Season of the Witch

5 Capítulo Quatro — Sussurros


Notas iniciais
Boa tarde, minha gente! =D Como estão todos vocês? Espero que muito bem. SOTW tem apenas quatro capítulos, mas já conta com três recomendações, dezenove favoritos, quarenta e nove leitores e trinta e sete comentários! Espero que os números continuem crescendo. Estou muito feliz com a boa recepção da fic! =) Dedico este capítulo as leitoras Sofia Veras e shadowxcat, que recomendaram a minha história já tão cedo! É maravilhoso receber este apoio todo de vocês, meninas, e saber o quanto estão gostando! Espero que eu siga sem decepcioná-las, me esforço bastante nesta e em todas as minhas produções. ^^ Neste capítulo, teremos dois POVs diferentes. Mais choques culturais entre ingleses e irlandeses (se preparem, que em breve já teremos cenas de guerra, papo de dois ou três capítulos), e um POV todo da Judith, mostrando a força e o sangue de barata dessa moça. O trio principal feminino dessa trama (Brigit, Einmyria e Judith) é pra aplaudir de pé, porque só tem mulherão da porra, sério. Espero que se divirtam e aproveitem! Fiquei feliz que esse capítulo não ficou grande, acho que o número de palavras está bem tranquilo de ler. Vou tentar mais ou menos nesse tamanho! Agradeço a todos os leitores que comentaram o capítulo passado: Sofia Veras, Sputnik Sweetheart, Arrriba, Sami, shadowxcat, Babi Prongs e Cris (os dois últimos, comentaristas via whatsapp ahusuhshus). Preciso desse feedback, galerinha, por favor não me deixem no vácuo. Nada de serem leitores fantasmas, a fic fala sobre bruxaria, mas sou uma bruxinha do bem, não precisam ter medo de mim, nem de comentar. ;) Beijos e que a magia da boa leitura flua em todos vocês!

O príncipe inglês dispunha as duas palmas acima da mesa de pedra, fitando sua superfície ao passo que encrespava as sobrancelhas. Tentava formular uma saída para o novo infortúnio que se abatia sobre os exércitos unidos pelas bandeiras do Rei de Wessex e do Rei de Tara.

Era o dia seguinte a estadia em Castelo Negro, no condado de Wicklow, o mais próximo posto avançado das terras da província governada pelo Rei Áed, da Irlanda. Depois de uma noite de libertinagem para a maior parte dos soldados — sugestão dada pelo príncipe Ulstan —, Aethelwulf e o genro do Rei Áed se reuniam na sala do Conselho do castelo pertencente a vassalos dos Oirdnide.

Debateram durante toda a tarde sobre como derrotariam seus adversários, junto aos principais cavaleiros da Ordem de Leinster, liderada por Ulstan, e os homens de maior confiança de Aethelwulf, oriundos do Exército de Wessex. A altercação variava entre palavras trocadas em inglês antigo e gaélico irlandês, e o monge Bressal, empregado como tradutor dos líderes militares, nunca tivera tanto trabalho.

Aethelwulf levantou os olhos e reparou que Ulstan servia-se de uma caneca cheia de cerveja, trazida por um dos servos dos Duinn, a família de nobres regentes de Castelo Negro. O senhor regente daquelas terras se encontrava na reunião, decidido a auxiliar naquela incumbência. Todavia, não passava de um nobre irlandês menor, que comandava um número ínfimo de homens capacitados para lutar.

Enquanto tentava pensar, o príncipe inglês escutava, atordoado, frases em gaélico irlandês proferidas em tons masculinos retumbantes se misturarem a sentenças em inglês antigo, faladas em timbres comedidos e mais polidos. O filho do Rei Ecbert passou uma das mãos pela barba morena, procurando se concentrar no meio daquela verdadeira bravata.

— Não consigo ouvir nem mesmo meus malditos pensamentos — resmungou, e o monge Bressal, sentado ao seu lado, o fitou com seus olhos fundos e castanhos. Parecia ansioso e confuso, sem saber como traduzir tantas informações trocadas em simultaneidade. Coçava seus cabelos castanhos escuros, afoito.

