Scream! Welcome To The Game.
16 Capítulo 15 - Fragmentos do passado.
Notas iniciais
Capítulo 15 — Fragmentos do passado.
“ Perdi a noção do tempo. Não me preocupo mais em saber que dia estou vivenciando ou as horas que o relógio da cozinha indicam. Tudo se resume em dia e noite e a mata fechada que envolve o galpão é tão densa que a luz do Sol raramente ultrapassa alguns centímetros adentro do cômodo principal pela janela. Meu corpo está acabado. Minha cabeça se perde em pensamentos sem nexo e tentar dormir é impossível, sempre que fecho meus olhos me lembro das diferentes posições em que ele me colocou. Sua mão passeando pelo meu corpo. Abrindo meus cortes e me deixando exposto a dor e ardência. Ele me tocava com uma intensidade violenta. Como se a qualquer momento eu fosse deixar de existir, e acreditem... Era tudo o que eu mais queria. Evaporar desse lugar. Sumir. Infelizmente é frustrante perceber o quanto coisas insignificantes passam a ter valor somente nos momentos mais críticos da sua vida. Eu nunca fui assim, e não, eu não estou sendo hipócrita. Gosto de andar de meias pela casa, gosto de brincar com meus bonecos e montar quebra-cabeças gigantescos... Gosto de sentir a água do chuveiro e também de sentir a neve gelada nas minhas bochechas. Resumindo, eu não nasci para ficar preso. Não estou me referindo a ter liberdade para sair e encher a cara com colegas de escola, mas sim, de conseguir aproveitar o pouco deixando de lado o fato de ser O Pouco. Achei que algum dia eu abandonaria pelo menos uma parte do meu medo. Parece que eu depositei minha confiança na pessoa errada. Como pode existir esse tipo de gente? Seres humanos são tão imundos e desonestos. Matam por prazer e não sentem culpa por isso. E eu achando que jamais seria capaz de ver alguém com essa personalidade... A alguns anos, naquela casa...”
“ – Você lembra o que conversamos ontem, não lembra? Quando as pessoas se amam, elas tendem a mostrar um tipo de carinho muito intenso.
— Mas é sempre o mesmo tipo de carinho, não importa a pessoa?
— Exato. Já vi que você está bem crescido, não só na mente. – ele encostou o dedo indicador na minha cabeça. – Agora deixe-me ver se o seu corpinho também mudou. – as pressas ele foi subindo uma camiseta rasgada improvisada como pijama.
— Não... Espere... O que é...? – ele era mais velho e mais forte, não conseguia afastá-lo.
— Parece que nós vamos precisar de mais tempo para treinar... – sua língua passava pelo meu pescoço. Seu hálito estava com um cheiro forte de bebida e aquilo estava fazendo meu estômago revirar. -... Porém, eu vou adorar ver você e seu irmão pondo em prática tudo o que eu ensinei.”
Acordei arfando e com os cabelos grudados na testa.
Esse dia não chegou seu desgraçado.
Lembranças. Sonhos ruins. Memórias. Passado parcialmente esquecido.
Pesadelos.
Chamem do que quiserem!
Minhas roupas estavam emboladas em cima de uma cômoda de canto. Não me dei ao trabalho de vestir um pijama para dormir. Apenas apanhei minha roupa íntima e caí na cama exausto há algumas horas atrás.
Foram quatro rodadas de sexo com uma pequena pausa entre a primeira e a segunda para que Near pudesse comer.
Intensas e selvagens.
Apertei os olhos e afundei o travesseiro no meu rosto.
As brincadeiras rolaram por horas... Nada mais importou a não ser aquele momento.
Nossos corpos suados.
O mesmo sangue que escorria do corpo dele manchava também a minha pele.
O pecado indolor em mim e a dor pura e lancinante nele.
Joguei o travesseiro no chão e dei um impulso para levantar da cama.
Meu corpo ainda estava quente mesmo com a falta de cobertores para dormir. Meus sonhos sempre acabam causando o mesmo efeito: Lençóis molhados, batimentos cardíacos acelerados e uma pele quente pronta para ser mergulhada em uma água fria.
Caminhei para o banheiro da pequena suíte, mas no meio do caminho parei e em passos apressados fui até o andar superior do galpão.
Ele ainda dormia... Nu.
Jogado no chão com um dos pulsos presos por uma algema. Os lábios estavam semiabetos e rachados por conta do frio. Ele tremia. Mergulhado em um sono inquieto que o fazia se mexer a cada instante.
Os cortes pela pele do pequeno estavam contornados perfeitamente por riscos arroxeados. Me aproximei do corpo e passei o dedo pelo maior deles e antes de ir para o banheiro tomar um banho dei uma leve encostada nos lábios dele com os meus.
Meus olhos se fecharam. Encostei minha barriga no azulejo de cor vermelha e em seguida pousei também a minha testa.
“- Papai... Por favor, isso me machuca muito.”
E eu achando que essa fosse a pior fase da minha vida. Saí de uma realidade imunda e passei a viver na sombra do meu irmão perfeito.
Soquei a parede na esperança de extravasar minha raiva. Senti uma dor invadir os ossos da minha mão esquerda, mas não foi o suficiente para me libertar daquelas memórias. De todas que me atazanam essa com toda certeza é a pior delas.
