Sea Rover
1 Capítulo 1
A Profecia.
Para salvar o fio deve conectar
O Deus os abençoará, para assim tudo começar.
5 Principais Regras do Reino do Mar.
1 • Cada barco é um reino, e seu capitão, o Rei;
2 • Se é de seu interesse integrar na tripulação de tal soberano, é de suma obrigação fazer um juramento de lealdade da escolha do capitão;
3 • Abuso de poder é extremamente proibido. Caso o soberano da tripulação esteja praticando o ato, disque: 88O9;
4 • Aquele que não se considera parte da tribulação, que não fez o código de juramento ao capitão, poderá não seguir suas ordens;
5 • O mar é nosso amigo! Quaisquer atos de consequência negativa a ele, será banido eternamente.
Prólogo
Era uma dia de tempestade, a turbulência de Lux in Tenebris fazia com que o coração daquela garota batesse mais forte. Ela amava o mar, amava as estrelas e a adrenalina, o vento salgado, o arrepio e o medo de estar na beira da morte.
Muita gente a chamava de louca por gostar desse sentimento, mas quem disse que ela ligava? Era quase impossível para aquela menina não gostar.
— Capitão! — gritou Honesto do outro lado da proa — Se irmos ao norte conseguimos sair da tempestade! — a voz do homem baixinho estava abafada pelo barulho da chuva e do mar violento.
— Não! Não podemos sair! — respondeu Nandor.
— Por quê?! — gritou de volta o marujo.
Nandor respondeu, mas a garota não conseguiu ouvir. Mas deduziu que fosse algo importante, geralmente quando havia uma brecha para sair da tempestade, Nándor não pensava duas vezes.
As velas enormes se agitavam, o navio pirata balançava para lá e para cá, cada vez mais entrando água. Seus cabelos ruivos já estavam todo empapado, ela segurou mais forte na corda.
A garota fechou os olhos e respirou fundo com um sorriso no rosto.
Ainda de olhos fechados, ela ouviu:
— O que é aquilo?! — gritou Honesto — Onde nós estamos, Nandor!?
— Nos domínios de Dhara! — respondeu Nandor.
— O QUE! Você é maluco, Nandor!?
— Baixar âncora Tenebris! — ordenou para o barco.
E ela sentiu a magia pinicando por todo o corpo.
Lux in Tenebris era um barco diferente dos outros, era mágico, com vida própria, e só obedecia a aquele que ganhasse seu respeito, mas seu tio Nándor nunca contou a história de como conseguiu Tenebris.
O barco parou. No meio da tempestade.
Nandor e Honesto já estavam ao seu lado quando os olhou.
— Nándor, pelo amor, dá pra me explicar o porque cargas d’água você entrou nos domínios da porra de um Deus?! — exclamou Honesto.
A garota olhou para os dois, estavam tensos e olhavam para frente, seus rostos já não tinham cor.
Então ela olhou pra frente também. E sentiu seu sangue gelar. Ela adorava a sensação do medo, mas dessa vez, realmente odiou.
Uma onda enorme pairava sobre o Tenebris, o mar parou de se remexer e a chuva parou de cair, pareciam que tinham parado no tempo.
O ser que conjurou essa onda, parecia estar com muita raiva.
— QUEM OUSA ENTRAR EM MEUS DOMÍNIOS!? — não tinha rosto, só a voz antiga e turbulenta, como uma tempestade.
Mas depois disso a garota apagou.
E não se lembrava de nada, nem da onda, nem da tempestade.
Foi como se nunca tivesse existido, nada daquilo.
Uma voz antiga sempre ecoava em sua mente, sabia quem era mas não entendia o que a voz daquela mulher queria que a garota compreendesse.
Sempre o mesmo discurso
"Princesa do caos, Rainha do Fogo.
A chama brilha em você. Lembre-se de quem é,
lembre-se do que aconteceu, lembre, lembre, lembre.
Lembre, lembre, lembre lembre lembre lembre lembre lembre lembre lembre lembre lembre lembre lembre lembre lembre lembre lembre lembre lembre lembre lembre lembre lembre lembre lembre lembre lembre lembre lembre lembre lembre lembre lembre lembre lembre lembre.
LEMBRE-SE! "
Quando acordou, tinha mais um marujo a bordo.
Capítulo 1
Eleonor bateu na mesa do bar.
— Como assim, você não sabe?! – ela disse com irritação.
— Desculpe, senhorita – disse o bêbado embolando tanto as palavras que quase não dava para decifrar o que estava dizendo – Mas não sei quem é esse tal Jamir.
