Scream! Welcome To The Game.

23 Capítulo 22 - Prepare-se.


Notas iniciais
Olá! Eu estou de volta! Perdoem a demora. Como eu já disse, jamais vou abandonar essa fanfic. Capítulo dedicado à Ranmaru Mayuu, pela recomendação superfofa! Muito obrigada!

“ Pela primeira vez naquele lugar eu estava livre. Meus pulsos já não estavam mais aprisionados por correntes geladas e apertadas. Meu pescoço não estava envolvido por uma coleira humilhante. Com o coração acelerado, olhei à minha volta para ter certeza de que ele não estava lá. E não estava... Com muito cuidado, vesti uma camisa branca que encontrei sem me preocupar em pegar outras peças. Era a minha única oportunidade. Desci as escadas sem fazer nenhum barulho. À medida que fui me aproximando do cômodo térreo pude ver uma luz saindo do notebook. Fora a luz do aparelho e um abajur que estavam em um canto do cômodo, todo resto estava escuro. Minha pulsação acelerou quando percebi que ele também não estava lá em baixo, pelo menos, não na parte principal.

A porta... Acelerei os passos e em poucos segundos consegui agarrar a maçaneta. Minha respiração falhava por conta da emoção e eu comecei a suar frio. Nós nunca entendemos o preço da liberdade ou o que é ser livre a menos que ela nos seja tirada. Com as mãos trêmulas, girei a maçaneta lentamente.

Não... Trancada! A porta estava trancada! Meu peito foi esmagado por uma agonia enorme. Meus olhos encheram de lágrimas. Já era de se esperar que ela não estaria aberta, mas minha esperança era mantida por um fino fio.

Um barulho me fez virar assustado. Outra luz, vinda do fundo do recinto, chamou minha atenção. Enxuguei minhas lágrimas. Não adiantava chorar agora. Fui ver de onde saía a luz. Nunca tinha reparado que havia uma porta ali, mas quando comecei a olhar em volta, várias portas me chamaram a atenção. Quando me aproximei o suficiente para conseguir olhar o cômodo, a “decoração” me deixou enjoado. As paredes estavam cobertas por fotos. Algumas eram de corpos de mulheres mutiladas, uns vivos outros mortos, me perguntei se eram pessoas que estiveram aqui antes de mim, por mais que eu não quisesse saber a resposta, mas não era isso que mais me chamava a atenção. Um homem que tinha a mesma fisionomia do B estampava mais de 85% das fotos. Era exatamente igual a ele, entretanto, eu sabia que não era a mesma pessoa. B tinha um olhar selvagem, enquanto o homem da foto tinha uma fisionomia “madura” e um tanto sofrida e indiferente. Desenhos da letra L também enfeitavam a parede. Manchas avermelhadas cobriam uma parte do espelho, algumas fotos e anotações e eu não sabia dizer se eram de sangue ou geleia. Aquilo era doentio. Uma obsessão. B encarava seu reflexo no espelho. Ele parecia perdido.

— B... – chamei. Minhas pernas estavam bambas. Eu queria nunca ter visto aquele cômodo.

— O que você quer, Nate River? – ele não foi rude. Sua voz saiu doce.

— B... Eu estou com fome.

Tentei fixar meus olhos apenas nele. Talvez eu não tivesse permissão para ver aquele quarto, então tentei esconder o pânico. Achei que ele me mataria ou me espancaria até eu perder a memória, mas tudo que ele disse foi:

— Eu também estou com fome, Nate.”

Pela primeira vez em muito tempo, eu estava usando a cozinha daquele lugar. Eu nunca fui um mestre cuca, porém aprendi a me virar. Near estava sentado na cadeira envolvido por um cobertor, um pouco encolhido. Seu olhar estava atento aos meus movimentos, mas eu sabia que era mais apreensão do que curiosidade. Seus olhos não estavam marejados como de costume. Isso me fez lembrar as primeiras vezes que encontrei com ele na lanchonete do Yagami.

