Se descobrindo lentamente
7 Love or confusion
Notas iniciais
“Is that the stars in the sky or is it the raining fallin' down?
Will it burn me if I touch the sun
so bit, so round?
Will I be truthful, yeah
in choosing you as the one for me?
Is this love baby
or is it-a just confusion?”
– Love or confusion – Jimi Hendrix
Aquele domingo foi o mais estranho que já tive. Levei Jennifer até o aeroporto e ela embarcou. Me senti um idiota por não ter coragem de falar com ela antes que embarcasse, falar toda a verdade, terminar de uma vez e assim não fazê-la sofrer por estar distante de mim, afinal ela estaria livre para seguir sua vida e trabalhar sem se prender a mim, mas algo em mim falhou, me lembrei de incertezas que me fizeram hesitar. Minha mente se dividia em duas opiniões diferentes, ou talvez até mais de duas.
Resolvi ligar para Sam. Era por volta das 18h, o céu estava abóbora, e a qualquer momento o sol iria se por. Eu estava em meu carro estacionado em algum canto próximo ao aeroporto.
Estava confuso, frustrado, com saudades de Sam, me sentindo estranho. Talvez precisasse de um conselho, algo que me abrisse a mente, me fizesse resolver a confusão em minha cabeça.
– Charlie! – a voz de Sam soou contra meus ouvidos, aquilo foi suficiente para me deixar arrepiado. – Senti sua falta.
– Sam. – respondi, suspirando e sorrindo sem humor – Também senti a sua. É...como você está?
– Bem, Charlie e você? – ela respondeu tranquilamente.
– Vou bem...é, eu estava pensando se puderíamos dar uma volta agora de noite. – comecei, mordendo o lábio inferior por medo de alguma negação da parte dela – Podemos chamar o Patrick se quiser, vai ser divertido sair um pouco.
– Claro, será ótimo! – Sam respondeu e sua voz parecia se animar, o que me fez ficar mais aliviado e sorrir imediatamente – A Mary Elizabeth está fazendo uma festa em sua casa de, será interessante se você for comigo.
– Mary Elizabeth, Mary Elizabeth? – perguntei incrédulo e tenso. Eu só conhecia uma Mary Elizabeth mas queria confirmar afinal.
Sam gargalhou tranquilamente.
– Sim, Charlie, a Mary Elizabeth.– ela disse, entre o riso – Ela perguntou por você essa semana e está curiosa para saber como está sua vida. Vai ser bom se for vê-la, o Patrick já deve estar lá. O namorado dela é um cara incrível, vai gostar dele.
Respirei fundo.
– Será que não vai ter algum problema nisso? – perguntei hesitando.
– Claro que não! Por que teria? – ela respondeu animada – Vai ser incrivel, vamos.
Não sei, Sam, talvez porque ela seja minha ex e a magoei muito na adolescência.
[…]
Já era por volta das 21h, eu estava no carro com Sam dirigindo até a casa de Mary Elizabeth. Estava frio, mesmo com as janelas do carro fechadas e o aquecedor ligado.
– Está mesmo muito frio. – Sam esfregou as mãos com tamanha velocidade mas não pareceu adiantar – Eu devia ter trago luvas.
– Talvez Mary Elizabeth tenha. – respondi enquanto dirigia – Ela te empresta.
– Claro! – ela sorriu e suspirou, pensando por alguns segundos. Pude imaginar que ela perguntaria algo em seguida, e não estava errado – A Jennifer viajou...como está se sentindo?
Suspirei pensando no que dizer, cheguei a conclusão imediata de que não queria mentir.
– Estou aliviado. – respondi, suspirando enquanto não desviava da direção – Sei que eu não deveria, mas...acredite, não é fácil.
Sam ficou me olhando por alguns segundos, não pude captar sua expressão pois não queria desviar da estrada, porém estava me incomodando.
– Então por que ainda está com ela, Charlie? – a voz dela soara mais séria dessa vez – Sério, se não se sente bem com sua presença é porque não gosta dela.
– Não faz idéia de como está minha cabeça, Sam. – respondi também sério – Não está sendo fácil pensar sobre isso. Eu quero acabar com essa agonia, acredite.