Sebastian não aguentava mais, Jamir roubara uma pulseira que foi da falecida mãe de Eleonor, preciosa demais para a pirata, e ainda preciosa por causa de suas pedras brilhantes — que ninguém, ninguém, sabia do que era feita, ou da onde vinha — que continha nela.
— Esse saco de verme! – gritou – Vou te socar você até ficar sóbrio!
Ela subiu em cima da mesa para socar o dono mas foi impedida por Sebastian.
— Chega Elle, esse senhor realmente não sabe – a pegou pela cintura e a tirou de cima da mesa – Agradecemos pela compreensão, aqui está o dinheiro das bebidas. – Sebastian tentou ser o mais gentil possível, jogou algumas notas e moedas na mesa e saíram do bar.
Com sangue nos olhos, Eleonor batia o pé a cada passo no beco de Van Gogh.
— Elle, você deveria ser mais sutil! – gritou correndo atrás dela, já que a pirata estava a centímetros de distância diante dele – Assim nunca vai conseguir alguma pista de Jamir ou arranjar um namorado! — brincou finalmente chegando perto dela.
Eleonor se virou com fúria. A brisa do mar soprou, jogando seus cabelos brilhantes para frente — aqueles que deixava qualquer um, inclusive Sebastian, intimidado, e, extremamente atraído. — ela botou os fios rebeldes atrás da orelha.
— Sutil? – riu de deboche, ela cruzou os braços se inclinando pra frente – Quer saber o porque eu tratei aquele estrume daquela forma? – o rosto sardento e bronzeado ficou vermelho de raiva, igual seus cabelos cor de fogo brilhando no sol das três da tarde.
Sebastian engoliu a seco.
— Não, não sei e tenho medo de saber. – ele franziu a testa com olhar assustado.
— Aquele bar vende mulheres para serem escravas sexuais, Sebastian.
Ele sentiu o baque, uma onda de raiva subiu por todo seu corpo.
Ah.
Ah.
Sempre se esquecia, Eleonor sempre tem um motivo.
Ele grunhiu.
– Vamos voltar lá.
Sem pensar duas vezes saiu andando na frente com passos largos. E em alguns segundos ele já estava lá, pronto para espancar qualquer um que estivesse praticando o feito.
– Ei! — Sebastian abriu a porta com brutalidade, assustando a todos que estavam no bar. Avistou o dono que antes estava bêbado, agora estava mais bêbado, sentado em uma mesa puxando com uma moça de cabelos acobreados para seu colo — onde claramente era o último lugar em que moça queria estar — perto da bancada de bebidas.
Pressionou ainda mais os dentes, apertou os punhos e foi na direção dele. A moça se desvencilhou dos braços do bêbado assim que viu Sebastian e sua onda de fúria.
Começou com um soco, gritos e suspiros assustados ecoaram pelo salão, mas ele não parou.
Quando o velho caiu no chão o golpeou tantas vezes que teve a impressão que mesmo que o torturasse, ele nunca ficaria sóbrio. Sua certeza sobre isso veio quando deu seu último soco e o homem ainda sorria, mesmo ensanguentado e cuspindo sangue. Ele estava sorrindo, como se estivesse esperando por aquilo.
Sebastian fez cara de nojo não só para aqueles dentes podres, mas para o rosto fino e corpo magro, talvez bebesse tanto que não se dava o trabalho de comer, barba que não via uma navalha ou um barbeador havia anos, cabelos desengrenados e parecia que não sabia o significado da palavra banho.
Ele apertou mais a mão sob a camisa suja do velho e o aproximou para perto do rosto, tentando ao máximo não respirar seu hálito de lixo misturado com álcool.
— Onde elas estão? — ele cerrou os dentes.
O bêbado riu e cuspiu mais sangue.
— Aquelas putinhas? — disse com voz embargada — Elas são ótimas, principalmente aquelas pequeninas. Me dão muito dinheiro. — soltou uma risada alta. Ele o mataria. Com certeza, faria se afogar no próprio sangue.
Sebastian fechou os olhos e deu um longo suspiro. Sentiu uma veia saltar no pescoço.
— Irei perguntar só mais uma vez. — abriu os olhos lentamente, controlando a raiva em cada palavra que proferiu pausadamente — Onde. Elas. Estão?
O proprietário sorriu em resposta. E Sebastian o socou.
A cada sorriso que dava ele o socava e socava. Cada vez com mais força, mais raiva.
Eleonor chegou depois, a reconheceu pois um dos clientes a chamou.
