Scream! Welcome To The Game.
18 Capítulo 17 - Resultado.
Notas iniciais
Capítulo 17 – Resultado.
“Era mentira. Tinha que ser... O vidro do carro estava aberto e o vento entrava sem pudor. Sentia a ponta do meu nariz congelando. Minhas mãos apertavam a alça do cinto enquanto os gritos do B aumentavam ainda mais meu nervosismo. À medida que avançávamos pela estrada pude sentir o cheiro salgado da maresia, que fez meu estômago revirar e minha boca se encher de saliva. Eu precisava...”
— Eu tentei! – o gosto de sangue já cobria minha boca. Com a voz rouca e os braços arranhados, meu rosto ardia e os dentes estalavam devido a pressão.
Estava sentado no banco de trás enquanto Hayato dirigia. Nunca precisei lidar com Yonosuke nervoso. Acariciei as têmporas enquanto ele falava frases rápidas e misturava os idiomas. Minha orelha já estava quente por segurar o celular durante tanto tempo.
— Chega! – a volta repentina da minha voz fez com que Near e Hayato se assustassem – Conversaremos mais tarde, em particular.
Encerrei a chamada, sem ouvir sua resposta. Para evitar novas ligações inconvenientes, desliguei o aparelho telefônico e o joguei no banco.
Apoiei meu cotovelo esquerdo na porta e pousei o queixo na palma da mão. O vento bagunçava meus cabelos. Puxei um gorro de dentro da minha mala e o ajeitei na cabeça. Fechei os olhos para aproveitar a brisa gélida.
Foi a primeira vez...
Inaceitável. Me sinto um inútil.
Tudo parece diferente. Minha realidade está distorcida. Estou diante de espelhos enormes. Uns me deixam mais alto, outros me deixam mais baixo. Gordo, magro, achatado, amassado.
Senti o cheiro pesado da maresia que fez meu nariz arder um pouco. Estávamos todos em silêncio.
— Pare, por favor! – o pedido agitado de Near interrompeu meus pensamentos.
Hayato freou o carro e eu afastei meu tronco do banco, observando o menor tentando abrir a porta com uma das mãos enquanto a outra tampava sua boca.
— O que foi, seu idiota? – Hayato perguntou encarando Near com os lábios semiabertos e uma expressão confusa no rosto.
— Abra... A-abra... – o pequeno pediu choroso, dando pequenos tapas na superfície da porta.
— Há Há! Que bela piada- em tom de deboche, o moreno soltou um riso forçado.
— Por favor! – insistiu.
— Você acha mesmo que...- ele não terminou a frase.
— Hayato! Abra a porta agora!- ordenei
— Mas, B...
— Agora!
Estiquei o braço e ergui o pino da porta, ouvindo o barulho das travas. Só deu tempo dele colocar a cabeça para fora e vomitar.
Saí do carro e fui ajudá-lo. Segurei seus fios de cabelo enquanto ele apoiava as mãos no banco.
Hayato também saiu e foi para o outro lado da estrada atender uma ligação. Enquanto ele falava, fazia gestos com os braços. Tentei prestar atenção em seus lábios, mas os sons produzidos pelo menor me desconcentravam.
Vi que Near já havia vomitado tudo que estava no seu estômago. Hayato estava esperando do lado de fora e parecia pensativo.
— Já acabou? — perguntei. Não amoleci o tom de voz para me dirigir a ele.
Near assentiu sem graça, escondendo o rosto ruborizado. Revirei os olhos e dei a volta no carro.
— Como você é frouxo... – falei, batendo a porta, e pude perceber que um sorriso brotou nos lábios de Hayato.
O moreno tirou do porta-luvas uma caixa de lenços e uma embalagem pequena. Encarei o ato por alguns instantes, em silêncio, me perguntando quando ele teria colocado aquelas coisas ali.
— O que é isso? – Near perguntou ao pegar a embalagem.
— São balas. – sorriu – Ajuda a tirar o gosto amargo da boca.
