Se Eu Não Te Amasse Tanto Assim
16 Papo de bêbado
Notas iniciais
Ash já ria como um idiota. Ele era fraco pra bebida, assim como Dawn também. E os dois estavam entretidos naquela conversa de bêbado idiota.
— E ela disse que escolhia ele! Acredita?!
Estavam na floresta, cercados pelas mais diversas árvores e pelos mais diversos animais. Se fosse Misty ali com ele – não Dawn –, então ela estaria assustada, porque havia muitos Pokémons insetos naquela parte da floresta. Mas não era Misty ali com ele, portanto o pensamento era desnecessário.
— Eu te disse, Ash! Eu te disse que sabia as coisas dos famosos.
— Ah, mas eu nunca tinha visto a Misty como famosa. Ela só… é minha melhor amiga, sabe?
Dawn revirou os olhos, cansada de tudo aquilo. Era seu momento com ele, sua chance de conquistar o coração que Misty partira, mas tudo o que ele fazia era falar dela e falar dela e falar dela…
— Não é não, porque melhor amiga não faz isso. Ela foi uma vadia.
Ash ficou inicialmente irritado com o comentário, mas depois acabou rindo muito. Foi engraçado, porque ele pensara assim também, mesmo que só por um segundinho. E não era realmente sua culpa pensar dessa forma, Misty o deixara por glória e dinheiro – havia como ser mais vadia do que isso?
— Ela foi!
E eles riram juntos. Ash se sentia tão incrivelmente irritado que, na verdade, era até engraçado. Porque ele dera seu coração e sua alma a ela, oferecera-lhe absolutamente tudo o que havia de importante para si, mas Misty o rejeitara por dinheiro e fama! Justo ela, que sempre parecera ser tão certa de si e tão inteligente. Justo ela que sempre renegara as irmãs sensacionais e sempre dissera que queria ser diferente delas. Justo sua Misty, sua namorada por dois dias. E ele podia jurar que a conhecia melhor do que qualquer um no universo.
— E a desgraçada é uma atriz incrível! Me enganou direitinho…
— Claro que ela é, seu bobalhão! Ela ganha dinheiro atuando, lembra?
Sim, lembrava. Ela o trocara por essa maldita atuação e esse maldito dinheiro. Bebeu mais, afogando – pela primeira vez em sua curta vida – as mágoas na bebida.
— Eu odeio ela!
Dawn riu e repetiu as palavras dele, mas mais alto. Ash gostou da ideia e gritou:
— EU ODEIO MISTY WATERFLOWER!
Foi simplesmente libertador. Poder gritar o sentimento que sentia, o ódio por ter sido despachado e desprezado por algo tão ínfimo e ridículo quanto dinheiro, era simplesmente incrível. Sentia que podia passar a noite inteira gritando aquilo, colocando toda a sua ira para fora.
Mas, lá no fundo, sabia que não a odiava coisíssima nenhuma. O que sentia por ela era amor. Um amor tão profundo e insano que chegava a doer.
— Dawn… por que você a odeia?
— Porque ela te fez sofrer, oras!
Ele riu, feliz por ter uma amiga tão incrivelmente boa quanto ela. Dawn riu de volta e ficaram ali, encarando-se, rindo, compartilhando de um momento de pura compreensão bêbada.
— Eu odeio te ver sofrendo…
Não era inteiramente verdade. Ela realmente se sentia mal quando ele sofria, mas o ver triste por Misty não era assim tão doloroso – muito pelo contrário. Quando ele ficava triste por ela, Dawn até sentia uma pontinha de felicidade. Quanto menos Ash amasse Misty, maiores seriam suas chances de conquistar o coração dele.
— Também não gosto de te ver sofrendo… me conta, por que anda tão estranha nos últimos tempos?
Ela arregalou os olhos, surpresa, sentindo o coração se encher de um sentimento incrivelmente bom. Ele percebera? Mesmo estando perdido em seu país maravilha? Mesmo soltando foguetes pela cabeça de tanta animação, ele percebera a tristeza dela?