— Pirata! Faça alguma coisa! – pediu um desconhecido levantando da mesa perto de Sebastian.
Ele se virou para a sua capitã, mas Eleonor apenas abriu um sorriso selvagem ao ver que seu desejo foi realizado.
— Não.– respondeu com frieza. — Pode fazer o que quiser.
Então recomeçou.
Não parou de espancar até que ele tivesse desmaiado. Quando percebeu que o velho não perdera a consciência e não iria falar mesmo que morresse, Sebastian o soltou, passou os olhos pelo o ambiente se deparou com um rapaz trêmulo, um funcionário magrelo e indefeso de cabelos pretos e pele pálida. O jovem se encolheu sob o olhar dele efoi em sua direção, parando meio metro de distância.
Não olhou nos olhos do garoto quando falou:
— Onde fica? – ódio era nítido em sua voz rouca.
Pegou um guardanapo de uma mesa próxima e limpou suas mãos sujas de sangue. O cheiro do líquido misturado com saliva lhe dava enjôo.
O garoto arregalou os olhos.
— O q-que? – gaguejou o funcionário.
Finalmente olhou para o garoto com um sorriso desdenhoso jogando o guardanapo na cara do bêbado ensanguentado.
Com passos suaves chegou bem perto dele e o encurralou contra a bancada do barman, se aproximou bastante para sussurrar em seu ouvido:
— Eu sei que você sabe o que eles fazem aqui, então, para de ser bunda mole e entregue logo esses filhos da puta – e voltou a olhar nos olhos dele. O magrelo conseguiu apontar onde fica o local.
Atrás do salão principal havia uma portinha de metal no final do corredor nos fundos do bar, escondida atrás de algumas caixas e estantes de produtos de limpeza. Sebastian riu em escárnio, a porta nem estava sendo vigiada, é como se pedissem que os encontrassem.
Mas de qualquer forma, teria menos trabalho.
— Muito obrigado. — sorriu e limpou alguma poeira invisível e ajeitou o traje do rapaz.
Sebastian seguiu até a porta, seus passos fortes faziam com que o piso de madeira de má qualidade rangerem à medida que ficava mais próximo, a luz do sol saindo das janelas do bar pareciam sem vida naquele lugar imundo, sua respiração se tornava descontrolada, seu coração acelerava de puro anseio em querer bater, ele queria acabar com todos, matar todos por fazerem tal façanha. Ele abriu a porta e um lance de escadas com pouca iluminação se projetava para baixo, para o subsolo, — além de nem ter guardas eram burros em deixar destrancada — desceu dando um passo de cada vez, tentando ao máximo se acalmar, e, miseravelmente, falhando.
Chegando ao fim das escadas outro corredor se estendia, uma lâmpada piscava no centro dele, estava prestes a queimar.
No final, uma porta de ferro entreaberta se erguia. Ele seguiu e abriu mais a porta.
Parado entre o portal e a sala se deparou com aqueles vermes, olhou lentamente para os lados para analisar o lugar e viu as mulheres desacordadas deitadas em camas sujas como simples mercadorias e …suas narinas dilataram ao entender o que aquele verme quis dizer com "pequenininhas".
— Parece que decidiram pegar criancinhas também. — sua voz grave era como sussurro que ecoou pelas paredes daquele lugar horrendo, por mais que sua fúria estivesse latejando dentro de si, Sebastian não deixou transparecer nenhuma emoção, nem repulsa, nem raiva, nem desgosto. Era como uma casca vazia.
Nenhum deles era merecedor de suas emoções, até mesmo das ruins, o que eles mereciam era uma boa surra.
Como alguém pode ser tão cruel? Como alguém poderia fazer isso com essas mulheres e crianças? Ele não fazia ideia, mas tinha uma ideia de quais consequências eles teriam, e nenhuma delas seria agradável.
Se sentia sujo, sujo por apenas está ali.
Queria xingá-los, mas não tinha palavrões no mundo para chamá-los, nem mesmo palavras de baixo calão deveriam ser comparadas a eles.
Sebastian olhou em volta, mais uma vez, e reconheceu uma silhueta de terno cinza do lado esquerdo da sala com a mão no rosto de uma das moças, um homem moreno com a barba bem feita, cabelos pretos e olhos escuros como a noite, estava com uma das mãos no rosto, era uma criança.
A sua raiva fervilhou ainda mais, quebraria aquela mão, com certeza. Estava acompanhado de um dos gangster alto com uma aparência estranha que Sebastian preferiu nem marcar o seu rosto, nem sequer queria lembrar de sua face.
