Capítulo 2



Andaram atrás de suprimentos que precisavam para o barco, algumas ferramentas, fita isolante, e peças para o motor e comida. Eleonor não sabia muito sobre mecânica, mas sabia muito bem qual era uma marca boa para chocolates.

De vez em quando, se lembrava da jóia no bolso e colocava a mão só para sentir se continuava lá. Não estava muito confiante com aquele pessoal que a olhava, não estavam somente com medo, mas também bem interessados no objeto que carregava em seu bolso.

Ela revirou os olhos pensando: “Fofoca se espalha rápido”.

Quando acabaram, foram direto ao porto Tigre, onde Uísque estava limpando o convés e Honesto, discutindo com algum sujeito, que supôs ser um bêbado encapuzado.

— Eu já disse um milhão de vezes! Não sabemos quem é essa Princesa Perdida! — gritou Honesto.

Ela se aproximou deles. "Princesa perdida"?

— O que está acontecendo aqui Honesto? — disse Eleonor dando as bolsas que carregava para o baixinho de cara emburrada.

— Esse homem aqui está enchendo nosso saco pra falar com essa tal de "Princesa Perdida"! — disse, pegando as sacolas e fazendo aspas com as mãos.

A ruiva analisou o homem. Seria um dos homens de seu pai? Faz tempo que fugira e o traira. Por que procurá-la agora?

— Certo. Deixa que eu resolvo isso. Podem ir. — dispensou os dois, e eles foram navio adentro.

Esperou até que passassem pela porta que dava para o interior do barco. Olhou em volta pra ter certeza que não tinha ninguém perto o suficiente para ouvir, porém, para sua sorte, todos estavam distraídos, marinheiros e piratas aos berros disparando comandos para o resto da tripulação e Uísque, bêbado demais para sequer formar uma frase corretamente, agora sentado em um banco abraçado com a vassoura, dormindo.

— O que você quer?

O homem desconhecido levantou a cabeça mostrando uma pequena parte de seus cabelos negros, olhos cor de ametista bem intenso e pele queimada de sol. Bonito, até.

— Então você é a Princesa Perdida de Eros! — disse o homem.

Ela chegou perto dele e sacou sua adaga presa em sua coxa, com a lâmina na garganta do sujeito ela disse:

— Fale alto mais uma vez e eu arranco suas cordas vocais. — ameaçou.

O homem botou as mãos para cima se rendendo.

— Calma querida, eu apenas gostaria de propor um acordo. — lançou um sorriso sem graça. — Vejo que sua lâmina é linda, poderia guardá-la para manter o fio?

Eleonor cerrou os olhos e deu um passo para atrás, o fitou de cima a baixo, analisando, vestia calça de couro com pistolas 38 em ambas as coxas grossas, ela conseguiu vê parte de baixo de uma possível mochila sob da capa preta. Ele não parecia tentar atacar em nenhum momento, mas se tentasse, seria um homem morto.

— Vamos conversar lá dentro. — disse Eleonor guardando a arma.

Ela o guiou para dentro do barco, até chegar em sua sala particular. Que em alguns minutos depois, sua pequena tripulação estava aguardando, menos Uísque, prontos para qualquer que fosse o acordo. O estranho ficou em pé no meio da sala, em frente a uma mesa onde Eleonor já se encontrava em sua cadeira sentada com as mãos juntas frente ao corpo.

— É um dos homens do meu pai? — perguntou a pirata. Seu coração batia rápido demais, se ele fosse, então o pai dela estaria dentro de seu barco, no seu território . Apenas pensar naquilo fazia seu estômago revirar.

— Não, não sou.— respondeu o homem tirando capuz deixando seu rosto bonito à mostra, mas havia uma cicatriz que cortava o seu olho esquerdo e uma barba crescendo, ela não tinha reparado quando estava encapuzado, isso a pegou de surpresa.

Ela segurou um suspiro de alívio, odiaria ter que matar um homem tão bonito como ele.

— Então, que tipo de acordo é esse? — perguntou ela.

O homem limpou a garganta.

— Diga primeiro seu nome — Sebastian cruzou os braços, ocupando o posto ao lado de Eleonor.

— Claro, perdão, — endireitou a postura — meu nome é Ethan Ragnar, príncipe de Save. — fez uma breve saudação.

— Quer dizer que temos uma valiosa mercadoria em nossas mãos? — disse Honesto atrás do príncipe, abrindo um sorriso malicioso.

