Notas iniciais
Esse capítulo não tem muita coisa, estendi pra tentar deixá-lo mais interessante, porém espero que gostem.

“Why do you come here?

And why do you hang around?

I'm so sorry

Why do you come here

When you know it makes things hard for me?

When you know, oh

Why do you come?”

– Suedehead – Morrissey

Se passaram seis dias desde quando dormi com Sam. Nesses estranhos seis dias, pareci me tornar social novamente. Recebi mensagens frequentes de Patrick e Sam no celular, Jennifer sempre as olhava primeiro que eu. Tive a impressão de que ela estava se sentindo incomodada com o fato de eu ter amigos novamente. Desde então, minha única amizade era o Josh, que também era amigo dela, o que eram bem diferente.

Minha semana foi corrida e não vi Patrick nem Sam durante aqueles dias, afinal seria praticamente impossível com tantas coisas para serem feitas no trabalho e na faculdade.

Era sexta-feira, um dia bom pra quem já estava cansado da semana de trabalho. E eu? Estava mais que cansado, mas eu teria que aguentar algumas horas ainda, eram 14h30 da tarde.

De repente, a porta da minha sala se abrira e Josh entrou, a fechando novamente.

– Como estamos? – Josh se sentou na cadeira de frente pra mim me olhando, ergui a sombrancelha sem entender.

– Como assim? – perguntei.

– A Jennifer me contou sobre seus velhos amigos – ele começou – e parece que ela não anda muito satisfeita com eles.

Revirei os olhos incrédulo.

– Agora veio me dar sermão também? – forcei um sorriso irônico o olhando – O que ela te disse?

– Calma cara. – Josh riu – Eu não vim te julgar por ter amigos. Na verdade, nenhuma mulher gosta dos amigos do namorado, eu que diga. Só que...pega leve com ela. Tá?

Pegar leve era algo que ela nunca fizera comigo, então...

– Pode deixar – forcei um sorriso – vou pegar leve com ela.

Josh era um cara legal mas jamais me entenderia se eu relutasse quanto ao que magoasse Jennifer. Ele sorriu de volta, dando um tapa no meu ombro e em seguida saiu da minha sala.

[…]

Logo anoiteceu, e minha única vontade era de ir para o meu apartamento e o fiz. Cheguei rapidamente e tomei um banho.

Meu quarto era na verdade uma suíte. Ao sair de toalha do banheiro, me surpreendi com Jennifer. Ela estava sentada na minha cama, provavelmente esperando-me sair. A olhei parando na porta do banheiro.

– Oi, Charlie – a voz dela parecia extremamente desanimada, o que me fez estranhar apesar da nossa semana tensa – desculpe te assustar, é que já me acostumei tanto...

– Você está bem? – perguntei, olhando analítico.

Jennifer suspirou e sorriu:

– Vou para Chicago e depois para Ibisa, está confirmado.

Meu coração saltitou dentro do peito. Se estivesse sozinho, eu poderia dar pulos naquele momento.

– Mas...você não me parece tão animada – devolvi, a observando.

– Estou sim – ela se levantou da cama, indo em minha direção – é que...vou sentir saudades.

Sorri sem humor. De certa forma isso me fazia me sentir um insensível. Enquanto eu torcia pra ela ir para outro lugar, ela já sofria por ficar longe de mim.

– Você vai voltar logo, Jennifer, fica tranquila. – respondi e surpreendi-me ao vê-la me abraçar com rapidez. Fechei o abraço, alisando suas costas.

Ela desviou e me olhou, com um olhar dolorosamente triste.

– Desculpe. – disse de repente, sua voz estava esganiçada dessa vez – Desculpe por ser essa namorada chata que pega no seu pé, é que...eu te amo, Charlie. Só não quero te perder.

Jennifer me amava, e eu amava Sam. Automaticamente me senti um cafajeste.

– Te amo muito – continuou, me olhando nos olhos – e não quero te perder nunca. – ela acariciou meu rosto, selando nossos lábios e em seguida cessou.

Sorri como resposta.

– Mas...estou parecendo uma idiota porque vou viajar amanhã – por fim, ela disse, me olhando e rindo em seguida – já é amanhã, Charlie. Vou ficar um mês sem te ver.

Naquele momento fiquei assustado. De fato era muito rápido.