– Por que não conversou com ela antes da viajem? – ela devolveu – Charlie, não pode enganá-la se não se sente bem. Não estou sendo egoísta só porque dormimos juntos, estou te dizendo algo que você mesmo disse que te incomoda. Vai ser bom pra ela também.
Eu não saberia responder aquela pergunta sem magoá-la, ainda estava inseguro por ela ter ficado seis anos distante. Eu queria ter certeza que ela gostava mesmo de mim. Preferia tirar essa prova de forma indireta.
– Vou resolver isso quando ela voltar de viajem – respondi – não queria que ela fosse trabalhar frustrada. E o tempo era curto para conversar sobre esse assunto.
Sam suspirou e ficou calada por alguns segundos.
– Quer ter certeza quanto a mim primeiro – ela afirmou com a voz desanimada – por isso não quis terminar com ela tão rápido.
Confesso que me surpreendi por ela responder aquilo, parecia me conhecer mais que eu mesmo. Não consegui responder, apenas desviei da direção por alguns segundos e a olhei. Sam não me encarou, um pouco frustrada.
– Não pode fazer isso, Charlie. – ela continuou – Se não gosta dela, liberte-a, não importa se estou aqui ou não.
– Ela me ama, Sam – respondi de repente – e não imagina como vou machucá-la.
– Vai machucá-la ainda mais se estender os dias – ela rebateu olhando-me de volta enquanto meu olhar se fixava na direção novamente – ela vai se iludir cada vez mais.
Suspirei.
– Eu sei.– respondi pensativo.
Alguns minutos depois, chegávamos na casa de Mary Elizabeth. Por fora estava tudo tranquilo, a casa parecia estar vazia e silenciosa. Patrick abriu a porta para Sam e eu entrarmos. De fato ele havia chegado bem antes de nós.
O que por fora parecia uma casa tranquila, por dentro era uma casa grande com música e bastante gente conversando e bebendo. Aquilo me lembrou as festas secretas que dávamos a seis anos atrás, parecia que nada havia mudado para eles quanto a isso, apenas para mim.Senti uma sensação de retrosceptiva, era até boa.
Vi muitos rostos desconhecidos mas também revi muitas pessoas daquela época. Tudo parecia da mesma forma, a única coisa que mudava provavelmente era aparência mais adulta de alguns.
Patrick e Sam estavam histéricos ao ponto de cada um me puxar por um braço arrastando-me pela casa para apresentar-me aos novos amigos e também me fazer rever os que já conhecia.
Tocava The Smiths no volume médio, de forma que daria para conversar ou ouvir as conversas.
De repente, Patrick soltou minha mão histérico, deixando-me com Sam no meio das pessoas, e alguns minutos depois voltou puxando Mary Elizabeth pelas mãos, animado.
– Tcharam! – Patrick soltou as mãos da amiga e apontou para ela como se ela fosse a atração principal da festa e olhei com Sam – Charlie, aqui está Mary Elizabeth e...bem, Mary Elizabeth, aqui está o Charlie.
Mary Elizabeth me olhou dos pés a cabeça surpresa e sorridente.
– Caramba, Charlie – ela disse – você não mudou nada.
Patrick revirou os olhos.
– Eu disse isso a ele. – ele sussurrou, com humor.
Ri junto com Sam.
– Mas está com um ar mais adulto, sabe. – ela continuava, analítica e sorridente – Mas fico feliz que tenha vindo. Vai ser legal ter uma noite como as de antigamente. Seja bem-vindo novamente!
– Não notou algo diferente? – Patrick perguntou, erguendo as duas sombrancelhas.
Então olhei para Mary Elizabeth novamente, Sam ria enquanto parecia saber o que era.
Sim, tinha muita coisa diferente em Mary Elizabeth, começando pelo cabelo que estava grande e ruivo, ela estava mais bonita e com um estilo mais delicando, usava um vestido vermelho de bolinhas brancas e...sua barriga estava grande. De repente meus olhos pararam na barriga dela e voltaram para seu rosto.
– É isso aí, Charlie, estou grávida. – ela confirmou mesmo que eu precisasse dizer algo. Creio que minha reação já traduziu tudo.
– Sério? Nossa mas...que bom! – eu disse, um pouco surpreso, abraçando-a em seguida – Parabéns.