A água gelada que tanto me acalmava não estava surtindo efeito dessa vez.
Virei para encarar o ambiente ao meu redor. O chuveiro estava ligado, mas não fazia barulho nenhum. Tudo o que se ouvia eram meus suspiros e os pingos que se chocavam contra o chão.
Perdido em devaneios não sentia nem mesmo o pedido do meu corpo por algo que pudesse esquentá-lo.
Pense em como você se divertiu ontem. Em como você escreveu suas iniciais na pele do seu pequeno com aquela lâmina. Pense somente naquele corpo sendo esculpido e deformado pelas suas próprias mãos.
Sorri.
Cerrei meus punhos e em seguida encarei minhas unhas. Elas estavam grandes e sangue seco as sujavam por debaixo.
Fechei o chuveiro e me sequei. Rumei até o armário do banheiro e tirei uma tesoura própria para aparar as unhas e um palito.
Tenho mania de comer geleia com as mãos, então é sempre importante deixá-las em ordem.
Avistei uma garrafa de plástico cheia com um conteúdo transparente em cima do armário. Depois da organização básica das minhas unhas guardei os objetos em seus devidos lugares e estendi a mão até alcançar a garrafa com uma tampa azul escura.
Álcool.
Um arrepio gostoso se estendeu pela minha espinha. Um sorriso malicioso e diabólico se formou sozinho pelo meu rosto e pequenos indícios de risada saíram pelos meus lábios.
Terminei de secar o meu corpo e vesti minhas roupas casuais de sempre. Fui até uma das estantes que ficavam no cômodo principal e como esperado, encontrei várias garrafas iguais aquela do banheiro.
Essa seria minha saída em último recurso, mas tenho certeza de que não precisarei usá-la no momento. Posso muito bem repor o estoque mais tarde.
Peguei várias das garrafas e rumei até a banheira. Tapei o ralo e comecei a despejar o conteúdo de cheiro forte em uma quantidade boa o suficiente para emergir um corpo dentro até cobri-lo.
Apoiei as mãos nos joelhos e levantei.
Encarei meu reflexo distorcido no líquido e abri uma pequena janela para evacuar um pouco do odor.
Subi as escadas novamente e encontrei o albino sentado no chão. Ele ainda tremia e estava todo encolhido. Assim que me viu assumiu uma expressão de pânico.
Eu segurava em mãos mais uma algema e uma mordaça de ferro capaz de tapar toda a boca do menor e assim evitar que ele engolisse o álcool.
— Fique tranquilo. Nós vamos tomar banho agora. – disse. Me aproximei dele e abaixei, fitando seus olhos.
— E por que precisa dessas coisas? – apontou para os objetos.
— Sem perguntas. E é melhor não protestar em relação a isso.
Com os tornozelos presos ele não podia andar, então o carreguei até a beirada da banheira. Ainda no meu colo ele olhou para baixo e encarou nossos reflexos. Rapidamente desviou o olhar quando me viu sorrir e suas bochechas coraram.
Near começou a fungar e percebeu o cheiro diferente no ambiente. Ele me encarou esperando uma resposta, mas não falei nada e apenas mantive meu sorriso.
Lentamente, aproximei-o do recipiente molhado e quando seu corpo ficou a apenas alguns poucos centímetros acima da banheira soltei a estrutura física frágil que se chocou contra o conteúdo do recipiente.
Em um movimento rápido segurei o menor pela cintura, obrigando-o a ficar imergido por alguns instantes dentro do líquido. Ele se debatia e espalhava o álcool pelo chão do banheiro.
Deixei que somente sua cabeça voltasse à superfície para que ele pudesse respirar. Seus olhos se encheram de lágrimas e os ruídos de seus gritos abafados pela mordaça pediam desesperadamente por uma pequena chance de saírem.
O sofrimento que ele estava passando... Eu podia senti-lo.
Com isso eu consegui me desligar das minhas memórias infernais.
Eu me sinto vivo.
Eu sinto. E quanto mais eu sinto, mais eu quero sentir. Tudo que venha dele eu quero aproveitar.
Não pude deixá-lo por muito tempo na banheira. O cheiro do álcool poderia provocar um desmaio e eu já tinha desfrutado o suficiente para ficar satisfeito.
Estávamos dentro do chuveiro.
Apertei o frasco do shampoo e despejei um pouco em minha mão.
— É o seu favorito. – coloquei a embalagem em frente ao rosto dele – É shampoo de criança... Tem um cheiro suave. Então está explicado o cheiro que eu sentia toda vez que ia a lanchonete.
Ele corou e virou o rosto. Voltei a espalhar o conteúdo com as duas mãos.
— Eu ainda vou sair daqui... – sussurrou ele.
— Não conte com isso. – afirmei entre os dentes.
— Você não sabe o dia de amanhã. – protestou ele, fraco demais para conseguir um tom alterado.
— Near, meu pequeno, entenda... O amanhã não existe. O amanhã se torna sempre hoje. E hoje você está comigo. Talvez seja mais fácil aceitar dessa maneira.
Ele não rebateu. Permaneceu calado.
— A propósito, tenho que fazer uma entrega hoje à noite e você virá comigo.
Não posso arriscar o deixar aqui. Pelo menos não em finais de semana e como Hayato está temporariamente fora de cogitação não tenho escolha se não levá-lo.
Fale com o autor