Conforme eu moldava o onigire, algumas pendências começaram a me incomodar. Estava chegando. A hora estava próxima e eu jamais desistiria de tudo por um simples moleque, por mais entretido que ele me deixasse. Quando enrolei o último onigire na alga, coloquei os bolinhos em um prato. Estendi uma toalha sobre a mesa e coloquei o prato junto com duas caixinhas de suco de uva verde.

— Eu não sabia qual sabor de suco você mais gostava – falei enquanto me virava para lavar a louça – Espero que goste desse. Crianças costumam gostar.

— Tenho 17 anos.

— Oh... É mesmo.

Ele não disse mais nada, apenas abriu a caixa de suco e tomou um pouco, bem devagar. Ao olhar para o prato, hesitou.

— O que foi? Não gosta? – perguntei, apoiando minhas mãos na mesa.

— Gosto... – ele respondeu, ainda fitando o prato – Eu adorava os que a minha avó preparava.

Seus olhos voltaram a se encherem de lágrimas.

Estava demorando... Aproximei meu rosto do dele, sem disfarçar minha curiosidade. Ele se afastou um pouco.

— Interessante... Você é estranho, Nate River. Aquele seu amigo loiro costumava te chamar de cyborg sem emoções... – eu me afastei, voltando a me concentrar na louça – Você é humano, afinal. Isso é frustrante, eu acho.

— Você é doente – sussurrou.

— É, talvez eu seja – olhei de soslaio para ele, sério – Agora coma. Precisamos conversar depois disso.

***

Demorou um pouco até que ele conseguisse comer tudo, pois assim que colocou os dois primeiros bolinhos para dentro, começou a passar mal. Tive que deixar um balde por perto, mas felizmente Near não precisou usá-lo.

— Tome isso – falei entregando um copo com água até a metade e uma cápsula de comprimido.

Ele não disse nada, apenas me encarou enquanto se recuperava da crise de ânsia de vômito.

— Ora, vamos! Tome logo! – insisti – É apenas um complemento. Vitaminas! Não vou drogar você.

— De você, não duvido nada – respondeu enquanto pegava o copo e o remédio da minha mão.

Aproximei-me de seu ouvido, puxando seus fios de cabelo para trás, como de costume.

—Só para constar, Nate... – sussurrei – Você é meu. Que graça teria te dopar agora? Seria desnecessário.

Soltei seu cabelo e esperei até ele tomar o comprimido, lançando um olhar de puro desgosto direcionado a mim logo em seguida. Revirei os olhos e o puxei pelo braço até levá-lo para o banheiro. Enquanto eu fechava a porta, ele encostou-se à parede e se encolheu um pouco. Isso era... Tentador. Era um pouco patético também, mas ainda assim, muito tentador. Antes de qualquer outro movimento, cruzei os braços e o encarei.

— Relaxa. Não vou te dar uma surra por ser um garotinho tão boca dura – ele fez um bico – Agora tire a roupa.

Lentamente, o mais novo desabotoou a camisa branca, virando a cabeça para o lado, corando. Terminei de dobrar o cobertor que o envolvia e deixei em cima do vaso sanitário. Me aproximei de Near, afastando suas mãos dos botões com delicadeza.

— Não precisa ficar envergonhado – falei. Com uma das mãos, virei seu rosto para que ele pudesse me olhar – Não há nada aí que eu já não tenha visto.

Depois de despi-lo por completo, liguei a água e esperei a banheira encher. Com uma escova de cabelo, comecei a desembaraçar os fios brancos embolados.

— Está doendo? – perguntei.

Ele franziu o cenho, desconfiado.

— E você se importa?

— Não – respondi indiferente – Mas já vi situações parecidas em filmes.

Não esperava mesmo uma resposta. Joguei a escova dentro da pia e fechei a torneira da banheira. O vapor já havia embaçado todo o cômodo. Abri a porta, deixando uma pequena fresta para que o vapor saísse. Aquele ar estava começando a me fazer tossir. Near já estava encolhido dentro da banheira, com os braços envoltos nos joelhos.