Não conseguiu evitar o sorriso.
— Você percebeu?!
Ele riu sem graça e coçou a cabeça.
— Na verdade, o Brock comentou comigo… desculpa, mas é que eu tava tão feliz porque eu e a Misty tava dando certo que acabei nem vendo as coisas, mas eu teria percebido…
E ele se enrolou. Ela sentiu o rosto avermelhar – raiva, vergonha, uísque? – e não tinha mais total controle do seu corpo. Por isso bateu no braço dele, irritada.
— BAKA! Como não percebeu?!
— OEEEE! Desculpa aí, eu tava ocupado.
Com Misty, é claro. Ele sempre estava ocupado com Misty, nunca tinha tempo para gastar consigo.
— Você só pensa nessa garota?! Mas que saco!
Ele revirou os olhos e acabou deitando. Sua cabeça girava tanto que não ousou beber outro gole.
— Você sabe que sim. Eu só consigo pensar nela.
E mesmo ali, conversando bêbado com Dawn, ele olhava para o céu que tinha o tom dos cabelos da amiga e pensava em Misty. Engraçado, certo? Não precisava de algo que realmente o lembrasse dela, porque a desgraçada simplesmente não saía da sua cabeça.
— Isso é irritante. Mas eu te entendo.
Fora o mais próximo de uma declaração que ela já fizera. Olhou com expectativa para Ash, esperando que ele fizesse qualquer comentário a respeito, como, por exemplo “Tá apaixonada também, é? E quem é o cara?” ou “O garoto que você ama tem muita sorte”. Qualquer coisa assim seria perfeito, porque ela já tinha a resposta pronta na ponta da língua.
— Ah, o Paul deve ser complicado mesmo.
Ela piscou, confusa, esperando que sua mente embaralhada compreendesse as palavras ditas.
— Paul?
— É. E isso tá tão óbvio que eu nem precisei da ajuda de ninguém, tá? Consegui descobrir sozinho!
Ela não conseguia acreditar naquela besteira. Como assim Ash pensava que era apaixonada pelo idiota do Paul? Justo ele que só sabia rebaixar os outros, era arrogante e prepotente? Como Ash podia ser assim tão incrivelmente cego?
— Não gosto do Paul!
Ele riu, sentindo que vomitaria se mexesse sua cabeça mais um pouco.
— Gosta sim, gosta sim! A Dawn gosta do Paul, a Dawn gosta do Paul!
A cantoria a deixou irritada. Ela não gostava do Paul, gostava do idiota do Ash! Mas o Ketchum era tão cego e ignorante que nem conseguia perceber o que ela sentia!
— BAKA! Eu gosto de você!
Ash arregalou os olhos, confuso. O que ela queria dizer com aquilo, o que significava? Ele também gostava dela, é claro, mas definitivamente não daquele jeito e…
Quando percebeu, Dawn já tocava os lábios dela nos seus. E foi tão confuso, porque o toque o deixava tonto e o confortava ao mesmo tempo. E foi estranho, porque ele queria e não queria, porque era algo bom e ruim.
Mas Dawn não lhe daria tempo para pensar, é claro que não! Ela precisava conquistá-lo, domar o coração partido. E cumpriu a promessa que fez a si mesma.
Naquela noite, Ash não pensou.
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A dor de cabeça que sentia ao acordar não era tão grande quanto ele pensara que seria – mas nem por isso deixava de ser intensa. Respirou fundo, querendo ar, querendo um pouco de sobriedade.
— Ash…?
Assustado, olhou para Dawn. Corou ao perceber que ela usava o casaco dele para cobrir o corpo nu. Olhou para baixo e percebeu-se sem cueca. Agarrou a camiseta mais próxima e jogou-a sobre o pênis, escondendo-o.
— Dawn, eu…
Ela tinha um sorriso estranho, nervoso. Ele não conseguia sorrir.
Kami-sama, o que fizera?
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