Scream! Welcome To The Game.
17 Capítulo 16 - Roleta Russa.
Notas iniciais
Capítulo 16 – Roleta Russa.
“Eu nunca fui do tipo de pessoa que deseja mal a outro alguém. Se uma pessoa faz algo ruim, acredito plenamente que ela tenha que pagar o preço, mas jamais fui a favor da violência. É claro que essa minha ideia moral equivale somente para seres humanos. Ele não é um ser humano. O dono do par de olhos mais intensos e anormais que eu já vi também é o dono de uma personalidade sádica doentia. Ele não hesita em nada, não importa o quanto me machuque ou o quanto me exponha à morte. Aceitar uma ‘derrota’ seria tão vergonhoso assim, ou tentar sair desse pesadelo ainda pode ser considerado uma opção? Acorde, Near... Vamos! Acorde! Para um sonho tudo o que eu sinto é bem real. Absolutamente tudo.”
A noite caía sem pudor. O céu era devorado pelo azul escuro que mais parecia um predador faminto devorando sua presa indefesa, e a presa, por sua vez, aceitava de bom grado ser engolida. Não protestava nem um segundo, talvez por falta de poder ou talvez ela se sentisse bem com isso. Quem explicaria essa tese ridícula?
O vento arrastava galhos secos e a geada mais parecia uma enorme constelação caída do espaço e que girava em sintonia com a brisa em nossa atmosfera. Uma camada fina de gelo começou a se formar pelos vidros das janelas e só quando meu relógio de pulso apitou, às onze, eu tive a certeza de que era a hora de ir.
Em cima da mesa peguei um pedaço de pano negro e vendei os olhos do meu acompanhante. Ele vestia roupas escuras para uma melhor camuflagem e suas mãos já estavam algemadas. Um exagero comparado à última vez que nós fomos dar uma “voltinha”, você deve estar se questionando. Eu diria precaução. Near parece mais atento ao ambiente e ele disfarça muito bem um afobamento com uma expressão de tédio no rosto, mas pelo jeito que seus olhos passeiam interessados pelo lugar eu tenho quase certeza do que ele está tentando fazer.
Não sei de onde ele tirou essa energia. Seu corpo estava enfaixado e coberto por pomadas a base de antibióticos, próprias para as feridas. O álcool piorou os cortes e conforme eu espalhava o medicamento depois do banho, Near chorava e mordia os lábios.
E era aí que meu ponto de paz começava. Oh, céus... Tenho certeza que isso compensará todo o fogo infernal que irá me consumir quando eu morrer.
Me chame de louco. Isso é uma calamidade para você?
Eu...
Não...
Tenho...
Controle.
Minha maleta já estava montada e o figurino leve e neutro também já estava trajado dos pés a cabeça.
Nós, devidamente vestidos e alimentados por porções de comida congelada, entramos no carro.
Não conversávamos. Eu não fazia nenhuma questão disso e ele parecia não se importar. O que me interessa é o jeito que o uso a meu favor. Não me importo em não ouvir sua voz, mas sempre cobro seus gritos e é o que basta.
A floresta era iluminada pelos faróis do carro. Qualquer um estaria prestes a ter um ataque de pânico em meio à escuridão e até mesmo a pessoa mais corajosa do mundo estaria se perguntando a melhor forma de fugir caso uma alma perdia surgisse na frente do carro.
Esse é o maior problema de pessoas sãs. Elas não se permitem ficar no desconhecido por medo. E aí me pergunto se esse tipo de pessoa é abençoado ou amaldiçoado com os dons dos sentidos.
O medo de ver... O medo de ouvir... O medo de sentir.
Lembro-me vagamente de quando era criança e corria para o balanço do parquinho toda madrugada que eu ficava assustado. Eu gostava de me balançar sem poder ver absolutamente nada. Isso me transmitia segurança. Isso era minha segurança.
Lá fora, no escuro, eu não ouvia nenhum grito e eu não via ninguém caído nu no meio da cozinha ou da sala de estar. Só sentia o frio no estômago por ter o corpo sendo jogado para frente e para trás em movimentos suaves e intensos. Meus pés não tocavam o chão e por dois anos acreditei que eu tinha um amigo imaginário que me ajudava a voar.