– Amanhã, mas já? – perguntei incrédulo e respirei fundo, pensativo – Mas...nossa.

– É. – ela respondeu um pouco pensativa – Ainda bem que amanhã você não trabalha, seria ótimo se me levasse ao aeroporto.

Balancei a cabeça confirmando. Na verdade fiquei um pouco assustado.

– Certo, é...vou para casa, tenho que arrumar umas coisas – ela respondeu pegando a bolsa na cama, desanimada – então até amanhã. Vai ser ás 17h.

– Certo – respondi, a levando até a porta e me despedindo.

Fechei a porta pensativo, não esperava algo tão rápido. Meu celular começou a tocar segundos depois, o peguei encima da mesa, era Patrick. Atendi.

– Ei, Patrick!

– Ei, Charlie! – ele devolveu no mesmo tom de voz, não tão animado assim. Pude ouvir um barulho no fundo da conversa, eram muitas vozes – Sua namorada ainda está querendo cortar nossa cabeça?

Ri sem humor.

– Nem tanto – respondi – e não quero me importar com isso.

– Bourbon. Gosta? – ele disse, de repente – Comprei algumas garrafas.

– Patrick, você está bêbado? – perguntei. A voz dele não me parecia tão animada mas acima de tudo ela me parecia levemente arrastada.

– Um pouco. – ele respondeu, gargalhando em seguida – Vem beber comigo. Você xinga sua namorada e eu xingo o meu ex namorado. Vai ser perfeito.

Não pude evitar rir naquele momento. Sinceramente nada seria melhor que jogar tudo para o alto e fazer algo para esquecer o que fosse. O Patrick me animava, e de certa forma ele precisava se animar com a minha presença também. Hesitei por alguns segundos.

– Em que bar você está? – perguntei.

– Ai não, esquece o bar, quero beber em outro lugar. – ele disse – Que tal meu apartamento?

Hesitei.

– Não sei se é uma boa idéia, Patrick – respondi, pensativo.

– Não vou te agarrar, gostosão – ele devolveu, rindo freneticamente e dando um gole na garrafa.

Eu ri junto.

– Não é isso, Patrick, amanhã vou levar a Jennifer ao aeroporto e se eu sair, vou perder o controle dos horários – respondi – mas...tudo bem, vamos pra lá.

Patrick me deu seu endereço e fui até seu apartamento. Se situava em Manhattan, 5th Avenue, e sim, Patrick morava em uma das avenidas mais famosas e caras de Manhattan, que por sua vez era o bairro mais famoso e caro de Nova York. Lembrei de quando ele disse ter uma banda “um pouco famosa” e tentei encarar aquilo como humildade da parte dele afinal.

O prédio era um dos mais bonitos da avenida, e com certeza tinha uma segurança com tamanha burocracia, pois pra entrar seria uma missão quase impossível se o próprio Patrick não tivesse que descer até a portaria pra permitir minha subida.

Após subirmos até seu apartamento, não tive como não me surpreender um pouco, seu apartamento era lindo e descomunal. A janela era quase a parede inteira da sala, com uma linda visão de Manhattan, e na parede ao lado tinha um armário lindo cheio de bebidas.

Após fechar a porta da sala, Patrick me olhou e gargalhou.

– Parece uma criança numa loja de doces – ele disse, andando até o lindo armário de bebidas que eu falara antes – ou um adolescente na mansão das coelhinhas da playboy.

– Fico com a segunda opção. – respondi virando-me pra ele – Manhattan, Patrick, sério? E aquele lance todo de banda iniciante?

– Tem razão, as coelhinhas da playboy tem mais a ver comigo – ele respondeu, puxando uma garrafa de whisky do armário e rindo – Dalmore, 18 anos! – ele ergueu a garrafa em minha direção.

– Manhattan, Patrick – insisti, erguendo uma sobrancelha.

– Vai encarar uma Dalmore ou não? – ele também insistiu, indo em direção ao som e ligando rapidamente.

Começou a tocar “I Believe In A Thing Called Love do The Darkness” e Patrick aumentou até o volume máximo começando a apontar para mim cantando freneticamente e gesticulando como se segurasse um microfone. Comecei a rir. Naquele momento desisti de perguntar o que fosse, Patrick estava bêbado porém animado, queria distraí-lo embora fosse ele que me distraísse.