Ele riu em escárnio para o homem de cinza.
— Não esperava muito de você, Jamir… Na verdade, não esperava nada.
Sebastian cerrou os punhos, precisava se controlar.
Um barulho de uma cadeira ecoou no ambiente. Ele olhou lentamente para onde o som veio, do outro lado, homem de dentes tortos e pele pálida estava em pé em frente a uma mesa redonda.
— Quem é você?! — urrou o malditos apontando uma arma para ele. Como se aquilo fosse salvá-los.
— Eu? — arqueou as sobrancelhas sarcástico — Sou o Bicho-Papão. — brincou
O homem que apontava a arma soltou uma gargalhada, o terno preto farfalhou quando desceu a mão armada ao lado corpo.
— Sério? — ainda estava com aquele maldito sorriso no rosto, ele quebraria aquele dentes. — E eu vou ser a pessoa que deu o tiro na cara do Bichinho Papão. Seu desgraçado!
Porém, o sorriso que estampava no rosto de Sebastian não era de desdém e tampouco ódio.
Não. Era algo pior. Muito, muito pior.
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Eleonor sentou em uma mesa e pediu um pouco de hidromel enquanto ouvia os gritos dos estrumes levando uma porrada de Sebastian.
Era péssima ideia irritar aquele homem de 1,90. Se o deixar bem mais raivoso, ao ponto de ultrapassar o ódio, então, que os Deuses o ajudem, reze para todas as divindades que conhece, e tenha a esperança de que vão o atender.
Ela inclinou a cabeça pro lado de jeito inocente.
— Hmm, tem pão com carne para acompanhar? – perguntou Eleonor a uma empregada de cabelos loiros e olhos arregalados de rosto redondo.
— Não senhora...– a moça se assustou com um dos gritos estridentes vindo do salão abaixo. A pirata apenas sorriu para a garçonete, como se aqueles berros de dor fossem a canção mais bela que já ouviu. A funcionária franziu a testa mas respondeu:
— Não senhora, infelizmente estamos em falta de carne.
— Ah, então...– um dos gangster foi empurrando contra a porta, derrubando a estante de ferro e jogando pros lados as caixas que tinha.
A funcionária aterrorizada correu para o outro lado do salão, para debaixo da bancada do barman.
Alguns clientes que ainda restavam estavam lá em um segundo, no outro não estavam mais, outros se escondiam debaixo das mesas.
O rosto do homem caído no chão com nariz ensanguentado e alguns ossos quebrados, não era tão desconhecido para Eleonor.
Sebastian limpou nariz e ofegante:
— Um presentinho pra você, Capitã. — e sorriu
Ela se levantou com as mãos atrás do corpo sorrindo com diversão pura.
— Que bom te ver por aqui, Jamir. — disse Eleonor por fim.
O homem virou o rosto e — tentou — arregalar os olhos inchados.
— E-Eleonor…— gaguejou Jamir com a voz rouca e um possível maxilar quebrado, sua mão direita, apoiada em sua barriga, estava totalmente quebrada. Sem volta, sem concerto, nem mesmo tecnologia salvaria ela. O que Jamir tinha feito com essa mão?
— Em carne e osso. — se aproximou do macho e agachou-se ao seu lado, olhou novamente para sua mão e confirmou mais uma vez, sem volta. — Achou mesmo que podia roubar de mim sem que eu viesse atrás? — voltou a olhar para seus olhos escuros, que agora estavam roxos.
O homem arregalou ainda mais os olhos.
— Me diga onde está, ou pra quem você vendeu — terminou.
Jamir soltou um gemido.
— Não vai dizer? Ok. — ela suspirou se levantando e apontou para loiro ao lado — Já que você conhece meu amigo Sebastian, talvez, não deva se importar em conhecê-lo melhor. — Eleonor deu um sorriso inocente.
— Já o conheço bem. — Jamir conseguiu falar.
Ela voltou a pôr as mãos para trás do corpo
— Então o conheça mais, do que já conhece — rebateu ela.
Sebastian tirou um lenço do bolso do terno de Jamir e limpou os punhos sujos de sangue, as mãos todas esfoladas por causa dos socos. A ruiva reparou que sua blusa branca estava ensanguentada. Teriam que comprar roupas novas ou chamariam a atenção da polícia de Eros. — coisa que Eleanor não queria lidar, de modo algum — Seu rosto, estava intacto, nem um arranhão sequer, nenhum roxo.
O homem olhou para as duas figuras acima dele, decidindo qual delas enfrentar.
