Se o Mundo Ruir
8 Capítulo 8 - O Anjo
Notas iniciais
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Pois é, esta fic estava abandonada e triste, com uma camada grossa de poeira como decoração. Eu a havia deixado de lado para definhar e morrer. Não vou pedir desculpas é isso mesmo que acontece quando não se recebe reviews, quando seu trabalho de amor não é recompensado com um incentivo. Se essa fic voltou à vida, é graças a minha nova amiga e cúmplice de taras sádicas: a fantástica Morrigan! Muito obrigada pelo sopro de vida, minha querida. Este capítulo, e mais o resto da fic (que desta vez vai sair!), são todos para você. Espero que curta.
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Esta fic mudou de título, descrição e até capa a partir daqui. O antigo título é 'O Irmãozinho Do Inimigo', que sempre achei meio ridículo. Obrigada a Morrigan, novamente, por sugerir as mudanças, e me ajudar a reescrever a sinopse - agora está muito melhor!
Capítulo 8 – O Anjo
Hyoga e Shiryu estavam parados na entrada do prédio, agitados demais para esperar no carro. Ambos estavam um pouco nervosos sobre o que poderia estar acontecendo no andar de cima. Eles haviam insistido em acompanhar Seiya, mas não, o cabeça dura não o havia permitido, apontando para o fato de que uma luta de três contra um não seria justa. Hyoga só esperava que seu amigo não estivesse todo quebrado a essas alturas; ele não tinha a menor idéia do que esperar do irmão do Ikki, mas ele certamente seria um adversário formidável.
Se Seiya demorasse demais, Hyoga teria que ir atrás dele, mesmo que o Cavaleiro mais baixo ficasse bravo.
Quando Seiya finalmente cruzou a porta até a rua, ele não estava usando sua Armadura de Pégasus, e vinha sozinho. Ele deveria ter trazido o Amamiya mais novo com ele, acorrentado – o que teria dado errado?
“O que aconteceu?” Shiryu perguntou.
Seiya passou à frente deles, ignorando a pergunta. Parou à beira da calçada, de costas para eles, brincando com as próprias mãos inquieto.
"Seiya?" Hyoga perguntou.
O castanho voltou-se a eles. Hyoga não viu ferimentos, mas seu alívio foi interrompido com a palidez do rosto do amigo; parecia que tinha visto um fantasma.
“Você está bem? Onde esta o Amamiya?” Shiryu perguntou.
“Lá em cima.” Seiya falou baixinho, em um tom estranho. Voltou seus olhos para os próprios pés, evitando encarar os amigos.
“Seiya, você está nos deixando nervosos. Fale com a gente.” Hyoga pediu.
“Apenas vão lá em cima e o tragam, está bem?” Ainda aquela voz baixa e subjugada. “Eu não posso... ele está... eu vou esperar no carro.”
Hyoga e Shiryu trocaram olhares, e sem nenhum comentário apressaram-se até o oitavo andar.
A porta estava aberta, e na entrada jazia um corpo – Shun Amamiya, sem dúvida. Ambos os rapazes arquejaram em surpresa e correram até ele, ajoelhando-se próximos ao corpo imóvel. Shiryu tomou a mão do jovem e sentiu seu pulso, abanando a cabeça afirmativamente para Hyoga. Ele ainda estava vivo.
Hyoga não conseguia conciliar o que ele havia esperado com o garoto à sua frente. Ele tinha cabelos compridos esverdeados emoldurando o rosto bonito, delicado e demasiado jovem. Vestido em pijamas — calça e camisa de algodão verde pastel, com um estampado de ursinhos polares sorridentes — ele parecia uma criança inocente pronta para ir para a cama, não o temível e maligno irmão do Cavaleiro de Fênix. Hyoga balançou a cabeça, em negação ao que os três haviam feito, culpa comprimindo seu peito dolorosamente.
O lábio inferior de Shun estava partido, um filete já seco de sangue havia corrido por seu queixo. Gentilmente, Hyoga moveu uma mecha do cabelo verde do lado esquerdo do seu rosto, para ver melhor. Sua face esquerda estava bastante ferida e inchada, especialmente sobre a maçã do rosto; a pele ainda não estava roxa, mas considerando a descoloração rápida, estaria bem feia dentro de poucas horas. Quanto aos ferimentos, Hyoga não enxergava mais do que isso. Ele considerou remover a camisa do garoto, ou ao menos erguê-la para procurar por mais ferimentos, mas rapidamente descartou a idéia; de qualquer forma eles levariam horas para aparecer, e violar a modéstia do garoto enquanto estivesse desacordado parecia errado. Ao menos não parecia haver ossos quebrados; nenhum membro estava dobrado de forma estranha, nem haviam protuberâncias visíveis. Se haviam danos internos, ele não tinha como sabê-lo a essa altura.
Shiryu apalpou a cabeça de Shun com dedos leves. Após encontrar algo no lado direito, e sentir o local com cuidado, disse "Como eu pensava. Ele tem um pequeno galo. Não cairia inconsciente se não houvesse recebido um forte golpe na cabeça.”
