Scream! Welcome To The Game.
5 Capítulo 4 - Você morre hoje.
Notas iniciais
Capítulo 4 — Você morre hoje.
“Não me agrada nem um pouco quando uma conversa casual se estende para o assunto família. Estou cheio de coisas para me preocupar, e ser assombrado pelos fatos que marcaram meu passado dificulta ainda mais minha vida. Ao longo da semana, venho rezando para as notas do teste de matemática não saírem. Se eu tirar uma nota melhor que a do Mello... Só Deus sabe o que ele irá fazer comigo.”
Uma rotina normal;
Uma vida comum;
Os dias sempre iguais, sem muitas novidades.
Tédio e responsabilidades. Pode-se resumir a vida de Nate River com essas duas palavras.
Às terças e quintas, ele frequenta um curso de estudos de matemática avançada e pelo que descobri nesta sexta-feira, não haverá aula devido ao conselho de classe ou algo parecido... Não consegui ouvir direito, mas os alunos comemoravam freneticamente na saída da escola na última quinta-feira.
Quando está entediado em casa, ele monta quebra-cabeças ou brinca com bonecos. Estanho, mas interessante. Nunca me senti atraído fisicamente por pessoas estranhas com manias diferenciadas. Tudo bem que em minha lista pequena (muito pequena) de “amigos” não existem pessoas consideravelmente classificadas como normais: Um depressivo com tendências suicidas... Um nervosinho perfeccionista e um milionário ganancioso, dono de um dos maiores cassinos de Las Vegas.
Near tem uma motivação enorme. Ele está disposto a continuar, mesmo com as dificuldades, como se houvesse um propósito para tudo isso. Será que existe um ponto específico que o albino gostaria de alcançar? Será que ele tem em mente alguma coisa em que se agarra para suprir um desejo? Talvez, seja um jeito de provar alguma coisa a alguém... Há várias possibilidades para dedução, e pensar nelas devorando um pote de geleia embaixo de dois cobertores depois de uma merecida noite de sono é, no mínimo, tentador. Uma pena não poder ficar aqui por mais tempo.
Em um movimento rápido, joguei meus cobertores para o lado, tomando cuidado para não sujá-los com geleia. Segui para o banheiro para tomar um banho e me arriscar a mais um choque térmico.
Dentro de alguns dias, finalmente, ele será todo meu.
Oito horas da manhã e já me encontrava na porta de casa vestindo minha jaqueta favorita. Estava com fones de ouvido e pude ver Chiyo cuidando do jardim. Ela faz o tipo “senhora gentil” de filmes americanos. A velhinha boa que faz crochê, vive com onze gatos, faz tortas e doces para as criancinhas e se amarra em paisagismo... Não sei o porquê, mas não consigo cair nessa. Não que ela guarde um segredo de estado ou algo parecido, só que a capacidade dela de implicar comigo é tão grande que às vezes parece que guarda dentro de si uma energia infantil totalmente incomum.
Ela me encarou como se esperasse uma atitude.
— Tá olhando o quê?
Ela riu pelo nariz. A ironia era quase tão irritante quanto a intromissão na vida alheia.
— Você é um rapaz muito mal educado, sabia?
— E você é uma velha que desconhece o perigo — respondi com rispidez, deixando evidente o quanto o comentário me incomodou. — É melhor ficar longe de mim.
— Isso foi uma ameaça?
— Um aviso, que é melhor você seguir. Não costumo avisar uma segunda vez.
Ignorei alguns praguejamentos macumbantesque a velha pronunciava em um tom baixo, indo em direção à calçada. O mesmo caminho para o mesmo lugar de costume da minha nova rotina.
***
O barulho da cidade é irritante e a aglomeração de pessoas nas ruas é horrível, por isso, Tóquio não é a melhor opção de cidade para morar se você odeia esse tipo de coisa assim como eu. O que me satisfez foi ler o letreiro de “aberto” pendurado na porta da lanchonete.
Não sei se minha presença foi agradável, pois assim que o albino colocou os olhos em mim, desviou a atenção fazendo uma cara de indiferença e indo até a cozinha. Então ele é do tipo que guarda ressentimento...