Pelo visto muitas coisas mudaram, e isso me assustou um pouco. Rever pessoas que não via a alguns anos e notar as mudanças em suas vidas era uma forma de despertar e notar que as coisas mudaram mesmo, e os anos se passaram.
Aquela noite foi muito divertida, o namorado de Mary Elizabeth era um cara muito legal, como Sam havia me dito, seu nome era Jerry. Todos nós bebemos bastante.
No final da noite, a maioria dos convidados tinham ido embora e a quantidade pequena foi para a sala, que por sua vez era descomunal e tinha uma lareira acesa, o que deixou Sam mais aliviada do frio que sentira.
E lá estávamos nós. Sam, Patrick, Mary Elizabeth, Jerry e eu. Ironicamente os que mais eram próximos á seis anos atrás, tirando alguns deles que provavelmente seguiram suas vidas em outros rumos. Apenas Jerry era novo, o namorado de Mary Elizabeth.
Estávamos sentados no chão, próximos a lareira, ouvindo as músicas tocarem quanto bebíamos algumas misturas.
– Senti saudades disso aqui. – Sam suspirou desanimada – Fazia tanto tempo que não ficávamos juntos dessa forma, achei que nunca mais o faríamos novamente.
– Não fazemos porque vocês nunca vem – Mary Elizabeth disse simplesmente – mas sempre dou festas aqui e nada mudou, apenas vocês que se afastaram.
Sam forçou um sorriso no rosto desanimado.
– Tem razão – ela respondeu – você tem toda razão, Mary Elizabeth, as coisas não são mais as mesmas porque nós permitimos isso. Eu não quero que isso aconteça de novo.
Patrick olhou desanimado e provavelmente tão pensativo quanto eu.
– Ótimo! – Mary Elizabeth abriu um sorriso empolgado – Vamos nos ver sempre agora.
Sam abriu um sorriso sem humor, moldei um sorriso no rosto como resposta. Os olhos de Mary Elizabeth correram entre nós e cessaram em Patrick.
– E você? – disse cruzando os braços – Que diabos fizeram contigo pra ficar tão calado? Cadê as piadas? Não estou te reconhecendo, Patrick.
Ela engatinhou no tapete em direção ao amigo e se sentou encostando no ombro dele.
– E então, vai nos falar ou vou ter que fazer cócegas? – ela finalizou, com um sorrisinho.
Patrick riu e cruzou os braços.
– Estou me recuperando de uma bixa cafageste que não segurou o...que não se segurou. – ele disse, com ar de desdém em relação a Anthony – Mas pouco importa se tenho vocês, não é mesmo?
Sam fez um olhar visivelmente emocionado com a declaração do meio irmão.
Patrick suspirou fazendo um bico, com ar de autopiedade, olhando para Mary Elizabeth feito uma criança carente, tudo de uma forma humorada, claro, mas sem deixar o ar realista cessar.
– Olhem pra isso, não podemos deixar nosso Patrick nesse estado – ela disse falsamente indignada, em ar de humor também – temos que dar um abraço coletivo agora, e daqueles de urso.
– Claro que temos, olhem pra essa carinha! – disse Sam, também finjindo piedade com uma voz chorosa, entrando na brincadeira, fazendo-me rir com Jerry.
– Você também, Jerry, agora! – Mary Elizabeth exigiu rigidamente, porém brincando e o namorado asentiu sem problemas.
Todos nos aproximamos de Patrick, rindo.
– No três, tá legal? – disse Sam, olhando para todos – É um, dois...três!
Todos nós partimos para cima de Patrick e demos um abraço apertado, demorado e também desajeitado, pois logo em seguida, Patrick caiu para trás e fomos todos juntos encima dele, rindo sem cessar.
Depois de rirmos por longos minutos e nos sentarmos novamente, Patrick suspirou.
– Só vocês mesmo, minhas divas – disse, com ar levemente desanimado – e isso vale para você também, Jerry. Aprenda que todos os meus amigos são minhas divas.
Patrick asentiu segurando o riso e Mary Elizabeth sorriu.
– Cuidado pra ele não te beijar também, amor. – disse Mary Elizabeth rindo – Ele abusa de todos os amigos. Não é mesmo, Charlie?
Ergui a sombrancelha sem resposta.
– Eu estava deprimido, ok? Deprimido! – Patrick protestou finjindo indignação – Além do mais eu já te beijei também, Mary Elizabeth!