Quando me mudei para a Inglaterra eu já era crescido e parcialmente estragado. Fui obrigado a frequentar algumas sessões com um psicólogo junto ao meu irmão. Disfarcei muito bem meus sentimentos, mas não fui capaz de esconder minha afeição pela noite.
Fui diagnosticado com uma espécie de Nictofilia*. Não é algo muito grandioso, mas alguns médicos psiquiatras se interessam por personalidades como essa e levando em consideração meu teste de Q.I elevado, despertei a atenção de alguns estudiosos que começaram a se perguntar se eu seria capaz de me tornar uma ameaça algum dia. Ainda bem que recusei ajudar qualquer tipo de pesquisa.
Passar parte da minha adolescência confinado em um laboratório nojento só aceleraria meu processo de loucura total.
Eu ainda tenho consciência de tudo a minha volta. Ah, eu tenho...
— Por que me vendou? – o silêncio que antes era preenchido pelo chiado do rádio agora era interrompido pela voz rouca e baixa do meu acompanhante. – Essa cerimônia não foi necessária da última vez.
Ele estava me subestimando, achando minhas habilidades sensitivas insignificantes.
Apertei as mãos no volante e enrijeci meu maxilar. A naturalidade inexpressiva que ele tentava passar me irritou.
— Eu sei o que você está tentando fazer. – fiz uma curva brusca até sair completamente do terreno irregular e sentir o asfalto plano da estrada. Diminuí os faróis e me acostumei com a nova luz que saía dos postes.
— Do que está falando? – sua voz saiu em um sussurro enquanto ele se ajeitava no banco com dificuldades. Alguns gemidos baixos se sucederam até ele se acomodar.
Não pensei duas vezes e freei o carro. Se não estivéssemos com o cinto de segurança com certeza nossos corpos seriam jogados completamente para frente.
— PENSA QUE PODE ME ENGANAR? – gritei. – Você não me engana e eu vou ter sempre essa precaução. – meu tom de voz voltou ao normal, mas com um timbre sério e frio. Passei o polegar pelo seu rosto e ele estremeceu.
— Eu ainda não entendi... – ele respirava com cautela. Está mesmo tentando me desafiar?
Me aproximei do rosto do pequeno e encarei sua boca semi aberta e convidativa. Chupei seu lábio inferior rindo suavemente em seguida como um pai faz ao explicar algo complicado para um filho confuso. Aquele tipo de riso falso para manter a calma diante da ignorância.
— Você não vai ver o caminho. – mesmo quase imperceptível eu consegui enxergar sua mão apertando o banco. De um modo súbito me veio uma crise de risos. Gargalhadas exageradas de vitória, saídas com a finalidade de atingir o menor. – Não me subestime. Já te avisei sobre isso.
— E o que te faz pensar que eu já não sei o caminho? – tentou intimidar com um timbre firme. Eu sabia que ele estava blefando.
— Você não sabe, e isso foi uma afirmação. – acelerei o carro e começamos a nos mover de novo. O horário não era tão inoportuno para que o tráfego fosse escasso, mas o próprio caminho levava a “lugar nenhum”, então o máximo que poderíamos encontrar era algum casal de gringos perdido e nervoso. – Near, isso não funciona comigo.
Ele não falou mais nada e achei que prosseguiríamos o caminho sem mais interrupções o que não aconteceu, pois senti que ele ainda queria falar alguma coisa. Ele abria e fechava a boca e sua respiração acelerou.
— O que quer falar? Fale logo! – seu corpo reagiu com um pulinho de susto e seu corpo ficou tenso.
Lembrei-me das primeiras vezes que falei com ele. Sempre atrapalhado... Tropeçava, falava embaralhado, gaguejando sem muito controle. Sinto que ele está prestes a falar algo sério. Não acho que Near sinta nada que envolva vergonha a essa altura do campeonato. Uma raiva incondicional sim, mas vergonha... É bem difícil.
— Eu... Quero fazer... Hn... Quero te pedir uma coisa. – mesmo com os olhos vendados, virou o rosto em direção à janela.
Um pedido? É motivo de risada, sem dúvidas...
— Sabe que não está em vantagens para pedir alguma coisa, principalmente se formos analisar seu comportamento...
— Por favor! – exclamou. – É o único pedido que eu pretendo fazer a você. – a última frase foi dita com desdenho.
— Prossiga. – pensei em parar o carro, mas decidi fazer descaso com o que ele tinha pra falar.