Há quanto tempo eu o tenho? Não. Não importa. A questão é: quanto tempo eu ainda vou tê-lo? Preciso resolver um assunto à parte de uma vez por todas, mas mesmo que termine, ainda faço parte de um jogo.

Ajoelhei-me ao lado da banheira, pegando uma esponja macia para lavá-lo. Ele nem se mexeu. Apenas virou o rosto para a parede.

— Você poderia iniciar uma conversa dessa vez, só para variar – falei.

Mais uma vez, nada foi dito. Near já não tremia tanto, mas o ritmo irregular da respiração sempre entregaria seu medo. Até o cheiro no ambiente denunciava quando alguém estava assustado. Cada mísero detalhe.

— Precisamos conversar agora – não mudei meu tom de voz. Continuei indiferente.

— Não ‘tô afim.

— Não te perguntei. Isso não foi uma sugestão.

Despejei um pouco de água em suas costas para tirar a espuma do sabonete.

—Eu tenho que fazer uma coisa, Nate – coloquei mais um pouco de sabonete líquido na esponja e voltei a passar em sua pele – Uma pessoa irá morrer.

Foi o suficiente para fazê-lo me olhar. Seus músculos ficaram tensos.

— P-por que está me falando isso?

Respirei fundo.

— Não vou te matar.

Como se eu lesse sua mente, Near começou a relaxar aos poucos, mas o assunto repentino o deixara apreensivo.

— Está me pedindo permissão para matar alguém? – perguntou confuso, com a voz trêmula de pavor.

Joguei um pouco de água em seu rosto.

— Eu não preciso de permissão para matar – elevei o tom – Mas as coisas podem ficar mais agitadas nos próximos dias.

— O que você quer dizer com isso? Não estou entendendo...

— Você é esperto o bastante para entender.

E ele era. Não importava o quanto se fizesse de tolo, Near sempre iria imaginar alguma teoria. Mesmo que não soubesse de toda a história... Mesmo que não estivesse ciente de tudo o que estava acontecendo, ele sabia com quem eu trabalhava, sabia qual era a minha função. Isso era o suficiente.

Abri o ralo da banheira para que a água turva cheia de espuma escoasse. O ajudei a ficar em pé para que eu pudesse secá-lo. Passei a toalha em seu rosto e em seguida em volta de seu corpo, cobrindo-o. Seus olhos pareciam cansados. Seu rosto mantinha a mesma expressão vazia. Pousei uma das mãos no lado direito do rosto dele delicadamente, e acariciei.

— Tão inexpressivo quanto eu... – falei por fim.

As roupas dele estavam separadas, mas antes de vesti-lo, passei camadas de Hirudoid(1) nos hematomas.

— Não morda os lábios assim! – repreendi – Venha cá – segurei suas bochechas e passei um pouco de hidratante labial, selando meus lábios nos dele logo depois – Gosto deles macios.

Não consegui controlar a vontade de beijá-lo. Acabei aprofundando o beijo. Apertei minhas mãos em sua cintura, sentindo ele se contorcer. Sem interromper o beijo, o ajudei a sair da banheira, levantando-o. Near não me afastava, mas também não correspondia do jeito que eu queria. Se o som do toque do celular não tivesse nos interrompido, já teria arrancado aquela toalha em um simples puxão. Irritado, revirei os olhos.

— Seus beijos estão melhorando – sorri, antes de me afastar e ir em direção à porta – Se vista.

Não reconheci o número que apareceu no visor, mas tinha quase certeza de quem era.

— O que você quer? – seco e direto. Seja quem fosse, já entenderia que não estava a fim de conversar.

— Como sabia que era eu? – fui surpreendido por um tom cauteloso, mas zombeteiro.

— Não sabia, mas já imaginava.

— Preciso de você aqui. Agora. Venha com o Hayato.