Todos riram.
– Estávamos brincando de verdade ou consequência, Patrick – ela revirou os olhos – mas como você é meu amigo e beija bem, vou deixar passar.
– Seu namorado vai nos chamar de malucos, Mary Lizie. – Sam disse, gargalhando em seguida.
– Relaxem, sou adepto a essas loucuras também. – ele respondeu pela namorada, rindo – Lizie me fala muito de vocês, e já vi que são tudo que ela disse, pessoas divertidas e exóticas.
– Exóticas! – exclamou Patrick, não contendo a gargalhada histérica como se ouvisse uma piada das boas, foi suficiente para todos rirmos juntos – Ótima observação, Jerry, muito boa!
– Quando irá trazer a sua terapeuta? – perguntou Mary Elizabeth, com ar de cobrança – Pelo que sei, é legal e exótica também.
Mary Elizabeth deu um êfase de humor a palavra exótica dessa vez, Patrick olhou suspreso.
– Como sabe da Jane se não te falei dela? – ele ergueu uma sombrancelha e em seguida fez uma expressão como se forçasse a mente para lembrar – Ou será que falei mas estava muito bêbado?
Mary Elizabeth revirou os olhos.
– Claro que não, quem disse foi a Sam. – respondeu.
Patrick se virou para Sam com uma expressão que parecia dizer “WTF” e Sam riu.
– Apenas comentei sobre ela, Patrick, nada demais. – Sam disse tranquilamente – Além do mais, se ela é tão legal assim deveriamos conhecer, novos amigos sempre é ótimo.
– Certo, certo! – Patrick cruzou os braços finjindo estar pensativo – Deixa eu imaginar vocês conversando com ela... “Jane, o Patrick já fez alguém de refém?; Jane, pode falar, o Patrick é esquizofrênico não é? Eu sabia!; Jane, o Patrick já deu crise de bixa mal amada no seu consultório?”
Todos riram.
– Patrick, relaxa, nós já sabemos que você é louco, não precisamos perguntar a Jane. – Mary Elizabeth disse como se aquilo fosse ridiculamente óbvio.
Todos riram.
[…]
Aquele momento só nosso foi o melhor de toda a noite. Conversamos bastante, relembramos alguns fatos passados, rimos das piadas do Patrick e bebemos sem moderação. Contudo, olhei para o relógio tomando ciência do horário. Já eram 2h30. Voltando a realidade, já era segunda-feira e eu teria faculdade daqui a pouco e em seguida trabalharia.
Depois de algumas insitencias para que eu ficasse, consegui sair da casa de Mary Elizabeth, e Sam aproveitou a carona em meu carro.
A madrugada era extremamente fria, porém dessa vez Sam estava mais agasalhada. Ficamos calados por alguns minutos enquanto eu dirigia. Estava bêbado por isso precisava prestar atenção melhor na direção.
Ouvi Sam suspirar.
– Desculpe por mais cedo – ela começou enquanto eu não desviava da direção – mas é que...isso tudo me preocupa, Charlie. Me preocupo com você, com nossa vida, com a sua namorada...não quero mais problemas.
Também suspirei.
– Eu também estou preocupado, Sam. – comecei, sem desviar o olhar para ela – Desculpe, eu só não quero que suma novamente. Eu não aguentaria.
De repente, senti sua mão tocar meu braço. Desviei meu olhar para ela e nossos olhos se conectaram, ela estava sorrindo daquele jeito novamente.
– Eu nunca mais vou me afastar de você, Charlie.
Meu coração acelerou. Não pude conter o impulso de sorrir de volta, voltando-me para a direção.
Aquilo realmente me animou de forma devastadora. Não pude deixar de pensar que estava cada vez mais próximo da minha decisão. Eu amava Sam, e aquela noite me fez pensar que o tempo não fez mudar nada entre todos nós, especialmente entre Sam e eu.
[…]
Patrick's POV
Essa história de dirigir bêbado de madrugada por aí já estava começando a fazer parte da minha vida afinal. Eram por volta das 3h20 e lá estava eu, dirigindo ao som de Modern Love do David Bowie, cantarolando junto com a música de forma bêbada e arrastada.
Eu estava animado, havia passado uma noite perfeita com meus amigos, depois de tanto tempo.
