Se o Mundo Ruir

15 Capítulo 15 - Teatrinho


Notas iniciais
Este é bem pequeno, e se passa imediatamente após o Hyoga sair do quarto do Shun - e portanto, dá a entender que foi ao mesmo tempo em que o Ikki estava no apartamento do irmão.

"Credo russo, você estava matando o guri?" Seiya zombou, assim que Hyoga saiu às pressas do quarto. "Que griteiro foi aquele? Achei que você era o anjo protetor dele, não seu carrasco!"

"Gritaria, não griteiro, seu analfabeto!" Hyoga xingou. "E saia da minha frente que eu não estou com humor para lidar com você!"

Enquanto Seiya dava gostosas gargalhadas com o humor deplorável do amigo, Shiryu foi atrás dele. O loiro jogou-se no sofá, encolhendo-se e cobrindo o rosto com uma almofada, querendo esconder-se do mundo.

"Hyoga?" o moreno tentou, com voz calma.

"Saia daqui... agora não..." Fez-se ouvir de forma abafada, por detrás da almofada.

O que ele tinha feito?!

Sentiu uma mão confortante no ombro. "Hyoga. Eu devo ir lá checar o rapaz? Você... fez algo contra ele?" Hesitou brevemente. "O machucou?"

O loiro fez que sim com a cabeça, ainda por detrás da almofada. Pausou, sem coragem de mencionar os detalhes vergonhosos em voz alta. Finalmente disse, "Vá ver se ele está bem. Por favor, meu amigo."

O moreno apertou-lhe de leve o braço, em um sinal de apoio que dizia 'está tudo bem,' e retirou-se em seguida.

Que diabos havia de errado com ele?!

A sua única intenção, inicialmente, fora esconder a sua preocupação com o menino. Sequestrador que se leva a sério não fica demonstrando cuidado em demasiado, não fica apegado, alisando o cabelo do refém. Pelo contrário, sequestrador tem que ser gelado, egoísta, tendendo à crueldade. Hyoga quiz se mostrar frio e distante, cumprindo o seu papel, só isso. Exagerou um pouco no sarcasmo, para parecer convincente, mas até aí tudo bem.

Aí o garoto viera com aquele papo absurdo de anjo. Hyoga não entendera a intenção – por acaso estaria tentando adulá-lo para ganhar um aliado? – e acabara respondendo rispidamente. Sentira-se culpado com isso, e ao ver a carinha sentida do garoto quase deixara a máscara cair, dizendo "Pode me chamar de Hyoga..."

Devia ter dado seu sobrenome ao invés disso! "Meu nome é Yukida" seria mais impessoal, imporia mais respeito, mais distância. Ou que não desse nome nenhum, afinal não era da conta do garoto! Mas escapou; tarde demais.

Não podia colocar tudo a perder por ser mole demais. Não era a favor dessa situação, sentia pena do garoto por estar sofrendo (sendo o Amamiya mais novo ou não!), mas já que a coisa estava em andamento, que fosse até o fim, e ele faria a sua parte direito. Seria para o bem de todos, inclusive para o refém (ou pelo menos ele estava tentando se convencer disso).

Portanto, para corrigir-se, voltou a ser rude com o menino de cabelos verdes, e a falar e agir como um sequestrador deveria.

Dali em diante as coisas foram se deteriorando depressa. O Amamiya começara a fazer teatrinho, bem exagerado, chorando e fazendo o papel de vítima inocente. Até parecia um garoto bobinho mesmo!... Se ele não fosse quem fosse, irmão do cara mais sórdido que ele conhecia, Hyoga teria caído como um pato no seu jogo. Para mostrar que estava por cima, que não se deixava enganar tão facilmente, mostrara-se ainda mais frio, chegara a ameaçar o infeliz.

E então Amamiya fora longe demais no seu teatro, com aquela história enrolada do dinheiro. Querendo confundi-lo, convencê-lo de que realmente não sabia de nada. A inocência personificada! Hyoga ainda o alertara de que estava passando dos limites, mas o garoto insistira na farça... Mesmo quando teve a verdade jogada na cara, o refém continuara se fazendo de desentendido, da forma mais absurda e irritante possível.

Mas então o pequeno Amamiya fora longe demais. Teve a ousadia, o descaramento de negar conhecer o próprio irmão! Disse que não conhecia nenhum Fênix! Isso já era o cúmulo do desaforo. Hyoga perdera a cabeça e... acabara machucando o garoto.

E imediatamente veio aquela enxurrada de culpa, o medo de não ter controle sob si mesmo, uma voz dentro de si gritando que era um covarde, um bandido... Além de uma confusão completa sobre como lidar com o garoto.

Fugira, praticamente correra dali, antes que fizesse ou dissesse mais alguma coisa de que se arrependeria.

Tomara que aquela criaturinha endiabrada não estivesse ainda mais ferida do que já estava antes... Ele podia até ser o irmão do Ikki, podia ter sangue ruim, ser uma pessoa falsa que não valia nada. O quanto exatamente ele era uma pessoa desprezível, e o quanto pior ele se tornaria quando virasse homem feito, Hyoga não tinha como saber a esse ponto, mas imaginava que fosse um cenário bem feio. Mas nada disso importava. Mesmo que Shun trabalhasse junto ao irmão em seus planos diabólicos, que fizesse coisas horríveis... mesmo que fosse o seu braço direito, ou viesse a sê-lo no futuro próximo... Não importava o que ele houvesse feito de ruim na sua curta vida, não merecia essa situação em que se encontrava agora. Estar tão fragilizado nas mãos do inimigo era uma injustiça, com quem quer que fosse. E Hyoga odiava injustiças.

Esse forte sentimento de culpa que o loiro sentia, esse impulso de proteger o próprio refém, esse medo de mostrar fraqueza perante o inimigo, de amolecer e de agir de forma estúpida... explicava-se simplesmente porque Hyoga tinha um coração mole. Nada disso tinha a ver com aqueles olhos enormes e infantis cor de esmeralda, ou com aqueles traços delicados e vulneráveis onde vira lágrimas delicadas deixando seu traço, ou com sua voz trêmula, o medo em seus olhos... Isso tudo era apenas manipulação. Seu instinto de que havia algo de muito errado ali era apenas uma bobagem, e de jeito nenhum deveria interferir com os planos. Seria mais profissional de agora em diante.