Aproximei meu corpo do banco de carona e arqueei meu tronco, pegando o pacotinho das mãos do pequeno.
— Aqui. – estendi minha mão livre que continha alguns chicletes – Isso é melhor.
Joguei as tais balas pela janela, sem perder meu tempo em analisar o conteúdo. Fiz um gesto para Hayato dar partida no carro.
— Vamos! Estamos atrasados.
Ele definitivamente não gostou da minha atitude.
O escuro da noite estava sendo tomado pelo cinza da manhã nublada. Estávamos em cima da plataforma de madeira do cais. Alguns navios deixavam o porto. Olhei para as madeiras, que produziam ruídos devido ao vento forte. Mesmo com o receio de que elas poderiam desmoronar a qualquer instante, continuei seguindo Hayato.
— Sua avó está aqui. – O moreno se pronunciou, direcionando seu olhar para a água salgada.
As ondas quebravam perto das rochas e uma espuma branca pairava perto do cais. Ficamos em silêncio ouvindo o choro baixo do menor acompanhado com o som do mar e das gaivotas que voavam muito distante de nós.
— Como é que foi, Hayato? – perguntei cínico – Você jogou o corpo amarrado a um peso... – olhei de relance para Near, que fechou os olhos com mais força e cerrou os punhos – Ou cortou a velha em pedaços para virar comida de tubarão?
— Na verdade, segui seu conselho, B-san. Queimei o corpo e joguei as cinzas no mar.
— E o que fez com a arcada dentária?
— Removi. Achei que a ovelhinha iria querer de recordação, então trouxe comigo. Está lá no carro. – o moreno parecia se divertir com o diálogo.
Vi que Near começou a nos encarar, e um sorriso cordial se formou no canto da minha boca. As mãos dele ainda estavam algemadas e eu o conduzia por uma coleira.
— Muito bem! – estendi a corrente para Hayato e aproveitando minhas mãos livres, puxei seu corpo e o colei junto ao meu. – Você aprende as coisas de maneira rápida. – sussurrei em seu ouvido e percorri minhas mãos até seu membro, apertando de leve, ouvindo em seguida um gemido repleto de nostalgia.
Ainda com nossos corpos colados, não deixei a oportunidade passar. Um riso divertido saiu dos meus lábios e eu abaixei a cabeça por alguns instantes, para evitar que se transformasse em uma gargalhada mais exagerada.
— Você continua gemendo como uma vadia. – provoquei.
— Bey... – antes que ele pudesse terminar, finquei minhas unhas em seus braços, puxando até abrir sua pele.
— Não diga meu nome! – o repreendi enquanto ele se retorcia de dor e praguejava baixinho. – Vamos sair logo daqui. Yonosuke deve estar de péssimo humor. – arrastei o menor, que olhava para mim um tanto surpreso, até o carro.
Estávamos na sala de reuniões. Somente eu e Yonosuke.
Ele segurava em mãos uma taça de vinho. Seus cabelos estavam despenteados e os olhos possuíam veias vermelhas, ressaltadas. Já tinha repetido três vezes todos os detalhes em relação aos acontecimentos na boate. As horas passavam devagar. Então esse era Yonosuke nervoso...
— Quantos morreram? – ele perguntou.
— Um dos homens que estavam com ele morreu.
— Só um?
— Você acha pouco? – levantei bruscamente da cadeira em que eu estava sentado – Se eu soubesse o que iria acontecer, teria me preparado melhor! – respondi vendo-o secar a testa com um lenço branco.
Cruzei os braços e fitei o chão. Yonosuke se levantou da cadeira e começou a andar de um lado para o outro.
— Bom, pelo menos matei aquele cara de forma divertida... – disse sorrindo, encarando o nada, falando mais para eu mesmo. – O jeito como esmaguei sua cara... O sangue que espirrava pelos ares... É tudo tão... Maravilhoso.
—Não quero saber como você o matou! Só há uma coisa que eu quero agora!