Não sei porque mas minha animação era tanta ao ponto de querer compartilhá-la com a Jane. Ela era minha terapeuta, mas não era como as outras.
Não era como aquelas mulheres sérias que ajeitavam o óculos enquanto te olhavam falar. Argh! Ainda bem.
Ela era engraçada, maluca, desajeitada, tão problemática quanto eu, e até mesmo antissocial. Quem consegue uma terapeuta com ar de adolescente rebelde que dança The Doors nua pela casa?
Não sei quem era mais louco, se era eu ou se era ela. Vai saber.
Cheguei no prédio onde Jane morava, isso já eram quase 4h. Apesar do horário, as ruas de Nova York estavam até movimentadas, haviam muitos bares próximos, o que me fez quase desistir de ir até o apartamento de Jane para ir beber mais, porém me lembrei que ela tinha uma fonte de bebidas muito mais atrativa.
Liguei para o celular de Jane, ela demorou um pouco para atender.
– Patrick? – perguntou, com a voz fraca e sonolenta.
– Quanta conexão! Sabe até que sou eu. – falei, gargalhando freneticamente.
– Na verdade seu número está gravado com seu nome no meu celular – ela respondeu, com a voz fraca – e também não haveria outra pessoa que me ligaria a essa hora.
Cessei o riso, ainda empolgado.
– Te acordei, não foi? – perguntei, com a voz um pouco histérica – Desculpe, Jane.
Ela riu.
– Tudo bem, já estou me acostumando com suas surpresas – ela devolveu, com a voz gentil – Mas deixa eu adivinhar, está aí na portaria. Certo?
Ri como resposta e anexei:
– Você é boa nisso, Jane. Meus parabéns!
– Certo. – ela disse, rindo.
Alguns minutos depois, eu estava batendo na porta do apartamento de Jane e ela me atendeu muito precisamente. A encarei com um sorriso frenético e a abraçei forte, rindo. Ela pareceu um pouco assustada, pois a senti irrijecer sem nenhuma outra reação.
Entramos e ela fechou a porta da sala encarando-me surpresa.
– Nossa, mas o que aconteceu de tão bom pra ficar animado – ela olhou-me de cima a baixo e acrescentou – e bêbado assim?
– Nos reunimos na casa de Mary Elizabeth, o Charlie e a Sam foram – comecei animado, falando rápido e respirando ofegante entre as palavras – foi bom, muito bom, me chamaram de louco, bebemos muito, ouvimos The Smiths, falaram de você, foi bom, e...
– Espera, espera! – ela me interrompeu de repente – Falaram de mim...como assim falaram de mim?
De repente recaptulei o que havia falado.
– Ah sim! – coçei a cabeça – É que vivo falando de você para a Sam, e ela falou de você para a Mary Elizabeth que falou de você para o pessoal, mas todos falaramos bem. Aliás, querem te conhecer, na verdade.
– Você fala de mim para Sam? – ela se sentou surpresa – Nossa, essa...eu não esperava.
Me sentei ao lado dela, quase tomando um tombo por conta da tonteira, porém Jane segurou meu braço.
– Opa, opa! – ela disse ao ver-me conseguir sentar com sucesso – Não pode sair bêbado assim, Patrick. Vai dormir aqui.
– E quem disse que vamos dormir? – devolvi, animado – Vamos beber até o sol sair.
Jane riu surpresa.
– Patrick, seu louco! – ela me encarou com um olhar exatamente como a frase – Não aguenta nem se sentar no sofá e quer ainda mais bebidas?
– Quero comemorar, Jane. – respondi esticando-me no sofá como se fosse meu – Não é todo dia que consigo romper minha noite com um sorriso no rosto. Todo dia é uma surpresa diferente no meu Kinder Ovo, e assim como ele, a surpresa é decepcionante.
Jane me olhou por alguns segundos, um pouco séria.
– Tem razão. – ela devolveu, abrindo um sorriso – Vamos beber então.
Ela se levantou do sofá pegando uma garrafa de Martini. Só não pulei de alegria porque estava muito bêbado para isso.
Então ela trouxe dois copos e a garrafa. A lancei um olhar indignado.
– Pinguços de verdade não bebem em copinhos – protestei com um bico – bebem na garrafa.
Jane revirou os olhos balançando a cabeça.
