, quando a silhueta se aproximou das muradas o suficiente para que a iluminação bruxuleante a fizesse estremada.
Preocupado, o príncipe inglês desceu as escadas da muralha, dirigindo-se aos portões. Era tarde, algo ocorrera aquela senhora para perambular sozinha e buscar abrigo.
Bressal o seguiu, como de costume, sem fazer perguntas. Os guardas de Castelo Negro inquiriam a visitante em gaélico irlandês, e por seus semblantes sérios pareciam desagradados em deixa-la entrar.
— O que estão dizendo? — interpelou o príncipe ao seu monge tradutor.
— Perguntam quais as intenções da forasteira. Deve ser uma plebeia qualquer, não parecem ver razão para dar-lhe passagem — explicou o sacerdote. Aethelwulf coçou a barba bem aparada, e solicitou ao monge:
— Avise para que a deixem entrar. É uma ordem — ratificou o príncipe inglês. Deu um olhar severo para Bressal, que apenas anuiu e fez o que lhe foi pedido. Os guardas irlandeses fixaram um olhar descrente em Aethelwulf, mas lhe obedeceram.
Em poucos minutos, a andarilha caminhava para dentro do castelo, agradecendo em sua língua nativa para os guardas. Depositou um olhar tranquilo no rosto de Aethelwulf, ao notar que a observava.
— Dia duit* — a mulher disse, com um sorriso discreto. O príncipe inglês reparou que seus cabelos tinham cor semelhante à das chamas que queimavam perto da muralha, e seus olhos claros brilhavam como sulcos de luar. Um olhar diferente, plácido, etéreo. Como a bruma pálida na escuridão da madrugada.
Ele mirou Bressal, que logo se pôs a traduzir:
— Ela o saudou. Com simplicidade — certificou, em um pigarro.
— Responda da mesma forma — demandou Aethelwulf. O monge fez conforme ordenado, e a desconhecida o fitou com o mesmo ar meigo.
— Cad is ainm dom?** — indagou a estrangeira, e o príncipe outra vez aguardou a tradução.
— Ela perguntou o seu nome — o sacerdote expôs. O príncipe inglês fitou um olhar semicerrado no rosto daquela mulher. Havia algo de conhecido nela.
Naquele instante, sentiu um calafrio percorrer sua espinha, arrepiando os pelos de sua nuca. Disfarçou a sensação, engolindo em seco. Por um momento, se arrependeu de ser benevolente com a andarilha.
— Pergunte o que ela faz aqui.
Bressal teve um curto diálogo com a mulher, que respondia fitando os olhos azuis de Aethelwulf. Sua expressão ia se tornando cada vez mais aberta e afável, como se continuamente encará-lo pudesse de alguma forma lhe habituar ao príncipe inglês.
— Ela alega estar em peregrinação com seu clã. Em um de seus rituais sagrados. Mora nas terras reservadas aos pagãos, oriundas do acordo que Áed fez com eles — o monge recordou ao filho de Ecbert um curto trecho da história das terras de Tara.
— Isso não responde a minha pergunta — retorquiu o príncipe, ríspido. Bressal crispou os lábios e levantou as sobrancelhas.
— Ela afirma que recebeu um chamado — falou o monge, e a mulher logo articulou uma palavra que foi capaz de causar outra dose de calafrios no filho de Ecbert.
— Aethelwulf — a desconhecida piscou os olhos, dizendo com placidez o nome do herdeiro de Wessex.
O príncipe fitou o monge, que apenas esbugalhou os olhos, embasbacado.
— Quem é você? — balbuciou o filho de Ecbert, estupefato.
— Maella is ainm dom*** — ela respondeu de pronto, e não houve necessidade de tradução. Aethelwulf compreendeu que ela se apresentava.
A mulher tinhas as mãos cruzadas na frente de sua capa amarrotada de viagem. Anéis de pedras coloridas em tons vibrantes se faziam antever em sua mão, bem como muitos colares pendiam em seu pescoço.
Não só a expressão daquela mulher era, de alguma forma, distinta. Até mesmo suas vestimentas, disfarçadas naqueles trapos de viajante. Ela parecia, por si só, alguma espécie de sacerdotisa.
Bruxa.
Aethelwulf sentiu o sangue gelar. Quis recuar, mas, por algum instinto irrefreável que não lhe fazia sentido algum, sua intuição lhe dizia para continuar ali.