Aethelwulf se viu imaginando, contra sua própria vontade, a expressão de deboche contido que seu pai faria se pudesse testemunhá-lo naquela cena um tanto irrisória. Ora, era o condigno líder daquela missão. Era o momento de mostrar serviço.

— Você disse que a ordem de Columban está recebendo suporte do lorde Donnchad Midi, correto? — o filho de Ecbert bradou, dirigindo um olhar austero para Ulstan.

— Aye — confirmou o príncipe irlandês. — Ele é o principal rival do Rei Áed pela Coroa. Conseguiu tomar o castelo de Killeen — o nobre fanfarrão fitava Aethelwulf, curioso, enquanto falava o inglês antigo com seu sotaque excêntrico.

— E Killeen se encontra em uma localização privilegiada — considerou o filho do Rei inglês.

— O castelo de Killeen foi construído no alto de uma colina, entre a floresta de Dunsany e o rio Boyne. É impossível conceber um saque sem que nossa posição seja comprometida antes do ataque. Donnchad concentrou todo o principal ajuntamento de suas tropas na defesa do castelo. Seria uma missão suicida — lembrou Ulstan, dando de ombros. Parecia enfastiado da discussão, como se Aethelwulf não tivesse nada a lhe acrescentar.

Vamos. O que seu pai faria? O herdeiro do monarca de Wessex se perguntou. Era preciso surgir com uma estratégia insólita.

E a inspiração teve piedade de Aethelwulf. Suas íris azuis escuras logo cintilaram com a ideia que irrompeu em seu pensamento.

— O castelo fica cercado por uma floresta. Se causássemos um breve incêndio nas matas, seria uma distração — começou a formular o princípio da tática.

Ulstan parecia reticente. Os outros nobres capazes de compreender o idioma se entreolhavam, transtornados.

— Uma distração que revelaria nossa posição — salientou o nobre irlandês, axiomático.

— Depende. — Aethelwulf sorriu, e retirou a caneca de cerveja das mãos do monge Bressal, que moveu o rosto, surpreso, acompanhando o movimento. O nobre inglês a pôs acima do mapa, onde ficaria a floresta de Dunsany. Pegou sua própria caneca e a arrumou defronte ao castelo de Killeen. — Nossa posição não precisa ser unitária.

Foi a vez dos olhos castanhos de Ulstan brilharem. O príncipe irlandês deu um sorriso torto.

— É uma sugestão deveras interessante, Lorde Lobo — usou o apelido que Aethelwulf desgostava. Em seguida, moveu os olhos para o mapa. — Até porque podemos usar de certos aliados de meu sogro, e assim atacar em três tropas. — Apontou com o indicador para a floresta de Dunsany.

— Outros vassalos? — Bressal perguntou, arqueando as sobrancelhas.

— Não — respondeu Ulstan, com uma curta risada seca. — Fintan Bás Glas — assim que o príncipe irlandês proferiu aquele nome, todo o salão se calou.

Aethelwulf fitou o monge ao seu lado direito. Ele pestanejou, movimentou a cabeça para perto do rosto do príncipe inglês e traduziu:

— Fintan “Morte Verde” — sussurrou. — O líder do clã celta que vive nas terras do Rei Áed. É um guerreiro terrível, e um...

— Druida. Um sacerdote — continuou Ulstan Leinster, fitando o filho do Rei Ecbert. Aethelwulf o mirou e disse, buscando demonstrar reprovação:

— Um idólatra — alteou o príncipe inglês, sem desviar os olhos de Ulstan. Outro vil pagão. O genro do Rei Áed meneou a cabeça em anuência.

— Um idólatra que se uniria conosco contra a ordem que o expurgou de suas terras antigas — ressaltou Ulstan, erguendo os ombros e os braços. — Nada como um inimigo em comum para juntar opostos. — Deu um sorriso amplo para Aethelwulf, e outra sugestão de troça esplandeceu seus olhos castanhos.

O filho de Ecbert compreendeu a ironia implícita.