Até hoje não consegui entender o motivo pelo qual ficou “bravo” na segunda-feira, mas é certo que ele fica assim toda vez que perguntam ou falam alguma coisa referente à família dele. Isso pode me favorecer. Muito.
Sentei em um dos bancos do balcão principal aguardando meu floco de neve sair da cozinha. Desviei minha atenção para a televisão que mostrava as imagens do telejornal. Falavam sobre um assalto em uma joalheria do shopping.
Entretido na notícia, mal percebi o ser que me encarava com um sorriso simpático no rosto.
— Você anda vindo muito aqui, B. Saudades de mim? — Raito sorriu de um jeito divertido, ironizando a frase.
— Raito! Quanto tempo...
— Tempo até demais! O que tem feito da vida?
— Nada de interessante... Ainda. — Sorri, arqueando uma das sobrancelhas. Raito riu com o gesto.
— Você ainda continua misterioso o suficiente para ser encarado como um desafio?
— Você me considera um desafio?
Ele não respondeu. Abaixou a cabeça de um jeito nervoso e pensativo, como se quisesse fazer uma pergunta. Tenho certeza de que ele não ficou assim devido a minha última frase. O conheço a tempo suficiente para ter uma leve ideia do que ele pretende falar. Depois de alguns minutos silenciosos e desagradáveis, ele levantou a cabeça jogando alguns fios de cabelo para o lado e me olhou.
— E o seu irmão, B? — Disse sem jeito, um pouco enrubescido.
Como eu imaginei...
Raito teve um pequeno romance de escola com meu irmão.
Meu irmão era completamente apaixonado e compulsivamente ciumento, o que era no mínimo normal, já que Raito na época de escola era um dos meninos mais lindos e populares de todo colégio e meu irmão não passava de um nerd esquisito.
Em meio a tanto ciúmes e outros motivos desnecessários de se explicar, o namoro chegou ao fim e por incrível que pareça quem sofreu mais com o término foi Raito. Pelo visto sofre até hoje.
— Não mantenho contato com ele.
— Ah... — Murmurou desapontado. — Vou indo. Tenho que rever o estoque de suprimentos. Até mais!
Acenei com um gesto de cabeça. Ouvi Raito gritando o nome do albino para que ele fosse me atender. Ri de leve ao perceber que o plano que ele tinha de me ignorar acabara de ser destruído. Em poucos segundos, Near já estava a minha frente.
— O que vai querer? — Ele perguntou seco, sem fazer contato visual.
— Ainda bravo comigo?
— ... — Ele não respondeu e eu levantei a cabeça dele levemente.
— Me responda, Nate River. — Pude sentir a temperatura do albino mudar.
— E-eu...
Sua frase foi interrompida pelo barulho da porta de entrada da lanchonete sendo aberta com brutalidade. A Madonna, que descobri na quarta-feira que era um menino, adentrou o local, totalmente furioso, sendo acompanhado pelo ruivo que estava com uma expressão de pânico.
— VOCÊ! — Gritou, apontando o dedo na direção de Near, que já estava mais pálido que o normal.
— M-mello? – Near gaguejou e o loiro correu em sua direção, pulando o balcão e pegando-o pela gola de sua blusa de lã.
— O QUE EU DISSE PARA VOCÊ? O QUE EU DISSE SOBRE EU FICAR EM SEGUNDO, DE NOVO?
— Mello, me desculpe... Eu não... É que a prova... — O menor tentava inutilmente falar, sendo sacudido de um jeito bruto.
— CALE A BOCA! VOCÊ MORRE HOJE!
A confusão gerava olhares de todos os clientes, que já estavam assustados. Muitos iriam aproveitar para sair sem pagar e alguns adolescentes já pegavam os celulares para gravar a briga.
Raito saiu da cozinha junto com outros funcionários. Near iria levar o primeiro soco, mas eu impedi o loiro que o fizesse, dando um chute em suas costas.
— Não ouse tocar nele! — Rosnei.