Logo depois, a mulher retirou algo do bolso das capas, e o príncipe quase desembainhou a espada para se defender. Logo viu que ela retirava algumas pedras que tinha consigo. Com inscrições irreconhecíveis incrustadas nelas.
A celta lhe fez mais uma pergunta em sua língua misteriosa. Aethelwulf sentia a garganta se fechar em um nó ansioso. Não sabia o que fazer. A curiosidade parecia vencer qualquer senso do razoável.
— Ela perguntou se quer que leia a sua sorte — transpôs o monge Bressal. O príncipe inglês o fitou devagar, sem nada dizer. O padre parecia também atônito, com feições assombradas.
— O que isso iria me custar?
O padre irlandês arregalou os olhos, desconcertado. O nobre ordenou que traduzisse.
A mulher levantou o rosto com lentidão. Em seguida, respondeu.
— O preço será equivalente ao que você quer saber — murmurou o monge, fazendo o sinal da cruz. Pelo visto, considerava aquela transação algo blasfemo.
Mas Aethelwulf não se importava mais.
— Diga a ela que, se realmente souber ler o destino que Deus me reserva, saberá quais são as respostas que procuro — lançou. Deu um sorriso presunçoso para a mulher, que apenas concordou com o rosto. Ela deu alguns passos para trás e se abaixou, sentando-se na grama próxima das muralhas.
O nobre e o padre se entreolharam, mas a andarilha não havia parado.
A bruxa sacudiu as runas em suas mãos em concha, dizendo algo como um mantra em seu idioma. Aethelwulf quase se sentia arrependido do desafio, mas não conseguiu parar de fita-la.
A feiticeira jogou as runas para cima, que caíram pela grama em uma disposição supostamente aleatória. Ela fechou os olhos, ainda repetindo as frases indistintas, e depois os abriu. Suas íris acinzentadas perscrutaram as de Aethelwulf, para depois mirar as pedras. Em seguida, pôs-se a falar, olhando de novo para o príncipe. Depois de dizer poucas frases e silenciar por completo, baixou o rosto.
— O que você espera virá depois da águia, e antes do fogo. Assim, e apenas assim, o Rei Aethelwulf governará as Bretanhas. — traduziu o padre para o nobre, em sussurros assustados.
O que eu fiz? O príncipe inglês se perguntou, outra vez a mirar o monge, que não dizia nada, boquiaberto.
A mulher se levantava e erguia uma mão, aguardando o pagamento. Depois de algum tempo, disse algo ao monge Bressal.
— Ela afirmou que se não pagar o preço correto, a vida lhe cobrará depois — asseverou o padre, de novo fazendo o sinal da cruz, como para se proteger da magia herege.
Aethelwulf pensou rápido. O que poderia ser equivalente? Mexera com forças obscuras, mesmo com todos os alertas dos membros da Igreja. Não poderia deixar aquilo consumi-lo. Não saberia quais seriam os custos, caso não pagasse o preço esperado.
Outro arrepio agourento lhe subiu pelas costas, e o príncipe inglês decidiu. Retirou o anel que ganhara de seu pai quando se tornara um varão, o mesmo anel que passava de herdeiro a herdeiro em sua família há gerações, abençoado pelo papa. Era o símbolo da herança de seu reinado, e parecia pagar aquelas informações.
— Ela disse que isso vai bastar — o padre traduziu, e o príncipe inglês notou que ele suava frio. Suas próprias mãos também estavam suadas, o que facilitou tirar aquele anel que marcara fundo seus dedos.
Entregou o anel para aquela mulher, e rezou para Deus pedindo perdão em seus pensamentos.
Restaura-me o vigor e conduz-me nos caminhos da justiça por amor do seu Nome. Proteja-me, Senhor, nesta terra de sortilégios.
♕♕♕
Um mês se passara desde que a princesa Brigit fora deixada em Wessex, acompanhada de alguns nobres da corte irlandesa.
A princesa visitante estava insatisfeita. Seu pai não permitira que seguisse suas negociações com o Conselho do governo que se reuniria em Mércia, o qual compareceria junto ao Rei Ecbert e um pequeno séquito de nobres escolhidos pelos monarcas. Áed sabia que o dom da filha poderia ser um diferencial, capaz de atinar sobre as intenções reais daqueles que se reuniriam em conferências, mas seu pai não ousou extrapolar as regras dos saxões. Nenhuma mulher seria levada, então Áed não poderia abrir essa exceção.