— Ótimo! Então como vai conseguir? Diz aí! – não conseguíamos passar nem cinco minutos sem uma alteração no timbre da voz – Está vendo! Você não sabe como!
— Tudo bem, já entendi! Eu... Preciso pensar! Mas de qualquer jeito, estou desapontado! Você deveria ter prestado mais atenção! – a maneira como ele tentava jogar a culpa em cima de mim, estava me enjoando.
— Prestar atenção? Quer mesmo me dar lição de moral? – zombei – Era você que deveria ter se informado melhor! Deveria ter considerado todas as possibilidades! – gesticulava com os braços.
— Agora chegou a minha vez de encerrar uma conversa! – Yonosuke bateu a taça na superfície de madeira da mesa, tendo como resultado o líquido derramado pelo chão e vários cacos de vidro espalhados. Limpei algumas gotas que respingaram no meu rosto.
Cansado de protestar e de ouvir aquele sotaque que me dava nos nervos, apenas virei de costas, pronto para sair daquela sala cujo ar já estava parado há um bom tempo.
Só mais uma coisa – sua voz me fez parar em frente à porta semiaberta, sem me virar para encará-lo – Eu quero meu dinheiro. Vou procurar por esse caloteiro de merda, e para isso usarei todos os meus recursos. – falou confiante – E você irá pegar o dinheiro de volta.
Com um riso imprudente, virei somente o pescoço um pouco para o lado, o suficiente para ele perceber que eu não tinha muita paciência sobrando.
— Claro, eu vou. – respondi a sua “não-pergunta”, com calma. – Mas você sabe que eu não irei deixar aquele homem viver. Não depois do que ele fez.
— Quanto a isso... – Yonosuke afrouxou o nó da gravata.
— Ou fazemos assim, ou nada feito. – concluí – Sou um assassino, não seu cobrador particular.
Ele não disse mais nada. O russo sabia que não encontraria alguém melhor que eu para realizar essa tarefa. Eu já havia visto como o caloteiro joga e não falharia de novo.
— Mande Hayato descer. – ordenou e sentou em uma das cadeiras.
Bati a porta e comecei a andar apressado pelo corredor. Minha cabeça girava. Minhas mãos começaram a grudar.
Você falhou...
Você cometeu um erro...
Cometeu erros...
Você é um erro.
Todas as vozes... Aquelas risadas... Aquelas pessoas. De novo e de novo... Saiam!
— B? – senti um toque leve no meu ombro. Lentamente, tirei as mãos do meu rosto e olhei para a figura parada ao meu lado – Você está bem?
— Sim... – olhei em volta e percebi que estava encolhido no chão de carpete cinza. Limpei a garganta e o encarei – Não se esqueça do encontro que temos depois de amanhã – levantei-me fazendo uma careta, recebendo uma pequena ajuda de Heinz.
— Não esquecerei – sorriu – Tenho coisas interessantes para te contar.
Interessantes? Eu gostei da frase confiante. Minha pele se arrepiou e eu retomei meus passos até a saída, sem nem ao menos me despedir.
Hayato estava no carro enrolando alguns curativos nos machucados mais profundos e deu um leve pulo quando eu abri a porta de um jeito brusco e repentino.
— Ele está te chamando. – falei.
Near estava com a venda nos olhos, mas percebi que estava dormindo.
Eu queria algo diferente...
Mordi o lábio inferior e sentei no banco do motorista, pronto para voltar.
— Nos vemos em breve. – Hayato apoiava as mãos na porta. Sua fala soou mais como uma pergunta.
— Talvez – respondi, ligando o veículo e fechando os vidros escuros.
Talvez... Possibilidades. Circo sem números ensaiados. Improvisados. Folhas em branco. Enredo desgraçado... Tudo pronto para ser manchado. Manchado de sangue, manchado de gozo, manchado de você... Cobrir a marca da vergonha. Disfarçar os gritos com gemidos. Ah, me perdoe, mas eu estou indo para o inferno.
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