"Se até a ! deu lugar ao +, por que estamos a 0 ?"
7 Capítulo 6: O Refúgio dos Anacronismos
O Protagonista pressionava o corte na mão, observando o sangue manchar o casaco cinza. A dor era um ruído constante, uma frequência que o impedia de voltar a ser a estátua de antes. O Atualizador deu um passo à frente, a luz do tablet refletindo em suas lentes sem grau.
— E então? — A voz do burocrata cortou o silêncio. — O que achou da performance lá embaixo? Aquela "repaginada" nos seus colegas... Não achou interessante? Ver a mocinha de 2010 explorando novos horizontes com o vilão cyberpunk? É o que o mercado chama de diversificação de portfólio.
O Protagonista olhou para o salão e, depois, para a própria ferida. A náusea era outra novidade humana que ele estava aprendendo a odiar.
— É grotesco — respondeu o Protagonista, a voz firme apesar do tremor nas mãos. — Você os transformou em colagens de revistas velhas. Eles não estão evoluindo; estão sendo canibalizados para gerar cliques de curiosidade mórbida.
O Atualizador deu de ombros, indiferente.
— É o preço da relevância. Se você não aceitar a troca de par, o sistema não tem onde te encaixar. O público quer o novo, mesmo que o novo seja um Frankenstein de clichês.
— E se não precisarmos de um novo público? — o Protagonista rebateu, aproximando-se da Coadjuvante, mas mantendo o olhar fixo no homem de terno. — Por que a única opção é a destruição ou a deformidade? Eu não quero me separar dela. Não quero ser "shippado" com um rascunho de outra categoria só para manter os servidores ligados.
O Atualizador arqueou uma sobrancelha.
— Você está propondo uma resistência?
— Estou propondo um deslocamento — corrigiu o Protagonista. — Leve-nos para um novo local. Um diretório escondido, uma pasta esquecida, um domínio fora do radar do +Fiction. Deixe que vivamos nosso amor repetido em paz, longe dos olhos de quem busca inovação a qualquer custo. Se somos obsoletos, deixe-nos ser obsoletos juntos.
A Coadjuvante soltou um suspiro pesado, entre o choque e a decepção. O Atualizador, pela primeira vez, guardou o tablet e soltou uma gargalhada seca, sem vida.
— Ah, o eterno desejo do personagem de se tornar um clássico de nicho... — O homem de cinza caminhou em círculos ao redor dele. — Você quer um exílio dourado. Um mundo onde o tempo não passa e o "felizes para sempre" é um loop infinito de domingos à tarde. Você acha que o amor sobrevive sem o olhar do Leitor? Sem o engajamento, esse seu "sangue" vai esfriar. Você vai virar um arquivo morto, não um amante.
— É um risco que prefiro correr a ser transformado em um fantoche de algoritmo — sentenciou o Protagonista.
O Atualizador parou de rir. Seu rosto voltou à máscara de frieza profissional.
— O sistema não permite zonas de sombra, meu caro. Ou você é conteúdo, ou é uma repetição. Não existe "aposentadoria" para quem foi criado para ser consumido. Permita-se revirar sua trajetória. Caso não goste, eu realizo seu desejo de conquistar a tão sonhada terra do orvalho infinito.
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