Ele começou a dançar cantando empolgado e cantei junto. Foi libertador, já que estávamos precisando gritar de alguma maneira talvez.

[…]

Depois de terminar a música, Patrick se jogou no sofá rindo, me sentei ao seu lado rindo junto.

– Também gosto de The Darkness – falei, animado – e esse Whisky, ouvi dizer que é muito caro.

Patrick abriu a garrafa sem hesitar e deu um gole na mesma, erguendo-a pra mim.

– Espero que não se importe em me beijar – disse, rindo.

Peguei a garrafa dando um gole também e ri.

– Seu beijo custa caro e tem gosto de Whisky então por mim, tudo bem. – respondi, devolvendo a garrafa a ele – Além do mais já me beijou uma vez quando estava deprimido.

– Tenho que parar de beijar todo mundo toda vez que me deprimir – ele respondeu rindo em seguida, fazendo-me rir junto – ou parar de me deprimir e continuar beijando todo mundo.

De repente, cessamos pensativos. Ficamos alguns minutos daquele jeito. Era estranho já que Patrick era faladeiro e histérico na maioria das vezes, mas ele não estava bem, e eu, bem, eu nem sabia o que estava sentindo. Deveria estar feliz mas estava me sentindo estranho.

Quando me virei pra Patrick, ele estava me olhando, era como se fosse dizer algo, parecia pensativo assim como eu.

– Acho que nunca vou dar certo com ninguém. – ele disse, se virando e olhando para o nada com a garrafa na mão – Essas bixas de hoje são muito indecisas. Queria ser jovem nos anos sessenta, o Bowie seria a minha alma gêmea ou quem sabe o Mick Jagger.

Patrick conseguia somar humor para amenizar a dor dos seus momentos de angústia, enquanto eu não saberia o que fazer, ou simplesmente reclamaria. Naquele momento, não contive o impeto de rir desregradamente e Patrick me acompanhou. Quando nosso fôlego acabou e paramos de rir, a campainha tocou e nos olhamos confusos.

– Como alguém conseguiria ter acesso ao seu apartamento se eu quase desisti de tentar? – perguntei conçando a cabeça e Patrick gargalhou.

– Deve ser a Sam, ou quem sabe alguém da banda. – ele respondeu tranquilamente enquanto se deslocava do até a porta.

– Eles tem permissão para subirem sempre que quiserem – ele cochichou com humor e eu ri.

Tranquilo, Patrick abriu a porta da sala como se já imaginasse quem fosse do outro lado. Ao abrir a porta, um rosto novo apareceu. Um rapaz mais ou menos de sua idade, de cabelos negros e pele muito clara. Não pude ver o rosto de Patrick mas o ouvi bufar e me aproximei ficando ao seu lado.

– Então é você, Anthony. – ele disse, com a voz mais séria, revirando os olhos. Logo lembrei daquele nome. É claro, era o agora ex de Patrick. De repente me senti desconfortável no meio dos dois, como se eu tivesse que deixá-los conversar, hesitei sem graça. Patrick estalou os dedos como se lembrasse de algo – Ah, é mesmo, me esqueci de pedir ao porteiro para bloquear sua entrada no meu apartamento, já que não é mais bem vinda. O que veio fazer aqui?

Anthony pareceu ignorar o que Patrick dissera olhando diretamente para mim, sério e erguendo uma sobrancelha.

– Pelo visto já me substituiu. – ele retrucou entre os dentes, voltando o olhar sério para Patrick.

Patrick gargalhou e voltou a ficar sério encarando o rapaz:

– Eu não sou você, Anthony. Agora me diz o que veio fazer. Veio pegar seus trapos?

– Olha, eu não quero atrapalhar – respondi sem jeito, enquanto os dois se encaravam com um olhar fuzilante – vou sair e deixar que se entendam.

Antes que eu pudesse me mexer do lugar, Patrick se pronunciou.

– Não precisa sair, Charlie – ele respondeu, sem desviar o olhar de Anthony – ele só veio pegar a caixa de lixos dele.

Engoli seco. Não era uma boa hora pra estar ali, definitivamente.