— Me leve para ver a minha avó. – ele tremia, e não, não era de frio.
Talvez isso possa se tornar uma cena interessante.
***
Meu carro estava parado a uns três metros de distância do lugar em que eu me encontrara. A entrada subterrânea estava aberta e alguns homens acompanhavam o russo alcoólatra que estava a minha frente.
— A boate é muito famosa e o principal: muito mal frequentada. Não são somente pessoas importantes que vão até lá, são pessoas perigosas. – ele me dava às instruções, alertando sobre o tipo de gente com quem eu estava prestes a me envolver. – Não retruque com má educação. Faça as devidas cerimônias de apresentação e conte o dinheiro discretamente. São exatos 50 mil dólares. Hajime-san é um pouco temperamental, portanto, fique atento aos movimentos dele e dos comparsas.
Para um serviço bem feito eu precisava – infelizmente – prestar atenção nas explicações. Nessa escola não há dever de casa e uma prova quando tudo está claro na sua cabeça. Ou você entende e acerta, ou você ignora e morre, mas aquele sotaque nojento já estava me dando nos nervos.
— Então é só uma simples transição? – perguntei com descaso.
— Assassinatos dessa vez não estão incluídos, mas você conhece muito bem o seu trabalho. Tudo pode mudar, seja para a melhor ou para a pior.
Heinz, que raras às vezes comparecia em situações como essa, me encarava um pouco mais atrás do irmão. Sério e com os braços cruzados saiu de seu posto só quando Yonosuke parou de falar, e me estendeu um GPS.
— As coordenadas estão aí. – disse despreocupado.
— Oh, Heinz! Há quanto tempo... – eu não iria deixar uma oportunidade dessas passar. – Não vejo você desde o último “Happy Hour”.
Seu sorriso de canto falso me fez querer rir, mas me contentei apenas em retribuir com um sorriso mais largo. Ele voltou ao mesmo lugar sem dizer nada. Os ombros tensos denunciavam a pressa de essa reunião terminar.
— Precisamos repetir isso mais vezes. – lerdo como sempre Yonosuke também sorriu, imaginando estar na mesma sintonia das minhas palavras indiretamente dirigidas ao irmão mais novo. – A propósito, tem mais alguém naquele carro? – perguntou olhando por cima do meu ombro, curioso. – É o Hayato?
Tomei cuidado para não parecer transtornado e com uma expressão de dúvida me virei para encarar o veículo, achando na pior das hipóteses que Near tinha achado um jeito de abrir a porta.
Mas não. Ela permanecia fechada.
— Hn, não. Vim sozinho. – afirmei, convicto de que minha expressão de tédio o enganou.
— Então por que demorou tanto? – questionou. Porra, que cara chato!
— Estava checando minha maleta. Você sabe... Facas, armas, munições... Caso faltasse algo, pediria a você, mas como não preciso me preocupar tanto em mandar mais uma alma para o inferno, meu material é o suficiente.
Yonosuke abaixou uma das mãos e a abriu. Não entendi o motivo então olhei de um jeito discreto para a entrada subterrânea. Ele estava bem na ponta e a plataforma retangular abria de tal maneira que ficava inclinada. Não consegui ver muito a parte de dentro e por hora decidi ignorar o gesto.
— Isso é tudo? – perguntei.
— Sim. Boa sorte, B.
Sorte? Não é questão de sorte, mas sim de habilidade, e isso – foda-se o tamanho do meu ego – eu tenho de sobra.
***
O local era imenso. Na entrada, luzes coloridas eram voltadas para o nome “americanizado” da boate. Dois vasos de plantas enfeitavam a enorme porta e vários carros luxuosos estavam estacionados pela calçada. Parei na calçada paralela a boate e suspirei.
Um suspiro pesado e cheio de dúvidas.
Abri minha maleta e com cuidado tirei uma seringa de dentro. Near estava com a cabeça encostada no vidro e não percebeu meu movimento.
A seringa já estava preparada com a dosagem certa do medicamento. Eu não posso correr o risco dele começar a gritar por socorro então com muita dificuldade consegui comprar um Diazepam* injetável. Na noite do sequestro a ideia inicial era sedá-lo com esse remédio, mas não foi tão fácil assim adquiri-lo.
