O Atualizador deu um toque final na tela do tablet.

— Um diretório isolado, então. Um domínio fantasma onde o algoritmo não alcança e o tempo é uma sugestão. Divirtam-se na sua "aposentadoria".

O mundo dissolveu-se em um borrão de pixels cinzentos até que o cheiro de papel velho fosse substituído pelo aroma de grama cortada e terra úmida. O Protagonista abriu os olhos e encontrou-se diante de uma fazenda de cinema: cercas brancas impecáveis, um pôr do sol eterno em tons de âmbar e o som bucólico de grilos ao fundo.

Ele olhou para a Coadjuvante. Ela usava um vestido floral que parecia novo, mas, ao tocar o tecido, ele sentiu a textura áspera de um rascunho.

— Conseguimos — sussurrou ele, sentindo o corte na mão arder levemente sob a luz do sol artificial. — Um novo começo.

Ela não respondeu. Apenas sorriu daquela forma programada que ele conhecia tão bem.

— Precisamos conversar sobre nós — disse ela, exatamente como dizia na biblioteca da mansão. — Essa viagem de reconciliação... foi necessária.

O Protagonista congelou. O cenário era uma fazenda, o ar era rural, mas a estrutura da frase era um eco. Ele tentou mudar o rumo:

— Sim, mas aqui é diferente. Olha essas árvores, esse horizonte... não estamos mais presos ao fandom.

— Eu sei — ela respondeu, caminhando em direção ao alpendre da casa com uma leveza coreografada. — Mas o que eu sinto por você ainda é um mistério até para mim. Preciso de tempo para entender se o que temos é real ou apenas o que as estrelas escreveram.

Era o diálogo dos capítulos iniciais. Quase palavra por palavra.

Desesperado, o Protagonista correu até o celeiro. Por dentro, o celeiro não tinha ferramentas ou animais; as paredes eram feitas de folhas de papel gigante onde se lia, em letras garrafais: [CENA DE RECONCILIAÇÃO — AMBIENTE RURAL].

Ele percebeu a armadilha. O Atualizador não os havia libertado; ele apenas havia feito o upload de suas consciências para um template de "Romance de Fazenda". Eles estavam vivendo a mesma história, com os mesmos conflitos e as mesmas indecisões, apenas usando chapéus de palha em vez de ternos.

— Não... — ele murmurou, golpeando a parede de papel.

Sua mão sangrou novamente, mas o sangue agora parecia um erro de impressão: uma mancha vermelha bidimensional que não escorria.

— Você não entende? — A Coadjuvante apareceu na porta do celeiro, a luz do sol de mentira emoldurando seu rosto. — Não importa o cenário. Se a gente não mudar o que diz, a fazenda é só uma mansão com cheiro de mato. A gente está apenas mudando a cor da nossa gaiola.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.