Os dias se passaram arrastados, enquanto a irlandesa tentava se distrair investigando não apenas a capital daquele reino inglês, mas também os seus moradores.
Nesse meio tempo, descobrira um pouco mais sobre a princesa Judith e seus segredos. Sabia que a amante do Rei Ecbert tinha lições de iluminação — a arte da pintura dos textos sagrados — lecionadas pelo monge Prudentius, o que ocupava boa parte de seu tempo. Em tese, aquela arte era resguardada somente a homens sacerdotes, impossibilitada de ser praticada por mulheres, tampouco moças que não fossem freiras ou noviças.
Conseguira antever parte de suas memórias, reparando que a jovem tivera um relacionamento extraconjugal com um monge que vivera em Wessex, chamado Athelstan. Em um dos acessos a suas lembranças, descobrira que seu filho mais novo, Alfred, era inclusive filho deste padre.
Por que o rei inglês acobertaria tamanha traição ao seu filho? Ele parecia amar seus netos, e talvez até mais o que não era seu herdeiro de sangue. Havia alguma ligação entre o rei, sua concubina e aquele monge que encontrara seu lugar na linhagem de Wessex. Brigit precisaria investigar mais.
Mas não naquele dia. Não o dia que reservara para si e para Einmyria. Um dia minuciosamente agendado para que pudesse sair dos olhos atentos das cortes inglesa e irlandesa.
Um dia de liberdade, pensava consigo, chegando a cavalo nos arredores de um bosque iluminado pelo sol da primavera inglesa.
Durante tais quatro semanas, Brigit se aproximara bastante de sua aia particular. Einmyria se dividia entre acompanhar a princesa irlandesa e cuidar de Magnus. Este era uma criança bastarda que diziam ser filha do rei viking Ragnar, com uma mulher que outrora governara Mércia. Era um menino de três anos de idade, criado como agregado do Rei Ecbert.
Myria era reservada, esperta e discreta, o que muito agradava a princesa.
Brigit sabia valorizar as pessoas de baixo escalão na hierarquia de privilégios de nascimento. Isto porque tinha conhecimento de que os serviçais sabiam de muitos segredos pertencentes aos nobres para quem trabalhavam. E ter a confiança e a verdadeira estima de pessoas nesta posição era não só favorável politicamente, mas sim uma vantagem inegável.
Com o passar deste mês, a irlandesa reparara que Einmyria usava sua beleza exótica e chamativa como uma espécie de moeda de troca, para se manter segura. Um dos homens que parecia seduzido pela viking era o capitão da guarda da pars rustica de Wessex, o cavaleiro Wymond. De cabelos negros na altura do ombro, barba comprida e um olhar sonolento, o capitão da guarda da área resguardada aos serviçais de Wessex inclusive prestava favores a aia pessoal de Brigit, como conseguir-lhe melhores porções de alimentos e bebidas, roupas e outros mimos.
Então a princesa convencera a trabalhadora a pedir-lhe uma escolta, para que pudessem passear nos arredores da capital de Wessex, sem despertar suspeitas. Saindo acompanhadas de uma tropa de cavaleiros, não haveria razão para os ingleses — tão opressores com suas mulheres — desconfiarem de uma curta viagem. Iriam e voltariam no mesmo dia.
E este dia é hoje, a irlandesa sorriu para si mesma, descendo de seu cavalo, auxiliada por Einmyria.
— Sir Wymond, agradeço pela proteção. Eu e minha serva temos sede e nossos cantis estão vazios, portanto iremos até o rio. Einmyria sabe a localização — avisou ao cavaleiro, que assentiu. — Podem descansar, passaremos algum tempo a sós. Certifiquem-se de que ninguém se aproxime! — deu as ordens com um sorriso gentil, arranjando o pretexto que precisava.
Com o máximo de elegância que podia reunir, a jovem irlandesa avançou pelas árvores do bosque, contendo o alívio de se ver longe dos olhares vigilantes da corte. Einmyria seguia ao seu lado, silenciosa. Para a princesa, sentir o cheiro da terra úmida, das folhas, dos troncos e do musgo era revigorante. Estar na natureza era parecido com estar em casa.