— Deus escreve certo por linhas tortas, meu senhor — Bressal ousou comentar, engolindo em seco ao mirar o olhar duro que o nobre inglês lhe reservou.

Tenho minhas dúvidas se é mesmo Deus quem olha por estas terras pagãs, pensava o príncipe de Wessex, deixando ao genro do Rei Áed um olhar arisco.

— Nosso dever é para com esta missão. Se é necessário cooperar com os celtas... Que assim seja — Aethelwulf teve de ceder.

Para não perder tempo, as tropas se organizaram e cavalgaram até Dunsany naquela mesma noite. Combinaram que o clã celta de Fintan receberia mais um terço das terras longínquas do condado de Meath, em pagamento pelo auxílio em batalha.

Quando estavam chegando nas fronteiras da mata, as estrelas compunham pontos luminosos e coloridos no amplo céu cintilante irlandês. A lua pálida iluminava o caminho dos soldados e seus comandantes, que, audaciosos, transpunham os limites daquela imensa brenha.

— Não se preocupe, eles vão nos encontrar antes de nós os vermos. Fintan me conhece, estamos seguros — Ulstan certificou, falando baixo, portando um sorriso enviesado. Os cavalos avançavam a passos lentos, e Aethelwulf, alerta, mal lhe deu um olhar de esguelha.

Conforme os soldados seguiam caminho, a floresta se fechava ao redor deles. As folhagens espessas traziam um ambiente ocluso, claustrofóbico, de vultos e sombras desconhecidos crescendo em meio a mata.

— “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, pois Tu estás comigo; a Tua vara e o Teu cajado me protegem...” — rezava Bressal em sua voz quebradiça, e Aethelwulf, irritado, o interrompeu.

— Ore em silêncio — repreendeu-o, e o monge abaixou a cabeça, cerrando os lábios.

Todavia, o príncipe inglês estava inquieto. O Salmo 23 era a reza que o ocorria com frequência durante aquela jornada. O medo não lhe era uma sensação usual, ao menos não aquele tipo de medo. Não era um homem que se impressionava fácil, afinal, participara de muitas guerras, travara inúmeras batalhas desde muito jovem.

Mesmo assim, o nobre inglês encontrava-se constantemente testado naquelas terras irlandesas. Era como se elas fossem velhas, mais antigas que as próprias Bretanhas. Como se algo nelas ainda pulsasse, preservado. Vestígios, sussurros e sombras de deuses mortos... Mas ainda deuses, afinal.

Assim que tal pensamento de agouro lhe passou pela cabeça, ouviu pios lúgubres de uma coruja, parada no topo de uma árvore daquele souto enigmático. Suas tochas não conseguiam alumiar o caminho, apenas uns aos outros. Defronte as tropas, restava apenas o negrume.

Atrás deles...

Sons fremitantes começaram a soar discerníveis aos ouvidos do príncipe inglês. Baixos, porém presentes. Pareciam vir de todos os lados, trazidos pelo vento junto a brisa fresca da noite. Trêmulos, murmúrios que poderiam ser ruídos produzidos por animais noturnos fizeram os soldados se entreolharem, buscando sua origem.

Uma voz grave ergueu-se em meio ao cicio de mistério, e Aethelwulf, sentindo um calafrio lhe gelar a espinha, reconheceu que fora proferida naquele detestável idioma irlandês.

Ulstan vociferou uma única palavra, alta:

Stad!

O filho de Ecbert compreendeu. Pedia que parassem.

Como se fossem espíritos saídos dos umbrais daquela mata, uma dezena de homens de rostos pintados pararam defronte as tropas, surgindo da escuridão. Tinham arcos e flechas, lanças e outras armas compridas, vestidos com peles de animais e outros mantos rudimentares.

Ulstan Leinster travou um rápido diálogo com um deles, um homem careca com tintura azul cobrindo seu rosto em símbolos estranhos para o herdeiro de Wessex.

Bressal, perto de Aethelwulf, lhe transladava o que era dito.