Patrick se virou com agressão entrando para dentro de seu apartamento e pegando uma caixa grande no canto da sala. Ele a puxou com certa dificuldade e ajudei, a levando até a porta da sala onde Anthony estava. Cessamos com a caixa diante dele.

– Valeu, Charlie – Patrick respondeu, se virando para o ex com aquele olhar novamente.

– São minhas coisas – Anthony olhou para a caixa, lacrada.

– Não se preocupe, está tudo aí – respondeu Patrick, o olhando secamente – agora pode ir.

Anthony respirou fundo.

– Patrick, pode me ouvir por um minuto pelo menos? – Anthony insistiu quase implorando, olhando em seus olhos.

Patrick sustentou o olhar por alguns segundos e hesitou.

– Está bem – sua voz soava mais fraca– um minuto.

Anthony suspirou.

– Então, eu sei que é difícil de explicar – ele começou, dando um suspiro após o outro, todos bastante tensos – mas é que eu gostava do Jacob a muito tempo, nós não sabíamos como falar com você. Eu tinha planos de conversar com você sobre isso. Você é um garoto incrível, Patrick, mas quando conheci Jacob, algo em mim se acendeu. Além do mais, sempre soube que não era pra sempre. Você merece algo melhor, e não sei porque mas sempre soube que no final você teria uma escolha diferente, assim como eu tive com o Jacob.

Patrick suspirou olhando-o falar. Seus olhar não era dos mais animados.

– Me desculpe se não te falei nada, se te enganei – Anthony continuou com ar de súplica – mas é que, ás vezes nosso corpo não responde por nós mesmos, e eu não fui forte o suficiente embora minha mente insistisse em lembrar que você não merecia isso, e que não merece, mas...eu queria ao menos sua amizade.

Patrick olhou para o chão, desanimado.

– Já deu um minuto. Seu tempo acabou – Patrick olhou para o relógio no pulso, com a voz tentando ser seca mas mostrando-se fraca, em seguida se virou para dentro do apartamento e fechou a porta na cara de Anthony.

Patrick andou em direção ao sofá e se sentou, pegando a garrafa de whisky que ficara lá.

– Vamos voltar a beber.– ele disse, dessa vez desanimado, olhando para o nada e abraçando a garrafa – A garrafa está cheia ainda. A minha regra é parar de beber apenas quando ela esvaziar.

Me sentei ao lado dele, o olhando. Eu não sabia o que fazer nem o que dizer, mas tentei.

– Patrick, eu sinto muito. – murmurei – Talvez tivesse sido melhor eu ter ido para vocês conversarem melhor.

– Dizem que o whisky fica mais gostoso quando não estamos bem – ele riu sem humor, ainda olhando para o nada – porque sentimos um gosto amargo na boca e ele desce esquentando nossa garganta, é uma sensação libertadora. – ele se virou pra mim forçando um sorriso, contudo seus olhos estavam espelhados por lágrimas que estavam prestes a cair.

Não contive o impeto de abraçá-lo imediatamente. Não costumava fazer isso com frequência, porém ver pessoas que eu gostava sofrerem me causavam esse impulso.

Patrick apertou o abraço de forma violenta e senti seu corpo tremer, soluçando alto e copiosamente.

[…]

Ficamos abraçados por aproximadamente dez minutos até que Patrick cessasse finalmente seu choro. Me senti impotente por não conseguir fazer algo de fato útil e que mudasse aquele clima ruim, e que também estava me desanimando, dessa vez por um motivo pessoal.

Ver o Patrick passar por aquilo fez com que minha consciência me acusasse automaticamente, já eu que fiz com Jennifer o que Anthony fez com Patrick. Eu não queria ver Jennifer sofrer daquela maneira, mas eu também não podia me esquecer do que Josh disse outro dia, sobre Sam ser imprevisível. Aquilo me deixou extremamente hesitado.

Patrick voltou a dar goles em sua garrafa de whisky e eu acompanhei. Ficamos calados por alguns minutos, ele provavelmente pensando no que acontecera e eu pensando no que faria com relação a Jennifer.

– O que pretende fazer daqui pra frente? – perguntei quebrando o silêncio que começara a me incomodar. Como disse antes, Patrick não tinha o costume de ficar calado.

Ele revirou os olhos.

