Se o Mundo Ruir

16 Sequestrador ou Amigo?


Shiryu entrou no quartinho com uma bandeja de comida nas mãos. Havia suco de frutas, leite, pão, arroz, sashimi de salmão, queijo, e ainda sopa miso. Um pouco de tudo, pois não sabia do que o garoto gostava.

Seu amigo russo podia se fazer de frio o tempo todo, mas isso era uma defesa pessoal, uma máscara, necessários no ramo que eles atuavam. Era só uma fachada, que servia para encobrir o seu lado manteiga-derretida. O coração de Hyoga estava mais para lareira quente e aconchegante , do que para geleira siberiana. Por isso, o moreno não havia se apressado em checar o estado do garoto com urgência, pois conhecia bem o russo e sabia que não machucaria a Shun, por mais alterado que estivesse. Achou melhor primeiro fazer algo de comer para o menino.

Depositou a bandeja na mesinha, vendo o quarto vazio. Dirigiu-se ao banheiro, onde encontrou Shun sentado no piso frio, com o rosto bastante inchado e os cílios molhados, fungando com dificuldade. Olhava-o com olhos muito verdes, brilhantes e acusadores. “Veio me ameaçar também?” Era a primeira vez que sua voz carregava um desafio. Sua atitude corajosa contrastava com seu estado deplorável.

“Não. Vim te trazer algo de comer,” disse calma e casualmente. “ A refeição está ali na mesa. Eu mesmo preparei.”

“Não quero, pode levá-la de volta,” o menino disse com voz zangada e magoada, ao mesmo tempo em que seu estômago roncava para a casa inteira ouvir.

O moreno ignorou tanto o comentário quanto o ronco, sentando-se no chão frio de frente para o menino de cabelos verdes. A imagem dele, tão machucado, tão triste e vulnerável, lhe dava muita pena. Mais uma vez, o chinês ponderou se estavam mesmo fazendo a coisa certa.

“O Hyoga te machucou?” perguntou, mais para abrir um espaço para conversa e para demonstrar atenção, do que por precisar de uma resposta.

Para seu espanto, o rapazinho fez que sim com a cabeça, mirando o chão. “Mas ele não fez por querer. Não foi nada, já estou bem,” disse, inconscientemente tocando a região das costelas.

O moreno ficou surpreso com a atitude do menino, defendendo Hyoga. Poderia, ao invés, ter tentado criar discórdia, jogando um sequestrador contra o outro, mas não o fez. Shiryu guardou a informação na mente para reavaliar depois.

Seu impulso era oferecer a sua amizade, seus cuidados, oferecer qualquer coisa de que o garoto precisasse. Mas tinha que se controlar; tinha que se lembrar do porquê estavam ali e que papel cada um fazia. Assim, segurou a sua língua antes que perguntasse se o Amamiya precisava de algum remédio (apenas deixaria umas aspirinas na bandeja de comida), ou se poderia trazer qualquer coisa para que estivesse mais confortável. Mesmo que o próprio Fênix fosse seu prisioneiro, o moreno não saberia tratá-lo com menos do que dignidade. (Ao menos enquanto não houvesse necessidade.)

“Bom, se algo estiver errado com você, se algo estiver doendo, você estiver com fome... ou mesmo se alguém aqui te tratar mal, você me avisa, está bem? Falo sério.”

Ah, e tanto que não queria dizer essas coisas! Acabou escapando...

O rapazinho olhou para ele em um misto de confusão e esperança. Seus olhos se encheram de lágrimas – novamente! – e acenou que sim com a cabeça.

Céus, esse garoto só chorava! Teria que se certificar de que ele bebesse bastante água, pois nesse ritmo acabaria desidratando. Imaginou até as manchetes nos jornais: “Sequestro termina em tragédia em Tóquio: morto por desidratação.” Fênix os encontraria mesmo que fosse no inferno para se vingar, e os pulverizaria.

“Precisa de algo no momento?”ofereceu.

O garoto fez que não, timidamente... mas seu olhar esperançoso revelava que tinha algo a dizer.

“Pode dizer o que é, não se acanhe,” ajudou.

Ah, sua reputação de sequestrador sem moral e sem coração estava indo por água abaixo. Isso não era bom.

“Senhor Suiyama…” Shun balbuciou.

“Me chame de Shiryu, por favor. Eu não sou tão velho assim, garoto, apenas uns cinco ou seis anos a mais do que você, ” disse com um pequeno sorriso.

“Está bem, Shiryu... eu... bem...” Shun suspirou fundo, olhando um pouco temeroso para o rosto do mais velho, mas logo desviando seus olhos para o chão. Por fim murmurou, tão baixo que o moreno quase não o ouviu: “Ninguém me diz o que está acontecendo. Por quê?”

Ele claramente se referia à situação como um todo, não por que não estava a par dos acontecimentos.

Olhou novamente para o moreno, receoso. “O que pretendem fazer comigo?” Sua voz quebrou no final – estava claramente com medo da resposta.

Shiryu sentiu-se encurralado. Adoraria confortar o menino, garantir que ninguém pretendia fazer nada de mal com ele, que ele não precisava temer. Mas ele não mentiria desa forma.

“Você tem alguma idéia de por que está aqui, Amamiya?” sua voz era gentil.

“Me chame de Shun, por favor. Eu não faço idéia do que está acontecendo. Só sei que isso é um sequestro porque está na cara, mas o resto... ”

“Shun, então. Vamos fazer o seguinte. Eu trago a bandeja com a sua comida aqui, e você come enquanto eu esclareço algumas coisas. Pode ser?”

“Não!” o garoto choramingou, e fisicamente retraiu-se mais um pouco. “Não quero comer!”

“Mas você precisa se alimentar, garoto. Está bastante ferido e precisa dos nutrientes para ficar saudável.”

Shun o olhou estranhamente. Um misto de emoções se passava naquela cabecinha esverdeada, mas o moreno não conseguia decifrar aquele olhar. “Não quero... não me obrigue, por favor.” Seu tom era miserável, como se estivesse sendo forçado a comer ferrões de abelha ou pedras em brasa.

Shiryu suspirou. “Acalme-se, não vou obrigá-lo a nada, Shun. Mas pelo menos um suco de laranja, então? Antes que as vitaminas se percam? Sabia que depois de espremidas as laranjas, o suco só retém a vitamina C por sete minutos?” Sua voz era a mais gentil possível.

O menino só balançava a cabeça negativamente. “Não, por favor...”

“Tudo bem, esqueça.”

Isso não estava indo bem. Ele não sabia ser duro com o garoto. Estava bancando o bonzinho e deixando-o ditar as regras. Assim perderia toda a credibilidade como sequestrador. Se o trato que fizera era Shun se alimentar enquanto ele esclarecia os pontos do sequestro, mas Shun não cumpria a sua parte, então ele não deveria cumprir a própria. Levantou-se.

“Mas... Shiryu... onde você vai?”

“Eu tenho coisas para fazer, garoto. Nos falamos depois.” Viu os olhos desapontados o mirando, antes de sair do banheiro, cruzar o quarto e passar pela porta, trancando-a novamente do lado de fora.

Não faria isso sozinho. Não mesmo. Recusava o papel de babá ou de ama-de-leite do garoto. Não era sua responsabilidade ser o único a manter uma comunicação com o prisioneiro, a tomar conta dele, só porque era o mais calmo e confiável dos três. Iria buscar aqueles dois inúteis, nem que fosse pela orelha, e os quatro teriam uma longa conversa juntos.

Continua...

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Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.