– Certo, Patrick, certo! – ela respondeu – vamos beber na garrafa então.
Comemorei e ela riu.
Charlie's POV
Cheguei no prédio onde Sam morava, estávamos sonolentos e esgotados, bebemos muito. Estacionei e Sam me olhou sorrindo.
– Charlie, acho melhor ficar e dormir um pouco. – disse – Está muito tonto e só conseguimos chegar até aqui porque o instruí para que não cochilasse. Se sair sozinho no volante, vai acabar sofrendo um acidente.
– Obrigado, Sam – respondi – mas eu não posso. Tenho faculdade daqui a pouco e hoje trabalho.
Sam me olhou assustada.
– Charlie, se faltar sua faculdade por um dia, não irá morrer. – ela devolveu – Você está sem condições para sair assim. Se for para a faculdade, vai dormir no meio da aula.
Hesitei. Ela tinha toda a razão, não faria diferença eu ir bêbado para a faculdade ou ficar e dormir um pouco. Eu estava muito tonto, provavelmente não teria condições de estudar assim.
– Tem razão – suspirei – preciso dormir ao menos por uma hora.
– Ótimo! – ela abriu a porta do carro – Então vamos para meu apartamento, você dorme um pouco e depois te preparo um café forte para se recuperar.
Sorri como resposta. Assim saímos do carro e fomos rumo ao seu apartamento.
[…]
Patrick' POV
Já eram 5h15, a garrafa de Martini estava praticamente vazia. Não sabia que era possível, mas eu consegui ficar ainda mais bêbado do que já estava. Consegui ficar tonto sem me levantar do sofá. Aquela sensação era muito louca, eu estava realmente muito louco.
O céu estava levemente claro. Jane observou a claridade vindo da janela pelo sofá e se virou para mim.
– Certo, rapazinho – ela começou – disse que beberíamos até o sol nascer. Eis que está o sol. Graças a você começo um dia bêbada.
– Ah, deixe de frescura! – devolvi, finjindo irritação – Eu bebi a garrafa de Martini quase toda sozinho. Tá?
– É, tem razão – ela concordou, rindo – me surpreendeu, admito.
Gargalhei e suspirei em seguida.
– Voltaremos a nos reunir, Jane – comecei a falar, olhando para o teto com a cabeça encostada no sofá – todos nós. Seremos infinitos novamente.
Jane ficou me olhando, com um sorriso.
– Eu estava perdido, não quero me perder novamente – continuei – e que se dane os problemas do passado. Quero beber e ser feliz. Eu só tenho uma vida, tenho que aproveitar.
Levantei minha cabeça do sofá e a olhei, estava tão próxima de mim que me assustei um pouco. Estava tão doidão que não havia me dado conta da nossa proximidade no sofá.
– Fico feliz, Patrick. – ela respondeu, com um sorriso suave no rosto. Sua voz soara sincera naquele silêncio da manhã. Era uma voz bonita e frágil.
Sorri como resposta. Não sabia que piada criativa jogar naquele momento, não estava conseguindo raciocinar direito, talvez por causa da bebida, ou porque era um burro mesmo.
De repente senti sua mão segurar a minha, causando um choque estranhamente alucinante. Estava frio e sua mão estava gelada, talvez por isso senti meu corpo se arrepiar por inteiro.
– Cara, que mão gelada! – fiz uma careta, e ela riu.
– Desculpe. – ela devolveu gentilmente – É que me anima te ver assim. Você merece ser feliz, Patrick. Já estou cansada de te ver mal por aí. Sei que não deveria, sou sua terapeuta e teóricamente preciso da sua tristeza pra ganhar dinheiro, mas...quer saber? Que se dane! Me preocupo com você.
Ouvir aquilo foi tão...merda, não tem palavra que descreva. Me lembro ouvir esse tipo de coisa apenas de duas pessoas: Sam e minha mãe.
Sorri.
– Quer saber? Vai comigo na próxima festa de doidos que acontecer – comecei, histericamente, envolvendo meus braços em seu pescoço – e vai conhecer todos os doidos da minha vida, incluindo minha irmã e o Charlie. Vai gostar muito deles, vai se identificar e beber muito também.
Ela riu desregradamente como resposta.
– Isso foi um sim? – perguntei erguendo uma sombrancelha.
Ela balançou a cabeça indicando como um sim.