Brigit amava viajar. Um de seus sonhos era conhecer o máximo que pudesse do vasto mundo. Mas também podia sentir saudades de seu lar, especialmente quando se sentia uma estranha no ninho. Os modos distantes e cordiais da princesa Judith pareciam lembra-la daquela sensação com frequência. Como se lhe dissesse, com educação, que aquele lugar não era dela para se sentir à vontade.
Ignorando os pensamentos sobre a outra nobre, ela continuou seguindo o caminho liderado por Einmyria. A nortenha parou apenas ao alcançar o leito do rio. A irlandesa abriu um sorriso animado, arteiro.
— Vamos entrar? — sugeriu. Einmyria arqueou as sobrancelhas.
— É sério, vamos! Pense bem, Einmyria, quando poderá aproveitar de novo um dia assim? — lembrou, e começou a despir as botinas de viagem. A serviçal passou algum tempo a fitando, como se avaliasse a sugestão.
Acabou por ceder.
Mais ágil do que a irlandesa, a nortenha se despiu, guardando com cuidado as vestimentas entre as folhagens, e pulou no rio em um arco gracioso, calculado. Logo veio à tona, seus cabelos loiros escurecidos pela água.
— Isso foi rápido — concatenou a princesa, ainda tentando deslaçar seu vestido justo. Einmyria lhe brindou com um sorriso convencido, passando a nadar de costas para depois apoiar-se em uma pedra comprida.
A nobre entrou no rio com mais cuidado do que a plebeia, temerosa. Quase tropeçou ao colocar o pé na água, o que fez a aia rir com gosto. Brigit teve de dar risadas também.
Nadou para perto da serviçal, apoiando-se com as mãos defronte a pedra, olhando para Myria de esguelha. O perfil da aia era banhado por halos de luz solar que desciam pela folhagem, fazendo cintilar seus olhos verdes, os clareando. Ela movia o pescoço, relaxando os músculos, enquanto Brigit encrespava os lábios, tentando disfarçar o quanto se sentia atraída pela serva. Sentia-se diminuída perto dela, por sabe-la mais alta, bela e sensual.
— Este rio não é gelado — afirmou a princesa, tentando se distrair de seus pensamentos sobre a beleza de Einmyria.
— É quente, quase como uma terma — concordou Myria, em um tom quase entediado. Certamente na Noruega ela se banhava em águas mais frias. Mas Brigit não compreendeu a referência.
— Terma... Já li sobre isso — falou, curiosa. Einmyria a fitou e sorriu.
— Termas são banhos romanos. Como os que o Rei Ecbert manteve em sua vila.
— Ele se banha em termas?! — perguntou, surpreendida. Mergulhou um pouco mais e nadou para ficar de frente a Einmyria. Ela aquiesceu com o rosto.
— E por vezes convida pessoas para se juntarem a ele — disse a serva, de maneira sugestiva. Brigit entreabriu os lábios, sem se conter. Sentiu uma tremulação no estômago ao imaginar aquilo.
— Você... Foi uma delas? — interpelou-a, enquanto Einmyria dava risadas. Deveria estar achando graça do olhar abobalhado da princesa.
— Algumas vezes. O Rei sabe ser convincente quando quer — falou, despudorada, dando de ombros.
Brigit percebeu que começara a passar os dedos em seus cabelos ondulados molhados, quase os acariciando. Parou o movimento com sutileza.
— Eu não imaginava — titubeou, e a trabalhadora a mirou, erguendo uma sobrancelha.
— Ora. Não é casada, Brigit? Pensei que estivesse familiarizada com os interesses masculinos — proferiu Myria, dando um sorriso torto. Mergulhou para molhar os cabelos outra vez e emergiu.
— Não foi isso que quis dizer. Conheço os apetites dos homens, e não me surpreende que o rei a tenha requisitado. Você é linda — elogiou com um pouco mais de ênfase do que pretendia. Einmyria voltou a olhar para ela, sorrindo mais aberta.
— Obrigada — agradeceu a serva. A princesa tossiu, cobrindo os lábios, e continuou.
— É só que nunca havia mencionado, por isso me surpreendi — foi a vez da princesa fingir desinteresse. Myria semicerrou os olhos e a fitou, estudando-a.
— Por que eu haveria de mencionar?
Brigit quase soltou um suspiro, exasperada. Expusera-se.