— Near... – não pretendia fazer movimentos bruscos ou nada que pudesse causar muito tumulto. Minhas mãos ainda estavam dentro da maleta e o menor prendeu os olhos no objeto preto. Instintivamente ele se encolheu, esperando pelo pior.
— O que vai fazer? – choramingou como de costume.
— Não entre em pânico, isso é só... – mas a fala não pode se concretizar.
Ouvi quatro batidas no vidro do carro. Eles eram cobertos por um insulfilm especial que me permitia ver quem estava do lado de fora, mas outras pessoas não conseguiam ver o que acontecia na parte de dentro. Meu coração deu um leve pulo, mas se acalmou ao ver a pessoa que esperava por uma resposta.
Abri a porta de trás do carro e ele entrou.
— O que está fazendo aqui? – questionei. Eu não o havia chamado.
— É muito bom te ver também. – do retrovisor do carro pude ver um sorriso cínico em seu rosto.
— Corte essa ironia comigo, já disse o quanto odeio. Agora responda: o que está fazendo aqui? – virei para encará-lo melhor e ele se afundou um pouco no banco de couro cinza do veículo.
— Sabe... Você não é o único que precisa cumprir ordens. – ele começou a observar as próprias unhas em um gesto despreocupado.
Então tudo passou a fazer sentido e o choque do “óbvio” me fez soltar um riso mínimo.
— Era você que estava lá. Por isso Yonosuke fez aquele gesto com a mão. Para que você pudesse me seguir.
— Inteligentemente sexy, como sempre. – zombou. – Ele queria que eu te encontrasse aqui e te pegasse “no flagra” com o seu nii-san, mas eu já tinha certeza absoluta de que ao invés de encontrar um detetive eu encontraria um fantasma. – falou sem direcionar um olhar direto ao pequeno, mas senti o tom enjoado quando se referiu à Near. – Agora entregue logo o que você precisa entregar e vamos cair fora daqui. Eu tomo conta dele.
— Você? – ele percebeu minha desconfiança e eu também não fiz questão de escondê-la.
— Qual é, B? Está duvidando de mim? Você me mandou ficar longe dele e eu vou obedecer. Nunca fui contra a nenhuma ordem sua! – ele gesticulava indignado.
Sem protestar fechei o zíper da minha maleta e saí do carro. A mercadoria que eu teria de trocar por uma pilha de dólares estava no porta-malas.
Eu não sabia o que era e não tinha curiosidade alguma, mas levando em consideração o peso e a quantia em dinheiro que seria dada em troca deduzi se tratar de armas de fogo muito poderosas.
O albino mantinha os olhos vidrados em mim pelo retrovisor e o mais velho mantinha o tronco girado para trás.
— É melhor não encostar nele, Hayato. – ameacei.
— Tsk... Eu não tenho interesse nenhum nesse pirralho. – seu olhar percorreu descaradamente o meu corpo e eu revirei os olhos. Achei melhor não responder sua frase de duplo sentido.
Fechei o porta-malas com certa brutalidade e caminhei até a entrada logo depois de travar o carro.
***
Dois seguranças me conduziam pelo corredor que cheirava a cigarro. A barulheira da música e a fumaça feita com gelo seco foi ficando para trás. Diferente da iluminação psicodélica da pista de dança esse cômodo estreito possuía luzes amareladas e das portas amadeiradas podiam-se ouvir gemidos exagerados.
Os seguranças engravatados pareciam não se preocupar com isso e eu decidi dar de ombros. A última porta do corredor era diferente das outras; possuía um vidro retangular e ao passarmos por ela uma pequena escada levava até um andar superior.
Um bar particular, dançarinas caras entretendo os homens, sinuca, música antiga e enormes sofás com estampas avermelhadas.
Um homem com os sapatos polidamente impecáveis e um terno claro tinha metade do rosto tampado por um chapéu cinza e as pernas estavam cruzadas. Sua postura era relaxada e entre os dedos não poderia faltar um cigarro com filtro preto e que pelo cheiro que exalava concluí ser mentolado.
— Pegue a mala e confira a mercadoria. – ele não me olhou. Ordenou a um dos seus homens, que sem delongas, cumpriu a ordem.
Arrancou dos meus braços o recipiente vermelho e checou com todo cuidado seu conteúdo.
— Está tudo aqui, senhor. – o cara ajeitou os óculos pretos desnecessários para o ambiente e fechou a mala.