– Céus, está parecendo minha terapeuta – respondeu – e não, eu não sei o que vou fazer daqui pra frente, e nem quero planejar. Cansei de planejamentos na minha vida, cansei desse bando de gente maluca e esquizofrênica.

– Você tem mesmo uma terapeuta? – perguntei entre alguns risos, incrédulo.

– Sim, uma terapeuta mas louca que eu mas que me faz muito bem. – ele respondeu, dando outro gole na garrafa e a pondo no meu colo – Talvez a única que me compreenda de verdade e me anime mesmo com aquele olhar de mãe piedosa.

O olhei por alguns segundos e me lembrei de seis anos atrás e todos os momentos loucos em que saímos dançando e cantando pelos pulmões. Ele já tinha suas decepções amorosas com o Brad, parecia que sempre o perseguira.

[…]

Depois de algumas horas no apartamento do Patrick, fui embora para o meu apartamento, cheguei por volta das quatro e meia da manhã, logo o sol se apresentaria e lá estava eu, de frente para janela, pensando na noite frustrante que Patrick passara e eu presenciei. Logo Jennifer iria para Chicago e iria para Ibisa em seguida passando um mês distante. Talvez esse vácuo de tempo me daria oportunidade de pensar no que fazer. Eu não queria ser um típico cafajeste que namoraria Jennifer e teria Sam ás escondidas, isso não fazia muito meu estilo, até porque não tinha tempo para ter duas vidas completamente opostas.

[...]

Patrick's POV

Acordei assustado com aquela maldita claridade do sol invadindo meu campo de visão encima do sofá, minha garrafa de whisky vazia estava jogada no chão da sala.

Demorei alguns minutos para conseguir recobrar consciência total dos últimos fatos, meus olhos doíam. Me sentei no sofá com os olhos um pouco fechados, a claridade do sol não estava ajudando.

Eu sabia que não era cedo, e quando olhei para o relógio, pude ter certeza disso. Eram 14h30. Me levantei correndo. Tinha uma consulta ás 15h.

Não pude tomar banho, apenas escovar os dentes e correr para o carro. Fui para o consultório de Jane, onde estava sempre que disponível. Naquele dia mais do que nunca eu precisava dela.

O consultório se situava em um condomínio no centro, no quinto andar. Corri o máximo que pude até finalmente chegar no quinto andar, ofegante.

Andei pelo corredor e me surpreendi com a porta aberta. Jane nunca a deixava aberta.

Me aproximei devagar e ouvi vozes exaltadas. Ao chegar na porta, a vi discutir com um homem.

– Edward, vá embora daqui! – ela gritou apontando para a porta e me vendo, um pouco surpresa. Apenas olhei, um pouco sem jeito – Olha, o meu paciente chegou. Está bem?

– Acha mesmo que isso vai ficar assim? Até quando vai fugir de mim, da verdade? – ele gritou pelos pulmões como se eu não estivesse ali – Não me interessa, não vou desistir fácil assim, você está fora de si, está usando armas para me magoar mas não é assim que as coisas funcionam.

Jane revirou os olhos.

– Vá se ferrar, estou fugindo é de uma mentira – ela respondeu o encarando – e não estou fora de mim, sei exatamente o que estou fazendo, o louco é você, portanto sai do meu consultório agora.

Ela apontou em minha direção mais uma vez, para o tal sujeito sair, como se eu não estivesse ali.

– E se eu não sair? – ele disse entre os dentes, a encarando.

– E se eu chamar a polícia? – respondi por impulso, mas também por não aguentar mais ver eles discutirem como se eu não estivesse ali. Era estressante – Qual é, cara, não ouviu o que ela falou não? É melhor você ir embora.

O homem era mais velho que eu, e maior também. Por um momento me arrependi por ter reagido, droga, ele estava se aproximando de mim.

– E quem é você mesmo? – ele parou diante de mim, pude sentir sua respiração no meu rosto, eu preferia que fosse pra me beijar. Ok, parei.

– Edward, deixa ele! – ouvi a voz de Jane falar.

– Paciente, não é mesmo? – ele continuou enquanto me encarava – Ei...te conheço de algum lugar.

Com certeza não é de nenhuma boate gay. Engoli seco abrindo um sorriso nervoso.

– Bad Children, amigão. – respondi, impaciente – Agora é sério, tenho uma consulta marcada com ela e estou até atrasado. Seria bom deixá-la trabalhar.