— Por nada — desconversou, mas a aia riu e lhe jogou um punhado d’água. A irlandesa abriu os lábios, surpresa pela ousadia.
— Porque você gostaria de ser convidada também! — zombou a serva, enquanto Brigit lhe jogava água no rosto. O serpeio fremente voltou ao seu baixo ventre, e com ele adveio um suave nó na garganta.
Einmyria gargalhava, e a irlandesa se permitia um meio sorriso.
— Você não deveria desejar isto — confidenciou-lhe a serva, depois que pararam com as pilhérias.
— Nunca disse que desejava — negou a irlandesa, abaixando os cabelos na água. Einmyria revirou os olhos. Brigit gostava de vê-la assim, menos retraída. Permitindo-se ser um pouco petulante.
— Você não deveria confiar a este Rei nem mesmo a unha cortada de seu dedo mindinho — garantiu-lhe, com tamanha entonação que surpreendeu a jovem de madeixas acobreadas. Brigit franziu o cenho e se punha a indagar as razões daquela assertiva, quando algo as interrompeu.
A irlandesa reparou na aproximação de um animal corpulento. Não tão grande quanto um lobo, nem tão pequeno quanto uma raposa. Um cão selvagem malhado caminhava até a beira do rio, abaixava o focinho e matava sua sede.
Por instinto, a irlandesa pulou a frente da serva, tentando protege-la da presença hostil. Estavam nuas dentro d’água, indefesas. Se o animal atacasse Einmyria, de costas para ele, saltaria direto em sua jugular.
A nortenha, porém, pareceu compreender a ação de Brigit em um átimo de segundo. Bastou que a jovem se lançasse impávida a sua frente para que ela voltasse a margem. A irlandesa pretendia fazer o mesmo para se proteger, pois o animal já rosnava na direção delas, amedrontador.
Todavia, o som rascante de algo cortando o ar passou zunindo as orelhas da princesa. Ela seguiu o movimento, e notou que uma lâmina penetrara fundo entre os olhos do animal, o aniquilando no ato.
Espantada, Brigit fitou Einmyria, que ainda mantinha a posição do golpe. Soubera como lançar a comprida faca perfeitamente, fazendo cair o queixo da irlandesa.
— Você é realmente uma guerreira! — elogiou-a, esbugalhando seus olhos de corça. Myria a fitou, respirando fundo para se recompor.
— Isso não foi nada — refutou o elogio. Pela tensão no ambiente, Brigit percebeu que a diversão já acabara.
Mas seu dia de liberdade não precisava terminar assim. Teve uma inspiração súbita.
— Você é nortenha. — Segurou o braço da aia. Einmyria a olhou, desconfiada. — Sua religião não é a mesma que o cristianismo dos saxões — afirmou. A serva nada disse, apenas intensificou o semblante circunspecto.
— Se você quiser rezar... Solenizar algum rito... Este é o momento — sugeriu a princesa. — Eu não vou contar a ninguém. Porque eu também tenho deuses a agradecer — segredou-lhe, falando mais baixo. Algo cintilou nos olhos de Einmyria, mas ela logo se afastou do toque da nobre. Todavia, mantinha-se a mirá-la.
— E eu acho que este lobo tem sangue de sobra para nós duas — disse, com um sorriso matreiro. Foi a vez de Einmyria portar uma expressão perplexa, enquanto a princesa andava até o lobo e cortava seu pescoço, reunindo o sangue em um cantil.
E assim, a celta e a nortenha celebraram seus próprios deuses, em segredo.
Ante ao convite de Brigit, Einmyria se pintou com o sangue de lobo no rosto, e disse que oraria a Loki, deus do fogo, o qual louvou em cânticos em seu idioma nórdico. A irlandesa, por sua vez, agradeceu pelas bênçãos da deusa tríplice, honrando-a pelo sacrifício do animal. Banhou seu rosto com o sangue e depois o lavou nas águas do rio, cantarolando melodias por todo o rito sagrado.
Cantaram, uivaram e festejaram, e sabiam que nada foi compreendido pelos cavaleiros distantes delas, que, sem nada desconfiar, lhes montavam guarda. Aos ouvidos deles, chegariam apenas sons suaves, causadores de calafrios.
Como os arrepios soprados pelos ventos gélidos, a sussurrar segredos da floresta através das árvores.
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