O telefone ficou mudo.

Estranho. Por mais que estivesse desesperado, Yonosuke não perderia a oportunidade de perguntar o que eu estou fazendo. Muito pelo contrário. Se o desespero fosse tão grande assim, ele estaria paranoico. Eu nunca fui de confiar nas ações dele, mas sem dúvida alguma coisa estava prestes a acontecer. E não era nada bom.

Sem perder tempo, disquei o número do Hayato, que atendeu no quarto toque:

— B...?

— Yonosuke quer nos ver imediatamente – ouvi um ruído e percebi que ele que estava prestes a fazer perguntas – Não há tempo para questionar. Preciso de você aqui o mais rápido possível.

— Tudo bem – suspirou – Chego aí em meia hora.

Pelo barulho vindo do outro lado da linha, percebi que ele não estava em casa.

— Hayato... –não costumava demonstrar quando as coisas estavam ruins, ou prestes a ficarem ruins, mas usei um tom mais sério que o de costume para chamar sua atenção.

E ele percebeu. Claro que percebeu.

—Fala – mesmo por telefone, foi como se eu visse seus músculos ficarem tensos.

— Prepare-se.

Dependendo do seu estilo de vida, é quase impossível não sentir o perigo no ar. A dose de adrenalina quando você está prestes a entrar na cova dos leões... E não importa quantas vezes eu sentisse, nunca me cansaria dessa sensação.

— As coisas vão acabar de um jeito que você não tinha planejado, não é?

Eu não fazia ideia.

— Possivelmente – foi tudo o que consegui dizer antes de desligar.

Não tinha tempo a perder. Não podia levar Near comigo. As coisas poderiam ficar sérias demais e ele se tornaria um estorvo.

Droga!

Voltei para o banheiro. O mais novo estava sentado em cima da tampa do vaso sanitário, já vestido. Puxei-o pelo braço, até chegarmos ao andar de cima. Senti sua mão ficar gelada.

— Quero que escute com atenção – falei enquanto desenrolava as correntes e prendia seus pulsos e pernas – Preciso fazer uma coisa agora. Você vai ficar aqui, quieto, entendeu?

Ele assentiu assustado, atento a cada movimento. Me certifiquei de que cada corrente metálica estava devidamente presa, sem nenhuma possibilidade de soltá-las. Antes de trocar minhas roupas e arrumar minhas coisas, o amordacei, recebendo um resmungo.

—O quê? – perguntei assim que terminei de prender o fecho – Você achou mesmo que eu iria deixar sua boquinha livre?

Desci as escadas apressado, tirando minha camiseta no meio do caminho.

Ignorando o instinto quase automático de pegar uma calça jeans e uma camiseta preta no guarda-roupa, vesti um moletom escuro. Minha mochila já estava praticamente pronta, apenas coloquei alguns refis de balas e uma pequena caixa de primeiros socorros. A campainha soou assim que eu terminei de fechar o zíper.

— Estou atrasado? – perguntou com um sorriso de canto, estendendo algumas coisas para mim.

— Não, chegou bem na hora – peguei os dois objetos que reconheci facilmente – Cinto tático e colete à prova de balas... – murmurei – Onde conseguiu isso?(2)

Ele não respondeu. E eu também não fazia questão de saber quais eram esses fornecedores misteriosos contanto que fossem confiáveis.

—Você vai deixá-lo aqui? – perguntou Hayato depois de ouvir o barulho das correntes no andar de cima.

—Tenho outra alternativa? – prendi o cinto na cintura e coloquei o revolver no coldre(3) antes de fechar o zíper do moletom para esconder – Chega de perguntas. Vamos!

***

Deixei Hayato dirigir, assim eu poderia ir organizando os meus pensamentos.

Não estava preocupado com o que aconteceria quando chegássemos lá. Alguns tiros, combates corpo a corpo, facadas... Não importava. A ideia era excitante, confesso. Mas o que eu faria depois? Ou melhor, para onde eu iria? Não poderia desafiar a sorte ficando aqui. Decerto Ele já estaria vindo para cá. Se é que já não estaria aqui...