Ele me encarou por alguns segundos, tive a impressão de que ele fosse reagir de forma agressiva a qualquer momento, apenas sustentei o olhar, então ele esbarrou em mim com tanta violência que achei que meu ombro deslocaria, pelo menos saiu corredor a fora indo embora.

Jane suspirou e foi até a mim.

– Ei, você está bem? – ela perguntou com um olhar preocupado – Desculpa, isso nunca aconteceu.

– Eu quem deveria perguntar se está tudo bem – respondi com a mão no ombro, estava doendo.

Ela fechou a porta do consultório calada, suspirando inúmeras vezes enquanto se sentava na poltrona. A segui e sentei no sofá de frente para ela.

– Quem era ele? – perguntei.

Ela suspirou desanimada e me olhou.

– Meu ex namorado. – ela respondeu e eu admito que fiquei impressionado, senti minha boca abrir e fechei imediatamente – Terminamos a um ano e ele ainda não entende, acha que gosto dele, ou pelo menos quer acreditar nessa loucura.

– Espera...ex namorado? – senti minha boca abrir de novo – Com todo respeito, não te imagino tendo um namorado. Não que você não tenha essa capacidade mas é que... – naquele momento me enrolei em tentar falar e fechei os olhos ao notar que falei besteira – Ai, droga, Jane! Me desculpa.

Jane riu como se ouvisse uma piada.

– Patrick, você é épico – ela respondeu e eu ri junto, como forma de alívio – mas...você está super certo. Foi por isso que terminei com ele, por não me imaginar namorando, ainda mais o Edward, que não tem absolutamente nada a ver comigo. Ele é filho de pais ricos, bonitão, bem definido, passa mais tempo na academia que em outros lugares, é nascido em Malibu, é saúde demais pra mim.

Eu ri enquanto a escutava.

– Não sou pra ele, nem sou aquelas garotas fúteis que parecem uma Barbie se bronzeando. – ela continuou, desanimada – Sou muito indie para um cara pop como aquele, e ele não entendia meu jeito, simplesmente queria me fazer ser como aquelas garotas.

Parei de rir a escutando e assentindo. Pela primeira vez estava me sentindo o terapeuta da minha própria terapeuta, que loucura!

– Não me encaixo no mundo dele – ela continuou, suspirando – e não nasci pra relacionamentos, todos os que arrumo são complicados, nunca duram muito.

Naquele momento fiquei surpreso, parecia eu mesmo falando.

– Fora que a solidão me anima muito mais. – ela sorriu de repente – Ao contrário do que se parece, isso não é sinal de depressão. Não quando você se sente bem sozinha mas continua ajudando pessoas a serem felizes e ser feliz com tudo isso. Eu simplesmente me sinto feliz com minhas garrafas de vinho e meus cigarros. As pessoas nunca entendem, nem nunca irão entender, imagina namorados, esses sim vão brigar com você por escolher dançar Doors nua na sala enquanto bebe que sair com eles para uma boate.

– Incrível – deixei escapar de boca aberta. Eu estava chocado por conhecer Jane a tanto tempo e não saber metade de sua genialidade.

– Desculpe? – ela perguntou erguendo uma sobrancelha e só então notei o que fiz, fechando a boca novamente.

– Incrível a sua mente. – respondi, a olhando – Isso é tão...Morrissey.

Jane gargalhou freneticamente.

– Talvez porque fazemos aniversario juntos. – ela respondeu, suspirando em seguida – Olha, me desculpe te alugar desse jeito, isso foi muito estúpido da minha parte, era pra você estar falando e não eu.

– Pára de dizer asneiras. – respondi revirando os olhos – Pela primeira vez o papo está ficando mais divertido. Não estou só falando de mim e da minha vida de merda. Ás vezes estressa falar de homens lindos que tentaram me iludir, é bom saber que você também foi iludida, assim a tristeza vai embora.

Jane cruzou os braços, fingindo estar brava comigo e jogou uma almofada que estava ao lado da poltrona em minha direção fazendo-me rir.