— Ulstan está avisando que veio pedir ajuda. Passando a proposta para os celtas — explicou, e o filho do Rei inglês continuou estudando o príncipe irlandês e os membros do clã pagão.

— O que aquele homem diz? — Apontou para o celta sem cabelos.

— Que teremos de falar com Fintan. Mas que Ulstan deverá aguardar mais um dia — afirmou Bressal, franzindo as sobrancelhas.

— Não podemos perder um dia. — Aethelwulf rangeu os dentes, contrariado.

— É uma data importante para eles. — O monge olhou para o príncipe de Wessex. O filho de Ecbert o mirou, nada convencido.

— Amanhã será o Beltane — esclareceu o sacerdote.

— E o que seria isso? — A voz do herdeiro de Ecbert estava carregada de desdém.

— A festa da fertilidade, Lorde Lobo! — respondeu Ulstan Leinster em um timbre descontraído. Virou o rosto para encarar o príncipe de Wessex, ao passo que abria os braços e soltava um amplo sorriso.

♕♕♕

A princesa bordava uma capa discreta, de tecido suave e sofisticado, um tafetá rubro. A agulha comprida entrando e saindo do pano a relaxava, enquanto ela levantava seus grandes olhos azuis na direção da janela aberta daquela antecâmara.

Alguns raios de sol luminosos transpunham a fenestra, banhando os aposentos em uma luz dourada. Mal amanhecera, mas ela tinha pressa.

E fingia, como fizera no último mês, que nada havia de diferente em sua rotina.

Logo escutou sons abafados de batidas na pesada porta de madeira.

— Pode entrar — deu permissão, seus olhos mirando o tecido vinho que bordava para seu marido.

— Mandou chamar-me, minha senhora?

Judith ergueu os olhos da capa mantida em seu colo, e colocou-a de lado, em cima de uma mesa delicada ornamentada com cobre.

— Sim, Einmyria. — A concubina de Ecbert se pôs de pé, dirigindo a serva um sorriso cortês falso.

— Perdoe-me, senhora, não há necessidade de se levantar à minha presença. — A servente baixou a cabeça, com humildade.

— Não é incômodo algum. Estava bordando apenas para lhe aguardar — disse, cruzando as mãos na frente de seu corpo.

— Está ficando bonita — Einmyria elogiou a capa, bajulando a princesa.

— Obrigada — Judith agradeceu com um sorriso maior. Não dava importância alguma aqueles bordados.

Aproximou-se da aia designada a servir a princesa Brigit, a hóspede irlandesa que residia temporariamente em Wessex. Tomou uma de suas mãos e a tocou com gentileza, fingindo meiguice no trato daquela serva arisca.

Einmyria não a enganava. Judith sabia de suas origens vikings, e compreendia a natureza daquele povo. Eram guerreiros ardilosos. A serva agia como uma excelente aia, submissa, recatada e delicada. Bela, muitas vezes designada para servir os homens na cama. Mas a passividade era apenas um disfarce. Uma máscara que a própria princesa também sabia usar.

— Doce Einmyria — começou a esposa de Aethelwulf — Soube que teve uma curta viagem com a princesa Brigit. O que tem a me contar sobre este passeio? — perguntou com gentileza fingida.

Judith soltou as mãos da serva, que sustentou seu olhar antes de lhe dar uma resposta.

— Fomos para os bosques perto de Eddington. Cavalgamos por algumas horas, com a escolta do Capitão Wymond — a aia relatou, sua voz de tom grave feminino soando calma. — A princesa quis banhar-se no rio, quando estávamos a sós. Fizemos um breve piquenique e voltamos — alegou a garota loira, por fim.

— Nada de muito diferente dos outros dias, então? — insistiu Judith, sorrindo com mais discrição.

— Não. Apenas um passeio rápido — Einmyria falava a fitando em seus olhos azuis.

A princesa olhou para o assento próximo, e depois movimentou o olhar para a serva. Por dentro, sentia-se irritada. Por fora, demonstrava a mesma tranquilidade da servente.