— Hayato... – chamei. Ele olhou de soslaio – Se acontecer alguma coisa comigo... Se apenas você sobreviver...

—Beyond, não fal...

— Não me interrompa! – repreendi – Já disse para considerar todas as possibilidades. Se acontecer, quero que volte para o galpão, mate-o, livre-se do corpo e queime aquele lugar, você entendeu? – ele engoliu em seco, querendo protestar, mas não o fez – E nem pense em algo demorado. Você não tem esse direito. Dois tiros na cabeça já bastam.

Esse jogo começou e vai terminar, não importa quantos imprevistos apareçam. Me chame de louco... Me chame de doente... Mas se eu morrer vou arrastar Near comigo.

O resto do caminho foi silencioso, mas não aquele silêncio reconfortante. Era um silêncio carregado de tensão. Pesado. Que me dava nos nervos!

— Pare de deixar o clima assim! – explodi.

—Beyond Birthday subestimando suas próprias habilidades? Isso é novo para mim... – por mais que tentasse parecer imparcial, Hayato nunca foi bom em esconder suas emoções. Pelo menos não de mim.

— Não estou subestimando, mas você sabe que em situações como essa, considero qualquer possibilidade. Não finja que é novidade. Você já vivenciou situações parecidas comigo antes.

Ele não respondeu. Não tinha o que responder. O próprio sabia que estava sendo dramático.

Dramático...

Como sempre.

— Jamais conseguiria achar um substituto se você morresse... – ele deu um sorriso curto, dando um grande ênfase na palavra “substituto”.

— Porque não precisamos de substitutos, e o principal, nós não somos substitutos – retribuí o sorriso venenoso.

Crianças prodígio são usadas para fazer bem ao mundo. Para trazer o bem para o mundo.

— Nem tudo na vida dá certo – murmurou, encorajando a si mesmo.

— Confesse que será divertido matar o moleque. Sei que é isso que você quer.

—Talvez. Mas se eu precisar matá-lo vou ter a confirmação de que você não vai aparecer depois na minha porta implorando por uma noite de sexo.

Filho da puta...

Hayato estacionou o carro no terreno praticamente baldio e recarregou seu revólver. Assim como eu, ele também fazia aquilo de olhos fechados.

— Vamos ajeitar as coisas – disse por fim, abrindo a porta do carro em seguida.

Ordenei que ele guardasse a arma no cinto, afinal, precipitação sempre arruinava até mesmo o melhor dos planos.

Decidimos entrar em silêncio pelo cubículo de Heinz. Achamos que ele poderia nos adiantar sobre o que aconteceria, mas o recinto estava vazio. Um silêncio duvidoso pairava em todo lugar. Não ouvia passos, vozes, risos... Nada! Fiz um sinal com a cabeça para que Hayato pegasse sua arma. Engatilhamos os revólveres ao mesmo tempo antes de nos esgueirarmos pelos corredores.

Não se ouvia nem mesmo ruídos. Nem mesmo uma respiração um pouco mais profunda.

Essa tática de esconde-esconde era velha, com uma probabilidade alta de falhas. Ninguém nunca conseguia ficar em silêncio total se não tivesse muita experiência. Matar alguém, por mais fácil que pareça, é uma arte e deve ser levada a sério. Não importa se você convive com ela todos os dias. Perder o remorso por tirar uma vida pode levar anos. Aquele bando de frangos de padaria jamais conseguiriam um silêncio absoluto assim, mesmo se tentassem. Disso eu tinha certeza. Tinha alguma coisa muito errada.

Vasculhamos cada cômodo. Os quartos, cozinha, banheiros, salas de reunião, e não encontramos ninguém. Só faltava o salão principal. As duas portas altas de madeira estavam fechadas. Estava prestes a empurrá-las quando Hayato segurou meu pulso.