Como um cachorro manso, Jamir tirou a pulseira de diamantes cor de estrelas do bolso de sua calça e entregou a Eleonor.
— Ah! Muito obrigada! — fingiu surpresa — Estava procurando isso há um bom tempo — e pegou sua pulseira. Eleonor apoiou as mãos nos joelhos para ficar novamente perto de Jamir. Então continuou: — Se eu ver você de novo em meu barco seu filha puta sem mãe, juro pela coroa de São Bom que irei arrancar suas tripas e dar para os leões comerem. Entendido?
Jamir concordou com a cabeça desesperado, por mais fantasioso que sua ameaça seja, ninguém jamais duvidaria de Eleonor, ela poderia ser uma mulher bonita de aparência inocente, mas não se engane, ela nunca quebra seus juramentos e promessas. E disso Jamir sabia, e não estava nem um pouco afim de ser estripado.
— Fique atento, Jamir. — Sebastian jogou o lenço nele.
Eleonor suspirou ao sair do bar triunfante, como se o que tinha tivesse acontecido era apenas uma coisa normal que acontecia do seu dia-a-dia.
E novamente, de volta ao beco de Van Gogh.
Enquanto andava por aí suando por causa do calor infernal de Eros, olhos para cima a fim de admirar o que fazia jus ao nome. A Torre Estrelada.
O nome peculiar veio após um roubo do quadro do artista Van Gogh, do último que restou, no alto do prédio está a pintura, a arte estava guardada a sete chaves pelo o Reino de Eros, o motivo do roubo foi porque um grupo de artistas resolveram achar que todos mereciam saber quem foi Van Gogh, então foi assim que Noite Estrelada ganhou um pedestal
E a ruiva adorava aquele quadro — e talvez, pode ter sido ela quem dera uma cópia da planta do castelo de Eros. Só, talvez.
Sebastian segurou seu braço, forçando-a parar.
— Espere aqui — pediu Sebastian — Vou fazer uma ligação.
A pirata assentiu e ficou em frente de uma loja de consertos de robôs.
— Compre roupas novas também! — urrou, e o amigo levantou a mão em afirmação.
Durante o tempo que esperava, Eleonor ficou observando os prédios gastos e placas enormes em luz de led em variadas cores. Encarando as pessoas passando com dispositivos tecnológicos, as propagandas ridículas de novas fábricas e robôs e outros tipos de baboseiras que Eros continha.
E...Pessoas fazendo protesto?
Do outro lado da rua, uma senhora de meia idade de pele morena com cabelos presos em um coque, uma coroa de cabelos brancos pairava em sua cabeça, olhos cansados e muito magra, — ela provavelmente não havia comido a dias — estava parada em frente a uma loja de tranqueiras, usava trapos ao invés de roupas, o pedaço de papelão segurando em sua frente estava escrito com letras tremidas:
"Estão acabando com tudo!
Estão nos destruindo!
Nós salve ou se salvem,
antes que seja tarde demais! "
Percebeu que havia outro pedaço erguido em seus pés e nele escrito:
" Tiraram meu filho, minha casa, minha família
apenas porque não quis ficar calada! E por causa disso me fizeram ficar calada para sempre.
Não sejam estúpidos, não deixem se levar por toda besteiras de tecnologia e promessas vazias!"
Que inferno estava acontecendo em Eros?
A moça percebeu a atenção da pirata e a observou de volta, olhos determinados, raiva pura e…socorro, um pedido de ajuda escrito.
Eleonor entendeu que aquela mulher estava arriscando sua própria vida ao fazer aquilo.
Então ela sorriu para a pirata, um sorriso que não chegou aos olhos cansados da mulher. E aquilo a destruiu, ultimamente a ruiva estava tendo dificuldades em entender seus próprios pensamentos e sentimentos. Mas aquilo…aquilo ela entendia.
Então Eleonor sorriu de volta, assim que um grupo de guardas de Eros puxou o cartaz da moça a fazendo cair no chão.
Eleonor não pensou duas vezes ao gritar:
— Seus idiotas! — ela saiu em direção da moça para ajudar a se levantar.
— Olha quem está aqui. — ah..ela conhecia essa voz perfeitamente — Capitã Rufus. — e a odiava.
Ela nem precisou se virar para ver…
— Connor. — disse entre os dentes, a pirata virou para ele, pondo a moça atrás dela fazendo uma barreira viva entre ela e os homens da guarda.
Rosto bonito, com feições perfeitas e pele morena igual a da moça, a fazia querer vomitar no uniforme azul e dourado que vestia.
