Se o Mundo Ruir
14 Capítulo 14 - Fotos
Notas iniciais
Ikki adentrou o prédio onde morava o irmão, pela primeira vez na vida sem um uniforme de carteiro, entregador de pizza, policial, pregador evangélico, encanador ou eletricista. Esses disfarces, além de todas as outras precauções que Ikki sempre utilizou com o maior cuidado, para que Shun jamais fosse descoberto como seu irmão e posto em risco, podem tê-lo protegido por algum tempo, mas infelizmente a verdade prevalecera e os pegara de jeito.
Era inteiramente por sua culpa que Shun estava nessa situação, qualquer que fosse, e a culpa assolava Ikki. Jamais se perdoaria se algo acontecesse com o caçula.
Correu escadaria acima de três em três degraus até o oitavo andar. Só esperava que tivesse vindo ao lugar certo para iniciar a sua procura pelo irmão, que isso não fosse uma perda de tempo. Não sabia por onde começar, mas esperava que o local onde ele fora atacado lhe desse alguma pista do que acontecera e do seu paradeiro.
Chegando ao número 86, ignorou a faixa amarela e preta mandando que não passasse, afixada à porta pela polícia. (Ha! Quem visse até pensaria que esses detetivezinhos de merda se dignariam a fazer uma investigação séria. No dia em que ele precisasse da ajuda desses inúteis, seria o dia do apocalipse, o mesmo dia em que os porcos voassem e as galinhas criassem dente.) Também ignorou a chave que trazia sempre consigo – simplesmente chutou a porta que cedeu sem dificuldades e foi entrando, sem querer perder mais tempo.
Mas parou quase que imediatamente na sua pressa. Com os olhos fixos no chão da cozinha, fechou lentamente a porta atrás de si. Abaixou-se e tocou na mancha vermelha com os dedos. Sangue. Fechou os olhos com força, em um gesto de quem não quer ver a realidade dura em frente de si. Não era muito, mas era definitivamente sangue. Respingado no chão, na porta... E só podia ser do Shun. O artigo do jornal já havia dito que havia sangue no local, mas ler a respeito era uma coisa, porém ver com os próprios olhos...
Seu coração, já comprimido desde que lera a notícia há pouco mais de uma hora, fisicamente doía no peito. Uma mistura louca de emoções lhe invadia: raiva, medo, culpa, arrependimento, ódio, perda, impotência, angústia, e mais outros sentimentos que não sabia definir. Só queria o irmão de volta, são e salvo, e queria o desgraçado que tanto o assustara morto. E o queria AGORA.
Ergueu-se e caminhou até a sala. Infernos, que diabos acontecera ali?! O caos era tremendo – o sofá caído para trás, livros atirados por todas as partes, pedaços de objetos quebrados, a estante caída. Parecia que um furacão houvesse atingido o local! Não sabia o que pensar.
Caminhou entre os destroços do que antes fora o canto do irmão, o seu refúgio no mundo, que Ikki comprara para si assim que seus "negócios" começaram a render. Era a primeira vez que cada irmão tinha um lugar no mundo que era só seu, depois de passar a infância vivendo de caridade, dormindo em uma cama pequena e de colchão fino, dividindo um quarto com outras vinte crianças. Na época, Shun mal pôde conter a felicidade quando Ikki lhe presenteara com este apartamento. Divertira-se tanto nas lojas de móveis, que nem criança em loja de brinquedos, planejando a sua sala – apaixonara-se por aquele sofá à primeira vista, e Ikki ficara tão feliz em poder dar-lhe aquele prazer. Aquele mesmo sofá ali, que agora se encontrava virado no chão. Shun havia decorado cada espaço, cada cantinho daquele apartamento com tanto carinho, com seus livros e objetos e detalhes que refletiam sua personalidade. Agora tudo estava em uma pilha de ruínas. Com angústia, Ikki caminhava pelos destroços e olhava para cada objeto destruído, como se ele contivesse a resposta: o que aconteceu? O que fizeram com o Shun?
Ah, quando pusesse as mãos no bastardo desgraçado filho de uma puta!...
Na mesinha de canto, um objeto lhe chamou a atenção: um envelope branco. Olhando mais de perto, leu, "FÊNIX". Arregalando os olhos, e com adrenalina disparando nas veias, agarrou o envelope, abriu-o, e tirou o que havia dentro. Era um pequeno maço de fotos com uma nota. Desdobrou a o papel e leu a nota primeiro. Era manuscrita em uma letra bem legível, de traços masculinos, cuidadosos, de uma simples elegância. Com certeza não vinha da mão de qualquer criminoso pé-de-chinelo.
Pulou direto para a assinatura: os cavaleiros de bronze. O que?! Não acreditava. A lagartixa chinesa, o pato gelado e o burro alado?! Aqueles molengas todos certinhos, que se faziam de bons cidadãos, agora no papel de bandidos?! Esse mundo estava de ponta-cabeça mesmo!
Bom, mas isso era ridículo! Ikki gargalhou alto, nervoso e bastante aliviado ao mesmo tempo. Aqueles babacas não teriam coragem de tocar no Shun! Com certeza aquela bagunça toda fora bem planejada, com o intuito de assustá-lo e manipulá-lo. Podia até visualizar os três patetas revirando a sala de propósito, respingando sangue falso na cozinha, enquanto Shun era levado a algum hotel confortável (com alguma desculpa para não assustar o garoto que, inocente, acreditaria nos desconhecidos, sem medo) e tratado a pão-de-ló. E Shun, sem idéia da preocupação angustiante em que seu irmão se encontrava.