O loiro caiu no chão soltando um riso debochado.
— Esse é o seu namorado, Near?
— Já chega! Saia agora da minha lanchonete! — Raito ordenou ao loiro que já estava de pé novamente.
— Mello, chega! Vamos embora! – O ruivo disse, puxando a versão (quase) masculina da Madonna.
— Isso ainda não acabou, Near.
O loiro foi embora juntamente com o ruivo. Depois de mais ou menos meia hora eu fiz o mesmo, mas fiquei próximo à lanchonete esperando o término do expediente do floco de neve.
***
A noite caiu. Near ficou em um turno extra na lanchonete e depois se dirigiu à biblioteca, e lá permaneceu até às dez e meia, fazendo um trabalho.
O vento forte e gelado da noite fazia com que dois casacos não fossem o suficiente para amenizar a sensação estupidamente fria. A neve já cobria as calçadas por inteiro e o pequeno algodão tremia de frio enquanto caminhava sozinho para sua casa.
Até que não faltava muito, uns três quarteirões no máximo.
— Ora, ora... O que temos aqui? — Uma voz soou rouca, fazendo com que o menor estremecesse.
Mello saiu de uma loja de conveniências que acabara de fechar. Para falar a verdade o lugar era “suspeito” para uma simples lojinha de bairro, mas quem sou eu para falar de lugares suspeitos?
— Mello, eu já pedi desculpas. Me deixa!
O loiro riu. Passou a mão no rosto do albino.
— Eu disse que não tinha acabado, não disse?
Near ameaçou correr, mas foi impedido por uma forte joelhada na barriga que o fez cair no chão.
Meu sangue ferveu ao ver o algodão sendo espancado. Socos, chutes, tapas... Vários tipos de agressões vindas do loiro.
Senti uma necessidade extrema de proteger o menor. Felizmente, já tenho uma ideia em mente.
Depois de apanhar feito um cachorro, Near perdeu a consciência e ficou caído na calçada, ensanguentado. O loiro voltou a si, percebendo o que tinha acabado de fazer e saiu correndo. Fui em direção ao corpo estirado no chão e chequei sua pulsação.
Ele estava vivo.
— Ótimo, aguente só mais alguns minutos. – Sussurrei.
Vesti um par de luvas que carregava comigo em casos de emergência. Segui a passos firmes e rápidos atrás do loiro que parou em um beco, encostando-se a uma caçamba de lixo.
— Te achei. — Sorri sádico, o que o fez arregalar os olhos.
— E-espera! O que vai fazer?
Dei um chute forte em seu estômago, que por consequência o fez cair no chão e cuspir um pouco de sangue. Peguei minha faca que estava no cós da minha calça jeans tirando-a da capa de couro que a envolvia.
— Eu gostaria de me divertir mais com você... Se o tempo me permitisse, talvez eu pudesse ser um pouco mais criativo, mas Near precisa da minha ajuda. — Chutei seu rosto, ouvindo o som do nariz quebrando. — Costumo usar essa faca somente para matar pessoas que valem alguma coisa, mas como já disse, não tenho tempo para bolar algo mais criativo com você. — Me aproximei de sua orelha e sussurrei diabolicamente. — Eu não costumo avisar uma segunda vez.
Sem mais delongas, cessei os gritos do loiro com uma facada certeira em seu crânio. Furei os dois olhos que acabaram ficando abertos e distribuí mais facadas pelo corpo. Joguei o cadáver dentro da caçamba e guardei a faca novamente em seu lugar.
— Não vou me livrar de você, Mello. Quero que a polícia te encontre para que isso seja transmitido em jornais e telejornais. Quero que Near veja o que fiz por ele. Ninguém toca no que é meu!
***
Voltei correndo até o local onde Near estava. Tenho certeza de que não demorei muito. Devem ter se passado no mínimo vinte e cinco minutos para realizar o pequeno teatro. Near estava muito machucado, não estava? Então por que ele não está mais aqui? Seria impossível ele sair andando sozinho nas condições em que se encontrava. Certo?
— Near? – chamei — Cadê você?
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