— Ainda fazendo orgias sem parar? — provocou.
Ela deu um sorriso desdenhoso.
— Ainda fazendo as mulheres chorarem com o seu pau pequeno? — retrucou cruzando os braços.
Seus companheiros abafaram um riso.
Connor limpou a garganta, e disse sorriso fraco:
— Faz um ano que você não aparece. — ele botou as mãos na cintura deixando amostra a arma prateada presa ao lado corpo.
— Tenho coisas mais importantes para fazer.
— Tipo? — respondeu franzindo a testa.
— Tipo, não é da sua conta. Porque se importa?
O guarda olhou para baixo rindo.
— Não finja que não sabe Elle.
Sim, é isso que ela estava fazendo, fugindo e fingindo. Mas se recusava a admitir isso.
— Não estou fingindo nada, meu querido Connor. — ofereceu um sorriso felino.
— Claro que não está. — respondeu em tom deboche — Saia da frente Eleonor. — pediu carinhoso.
— Não.
Ele riu mais uma vez
— Não dificulte as coisas. — ele se aproximou.
— O que ela fez de errado?
Connor inclinou a cabeça para o lado.
— Não é da sua conta, pirata. — respondeu um dos guardas ao lado de Connor que se virou para ele.
— Deixa…que eu falo com ela. — ordenou.
O branquelo audacioso levantou as sobrancelhas loiras.
— Mas capitão…
Connor estalou a língua e olhou para o mais novo.
— Ah, capitão? — a piratas ergueu as sobrancelhas surpresa.
— É, então isso quer dizer que posso prender você e a senhora ali atrás. — ele passou direto por Eleonor pegando a senhora pelo braço, a mulher nem revidou ou mostrou medo. Então parece que estava disposta a isso.
A pirata não podia fazer nada, não tinha poder contra eles, e não queria um problema com Eros. Ela não podia ajudar.
— Você era mais legal quando era um simples guarda.
Connor deixou a moça aos cuidados de seus subordinados e chegou bem perto de Eleonor ao ponto de sentir sua respiração.
— E você era mais legal quando aparecia em minha casa para chorar com o meu pau pequeno. — o retrucou olhando nos seus olhos e parou quando voltou para os guardas que já estavam abrindo caminho pela multidão de bêbados e marinheiros, indo em direção ao muro com um grande com portão de ouro que dava para a área nobre.
— Não pense que venceu!
Ele se virou apenas para responder:
— Eu nunca achei isso.
Idiota.
A pirata esperava de coração que nada de ruim acontecesse com aquela moça.
Ela se virou para loja em que a senhora estava parada em frente, olhou para a placa acima, com letras em relevo — sem ser de led como todas as lojas em volta — e sujas, estava escrito:
Loja de Tranqueiras do Cal. E na vitrine tinha um rádio, qual foi a última vez que tinha visto um?
Ah sim, no museu na área nobre, em uma realidade muito distante.
Aquele rádio, era história, uma antiga demais para ter alguém para contar, ou livros para ler.
Não conseguia acreditar que ainda existia ou alguém iria querer comprá-lo, com tanta tecnologia em volta da loja.
Isso fez com que Eleonor sentisse pena do comerciante, fez com que se sentisse que aquela…vitrine com tantas coisas antigas fosse a verdade, algo que todos precisavam saber, e isso fazia que a loja se erguesse, existisse, para as pessoas com curiosidade o suficiente, pudessem abrir aquela porta.
Uma brisa quente e salgada e suja, bateu em seu rosto fazendo com que fechasse os olhos e sentisse o cheiro do mar e poluição. O cheiro de suor, dos trabalhadores, da miséria, por mais que o reino seja rico, ainda tinha pobreza.
Isso acontece tantas vezes, será que ninguém aprendeu com a história? Sempre ficam batendo na mesma tecla. Afinal, o que O Rei de Eros fazia com esse dinheiro?
Pelo o que a ruiva sabia, o que ela lera nos livros que tinha, se passaram três mil anos. Teve guerras, avanço na tecnologia e a épica volta dos piratas. Com submarinos, navios de guerra, armas e tudo o que o antigo — não muito — mundo da tecnologia oferecia.
Tudo roubado, claro.
Mas tudo que tem de bom, tem de ruim.
A maior parte dos recursos naturais estão em escassos, por causa do Rei que está no comando de Eros. E isso fez com o que se pegasse se perguntando: Como eles eram ricos? Eleonor não fazia ideia, e talvez não queira saber.