— Ótimo, já sabe o que fazer.
Levando a mala, seis indivíduos saíram em conjunto da sala, traçando o mesmo caminho que fiz para chegar ao cômodo. Junto ao tal Hajime apenas dois homens, os mesmos que me levaram até ele, permaneceram.
Eu não entendi muito bem o que estava acontecendo, mas tinha uma leve impressão de que não seria coisa boa.
“ — Fique atento...”
Os dois subordinados me conduziram até um sofá de frente para o homem e me fizeram sentar. Ainda sem levantar os olhos ele apagou o cigarro no próprio estofado sem se preocupar com o tecido queimado.
— Sabe... Eu estou feliz em receber minha mercadoria e mais ainda em saber que consegui um bom fornecedor dessa vez. – tirou o chapéu e o pousou um pouco abaixo do abdômen. Ele se levantou do sofá e seus joelhos estralaram. – Diga ao meu fornecedor que foi um prazer fazer negócio com ele e talvez disso aqui... – estendeu os braços e eu fiquei confuso se Hajime se referia ao local ou a si mesmo – Ele tire uma valiosa lição. Eu encaro a vida como uma roleta russa...
Ouvi o som do revólver sendo engatilhado e com rapidez e maestria segurei o homem que estava atrás de mim pelo antebraço. Torci até obrigá-lo a soltar a arma e dei um coice em seu estômago.
Hajime estava descendo as escadas às pressas junto com o segundo cara. Peguei o revólver calibre 38 do chão e arrisquei um tiro em direção aos fugitivos.
Tentativa inútil.
Antes de sair atrás dos outros dois me livrei do incomodo caído aos meus pés. Para descontar minha raiva chutei novamente sua barriga e pisei o mais forte que consegui em cima do seu rosto. O tiro certeiro foi desferido como a cereja do bolo.
Corri para tentar alcançar os outros. No meio do caminho chequei a munição, que era o suficiente caso eu conseguisse encontrá-los. Esbarrei e derrubei alguns casais no corredor até chegar à pista. Meus olhos percorriam o local, mas não vi nada além de corpos se mexendo e se entrelaçando vulgarmente.
Voltei a correr e empurrar as pessoas que resmungavam palavrões. O ar de dentro era pesado e quando abri a porta de entrada senti um vento forte atingir minha pele.
Eu gritei.
Soltei um grito raivoso e praguejei tudo quanto é tipo de palavrão. Minha respiração estava acelerada e em passos violentos segui para o carro.
— O que aconteceu? – perguntou Hayato. Seu tom era de preocupação e a voz estava num timbre mais elevado.
— VIU UM HOMEM PASSAR POR AQUI? DE TERNO BRANCO E CHAPÉU... – abri o vidro e olhei em volta.
— Sim, eu vi. Acabou de dar no pé em uma limusine preta. Seguiu naquela direção. – apontou com o dedo indicador para frente.
Near me olhava assustado, mas o ignorei e dei a partida, acelerando ao máximo.
— B... – chamou. – Vo-você prometeu... Prometeu me levar para vê-la... – o menor falava e sua voz me desconcentrava de tal maneira que acabei não prestando atenção na explicação de Hayato e errei o caminho.
— AH! PORRA, NEAR! – pisei no freio e soquei o volante. Ele se encolheu.
— Você prometeu! – insistiu e empurrou meu braço.
“ — Promete me levar para vê-la? – perguntou doce. Seus olhos estavam marejados. – Por favor, eu imploro. – pela quinquagésima oitava vez ele insistia na pergunta.
— Se eu falar que te levo, você cala a boca pelo resto do trajeto? – sua voz me deixara alterado. Eu não conseguia prestar atenção ao ouvi-la. E ele... Pedindo desse jeito tão inocente... Faz com que minha pele esquente e a vontade de sentir o gosto do corpo dele só aumenta.
Ele não falou mais nada, apenas virou para frente com um sorriso de canto e sussurrou.
— Muito obrigado, B.”
— VOCÊ QUER VER SUA AVÓ? ENTÃO VAMOS VER SUA AVÓ! – rosnei. – HAYATO, O QUE FEZ COM O CORPO DAQUELA VELHA INÚTIL? – olhei para trás e até mesmo o mais velho me olhava com medo. – E antes que você pergunte, meu docinho, sua querida vovó está morta!
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