Nos encaramos estranhamente, seu rosto estava tão próximo ao meu que pude sentir sua respiração aquecer meu rosto. Oh, sim, estava muito frio!
– Ótimo! – respondi, mas minhas cordas vocais não me obedeceram muito bem, a voz saiu falha.
Sabe quando você faz algo por impulso, tipo seu olhar seguir uma bunda bonitinha que passa na sua frente? Foi assim que me senti naquele momento. Não sei que diabos deu em mim, mas minhas mãos, que já estavam presas na nuca de Jane a puxou até a mim e selei nossos lábios rapidamente.
O vácuo tomou conta da minha mente por alguns segundos e me fez apenas agir com o corpo, então não notei a loucura que estava fazendo.
Não tive paciência para detalhes, apenas invadi sua boca explorando-a com minha língua, enquanto ela cedia segurando meu braço.
Mas...espera? O que eu estava fazendo?
Minha mente despertou mas a desobedeci estranhamente.
Senti meu corpo esquentar em questão de segundos, como se uma lareira como a da casa de Mary Elizabeth tivesse acesa ao meu lado.
A boca de Jane não tinha apenas gosto de Martini, ela beijava bem, muito bem. Ter ciência desse detalhe despertou ainda mais os sinais vitais do meu corpo e acelerei aquele beijo sem conseguir respirar muito bem. Vai entender porque mas aquele leve desconforto de não respirar muito bem entre o beijo, bem, aquilo era muito bom.
Senti a mão de Jane passear pelas minhas costas. Mesmo que fosse por cima da jaqueta, mas caramba, aquilo me arrepiara ainda mais.
A apertei contra meu corpo beijando de forma desconsertante e confusa.
Em seguida, cessamos o beijo respirando ofegantes, porém com o rosto tão próximos que nossas testas se tocavam e nossas respirações se fundiam.
Aquela foi minha deixa para despertar e desviar de Jane assustado comigo mesmo.
Nos encaramos assustados.
Mas que diabos foi aquilo, resolvi dar crise de hétero agora?!
– Desculpe, estou tão bêbado que errei a mira, era para eu beijar seu rosto. – falei, e para minha sorte, Jane gargalhou – Prometo não me aproximar quando estiver tão bêbado, por alguns momentos te confundi com o Johnny Depp.
Jane continuou rindo e assim suspirei aliviando-me internamente.
Seja lá o que tenha me feito fazer aquilo, preferia que ela não notasse isso e sim encarasse como uma loucura de gente bêbada. Vindo de mim não ía ser difícil convencer.
– Seu louco! – ela exclamou, batendo no meu ombro – Você me assustou. Sabia?
Eu me assustei, Jane, acredite!
– Esqueceu que sou um Kinder Ovo? – devolvi, tentando me levantar do sofá – Agora preciso ir.
Seja lá o que tenha acontecido, eu não queria ficar mais tempo ali. Não dava pra confiar nem em mim bêbado.
Jane se levantou segurando meu braço.
– Negativo. – me lançou um olhar sério – Vai dormir no quarto de hóspedes e quando passar o efeito da bebida você vai.
Me encolhi finjindo medo.
– Qual é, tia Jane! – bati o pé, sem muita firmeza. Mas onde estava aquela força que senti me dominar quando a beijei? Será que era um encosto? Oh.
Ela revirou os olhos reprovando.
– Você vai pra cama, Patrick. – ela insistiu e fiz bico – Agora!
– Está bem. – respondi, finjindo tristeza. No fundo eu estava encomodado, isso sim.
Jane segurou o riso enquanto me acompanhava até o quarto de hóspedes.
– Só não quero que bata com o carro, ou seja pego por dirigir embriagado. – ela me respondeu, com uma voz mais calma e preocupada. Em seguinda sorriu – Mas...foi bom saber que está mais feliz com seus amigos. Vai superar tudo isso e poderá contar comigo a todo o tempo.
A olhei por alguns segundos até chegarmos na cama.
– É toda sua – ela apontou para a cama, que estava cuidadosamente arrumada, com um sorriso gentil – e qualquer coisa, estarei na sala.
Me joguei na cama sem hesitar. Estava incomodado com o que aconteceu, mas o sono era maior, então que se dane tudo, apenas apaguei.
[…]
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