Bom, pelo menos no reino em que estava, já que a pirata, por incrível que pareça, e por mais que viva navegando, nunca foi para o reino vizinho, Save.
Em meio a desastre atrás de desastre, criaram três reinos: Eros, Save e por último o Reino do Mar, que é comandado pelos piratas.
Não existe rei no reino do Mar, cada um tem sua tripulação, cada um tem seu próprio reino — que são seus barcos —, e vivem bem com isso.
Eleonor é um deles. Destemida, rabugenta, misteriosa, e suas promessas jamais foram quebradas.
Não considerava seu barco como seu reino, tava mais para um beco, ou um bairro.
Não queria um reino, e suava frio só em pensar em uma possibilidade de governar algo.
Ela desviou os olhos do rádio e retirou do bolso de sua calça de couro o antigo objeto de sua mãe, a mesma pulseira que prometeu nunca mais usar, nunca mais se lembrar do que passou, do que fizeram com ela e do porquê fugiu.
Estrelas da noite, é como a jóia se chama. Guardou o objeto de volta no bolso da vestimenta quando sentiu uma movimentação estranha por causa da presença das pedras brilhantes.
Muitos olhares de homens e mulheres, sem teto, observando o bracelete, Eleonor lançou um olhar ameaçador a eles e logo desviaram, fingindo que tinham coisas mais importantes do que rouba-la, além disso pareciam que sabiam quem ela era, e com isso sorriu orgulhosa, por ter criado uma imagem de dar medo, e, talvez, respeito — ou pode ter sido que, porventura, havia uma pequena chance de estarem com medo, porque, um de seus tripulantes tinha acabado de espancar o último que roubou a jóia. Ela se esqueceu de como as fofocas em Eros se espalham mais rápido que um vírus.
Mesmo assim, a pirata estava orgulhosa.
Estavam no reino há semanas, e conheceram Jamir, um ex-marinheiro que estava procurando suas filhas desaparecidas, Eleonor se propôs a ajudar a encontrá-las se ele a ajudasse de volta dando informações da marinha de Eros para ela.
Porque? Bom, no mundo em que vive a pirata descobriu, da pior forma, que informações são a melhor arma, conhecimento a melhor barganha.
Dez minutos haviam se passado, e sentiu alguém passos com passos pesados se aproximando atrás dela, já sabia quem era, e o que estava prestes a fazer.
— Nem pense em me dar um susto. — disse a pirata.
— Você é uma estraga prazeres. — respondeu Sebastian decepcionado
— Obrigada. — retrucou.
— Vamos. — ele caminhou em sua frente.
Sebastian tinha trocado de roupa como ela ordenou, ainda estava com sua calça apertada de couro e usava uma outra blusa de linho com botão e preta, destacava ainda mais seus cabelos brancos,— que agora estavam soltos — as mangas estavam dobradas para cima mostrando sua enorme tatuagem no braço direito de paisagem do mar com barcos.
A blusa ainda estava com a etiqueta, ela o alcançou e puxou o selo, o que o fez levar um susto e parou em sua frente, dois botões de sua blusa estavam abertos mostrando um peitoral largo.
— Que blusa bonita, você roubou? — disse mostrando o papel e arregalou os olhos quando olhou para o preço — Uau! Entendo o porquê você roubou. Quem compraria…
Ele arrancou a etiqueta de sua mão, amassou e jogou em uma lixeira próxima. O movimento fez ressaltar um colar de prata com desenho esquisito, o qual a ruiva nunca tinha visto. Porém decidiu não comentar nada.
— Não, peguei o dinheiro daquelas carniças que espanquei. — revelou ele. — Eles tinham bastante, peguei só o necessário para comprar o terno. — ele levantou um sacola que ela não tinha percebido — Telefonei para uma amiga que resgata mulheres que sofreram esses abusos, ela já está a caminho. Acho que o dinheiro que tem lá vai dar para pagar as terapias e suporte para elas e para as crianças também.
— Isso é bom, pelo menos uma coisa boa em Eros… — cruzou os braços soltando um suspiro e passando o olho nas lojas mal feitas da área das máquinas. — Espera, crianças? — arqueou as sobrancelhas
Sebastian assentiu. Sua pele clara ainda estava vermelha, e seus cabelos brancos refletiam a luz do sol com o movimento.
— Infelizmente, eu não sabia.
— É, nem me lembre dis…— franziu a testa e fez uma cara feia.
— O que foi? — Eleonor elevou as sobrancelhas.