— Não é melhor guardarmos as armas? Se entrarmos assim, podem entender como uma ameaça – sugeriu.

— Não! Esse silêncio não é normal. Podem estar esperando. Armados.

Ele assentiu. Abri a porta e já esperava encontrar o cômodo vazio, como todo o resto. Não havia ninguém lá dentro, apenas um detalhe me chamou a atenção: o corpo caído no chão perto da mesa de bilhar, envolta de uma poça de sangue. Hayato correu para identificar o corpo, mas eu já tinha um palpite. Sem me abalar, fui andando até o cadáver. Relaxei um pouco os músculos.

—Heinz... – murmurou.

Ele tentou ver se ainda tinha pulsação, mas eu sabia que era inútil.

— Está morto – disse se levantando – Mas, B, eu não entendo. Cadê todo mundo?

Foi como se um choque de realidade me atingisse, mesmo que minha condição de lucidez estivesse em bom estado no momento. Meu coração acelerou. Senti uma necessidade imensa de correr o mais rápido possível. Como eu pude ser tão burro? Quando ele...? Não fazia sentido! Não conseguia formular uma teoria.

— VAMOS VOLTAR AGORA! – gritei.

Hayato se assustou. Enquanto corríamos para o carro, ele perguntava qual era o problema.

— Eu dirijo! – disse, empurrando-o para o lado.

— O que está acontecendo!? – ele me segurou pelos ombros, exigindo uma resposta.

Minhas mãos tremiam.

Raiva. Ódio.

Um misto que consumia todo meu corpo em chamas. Minha garganta secou. Apertei meus punhos, sentindo minhas unhas cravarem nas palmas das minhas mãos.

— Eu sei onde ele está – falei com a voz cheia de fúria.

Foi o suficiente para Hayato me soltar e ir para o banco de carona.

.. Você vai berrar pela morte. Vai gritar tanto por misericórdia que suas cordas vocais vão estourar e eu vou arrancá-las com um alicate quando eu me cansar de ouvir sua voz suja e irritante. Você vai orar para um Deus que não existe. Vai pensar em fazer um pacto com um Diabo fictício só para se ver livre de mim, porque passar a eternidade no inferno vai parecer mil vezes mais agradável do que apenas mais um dia comigo. E não vai demorar até você perceber que eu sou o verdadeiro demônio. Talvez eu não consiga te proporcionar um sofrimento muito extenso, mas vou te obrigar a se curvar diante de mim, nem que eu tenha que quebrar suas pernas. Torcê-las até seus ossos pularem para fora junto com seu sangue sórdido e um bolo de carne. Vou te ver apodrecer diante dos meus olhos. E você também presenciará mortes... Matarei cada um dos seus companheiros na sua frente de um jeito tão horrível que vou te deixar a escolha de furar seus próprios globos oculares para poupar as cenas. Viu só...? Eu também posso ser bonzinho.

Notas finais
(1) - Acho que todo mundo conhece essa pomada, mas se caso alguém não conheça, ela é boa para tratar de hematomas. Eu mesma não sabia disso, por isso estou colocando aqui. (2) - Lembrando que esses objetos não podem ser adquiridos por qualquer um. Você precisa ter uma licença. (3) - É o nome correto do lugar onde se coloca o revolver. E então? O que acharam do capítulo? Espero que eu tenha conseguido despertar a curiosidade de vocês! háhá Muito obrigada pelos comentários e sejam bem-vindos, novos leitores! Muito obrigada por acompanharem! Beijos! Vou tentar não atrasar tanto com o próximo capítulo. E se vocês ficaram curiosas com esse, acredito que o próximo vai causar ainda mais curiosidade... kkkk Tenho que parar de falar tanto, mas estou ansiosa para escrevê-lo! Ah! Aguardem, pois em breve(pelo menos eu pretendo ser breve kkk), vou finalizar uma oneshot ^^ Até o próximo!