Ethan ficou imóvel.

— Ele não é uma mercadoria... — respondeu a pirata.

Ethan relaxou os ombros.

— Agradeço a gentileza, capitã, isso é … —

— Por enquanto. — terminou Eleonor.

O moreno engoliu em seco

— …bem gentil… Bom,— se apressou — irei direto ao ponto, antes de virar comida pros ratos. Eu preciso da sua ajuda Princesa.

Eleonor deu uma gargalhada.

— Princesa, — repetiu com desgosto — essa foi a coisa mais bárbara que alguém disse pra mim. E olha, já fui xingada por muitos nomes e até hoje ainda sou. — seu sorriso sarcástico abria ainda mais. — Porque quer minha ajuda?

Ela franziu a testa encarando Ethan.

— É a única que pode trair o seu pai. — Ethan disse sem nenhum tom de brincadeira, sem nenhuma emoção.

E isso foi para Eleonor uma piada fantástica! Ela riu ainda mais.

— Trair meu pai? Tolo, eu já fiz isso. Sabe, se for mais específico no que quer, seria fácil ajudar. Mas se ficar aí falando em enigmas, posso considerar a ideia de Honesto, e tornar você uma mercadoria valiosa. Ratinho. — sorrindo para Ethan ela pôs seus braços na mesa e apoiou seu rosto no dorso de sua mão esquerda.

Honesto riu atrás do príncipe.

— Como sabe, princesa, os recursos naturais que ainda resta em Eros estão sendo todos esgotados pelo o rei, vulgo, seu pai. Ele está conquistando vários territórios ao redor do mundo e os destruindo. — explicou Ragnar. — E fora as consequências climáticas por conta disso.

— Quem disse que é problema…

— Que não é problema seu? — rindo de indignação ele continuou — Você vive nesse planeta, você mora aqui, pessoas estão morrendo, não só de fome mas também de água contaminada por elementos químicos. E o mar… — Ethan mudou o peso das pernas e passou uma das mãos no cabelo e a outra pousou na cintura, um gesto até que… sexy. — Não terá mais mar para sequer navegar, de tão poluído que vai estar, por causa dessas malditas máquinas que seu pai está construindo nesses territórios.

— O mar é grande, amigo — disse Eleonor

— E aquelas máquinas também. — retrucou Ethan.

Eleonor respirou fundo e se encostou na cadeira novamente. Sem falar nada.

Não sabia o que esse rapaz queria, mas se estava tentando acabar com sua paciência, conseguiu.

Eleonor imaginou como seria se lançasse uma faca no meio da cabeça dele, será que o soberano de Save sentiria falta desse idiota?

Ethan voltou a falar.

— Se for questão de dinheiro, eu tenho, posso até te dar um navio novo. — disse quase implorando.

Os olhos de Eleonor brilharam ao saber que poderia ter bastante dinheiro, mas logo perdeu o brilho.

Não podia negar nada daquilo, porque sabia.

Sabia o que pai estava fazendo ao longo dos anos, estava sempre de olho nele, e não concordava nenhum pouco como agiu ao longo do tempo. Corrupção, desmatamentos, mortes, entre vários relatos. Mas nunca fez nada para impedir, por medo de perder seus amigos, as únicas pessoas que realmente se importavam. E também odiaria perder a sua paz.

Mas aquela senhora mais cedo…

Não, não estava disposta em abrir mão disso.

Tudo estava uma grande merda em Eros, e aquela senhora mudava muita coisa sobre sua visão do reino.

Talvez...Agora…ela poderia ter a chance de poder mudar tudo. E, talvez, voltar para a casa, por mais que tivesse passado o que passou, ainda tinha alguns amigos lá que gostaria de rever. Coisas que queria lembrar.

Fixou o olhar naquelas íris cor violeta e maxilar bem definido.

— Todos da família real de Save tem uma tatuagem com o brasão do reino dado quando chega na adolescência. — disse por fim— Me mostre.

Sem hesitar, Ethan levantou a barra da camisa cinza surrada, a pirata tentou ao máximo não olhar pro tanquinho do homem. Bem no quadril, perto da entrada havia um desenho de uma árvore cheia de folhas e raízes, símbolo do reino de Save, para nunca esquecerem de quem nos criou, e quem nós destruímos.

— Certo. Qual é o seu plano?