— Calma ai. — ele mudou o peso dos pés botando uma mão na cintura e franzindo mais ainda a testa. — Você nos levou lá porque sabia que Jamir estava lá, e sabia que eu não iria me controlar e iria acabar batendo neles... Fez isso de propósito, não é?
Esperto. O grandão sabia que a pirata não fazia nada sem um motivo.
Eleonor deu de ombros contendo um sorriso. Ela levantou um dedo.
— Uma coisa que acho ruim em Eros, é que a fofoca se espalha mais rápido do que DST. Mas também é uma incrível vantagem. — revelou
— Quando soube? — indagou franzindo a testa.
— Ouvi uma conversa no bar, enquanto eu estava jogando dardos com um bêbado ontem a noite.
— Ontem? Nós estávamos juntos ontem no bar do Tabaco.
— Você estava incrivelmente interessado na garçonete, Uísque já estava dormindo no primeiro gole de álcool e Honesto paquerando um jovem rapaz. Meus tripulantes estavam distraídos demais para sequer perceber que todos estavam falando sobre isso.
— Como assim todos? — ele prendeu seus cabelos para trás deixando alguns fios rebeldes cair.
— Aparentemente uma das meninas acordou e conseguiu fugir, era isso que falavam, odeio ter que ficar dependendo de conversa de bar ou de fontes de fofocas não confiáveis, mas era isso que tinha disponível no momento. — cruzou os braços. — E, para minha surpresa, quando perguntava qual era o bar ninguém queria me contar. Não faço ideia do porquê.
Sebastian franziu o cenho
— Onde Jamir se encaixa nisso?
— Ele…bem, — exalou e apertou os lábios — ele estava procurando suas filhas, como sabe, — Sebastian assentiu — sugeri no começo que procurasse em lugares que vendem escravas sexuais, se passando de comprador. Ultimamente está tendo muitos desses acontecimentos em Eros. Quando me lembrei do que tinha falado, mostrei para ele minha coleção de jóias e ele roubou a mais preciosa, para poder comprar suas filhas caso estivessem lá.
O rosto de Sebastian ficou branco quase parecendo a cor de seus cabelos.
— Usou ele de isca…Para achar o bar.
— Você quebrou a mão de um homem bom. — continuou
— A culpa foi sua por não contar essa parte. — rebateu Sebastian.
A pirata engoliu a bile que subiu e se lembrou da mão quebrada de Jamir, ele era apenas um homem desesperado para encontrar suas filhas. E era culpa dela que talvez sua procura tenha sido em vão.
Fez algo terrível, e se odiou por isso.
Ela apertou os olhos.
— Foi preciso pra descobrir. — a amargura do arrependimento em sua boca foi o pior gosto que já sentiu — Eu deixei um presente no bolso da calça dele. Espero que use com responsabilidade.
O musculoso deu um sorriso de canto e olhou pro lado indignado.
— Você é uma mulher bem ladina às vezes. — respondeu e continuou a andar.
Eleonor tentou não corar, ainda bem que Sebastian voltou a andar assim que percebeu que sua tentativa havia falhado. Ela afastou qualquer pensamento que via Sebastian como alguém que poderia se tornar seu amante.
“Somos amigos, apenas, amigos.” Pensou.
Eleonor juntou as sobrancelhas.
— Ladina?
Sebastian balançou a cabeça de um jeito brincalhão, ela sabia que não iria explicar o que era.
Idiota.
— E se eles acordarem, antes de sua amiga chegar? — perguntou a pirata andando atrás dele.
Ele sorriu. O alcançou até ficar ao seu lado
— Não vão acordar, — exclamou — não tão cedo. — a olhou de esguelha — Eu os bati tanto que é bem provável que tenham entrado em coma.
Nisso Eleonor não sentiu nenhuma vontade em dizer que encontrou Connor no meio tempo.
️
— Como sabe que a Governanta da mansão em Eleic vai acreditar no bilhete que deu a Jamir? — perguntou Sebastian pegando a sacola de um feirante.
— Ela não acreditaria se eu mandasse um holograma. — ela sorriu tirando o dinheiro do bolso, tomando cuidado para a jóia não sair — Como sabe, não mando cartas e nem dou bilhetes para qualquer um.
Retomaram o caminho desviando das pessoas suadas. Eleonor sentiu uma gota de suor escorrer por suas costas debaixo da blusa fina.
— Ofereceu mais alguma coisa, além disso? — ele mordeu uma fruta.
Ela assentiu.
— O que mais?
— Uma promessa.
Sebastian parou.
— O QUE!?
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