Com um sorriso nos lábios, voltou ao bilhete, agora levemente divertido, querendo ver até onde essa farça iria:
"Fênix,
Saudações.
Lastimavelmente as coisas chegaram a esse ponto. Já que um acordo não fora possível através de meios civilizados, fez-se necessário tomarmos medidas drásticas."
Ah, claro que sim! Ikki sorriu. Acredito. E qual sequestrador que se preze escreveria um bilhete tão educadinho? Por favor! Nem ao menos se fingir de maus eles conseguiam!
"Temos o seu irmão." (Obrigada por mencionar o óbvio, pensou Ikki.) "Ele está vivo, e assim continuará no futuro imediato. Contudo, a medida de cortesia com que será tratado dependerá exclusivamente de sua mútua cooperação – em parte da dele, mas principalmente da sua cooperação, Fênix.
Para o bem-estar do jovem Amamiya, não nos procure, nem pense em causar qualquer distúrbio.
Entraremos em contato.
Os cavaleiros de bronze"
Bem. Não disseram o que queriam dele, mas Ikki tinha alguma idéia. Fosse o que fosse, não o conseguiriam. De fato, não ganhariam absolutamente nada com isso. Acabariam se cansando com o joguinho frustrado, cairiam em si percebendo a besteira que fizeram, o quanto tudo fora inútil, e retornariam Shun a este apartamento sem um arranhão, como os bons meninos que eram. O único inconveniente seria arrumar essa bagunça toda, alisar alguns livros judiados e substituir um ou dois vasos perdidos.
Ikki jogou a nota ao ar, como quem dispensa uma bobagem inoportuna. Virou o maço de fotos, vendo a primeira. Aí o seu corpo inteiro gelou, e o ar fugiu de seus pulmões.
Shun. Um close de rosto. Olhos fechados, desacordado, uma expressão de dor, pele em vários tons que não deveria estar, desfigurado, sangrando.
Aquela imagem não havia sido retocada em laboratório – via-se logo que era real.
Rapidamente passou pelas outras fotos, sem respirar, sem poder crer no que via – não, sem querer crer. Toda a angústia de antes, que havia desaparecido em meio a risadas nervosas, voltara e multiplicara-se várias vezes diantes dessas... desses... horrores!
Haviam cinco fotos ao todo, uma pior do que a outra. A segunda mostrava um ângulo mais afastado, mostrando Shun desacordado, deitado em uma cama pequena, em um recinto escuro. Tinha as mãos atadas na frente, e seu sangue manchava o lençol branco na altura da cabeça. Sua roupa estava suja, mas Ikki não tinha como avaliar seus ferimentos. As outras três fotos mostrava a mesma cena, de ângulos diferentes, fazendo em conjunto uma imagem grotesca.
Ikki não percebera quando havia começado a chorar, mas forçosamente dera-se conta do fato quando ouviu os próprios soluços, e a visão ficou tão turva que não mais via as fotos nitidamente. Nem lembrava-se mais como era chorar; a sensação não lhe era familiar, pois não o fazia há muitos anos. Por uns momentos abandonou-se à própria dor, sem a menor auto-censura; deixou a dor fluir no seu sistema, os soluços sacudirem seu corpo com força, as lágrimas rolarem livres.
Desde que saíra do orfanato jamais sentira-se assim, tão desesperado, tão impotente, ele e o irmão à mercê de fatores externos. Shun podia estar de mãos atadas na foto, mas quem sentia-se de mãos atadas era ele. Ver o irmão nessas condições, machucado, indefeso, em perigo, abria um buraco à sua frente, negro, sem fundo, e ali certamente cairia se viesse a perder o irmão para sempre.
Finalmente, com um grito de dor que expressava tanta emoção que assustaria a qualquer um, Ikki rasgou as fotos em picadinhos, lançando-as ao ar. Avançou até a televisão com um ódio animal, como se o aparelho tivesse alguma culpa nessa história; agarrou-a e lançou-a com um berro ao outro lado da sala, espatifando-a na parede. Ainda aos gritos, passou a esmurrar a parede mais próxima repetidamente com os punhos.
Não! Ele não iria ficar se lamentando sem fazer nada! Ele era Ikki Amamiya, o Fênix! O bandido que tantos respeitavam e temiam! Já encarara inimigos muito poderosos e saíra na melhor — não se deixaria derrotar por três patetas com sangue de barata, faria alguma coisa para salvar o irmão! E continuava esmurrando a parede.
Parou com aquilo, olhando para os seus dedos já sangrando. Ah, mas aqueles três não estavam sendo patetas dessa vez. Não mesmo. A lagartixa, o pato e o burro pareciam ter aprendido alguma coisa, finalmente. Dessa vez tinha que tirar o chapéu para eles, não só por terem achado o seu ponto fraco, mas por terem deixado suas frescuras morais de lado e agido com eficiência uma vez na vida. Era assim que se fazia.
Claro que esse comecinho de respeito que sentia por eles não diminuía em nada o ódio que normalmente sentia, e que no momento era tão intenso que o sufocava. Salvaria Shun e faria cada um deles sofrer – ah, e sofrer muito! – por mexer com a pessoa errada, o filhotinho protegido pela fera. Dessa eles não sairiam bem dessa, mas nem que...!
Shun, aguente firme, Ikki falou baixinho para a sala vazia. Eu vou te encontrar, espere por mim. Tudo vai ficar bem.
E com isso, retirou-se dali, não se importando em fechar a porta. E agora, o que faria? Sentado, esperando que viessem até ele com as exigências, é que não. 'Entraremos em contato,' o cacete! Um plano começou a se formar.
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