Hyoga não pode evitar sentir-se terrível com isso tudo. A missão deles mal tinha começado, e já estava tão fora de controle! Não que ele jamais tivesse gostado da idéia. Ele torcia muito para que Shun não houvesse sofrido nenhum dano permanente. Não importava o tipo de pessoa que ele fosse, ele não havia feito nada para provocar o ataque, e isso colocava um ângulo moralmente errado no ocorrido.
"Eu duvido que isso tenha sido realmente necessário," o moreno disse, cortando o longo silencio. "Por que Seiya faria isso?"
"Eu não sei. Mas você viu o quanto perturbado ele estava. Seiya jamais machucaria alguém sem motivo." Hyoga não conseguia pensar em nenhum, para ser honesto consigo mesmo, mas ele tinha que confiar nas boas intenções do amigo.
"Nós vamos ter que perguntar a ele o que aconteceu."
"Eu o levo," Hyoga disse já se movendo para pegar o garoto. Ele muito gentilmente ergueu Shun pelos ombros, com a ajuda de Shiryu, e passou um braço por suas costas, enquanto a outra mão apoiava a parte de trás dos joelhos. Hyoga levantou-se; o peso em seus braços era por demais leve, piorando seu sentimento de culpa.
"Ele não passa de uma criança", Shiryu murmurou, como se lesse a sua mente.
"E julgando por seu peso, ele não é nenhum guerreiro. Não é sólido o bastante," disse Hyoga, de cenho franzido. Dirigiram-se para a saída. "Shiryu, eu tenho sérias dúvidas sobre o que estamos fazendo."
O Cavaleiro chinês não respondeu.
Quando chegaram à rua e aproximavam-se do carro, Hyoga viu Seiya no banco do passageiro, braços cruzados sobre o peito, sua expressão fechada e nada amigável.
"Eu dirijo," Shiryu ofereceu, abrindo a porta traseira.
Hyoga depositou o menino inconsciente no banco de trás, o mais cuidadosamente possível para não machucá-lo ainda mais. Fechou a porta e circulou o carro, entrando pelo outro lado. Ele moveu Shun para apoiar a cabeça esverdeada no seu colo, para protegê-la de bater contra o banco ou mover demais com o movimento do carro.
"Agora você vai nos contar o que foi que aconteceu, ou vai ficar sentado aí, com cara de quem chupou um limão?" Shiryu perguntou em sua típica voz calma, assim que o carro começou a andar.
Seiya não respondeu.
Os olhos de Shiryu encontraram-se com os de Hyoga através do espelho. De alguma forma, entendeu o que Hyoga quis dizer sem precisar de palavras: deixe-o quieto, só por enquanto. "Tudo bem," o moreno murmurou para si mesmo.
Dez minutos de completo silêncio depois, ao balanço gentil do veículo em movimento, Seiya explodiu. "Não foi minha culpa!" ele gritou. "Ele -- foi culpa dele!” virou-se no banco e apontou um dedo a Shun.
Hyoga instintivamente pressionou o seu protegido um pouco mais perto de si.
"Ele ficou me provocando, me ignorando, se negando a responder minhas perguntas." Sua voz mostrava toda a agitação que sentia — rápida, tremida, fora de controle. "Ele — ele se acha bom demais para lidar comigo! Culpa dele, esse merdinha. Eu tentei me controlar — e consegui, até o final — enquanto ele estava sendo extremamente irritante! Ele me fez sentir como um m-merda, como um ninguém! Como ele ousa? As luzes estavam desligadas, eu não enxergava porcaria nenhuma, e então a pouca luz que havia apagou. Escuridão total. Ele correu, eu corri..."
A essa altura a voz de Seiya lhe faltou; ele encolheu-se no assento, escondendo o rosto nas mãos, respirando pesado, puxando o ar com força. Não hiperventilando, mas quase.
Shiryu dirigiu até a beira da estrada e estacionou. Ele apenas observou a crise emocional do amigo por alguns momentos, e então começou a massagear círculos leves, calmantes em suas costas, sem dizer uma palavra. Significava 'Eu estou ao seu lado, não importa o quê.'
Hyoga também permaneceu calado. Ao ver Shiryu sendo tão gentil com o amigo, de repente percebeu que ele próprio estava — inconscientemente, é claro — gentilmente acariciando o cabelo de Shun. Removeu a mão rapidamente, como se ela houvesse sido queimada. Ele sentia um instinto de proteger o garoto no momento, dadas as circunstâncias, mas não podia esquecer-se de que ele ainda era o inimigo.
A respiração de Seiya finalmente acalmou-se a um ritmo mais natural. Seu rosto ainda estava escondido por entre as mãos. "Foi tudo minha culpa. Sou um monstro."
"Seiya..." Shiryu começou, em um tom de reprovação.
