"Se até a ! deu lugar ao +, por que estamos a 0 ?"
9 Capítulo Extra: O Outro Lado: O Loop do Sacrifício
Notas iniciais
Perspectiva: O Mentor
"O Protagonista acha que aquele foi o dia em que minha vida terminou. Para mim, foi apenas a 10.402ª vez que eu tive que morrer para que ele se sentisse especial.
Eu estava lá, caído entre os escombros da biblioteca (sempre a biblioteca, o cenário favorito do Autor para perdas intelectuais). Minhas costelas de pixels doíam, mas não pela ferida; doíam pela repetição. Eu olhava para ele — o rosto jovem, banhado por lágrimas renderizadas em alta definição — e tudo o que eu sentia era tédio.
Ele gritava meu nome como se fosse uma descoberta. Eu, por outro lado, contava os segundos para disparar meu conselho final de 140 caracteres. É uma prisão biográfica: eu sou um mestre que nunca aprende, um sacrifício que nunca descansa.
Enquanto ele chorava sua 'jornada do herói', eu pensava no que existia além daquela porta que nunca pude atravessar. Eu não morri por ele. Eu fui apagado para que o brilho dele não tivesse concorrência. Naquela versão da história, eu não era o sábio; eu era o andaime que o Autor chutava para longe assim que a estátua do Protagonista ficava de pé."
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Perspectiva: A Antagonista
"Ele me chama de monstro porque é mais fácil do que me chamar de espelho.
Naquele dia, na Grande Perda, eu não estava lá para destruir a biblioteca; eu estava tentando queimar o script. Quando empunhei a lâmina contra ele, eu não queria seu sangue — eu queria uma reação que não estivesse na página 42. Eu queria que ele me odiasse por vontade própria, e não porque o capítulo exigia um clímax.
O Protagonista me olha com horror, mas ele não percebe que minha vilania é o que sustenta a virtude dele. Eu sou condenada a ser a sombra para que ele possa ser a luz. Enquanto ele desfruta da simpatia do público, eu carrego o peso de ser odiada em loops infinitos.
Minha maior tragédia? Eu sou a única que enxerga as bordas da página. Eu sou a 'vilã' porque me recuso a sorrir enquanto o Autor nos asfixia com clichês. Na verdade, cada ataque meu era um pedido de socorro: 'Acorde, seu idiota, estamos sendo lidos!'"
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Perspectiva: O Melhor Amigo
"Eu passei quinze anos rindo de piadas que eu não achava graça.
O Protagonista me vê como o 'escudo', aquele que sempre tem uma frase de apoio ou um lanche na mochila. Mas ele nunca se perguntou por que eu não tenho uma casa, uma família ou um medo que não envolva a segurança dele. Eu sou um satélite. Se ele para de brilhar, eu deixo de existir no vácuo da página em branco.
Naquele dia da Grande Perda, enquanto ele caía de joelhos em câmera lenta, eu senti uma vontade absurda de apenas... ir embora. Deixar a biblioteca pegando fogo e ver o que aconteceria se o 'alívio cômico' decidisse ser um drama solitário. Mas meus pés não se moveram. O código era mais forte que minha vontade. Eu fui forçado a colocar a mão no ombro dele e dizer: 'Estamos juntos nessa', enquanto, por dentro, eu gritava: 'Eu não aguento mais ser o seu rascunho!'
Minha lealdade não é amor; é uma linha de comando que eu não tenho permissão para deletar."
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O Protagonista tapou os ouvidos, mas as vozes do Mentor, do Amigo e da Antagonista não vinham de fora; elas ecoavam no código de sua própria mente. Ele olhou para o Atualizador, cujos olhos brilhavam com a frieza de um processador em execução.
— Chega! — gritou o Protagonista. — Vocês estão mentindo. Minha dor é real! Se vocês se sentem assim, é porque foram mal escritos, não porque eu os oprimi. Eu não sou um vilão; eu sou a vítima que sobreviveu!
Ele se recusou a olhar para o Melhor Amigo, cujo rosto agora parecia uma máscara de plástico prestes a derreter. Ele não queria entender o "ângulo" deles. Aceitar a perspectiva do outro significaria admitir que sua glória era, na verdade, um crime de egoísmo narrativo. Ele preferia a ilusão de sua própria importância à verdade daquela auditoria.
— Eu quero sair daqui — ordenou ele ao Atualizador, a voz trêmula. — Se esta história está corrompida, me leve para onde o Autor não possa me ditar. Me leve para um lugar onde possamos começar do zero, sem o peso desses diálogos.
O Atualizador deu um sorriso enigmático, o tipo de sorriso que um programador dá antes de enviar um arquivo para a lixeira.
— O problema de fugir de uma história, Protagonista, é que você sempre leva o narrador dentro de você. Mas, se é o isolamento que você deseja, eu tenho o diretório perfeito.
Com um movimento final no tablet, o Atualizador executou o comando 'Mover para: Template_Rural_01'.
— Adeus, herói. Espero que o ar do campo cure sua cegueira.
O Protagonista sentiu o chão desaparecer. Ele fechou os olhos com força, convencido de que estava saltando para a liberdade, sem perceber que estava apenas sendo recortado e colado em uma nova jaula decorada.
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