– Para sua informação – ela respondeu – fui eu quem terminei com o Edward, porque além de não me encaixar no mundo dele, ele era muito ciumento e brigão, também criticava algumas coisas que eu fazia, coisas que eu gostava...eu queria liberdade, queria estar comigo mesma, queria pensar na vida, ouvir aquela música boa no volume máximo, gritar, dançar, pular, beber...mas não com ele.

Ao ouvir aquilo me lembrei do Anthony, logo desanimei.

– Anthony me procurou ontem a noite – respondi de repente, olhando para o chão.

Jane me olhou assustada.

– E então? – ela disse, visivelmente curiosa.

Levantei a cabeça.

– E então que peguei as tralhas dele e mandei ele sair. – respondi, suspirando – Mas antes ele disse umas coisas...

Jane me olhava esperando terminar.

– Disse que gosta do outro cara a um tempo – continuei – e que pretendia conversar comigo a respeito. Disse que gosta dele e que quer ser meu amigo – suspirei – por fim, disse que já sabia que não seria pra sempre. Legal, né?

Jane fez aquele olhar piedoso que me deixava um pouco nervoso.

– Eu sinto muito – ela disse – mesmo.

– Pois não sinta. – respondi revirando os olhos – Não quero chorar de novo. Ok?

Ela assentiu e sorriu sem humor.

– Pretende ser amigo dele? – perguntou.

Suspirei hesitado.

– É cedo pra responder. – respondi – E não quero falar sobre isso agora.

– Mas é sua consulta, Patrick, precisa falar de você – insistiu.

Eu ri em seguida.

– E quem disse que não vou falar? – respondi me animando – Como sei que gosta de fofocas, tenho umas novidades.

– Eu? Hoje você tirou o dia para me provocar – ela respondeu ameaçando me jogar outra almofada e esquivei-me rindo e ela riu junto – mas fala, quais as novidades?

Contei a Jane sobre o incidente ao ver Charlie com Sam no apartamento. Ela sabia toda a história de seis anos atrás e não me contive, mesmo que fosse algo tão pessoal, ela era minha terapeuta. Ok, não era desculpa, mas eu precisava falar aquilo com alguém e Jane se encaixava no perfil do clube da Luluzinha. Cada dia eu achava Jane mais engraçada e maluca, e isso era épico.

Charlie's POV

O relógio no meu pulso exibia 16h30, eu estava no banco do aeroporto esperando Jennifer que chegou segundos depois e me abraçou, então correspondi.

– Você está bem? Está cheio de olheiras – ela respondeu, olhando os traços do meu rosto.

– Estou? – ergui a sobrancelha olhando meu rosto através do vidro da porta automática – Deve ser porque não tenho dormido ultimamente.

Jennifer revirou os olhos.

– Não anda dormindo porque sai pra beber com esse Patrick – ela retrucou – e agora que vou viajar, vai até dormir na casa dele com mais freqüência.

Suspirei impaciente.

– Vamos mesmo falar sobre isso aqui? – perguntei – Porque sinceramente não quero discutir com você na hora de viajar.

Ela me olhou nos olhos desanimando.

– Tem razão, desculpe. – respondeu – Só queria ter essa diversão com você também.

– Quando voltar, teremos – respondi a olhando, no fundo eu estava inseguro em prometer aquilo, Sam passava na minha mente toda vez que olhava para Jennifer.

Jennifer sorriu e me beijou por longos segundos e cessou, olhando nos meus olhos.

– Nem acredito que vou ficar um mês sem te ver – ela levou uma mão ao meu rosto – espero que passe logo porque não vou aguentar.

Conversamos por alguns minutos, Jennifer não estava tão animada com a viajem e fiquei incomodado com o fato dela sentir saudades de mim. Eu estava dividido mesmo parecendo óbvio o que eu queria porque Jennifer gostava mesmo de mim, se importava comigo, enquanto Sam era incerta, eu sequer sabia o que passava na mente dela.

Acompanhei Jennifer até a hora do embarque. Foi frustrante mas seria bom para me resolver.

[...]

Notas finais
Espero que tenham gostado do capítulo e sorry pela Sam não ter aparecido, no próximo ela vai aparecer bastante. :3 Obs: A música que aparece na parte em que Patrick canta na sala dele é épica, achei a cara do Patrick. Pra quem não conhece, vale dar uma olhada: https://www.youtube.com/watch?v=sRYNYb30nxU Kiss :3