"Não, sou um monstro mesmo. Eu tinha uma idéia tão concreta dele na minha cabeça. Eu tinha tanta certeza de estar lidando com um Ikki em miniatura," Seiya respirou fundo, trêmulo, "que eu nunca dei uma chance a ele. Acho que ele não entendeu metade do que eu estava falando, mas eu o interpretei mal, achei que estivesse me zombando." Seiya descobriu o rosto e virou-se no assento, olhando para Shun. "Acho que ele estava com medo o tempo todo, mas na hora eu não percebi. Ele implorou para que não houvesse uma luta... Pensei que era porque ele tinha coisas melhores a fazer com seu tempo... não porque ele era um maldito garotinho em um pijama de ursinho," sua voz falhou na palavra ursinho, "que nunca teve qualquer chance contra mim." Ele virou-se novamente e encolheu-se no assento, escondendo o rosto entre as mãos novamente.
Ah, esse pobre garoto! Hyoga podia só imaginar a cena: o pobrezinho implorando para ser deixado em paz, com medo pela própria vida, enquanto Seiya avançava até ele. Ele mirou o rosto delicado; sangue e um machucado tornando-se rapidamente roxo manchavam a pele clara, leitosa. Ele sentia-se mais protetor a cada minuto... enquanto ele sentia um ímpeto danado de chutar o Seiya daqui até a Rússia.
"Por que você o golpeou até que caísse inconsciente? Hyoga falou pela primeira vez desde que havia descido do prédio. Não fora sua intenção soar tão acusador, mas foi assim que seu tom saiu.
Seiya respirou fundo novamente, o ar entrando e saindo daquela forma tremida de seus pulmões. "Eu não estava pensando direito. Estava perseguindo-o no escuro. Eu estava tão elétrico, puto da cara. O ataquei antes que ele pudesse me atacar, ou que pudesse fugir. Meu Meteoro de Pégasus é super rápido; quando me dei conta que ele não estava se defendendo, ele já estava acabado; era tarde demais.”
“Então é assim que você se justifica? Dizendo que foi lerdo demais para perceber que o cara a quem estava espancando até a beira da morte não era um lutador???” Novamente, Hyoga não tivera a intenção de soar tão furioso. Por que estava tão bravo assim? Eles estavam apenas cumprindo as ordens de Athena. Estavam no mesmo time, tentando alcançar o mesmo objetivo.
Shiryu encontrou os olhos do loiro através espelho, e balançou a cabeça apenas uma fração, querendo dizer ‘não’. Hyoga entendeu. Ele não se sentia muito compreensivo com o idiota do Seiya no momento, mas faria o que o moreno pedira.
“Eu não estou tentando justificar nada,” Seiya disse, derrota e vergonha na sua voz. “O que fiz não tem justificativa, não tem desculpa. Sou um monstro. Estou apenas contando o que se passou pela minha cabeça naquele momento.”
“Só vento, obviamente,” Hyoga murmurou para si mesmo, sabendo que Shiryu tinha ouvido.
“Pare com essa bobagem, Seiya. Você não é um monstro,” o moreno disse, tocando seu braço em um gesto de suporte. “Para pessoas como nós, a coisa certa a se fazer não é sempre evidente. Cometemos erros, às vezes graves. Mas não podemos nos castigar por causa disso. Somos humanos. O máximo que podemos fazer é dar o melhor de nós. Quando erramos, consertamos o que pode ser consertado, e seguimos adiante. Certo?”
Hyoga queria vomitar com aquela ladainha; ele discordava completamente! O que Seiya havia feito com Shun fora muito errado, e a idéia de tratar isso como um “erro humano normal” não lhe caía nada bem. E as conseqüências das ações de cada um, como ficavam? Seiya poderia ter matado esse garotinho fofo! Não, ele não havia pensado ‘fofo’ – devia estar mesmo muito cansado.
Onde ele estava mesmo?...
Ah bem, esqueceu-se sobre o que estava pensando. Mas ele sabia o seguinte: Ninguém machucaria mais esse garoto, ele se certificaria disso pessoalmente.
Ou seu nome não era Alexei Hyoga Yukida.
Mas essa era uma conversa que teria com seus amigos amanhã. Passou a ignorar a conversa entre o castanho e o moreno no banco da frente, fechou seus olhos, e deixou o balanço do veículo niná-lo até adormecer.
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Escuridão. Algum tipo de movimento debaixo de si. Sua cabeça a ponto de explodir. Dor em tantos lugares.
Shun gemeu baixinho. Ele não estava propriamente acordado; estava em um lugar embaçado, desfocado, entre a consciência e sonhos. Ele não sabia onde estava no momento, e isso não importava. Mas por que havia tanta dor? Abriu seus olhos apenas uma fração. Viu um anjo sobre ele. Abriu seus olhos um pouco mais, com esforço. Era um anjo loiro com cabelos compridos tão bonitos, e o rosto mais belo que ele já havia visto. O anjo estava adormecido, seu rosto apoiado no ombro. Shun notou pela primeira vez a sensação de uma mão descansando no seu cabelo; era uma sensação boa, aliviava um pouco a dor de cabeça lancinante. Moveu a cabeça só uma fração, para melhor ver o anjo, mas algo em sua cabeça explodiu e ele voltou a mergulhar no escuro esquecimento.
Continua...
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