— Muito bem. Espero que se lembre de suas obrigações, Einmyria — retificou a nobre inglesa, e suas íris azuis dóceis denotavam frieza quase imperceptível.

— Meus deveres principais são para com a senhora e o menino Magnus — recordou a escandinava, sua voz subserviente por toda a frase.

— Precisamente. Quando não estiver cuidando do herdeiro de Ragnar Lothbrok, quero que tenha todas as atenções na princesa Brigit. Você sabe o que pode conseguir se continuar trabalhando tão bem assim — insinuou a princesa, dirigindo um breve olhar para a janela.

Sua liberdade tão ansiada, pensou Judith, acompanhando os olhos verdes de Einmyria que, sonhadores, seguiram o movimento do rosto da princesa e se fixaram na ventana.

— É só isso. Está dispensada. — A nobre morena deu um último sorriso para a viking, girando nos calcanhares e pegando em mãos a capa que bordava.

A nortenha a deixou a sós, fechando a porta e seguindo para seus afazeres diários.

A princesa franziu o cenho, perdida em seus próprios pensamentos enquanto costurava. Brigit era uma ameaça. Educada, jovem, charmosa, e ainda mais letrada do que a princesa de Nortumbria, a nobre estrangeira reunia características que Judith sabia cativarem o monarca de Wessex.

Ela conhecia seu sogro e seu amante. Ecbert era um homem de muitos apetites, dentre eles a luxúria. Não à toa traçara com cuidado todas as condições que a fizeram ceder aos seus apelos, quando a quis como sua concubina. Judith sabia que era bela, ainda era jovem e, principalmente, era inteligente.

Inteligente o suficiente para saber que a possibilidade de se manter livre naquele mundo que tentava aprisiona-la era continuar nas graças do Rei de Wessex. Sua chance de herdar a Coroa e se manter na linha sucessória, depois de trair Aethelwulf e quebrar sua confiança, dependia tão somente da vontade do pai do príncipe inglês. Sua única oportunidade de proteger seu filho mais novo, Alfred, fruto do romance proibido que tivera com o monge Athelstan.

O primeiro e o único homem que amou em sua vida.

A infidelidade lhe custara uma orelha, decepada em uma exibição de tortura para toda a vila romana do Rei Ecbert. Com ela, foi destroçada sua dignidade, o respeito que tinha da Corte de Wessex, e até mesmo o apoio de sua família. Se não fosse seu amante, talvez já estivesse morta.

Mas Judith não se enganava. Sabia que a ideia de humilhá-la em público e revelar o segredo de sua infilidade não viera de Aethelwulf. Ele não teria capacidade de pensar em algo tão engenhoso. Fora seu sogro que planejara todos os detalhes do pior dia que Judith vivenciara.

Ecbert era seu protetor, e, ao mesmo tempo, o homem por trás da maioria dos reveses que sofrera. Mas se lamentar e odiá-lo não a salvaria de nada, tampouco Alfred. Precisava dançar conforme a música, e, enquanto o menestrel regente fosse o Rei de Wessex, era ele a quem devia aprovação.

A princesa percebia que o monarca jamais superara a perda de Athelstan, o monge que ele amou como a um filho. Mais do que amava Aethelwulf. E, por isso, como se para compensar a falta de Athelstan, se aproximara de Judith. Afinal, ela era a mãe do único filho do monge.

Quando ameaçou deixar o Rei, há cerca de um ano atrás, Ecbert tentou convencê-la do contrário alegando amá-la. Judith não acreditou em suas palavras, mas chegou à conclusão de que não poderia abandoná-lo. Dependia dele para garantir um futuro para si e seus filhos.

Usava um dos anéis da falecida esposa do Rei em suas mãos. Olhou a joia em seu dedo, pensando na noite em que lhe perguntara o nome de sua finada consorte. Ecbert, sempre com feições afáveis e deferentes, mudou de expressão no mesmo momento. Pareceu envelhecer, por alguns segundos. “Raedburgh”, ele lhe dissera, e silenciou por longos momentos. Era um assunto sensível para o monarca.

Judith nem ninguém seria capaz de substituir a falta de Raedburgh, ela sabia. Nem a falta de Athelstan. Mas ela não podia deixar que aquela ilusão de consolo se apagasse. Se Ecbert, volúvel em seus apetites como aparentava ser, passasse a alimentar interesses pela princesa irlandesa, para onde iriam as garantias da nora do Rei?

Aflita, ela escutou novas batidas na porta.

— Entre — murmurou, acabrunhada.

— Princesa, os guardas mandaram avisar. O Rei Ecbert e o Rei Áed e sua comitiva estão de volta — um servo lhe alertou, e Judith levantou-se de pronto, e passou o início da manhã e da tarde nas formalidades de recepção.

Depois do almoço preparado para os nobres, a princesa voltou aos mesmos aposentos, sentando-se e retornando a bordar. Aquilo lhe ajudava a se concentrar e refletir.

Poucas horas depois, recebeu mais batidas na porta. Permitiu a entrada, erguendo os olhos para a madeira aberta. Ecbert adentrava a antecâmara, parecendo mais descansado, sem o mesmo ar de leve tensão que portava no almoço.

— Pareceu surpresa com a minha chegada, minha querida — o Rei comentou, andando até sua amante. Tocou em seu rosto e lhe deu um beijo casto na testa. Em seguida, voltou os olhos para a capa deixada na mesa próxima.

— Preparou-me um presente de boas-vindas? — Fitou Judith com olhos surpreendidos e um sorriso galante. A princesa balançou o rosto de leve, negando.

— É para seu filho — respondeu, exibindo um olhar doce, porém debochado.

— Mas que esposa dedicada! — enalteceu-a o monarca, também em tom de troça, acariciando seu queixo. Judith mirou seus olhos acinzentados. Fulgurantes, como sempre. Ecbert já tinha idade, mas não a aparentava. Nem em corpo, nem em seus traços faciais, nem em sua mente, sempre atenta.

— Cuidou bem de Wessex por mim? — indagou-a com sua voz acolhedora.

— Sim. Tudo continua em perfeita ordem — garantiu com um sorriso insinuante. O monarca deu uma risada sem som, passando os dedos pelos cabelos morenos de sua amante.

— Eu não esperaria diferente. Fico aliviado. Se soubesse as notícias que trago de Mércia... — O Rei caminhou para um banco perto da mesa em que Judith colocara a capa. Sentou-se. — Vindas de Gales e de Ânglia Oriental. Terei mais trabalho com esses territórios do que eu pensava — confidenciou, passando uma das mãos em sua barba grisalha.

A concubina foi até o monarca e sentou-se ao seu lado, segurando uma de suas mãos.

— Deixe-me dividir tal peso, então — falou com um timbre suave, tocando no rosto do Rei. Ofertou-lhe um olhar penetrante.

Ecbert sorriu com interesse desperto.

— Sentiu minha falta? — provocou-a, aproximando-se para beijar a amante.

— Não faz ideia do quanto — mentiu Judith, um sorriso tênue e sedutor em seus lábios. De pálpebras cerradas, recebeu o beijo.

Satisfeita consigo mesma, a princesa passara um mês governando Wessex, pela permissão que o Rei lhe resguardou, graças à ausência do príncipe Aethelwulf.

Se tivesse escolha, teria mantido seu marido na Irlanda e Ecbert em Mércia pelo resto de seus dias.

Ela era, afinal, uma mulher livre.

Notas finais
~ Dessa vez não teremos glossário, afinal, todas as traduções pertinentes já foram esclarecidas no decorrer do capítulo; ~ Confesso que vai ser BEM DIVERTIDO ver o Aethelwulf atordoado com as festividades do Beltane. O cara não sabe mesmo onde foi amarrar a égua UHSHUSHUHUE! Tá muito perdido na Irlanda; ~ A Judith não está pra brincadeira. Ela conquistou todas as liberdades e poder que tem se colocando em muitas situações contra sua própria vontade, fez e faz muitos sacrifícios. É melhor dona Brigit ficar de olhos bem abertos; e ~ Aguardo comentários! =D